sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Biblioteca Palácio Galveias - Lisboa




A biblioteca pública Palácio Galveias fica em Lisboa, em um palácio do século XVII, antes de ser uma biblioteca ela abrigava a residência dos Marqueses de Távora até 1759 data que foi confiscada pelo governo, em 1801 foi comprada pelo conde das Galveias e depois vendida para Braz Simão.

Em 1928 a residência foi transferida para a Câmara Municipal de Lisboa, que instalou então a biblioteca municipal.


A biblioteca foi fechada por 2 anos para reforma e restauração, com uma área de 2.000 m², 332 lugares, um investimento de 2.5 milhões de euros que foram gastos entre obras e equipamentos.

Seu acervo conta com 121.500 documentos (entre livros e outros suportes).

A biblioteca hoje faz parte da rede de bibliotecas públicas de Lisboa, composta por outras 16, sendo a maior em acervo.


 Arquitetura

Inicialmente, após a construção do palácio, a propriedade incluía uma quinta que se expandia para sul com grande extensão de parque e jardim. Atualmente, inserida na malha urbana de Lisboa e fazendo esquina com a Rua do Arco do Cego e a Praça do Campo Pequeno, a propriedade ficou reduzida ao corpo do palácio e pequeno jardim, cuja entrada se faz por um portal à direita da fachada principal.

O edifício, de planta em forma de "U", de influência francesa, apresenta um rigor de traçado, bem como uma perfeita simetria. Esta planta inovadora em "U" resulta fechada pelo facto da propriedade ser murada, muro este onde se encontra o portão.

O pátio caracteriza-se por um portal e por um portão heráldico, ricamente trabalhado, de tipo maneirista, o qual está emoldurado por duas colunas caneladas com anéis envolventes. É, ainda, de realçar, sob o entablamento, o escudo heráldico de Lisboa, que veio substituir o brasão dos Melos e Castros.

A fachada norte é constituída por corpos laterais, nomeadamente as alas nascente e poente do palácio, ligadas por um muro e na qual se rasgam duas janelas.

O átrio, ou pátio nobre, apresentando uma quadra regular, caracteriza-se por um chão empedrado, de calçada à portuguesa, sendo o acesso na face do fundo feito por três portões com ornatos de cantaria e cinco janelas; destas últimas, três são centrais e apresentam uma pequena balaustrada, as restantes são rematadas por um motivo renascentista semicircular sob a forma de concha estilizada.

A fachada sul, sobre o jardim, é constituída por dois corpos laterais simétricos aos da frontaria, ligados entre si por um corpo central com terraço e balaustrada.

O caráter interior do edifício foi alterado profundamente, à exceção do átrio, com as obras realizadas entre 1929 e 1931, respeitando-se, no entanto, as linhas exteriores.

Assim, apesar de o palácio ter conhecido alterações evidentes na decoração e estrutura de algumas salas do andar nobre, o interior do palácio Távora-Galveias manteve elementos genuinamente seiscentistas, nomeadamente o átrio em rotunda com enorme arco abatido e teto de abóbada, bem como a escadaria desenvolvida em dois lanços curvos, laterais, no fundo do átrio.

Esta escadaria encontra-se revestida com silhares de mármores de embrechados policromos, além de que em cada sobreporta interior de acesso à mesma encontram-se dois nichos de mármore rosa e branco. Pontuando o encontro dos dois lanços da escada, pode observar-se uma composição heráldica dos Melos e Castros, em brasão dividido por quartelas, que representam respetivamente as armas dos Almeidas, Galveias, Melos e Lobos.

Por sua vez, o salão nobre desenvolvido em meia-lua e articulado com a junção de cinco salas contíguas, apresenta o chão coberto de parquet e as paredes revestidas de painéis de azulejos modernos (Batistini, 1931). Trata-se, pois, de belo exemplar de uma arquitetura que se distinguiu pela sua forma lúdica e pelo tratamento autônomo de todos estes elementos, os quais explicam um conceito de universo e de espaço de representação social.






