segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Canções sem palavras



Um eclético. Além de compositor, ele era também pintor, escritor, esportista, praticava natação, esgrima e equitação- e, segundo consta, era exímio dançarino. Homem refinado, poliglota, membro de uma rica família de banqueiros e intelectuais judeus convertida ao cristianismo, Felix Mendelssohn mostrou-se um talento precoce. Com apenas 17 anos, compôs uma unânime obra-prima: a abertura para Sonho de uma noite de verão (A Midsummer Night's Dream), baseada na obra de William Shakespeare.

Um ano antes, compusera um octeto para cordas. Aos 20 anos, já havia composto uma boa quantidade de cantatas, sinfonias, óperas, quartetos e concertos. Nascido em Hamburgo, na Alemanha, em 3 de fevereiro de 1809, foi idolatrado como gênio por seus contemporâneos germânicos. Sua música, porém, foi banida do país durante o nazismo.

Era neto do filósofo judeu Moses Mendelssohn e, desde cedo, teve uma educação esmerada. Vivendo em um ambiente culturalmente sofisticado, em meio abastado, recebeu da mãe as primeiras lições de piano e, aos 9 anos, publicou uma tradução de Andria, obra clássica de Terêncio, célebre poeta da Roma antiga.

Na mesma época, já apresentava seus primeiros concertos e, aos 12 anos, chegou a tocar especialmente para o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Apesar da enorme diferença de idade, Goethe então tinha 72 anos, os dois teriam ficado grandes amigos. Mais tarde, na Universidade de Berlim, seria aluno do filósofo Georg Friedrich Hegel, ao mesmo tempo que estudava desenho e pintura na Escola de Belas Artes.

Quando completou integralmente seus estudos acadêmicos, Mendelssohn recebeu a permissão do pai, o banqueiro milionário Abraham Mendelssohn, para, enfim, dedicar-se em tempo integral à música, sua maior paixão. Também com a devida autorização e o financiamento paterno, empreendeu uma série de longas viagens pela Europa, com o objetivo de ampliar ainda mais seu universo cultural e musical. Esteve, por exemplo, na Inglaterra, Irlanda, Áustria, Itália e França. Pelo caminho, fez amizades com vários compositores, a exemplo de Chopin, Liszt e Berlioz.

Ao conhecê-lo, Berlioz escreveu: "O que ouvi dele me entusiasmou, estou fortemente convencido de que é um dos maiores talentos musicais de nosso tempo e é também uma dessas almas cândidas que raras vezes encontramos". Já o poeta Heine o trataria como um "segundo Mozart": "Excetuando-se o jovem Mendelssohn, que é um segundo Mozart --e sobre isso todos os músicos estão de acordo-- não conheço nenhum outro músico genial em Berlim", disse Heine.

Além do mérito de sua própria obra, Mendelssohn também foi responsável pela redescoberta de outro gênio da música universal. Em 1829, regeu em Berlim a Paixão Segundo São Mateus, do então esquecido Johann Sebastian Bach, cuja obra havia conhecido por meio de seu professor de piano, Karl Friedich Zelter. A partitura de Bach, que não era levada ao público desde a morte do compositor, ocorrida quase um século antes, fora-lhe presenteada pela tia-avó, Sara Levy.

O amor de Mendelssohn pela música barroca de Bach levaria o amigo Berlioz a comentar: "O único defeito de Mendelssohn é que ele ama demasiadamente os mortos".

Mendelssohn era também admirador de Handel, de quem recebeu notória influência. Além disso, foi um dos primeiros músicos a valorizar os últimos quartetos de cordas compostos por Beethoven, composições consideradas um tanto quanto herméticas naquele tempo.

Em 1837, Mendelssohn casou-se com Cécile Jeanrenaud, filha de um clérigo da igreja francesa, com quem teve cinco filhos. Em 1843, fundou o prestigioso Conservatório de Música de Leipzig, onde junto com outros mestres, como Robert Schumman, dava aulas de composição e piano. Quatro anos mais tarde, sua irmã, Fanny Mendelssohn, também compositora, morreu subitamente. Ao receber a notícia, em Frankfurt, Mendelssohn passou mal e desmaiou. Os médicos diagnosticam uma trombose cerebral.

A partir de então, sua saúde nunca mais seria a mesma. Vítima de violentas e sistemáticas crises nervosas, viajou para uma temporada de repouso na Suíça. O tratamento não deu muito resultado. Quando retornou de lá, sem condições de trabalhar, pediu demissão do Conservatório de Leipzig. Em 4 de novembro de 1847, com apenas 38 anos, morreu em meio a um ataque de apoplexia (perda temporária da função cerebral).

Contexto histórico

Para muitos, Mendelssohn não é um romântico, como seus contemporâneos, mas sim um epígono, ou seja, um mero continuador da geração anterior a sua, o Classicismo. O rótulo, no entanto, não lhe faz justiça. Ainda que sua obra tenha dívidas evidentes para com a música vienense, sua produção mais madura caracteriza-se justamente pelo equilíbrio entre a forma clássica e o colorido do Romantismo. Além do mais, sua linguagem musical é extremamente pessoal.

Portanto, pode-se dizer que Mendelssohn se inspirou em sentimentos genuinamente românticos, muitas vezes baseadas em temas literários (característica do Romantismo musical), para compor obras com apurada qualidade formal, especialidade do Classicismo.

