domingo, 13 de agosto de 2017

Castrati: a história dos garotos castrados para que possuíssem características únicas na voz

Desde 1500, uma prática nada convencional começou a se popularizar entre líderes de igrejas e regentes de corais. Tratava-se da castração com o intuito de criar um estilo vocal diferenciado em jovens cantores. Com o bloqueio da dihidrotestosterona, que faz as cordas vocais masculinas crescerem em 63% e engrossa a tireoide, os jovens passavam a ter vozes femininas.

Geralmente recrutados aos doze anos, os garotos castrados eram conhecidos como “Castrati” (no singular em italiano, “castrato”), geralmente famílias e regiões pobres depositavam a esperança no talento do garoto. Em 1589, os castrati foram cantar para o Papa na Capela Sistina, mostrando a popularização da prática na época.

Martha Feldman escreveu um livro sobre os cantores Castrati, e, segundo ela, o procedimento realmente fazia a diferença para os rapazes “Havia alto-sopranos, mezzos, e altos, vozes estridentes e doces, vozes altas e maduras, gargantas mais e menos flexíveis, homens muito altos e muito baixos”, conta em um trecho do livro. Eles cantavam em igrejas, tribunais, pontos turísticos, e alguns aposentados davam aulas de música e compunham. Alguns eram cantores de baixa renda que passaram sua vida fazendo shows em cidades pequenas, e outros construíram suas carreiras cantando para ministros em cortes reais. Tudo isso a partir de uma única operação.

A operação



Oficialmente a lei da Igreja proibia a amputação de qualquer órgão, exceto para salvar vidas. Como a prática era ilegal, não há muitos registros detalhados sobre a operação e os cirurgiões permaneceram desconhecidos. Alguns garotos foram enganados pelos pais, que alegavam casos de saúde para a cirurgia. Cirurgiões tentavam usar alguma anestesia, mas elas eram perigosas.

Uma fonte anônima escreveu que os médicos, “davam uma certa quantidade de ópio para o paciente da castração, realizando a operação enquanto eles estavam dopados, mas observou-se que a maioria daqueles que tinham sido operados desta maneira, morriam por complicações das drogas usadas como anestésico”. Na maioria das vezes, os meninos recebiam um banho quente, em seguida, sua artéria carótida era comprimida até que eles praticamente entrassem em coma.

Outra versão do procedimento começaria com um banho frio, ou até mesmo um banho de leite, para entorpecer a área. O procedimento não envolve a amputação. A maioria dos médicos simplesmente abria o escroto e cortava os cordões espermáticos, os canais deferentes e as suas artérias circundantes. Sem o suporte do resto do tecido, os testículos atrofiavam.

Os efeitos da castração

Os efeitos dependiam de algumas condições, como a idade da criança, a competência do cirurgião e as peculiaridades do corpo humano. O filme Farinelli retrata um cantor homônimo muito alto e magro, o que é parcialmente verdade. A maioria dos cantores ganhava protuberâncias em torno do rosto, peito e coxas.

Outras características típicas de um Castrati eram a total falta de barba e a resistência à calvície.

A altura de Farinelli era, para muitas pessoas modernas, um efeito contraditório da castração. Meninos poderiam ter um surto de crescimento durante a puberdade, mas a falta de hormônios faria os castrati serem menores do que os homens médios. O efeito mais comum da castração era estatura incomum: as crianças têm placas epifisárias – “placas de crescimento” – em cada extremidade dos ossos e, durante a puberdade, elas são substituídas por tecido normal, enquanto que as placas de crescimento de um Castrati nunca “fecham”, ou seja, podem continuar crescendo.

A castração também foi associada com maior crescimento do peito, da mandíbula e até do nariz. A voz de um menino bem treinado para cantar era apoiada pelo peito e pelos pulmões, pois a “câmara de ressonância” era maior do que a média, dando aos melhores cantores não apenas uma voz de alta potência, como também sustentação.



Os inconvenientes da castração foram sentidos na fase posterior da vida. Os grandes ossos deixaram muitos Castrati com osteoporose e um corpo maior do que a média, comprimindo seus órgãos.

O castrati Farinelli era o mais famoso. Ele viveu em 1700, mas ainda causava polêmica em 2006, quando um grupo de pesquisa exumou seus restos mortais e os examinou. O que eles encontraram, juntamente com o comprimento dos ossos, foi uma acumulação de osso ao longo da testa, o que indica uma condição chamada hiperostose frontal interna (HFI) – mais comum em mulheres do que em homens, mas ninguém conhece suas causas. De acordo com alguns profissionais médicos, HFI afeta 12% da população e é quase sempre benigna. Apenas em 1% pode causar dores de cabeça terríveis, depressão e outros problemas mentais.

O fim dos Castrati

A prática começou a perder sua popularidade no final dos anos 1700, mas teve uma queda muito lenta. Eles ainda cantavam em igrejas, mas em 1800 já não eram bem vistos em óperas ou em clubes populares. O último cantor castrato da Capela Sistina foi Alessandro Moreschi, que se aposentou em 1913. Em seu auge, ele era conhecido como o “Anjo de Roma”. Algumas gravações dele cantando em 1902 ainda podem ser encontradas em arquivos raros.

Texto: Bruno Rizzato
Publicado no site Jornal Ciência em 19/01/2016. 

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