Rede de Bibliotecas  

Rede de bibliotecas geridas pela Câmara Municipal de Lisboa (11)
  • Biblioteca de Belém
  • Biblioteca Camões
  • Biblioteca dos Coruchéus
  • Biblioteca de Marvila
  • Biblioteca Orlando Ribeiro
  • Biblioteca Palácio Galveias
  • Biblioteca da Penha de França
  • Biblioteca por Timor
  • Biblioteca-Museu República e Resistência
  • Bibliotecas Itinerantes
  • Hemeroteca Municipal 
Dados estatísticos das bibliotecas – empréstimos e consultas entre 2013 e 2016:
  • Serviço de empréstimos – 144 459
  • Documentos emprestados – 2 454 003
  • Visitas à Hemeroteca digital – 1 204 003
  • Páginas consultadas no site da Hemeroteca digital – 37 460 509
Horário da Biblioteca
 
de terça a sexta-feira abre das 10H00 às 19H00
aos sábados e segundas abre das 13H00 às 19H00
Encerra: domingos, feriados e na última 4ª feira de cada mês (das 10H00 às 14H00).

Horário dos Serviços:

Até às 18H30: Cartão de Utilizador; Marcação de PC. Fotocópias, impressões e digitalizações
Até às 18H45: Pedidos de documentos para consulta e empréstimo
Até às 18H50: Utilização de computadores. Empréstimo e devolução de documentos

Horário de verão:

(16 julho a 15 setembro)
de segunda a sexta-feira das 11H00 às 18H00
Encerra: sábados, domingos e feriados

Horário dos Serviços:

Até às 17H: Cartão de Utilizador
Até às 17H30: Marcação de PC. Fotocópias, impressões e digitalizações
Até às 17H45: Pedidos de documentos para consulta e empréstimo
Até às 17H50: Utilização de computadores. Empréstimo e devolução de documentos

E-mail serviço de Empréstimo: bib.galveias.emp@cm-lisboa.pt
E-mail serviço de Referência: bib.galveias.ref@cm-lisboa.pt

Transportes:

Metro: Campo Pequeno
Autocarro: 701, 736, 744, 749 e 756
Comboio: Entrecampos

Pontos de referência:

Estando na Av. João XXI, na direcção Areeiro, a biblioteca encontra-se do lado direito, antes da sede da Caixa Geral de Depósitos.
Estando na Av. João XXI, na direcção Av. Da República, a biblioteca encontra-se do lado esquerdo, depois da sede da Caixa Geral de Depósitos.

Endereço:

Campo Pequeno
1049-046
Lisboa

Telefone

21 780 30 20

E-mail

bib.galveias@cm-lisboa.pt

Web site

http:/www.cm-lisboa.pt/turismo



Fotos do Interior da Biblioteca:    














Fotos do jardim: 
Detalhe dos azulejos

D. JOÃO II – Painel de azulejos no jardim

José I - Painel de azulejos no jardim



Durante a reforma: 







Outras fotos:



Máquina de auto-atendimento


Tipo de Patrimônio: Patrimônio Material
Identificação Patrimonial: Monumento/Edifício
Época(s) Dominante(s): Moderna (Séc. XVII)
Tipologia original: Arquitetura Doméstica - Palácio
Valor patrimonial: Valor Arquitetônico, Valor Artístico
Estilo(s): Maneirismo, Barroco
Áreas Artísticas: Arquitetura Civil, Azulejaria, Mármores
Uso atual: Biblioteca Municipal
Proprietário/Instituições responsáveis: Meados do séc. XVII até 1759 - Família Távora; 1801 - D. João Almeida de Melo e Castro, 5º Conde das Galveias; alguns anos mais tarde - Braz Simões; 1928 - Câmara Municipal de Lisboa.
Empresa responsável pela reforma: JLLA Arquitetos

Fonte bibliográfica: 

  1. Wikipedia
  2. JLLA Arquitetos
  3. Diário de Notícias - Portugal 
  4. Público - Jornal de notícias
  5. Blog Lisboa de antigamente

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Canções sem palavras



Um eclético. Além de compositor, ele era também pintor, escritor, esportista, praticava natação, esgrima e equitação- e, segundo consta, era exímio dançarino. Homem refinado, poliglota, membro de uma rica família de banqueiros e intelectuais judeus convertida ao cristianismo, Felix Mendelssohn mostrou-se um talento precoce. Com apenas 17 anos, compôs uma unânime obra-prima: a abertura para Sonho de uma noite de verão (A Midsummer Night's Dream), baseada na obra de William Shakespeare.