Sua vida pessoal, cercada de confortos materiais e do ambiente intelectual sofisticado, não se prestaria mesmo aos arroubos e à mítica do estereótipo do artista romântico, tuberculoso, idealista, miserável e meio louco.

Sua música pode ser classificada como uma espécie de "Romantismo Semi-Clássico". Uma de suas principais composições, o Concerto para violino em mi menor, opus 64, de 1844, é sem dúvida uma das mais melodiosas e sensíveis peças da música do século 19.

No século 20, com a chegada do nazismo de Hitler ao poder, a música do judeu Mendelssohn foi banida das salas de concerto na Alemanha. O veto nazista, junto ao preconceito geral de que era um artista que conseguira tudo na vida sem ter feito o menor esforço, foi responsável pelo relativo esquecimento a que sua obra seria submetida durante muito tempo em seu país de origem. Esquecimento que, em certa medida, Mendelssohn experimentaria em todo o mundo.

Hoje, tais julgamentos não fazem o menor sentido. Apesar de algumas obras para piano terem caído, de fato, em desuso, outras obras são bastante executadas, como algumas das Canções sem palavras ou as Variações sérias. Também a música de câmara tem estado presente no repertório.

Curiosidades


Música para noivas

Uma das obras mais conhecidas de Felix Mendelssohn é, sem dúvida, a "Marcha Nupcial", composta em 1842, incluída em Sonho de uma noite de verão e, até hoje, presença obrigatória no início e no final das cerimônias de casamento em todo o mundo.

"Sinfonias de turista"

Algumas das melhores sinfonias compostas por Mendelssohn foram inspiradas pelas muitas viagens que fez pelo continente europeu. Quando morou em Roma, por exemplo, em 1833, compôs sua Sinfonia em lá maior, que ficou conhecida como "Sinfonia Italiana". Em 1842, na Escócia, compôs a Sinfonia em lá menor ou "Sinfonia Escocesa". Por causa disso, há quem chame essas obras de "sinfonias de turista".

No palácio real, sentiu-se em casa

Conta-se que ao tocar especialmente para a Rainha Victória, em Londres, no ano de 1842, Mendelssohn surpreendeu a realeza da Inglaterra ao tocar, ao piano, com a mão direita o hino austríaco e, com a esquerda, o britânico. Na saída, o milionário Mendelssohn comentou, sobre a residência oficial de Sua Majestade: "A única casa realmente bonita e confortável de Londres é o Palácio de Buckingham".

Mudança de nome

A conversão da abastada família judia Mendelssohn ao cristianismo, mais precisamente ao luteranismo, foi necessária para que seus membros pudessem ser aceitos no meio da alta burguesia alemã. Com a conversão, muitos da família passaram a adotar o sobrenome Bartholdy, cristão, em lugar do tradicional Mendelssohn, judeu.

Milionário e superficial?


O fato de Mendelssohn ter nascido em uma família rica e, por isso, nunca ter enfrentado qualquer dificuldade material para desenvolver sua carreira de compositor, já foi alvo de críticos mais severos. Alguns deles consideravam que a ausência de obstáculos na vida pessoal teria se refletido na obra de Mendelssohn, que seria autor de uma obra "fácil" e "superficial". Este julgamento, contudo, não se sustenta mais hoje. Mendelssohn é reconhecido como um dos grandes nomes da música do século 19.


Obras

Concertos

Concerto para violino e orquestra em mi menor, opus 64 (1845)
Concerto para piano e orquestra No 1 (1826)

Sinfonias Sinfonia Italiana em lá maior (1833)
Sinfonia Escocesa em lá menor (1842)

Aberturas

As Hébridas (1833)
Sonhos de Uma Noite de Verão (1826)

Oratórios

Paulus (1835)
Elias (1846)


Sites relacionados 

Classical Archives: Mendelssohn - Página com muitos arquivos sonoros em MIDI e MP3. Inclui biografia e linha do tempo. Em inglês.
Félix Mendelssohn: Catalogue des oeuvres - Traz a relação completa das obras do compositor, referências bibliográficas e alguns links interessantes. Em inglês.
BBC: Felix Mendelssohn - Página da rádio inglesa BBC que destaca o compositor, com breve biografia, arquivos sonoros e indicação de gravações em CD. Em inglês.
Mendelssohn-Haus - Página do Museu Mendelssohn, em Leipzig, Alemanha. Inclui galeria de fotos e programação mensal. Em inglês e alemão.
Felix Mendelssohn: Forum Frigate - Lista de discussão sobre a vida e a obra do compositor alemão. Em inglês.
Piano bleu - Página para amantes do piano, traz biografias, discografia e links sobre a vida e a obra de vários compositores, inclusive de Feliz Mendelssohn. Em francês.
Amazon: Mendelssohn - Página da Amazon com grande número de opções de discos, MP3, DVDs e livros sobre a vida e a obra Mendelssohn. Em inglês.
Clássicos - Biografia e comentários sobre a obra de Mendelssohn, com destaque especial para seus concertos para piano. Em português.
Mendelssohn - Página com caricatura, informações sobre a obra e uma ampla discografia, com as melhores gravações disponíveis de Mendelssohn. Em Inglês.

Fonte: Coleção Folha de Música Clássica

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