Um ano antes, compusera um octeto para cordas. Aos 20 anos, já havia composto uma boa quantidade de cantatas, sinfonias, óperas, quartetos e concertos. Nascido em Hamburgo, na Alemanha, em 3 de fevereiro de 1809, foi idolatrado como gênio por seus contemporâneos germânicos. Sua música, porém, foi banida do país durante o nazismo.

Era neto do filósofo judeu Moses Mendelssohn e, desde cedo, teve uma educação esmerada. Vivendo em um ambiente culturalmente sofisticado, em meio abastado, recebeu da mãe as primeiras lições de piano e, aos 9 anos, publicou uma tradução de Andria, obra clássica de Terêncio, célebre poeta da Roma antiga.

Na mesma época, já apresentava seus primeiros concertos e, aos 12 anos, chegou a tocar especialmente para o poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe.

Apesar da enorme diferença de idade, Goethe então tinha 72 anos, os dois teriam ficado grandes amigos. Mais tarde, na Universidade de Berlim, seria aluno do filósofo Georg Friedrich Hegel, ao mesmo tempo que estudava desenho e pintura na Escola de Belas Artes.

Quando completou integralmente seus estudos acadêmicos, Mendelssohn recebeu a permissão do pai, o banqueiro milionário Abraham Mendelssohn, para, enfim, dedicar-se em tempo integral à música, sua maior paixão. Também com a devida autorização e o financiamento paterno, empreendeu uma série de longas viagens pela Europa, com o objetivo de ampliar ainda mais seu universo cultural e musical. Esteve, por exemplo, na Inglaterra, Irlanda, Áustria, Itália e França. Pelo caminho, fez amizades com vários compositores, a exemplo de Chopin, Liszt e Berlioz.

Ao conhecê-lo, Berlioz escreveu: "O que ouvi dele me entusiasmou, estou fortemente convencido de que é um dos maiores talentos musicais de nosso tempo e é também uma dessas almas cândidas que raras vezes encontramos". Já o poeta Heine o trataria como um "segundo Mozart": "Excetuando-se o jovem Mendelssohn, que é um segundo Mozart --e sobre isso todos os músicos estão de acordo-- não conheço nenhum outro músico genial em Berlim", disse Heine.

Além do mérito de sua própria obra, Mendelssohn também foi responsável pela redescoberta de outro gênio da música universal. Em 1829, regeu em Berlim a Paixão Segundo São Mateus, do então esquecido Johann Sebastian Bach, cuja obra havia conhecido por meio de seu professor de piano, Karl Friedich Zelter. A partitura de Bach, que não era levada ao público desde a morte do compositor, ocorrida quase um século antes, fora-lhe presenteada pela tia-avó, Sara Levy.

O amor de Mendelssohn pela música barroca de Bach levaria o amigo Berlioz a comentar: "O único defeito de Mendelssohn é que ele ama demasiadamente os mortos".

Mendelssohn era também admirador de Handel, de quem recebeu notória influência. Além disso, foi um dos primeiros músicos a valorizar os últimos quartetos de cordas compostos por Beethoven, composições consideradas um tanto quanto herméticas naquele tempo.

Em 1837, Mendelssohn casou-se com Cécile Jeanrenaud, filha de um clérigo da igreja francesa, com quem teve cinco filhos. Em 1843, fundou o prestigioso Conservatório de Música de Leipzig, onde junto com outros mestres, como Robert Schumman, dava aulas de composição e piano. Quatro anos mais tarde, sua irmã, Fanny Mendelssohn, também compositora, morreu subitamente. Ao receber a notícia, em Frankfurt, Mendelssohn passou mal e desmaiou. Os médicos diagnosticam uma trombose cerebral.

A partir de então, sua saúde nunca mais seria a mesma. Vítima de violentas e sistemáticas crises nervosas, viajou para uma temporada de repouso na Suíça. O tratamento não deu muito resultado. Quando retornou de lá, sem condições de trabalhar, pediu demissão do Conservatório de Leipzig. Em 4 de novembro de 1847, com apenas 38 anos, morreu em meio a um ataque de apoplexia (perda temporária da função cerebral).

Contexto histórico

Para muitos, Mendelssohn não é um romântico, como seus contemporâneos, mas sim um epígono, ou seja, um mero continuador da geração anterior a sua, o Classicismo. O rótulo, no entanto, não lhe faz justiça. Ainda que sua obra tenha dívidas evidentes para com a música vienense, sua produção mais madura caracteriza-se justamente pelo equilíbrio entre a forma clássica e o colorido do Romantismo. Além do mais, sua linguagem musical é extremamente pessoal.

Portanto, pode-se dizer que Mendelssohn se inspirou em sentimentos genuinamente românticos, muitas vezes baseadas em temas literários (característica do Romantismo musical), para compor obras com apurada qualidade formal, especialidade do Classicismo.

Sua vida pessoal, cercada de confortos materiais e do ambiente intelectual sofisticado, não se prestaria mesmo aos arroubos e à mítica do estereótipo do artista romântico, tuberculoso, idealista, miserável e meio louco.

Sua música pode ser classificada como uma espécie de "Romantismo Semi-Clássico". Uma de suas principais composições, o Concerto para violino em mi menor, opus 64, de 1844, é sem dúvida uma das mais melodiosas e sensíveis peças da música do século 19.

No século 20, com a chegada do nazismo de Hitler ao poder, a música do judeu Mendelssohn foi banida das salas de concerto na Alemanha. O veto nazista, junto ao preconceito geral de que era um artista que conseguira tudo na vida sem ter feito o menor esforço, foi responsável pelo relativo esquecimento a que sua obra seria submetida durante muito tempo em seu país de origem. Esquecimento que, em certa medida, Mendelssohn experimentaria em todo o mundo.

Hoje, tais julgamentos não fazem o menor sentido. Apesar de algumas obras para piano terem caído, de fato, em desuso, outras obras são bastante executadas, como algumas das Canções sem palavras ou as Variações sérias. Também a música de câmara tem estado presente no repertório.

Curiosidades


Música para noivas

Uma das obras mais conhecidas de Felix Mendelssohn é, sem dúvida, a "Marcha Nupcial", composta em 1842, incluída em Sonho de uma noite de verão e, até hoje, presença obrigatória no início e no final das cerimônias de casamento em todo o mundo.

"Sinfonias de turista"

Algumas das melhores sinfonias compostas por Mendelssohn foram inspiradas pelas muitas viagens que fez pelo continente europeu. Quando morou em Roma, por exemplo, em 1833, compôs sua Sinfonia em lá maior, que ficou conhecida como "Sinfonia Italiana". Em 1842, na Escócia, compôs a Sinfonia em lá menor ou "Sinfonia Escocesa". Por causa disso, há quem chame essas obras de "sinfonias de turista".

No palácio real, sentiu-se em casa

Conta-se que ao tocar especialmente para a Rainha Victória, em Londres, no ano de 1842, Mendelssohn surpreendeu a realeza da Inglaterra ao tocar, ao piano, com a mão direita o hino austríaco e, com a esquerda, o britânico. Na saída, o milionário Mendelssohn comentou, sobre a residência oficial de Sua Majestade: "A única casa realmente bonita e confortável de Londres é o Palácio de Buckingham".

Mudança de nome

A conversão da abastada família judia Mendelssohn ao cristianismo, mais precisamente ao luteranismo, foi necessária para que seus membros pudessem ser aceitos no meio da alta burguesia alemã. Com a conversão, muitos da família passaram a adotar o sobrenome Bartholdy, cristão, em lugar do tradicional Mendelssohn, judeu.

Milionário e superficial?


O fato de Mendelssohn ter nascido em uma família rica e, por isso, nunca ter enfrentado qualquer dificuldade material para desenvolver sua carreira de compositor, já foi alvo de críticos mais severos. Alguns deles consideravam que a ausência de obstáculos na vida pessoal teria se refletido na obra de Mendelssohn, que seria autor de uma obra "fácil" e "superficial". Este julgamento, contudo, não se sustenta mais hoje. Mendelssohn é reconhecido como um dos grandes nomes da música do século 19.


Obras

Concertos

Concerto para violino e orquestra em mi menor, opus 64 (1845)
Concerto para piano e orquestra No 1 (1826)

Sinfonias Sinfonia Italiana em lá maior (1833)
Sinfonia Escocesa em lá menor (1842)

Aberturas

As Hébridas (1833)
Sonhos de Uma Noite de Verão (1826)

Oratórios

Paulus (1835)
Elias (1846)


Sites relacionados 

Classical Archives: Mendelssohn - Página com muitos arquivos sonoros em MIDI e MP3. Inclui biografia e linha do tempo. Em inglês.
Félix Mendelssohn: Catalogue des oeuvres - Traz a relação completa das obras do compositor, referências bibliográficas e alguns links interessantes. Em inglês.
BBC: Felix Mendelssohn - Página da rádio inglesa BBC que destaca o compositor, com breve biografia, arquivos sonoros e indicação de gravações em CD. Em inglês.
Mendelssohn-Haus - Página do Museu Mendelssohn, em Leipzig, Alemanha. Inclui galeria de fotos e programação mensal. Em inglês e alemão.
Felix Mendelssohn: Forum Frigate - Lista de discussão sobre a vida e a obra do compositor alemão. Em inglês.
Piano bleu - Página para amantes do piano, traz biografias, discografia e links sobre a vida e a obra de vários compositores, inclusive de Feliz Mendelssohn. Em francês.
Amazon: Mendelssohn - Página da Amazon com grande número de opções de discos, MP3, DVDs e livros sobre a vida e a obra Mendelssohn. Em inglês.
Clássicos - Biografia e comentários sobre a obra de Mendelssohn, com destaque especial para seus concertos para piano. Em português.
Mendelssohn - Página com caricatura, informações sobre a obra e uma ampla discografia, com as melhores gravações disponíveis de Mendelssohn. Em Inglês.

Fonte: Coleção Folha de Música Clássica

domingo, 13 de agosto de 2017

Castrati: a história dos garotos castrados para que possuíssem características únicas na voz

Desde 1500, uma prática nada convencional começou a se popularizar entre líderes de igrejas e regentes de corais. Tratava-se da castração com o intuito de criar um estilo vocal diferenciado em jovens cantores. Com o bloqueio da dihidrotestosterona, que faz as cordas vocais masculinas crescerem em 63% e engrossa a tireoide, os jovens passavam a ter vozes femininas.

Geralmente recrutados aos doze anos, os garotos castrados eram conhecidos como “Castrati” (no singular em italiano, “castrato”), geralmente famílias e regiões pobres depositavam a esperança no talento do garoto. Em 1589, os castrati foram cantar para o Papa na Capela Sistina, mostrando a popularização da prática na época.

Martha Feldman escreveu um livro sobre os cantores Castrati, e, segundo ela, o procedimento realmente fazia a diferença para os rapazes “Havia alto-sopranos, mezzos, e altos, vozes estridentes e doces, vozes altas e maduras, gargantas mais e menos flexíveis, homens muito altos e muito baixos”, conta em um trecho do livro. Eles cantavam em igrejas, tribunais, pontos turísticos, e alguns aposentados davam aulas de música e compunham. Alguns eram cantores de baixa renda que passaram sua vida fazendo shows em cidades pequenas, e outros construíram suas carreiras cantando para ministros em cortes reais. Tudo isso a partir de uma única operação.

A operação



Oficialmente a lei da Igreja proibia a amputação de qualquer órgão, exceto para salvar vidas. Como a prática era ilegal, não há muitos registros detalhados sobre a operação e os cirurgiões permaneceram desconhecidos. Alguns garotos foram enganados pelos pais, que alegavam casos de saúde para a cirurgia. Cirurgiões tentavam usar alguma anestesia, mas elas eram perigosas.

Uma fonte anônima escreveu que os médicos, “davam uma certa quantidade de ópio para o paciente da castração, realizando a operação enquanto eles estavam dopados, mas observou-se que a maioria daqueles que tinham sido operados desta maneira, morriam por complicações das drogas usadas como anestésico”. Na maioria das vezes, os meninos recebiam um banho quente, em seguida, sua artéria carótida era comprimida até que eles praticamente entrassem em coma.

Outra versão do procedimento começaria com um banho frio, ou até mesmo um banho de leite, para entorpecer a área. O procedimento não envolve a amputação. A maioria dos médicos simplesmente abria o escroto e cortava os cordões espermáticos, os canais deferentes e as suas artérias circundantes. Sem o suporte do resto do tecido, os testículos atrofiavam.

Os efeitos da castração

Os efeitos dependiam de algumas condições, como a idade da criança, a competência do cirurgião e as peculiaridades do corpo humano. O filme Farinelli retrata um cantor homônimo muito alto e magro, o que é parcialmente verdade. A maioria dos cantores ganhava protuberâncias em torno do rosto, peito e coxas.

Outras características típicas de um Castrati eram a total falta de barba e a resistência à calvície.

A altura de Farinelli era, para muitas pessoas modernas, um efeito contraditório da castração. Meninos poderiam ter um surto de crescimento durante a puberdade, mas a falta de hormônios faria os castrati serem menores do que os homens médios. O efeito mais comum da castração era estatura incomum: as crianças têm placas epifisárias – “placas de crescimento” – em cada extremidade dos ossos e, durante a puberdade, elas são substituídas por tecido normal, enquanto que as placas de crescimento de um Castrati nunca “fecham”, ou seja, podem continuar crescendo.

A castração também foi associada com maior crescimento do peito, da mandíbula e até do nariz. A voz de um menino bem treinado para cantar era apoiada pelo peito e pelos pulmões, pois a “câmara de ressonância” era maior do que a média, dando aos melhores cantores não apenas uma voz de alta potência, como também sustentação.



Os inconvenientes da castração foram sentidos na fase posterior da vida. Os grandes ossos deixaram muitos Castrati com osteoporose e um corpo maior do que a média, comprimindo seus órgãos.

O castrati Farinelli era o mais famoso. Ele viveu em 1700, mas ainda causava polêmica em 2006, quando um grupo de pesquisa exumou seus restos mortais e os examinou. O que eles encontraram, juntamente com o comprimento dos ossos, foi uma acumulação de osso ao longo da testa, o que indica uma condição chamada hiperostose frontal interna (HFI) – mais comum em mulheres do que em homens, mas ninguém conhece suas causas. De acordo com alguns profissionais médicos, HFI afeta 12% da população e é quase sempre benigna. Apenas em 1% pode causar dores de cabeça terríveis, depressão e outros problemas mentais.

O fim dos Castrati

A prática começou a perder sua popularidade no final dos anos 1700, mas teve uma queda muito lenta. Eles ainda cantavam em igrejas, mas em 1800 já não eram bem vistos em óperas ou em clubes populares. O último cantor castrato da Capela Sistina foi Alessandro Moreschi, que se aposentou em 1913. Em seu auge, ele era conhecido como o “Anjo de Roma”. Algumas gravações dele cantando em 1902 ainda podem ser encontradas em arquivos raros.

Texto: Bruno Rizzato
Publicado no site Jornal Ciência em 19/01/2016.