domingo, 13 de março de 2016

Lamentações sobre meu velho robe ou conselho a quem tem mais gosto que fortuna

Por que não o guardei? Ele era feito para mim; eu estava afeito a ele. Ele moldava todas as dobras do meu corpo, sem incomodá­-lo; com ele, eu andava belo e pitoresco. O novo, rígido, pomposo, faz de mim um manequim. Não havia nenhuma necessidade minha a que sua complacência não se prestasse; pois a indigência é quase sempre industriosa.

Se um livro estava coberto de poeira, um pedaço do pano se oferecia para espaná-lo. Se a tinta seca recusava-se a fluir de minha pluma, ele punha o próprio flanco à disposição. Viam-se nele, traçados em longas linhas negras, os serviços frequentes que me prestara. Essas linhas compridas anunciavam o literato, o escritor, o homem que trabalha. Agora, tenho ares de rico desocupado; ninguém sabe quem sou.

Sob seu abrigo, eu não temia nem a inépcia de um criado nem a minha própria, nem as faíscas do fogo nem os respingos da água. Eu era senhor absoluto do meu velho robe; tornei-me escravo do novo.

O dragão que vigiava o velocino de ouro nunca esteve tão inquieto quanto estou. Vivo rodeado de preocupações.

O velho apaixonado que se entrega, pés e mãos atados, aos caprichos de uma jovem doidivanas diz da manhã à noite: Onde está minha boa, minha velha governanta? Que demônio me obce­cava quando a expulsei por esta aqui! E toca a chorar e a suspirar.

Eu não choro, não suspiro; mas a cada instante digo: maldito seja quem inventou a arte de dar valor ao pano comum, tingindo-o de escarlate! Maldito seja este traje precioso que agora reverencio! Onde está o meu velho, o meu modesto, o meu cômodo farrapo?

Meus amigos, guardai vossos velhos amigos. Meus amigos, temei a conquista da riqueza. Que meu exemplo sirva de instrução. A pobreza tem seus privilé­gios; a opulência tem seus incômodos.

Ó, Diógenes! Se visses teu discípulo sob o suntuoso manto de Aristipo, como não ririas! Ó, Aristipo, este manto suntuoso foi pago com tantas baixezas! Que comparação entre tua vida frouxa, rastejante, efeminada e a vida livre e rija do cínico esfarrapado! Abandonei o tonel em que reinava para servir a um tirano.

Mas isto não é tudo, meu amigo. Escuta as devastações do luxo, as consequên­cias de um luxo que vai se acumulando.

Meu velho robe era um entre os outros farrapos que me cercavam. Uma cadeira de palha, uma mesa de madeira, um tapete de Bérgamo, uma prateleira de pinho que sustentava alguns livros, umas tantas estampas esfumaçadas, sem moldura, pregadas pelos cantos ao tal tapete; suspensas entre as estampas, três ou quatro imagens em gesso formavam, junto a meu velho robe, a indigência mais harmoniosa.

Tudo está desafinado. Não há mais conjunto, não há mais unidade, não há mais beleza.

Uma nova governanta estéril que sucede outra num presbitério, a mulher que entra na casa de um viúvo, o sacerdote que substitui um sacerdote caído em desgraça, o prelado molinista que se apossa da diocese de um prelado jansenista não causam mais perturbação do que o intruso escarlate causou em minha casa.

Posso suportar sem desgosto a visão de uma camponesa. Esse pedaço de tecido grosseiro que cobre sua cabeça; essa cabeleira que cai desordenada sobre as faces; esses farrapos furados que mal a vestem; essa saia de baixo, ordiná­ria, que não chega à metade das pernas; esses pés nus e cobertos de lodo não têm como me ferir: é a imagem de uma condição que respeito, é o conjunto das desgraças de uma condição necessária e infeliz, que lamento.

Mas meu coração se subleva e, a despeito da atmosfera perfumada que a segue, tomo distância, desvio o olhar da cortesã: o toucado em ponto de Inglaterra, os punhos rasgados, as meias de seda sujas e os sapatos gastos me mostram a miséria do dia associada à opulência da véspera.

Assim seria meu domicílio, se o escarlate imperioso não tivesse submetido tudo a seu uníssono.

Vi o tapete de Bérgamo ceder a parede a que estava preso havia tanto tempo a um tecido de damasco.

Tinha duas estampas que não eram despidas de mérito, A queda do maná no deserto e Ester diante de Assuero; a triste Ester foi vergonhosamente expulsa por um ancião de Rubens, e A queda do maná foi dissipada por umaTempestade de Vernet.

A cadeira de palha foi relegada ao vestíbulo pela poltrona de marroquim.

Homero, Virgílio, Horácio, Cícero tiveram que aliviar o pinho frágil que se curvava sob sua massa, para se trancarem num armário em marchetaria, asilo mais digno deles que de mim.

Um grande espelho apoderou-se do bordo da chaminé.

As duas belas imagens em gesso que eu devia à amizade de Falconet e que ele mesmo reparara foram deslocadas por uma Vênus de cócoras – a argila moderna quebrada pelo bronze antigo.

A mesa de madeira ainda disputava terreno, abrigada sob uma multidão de brochuras e papéis empilhados ao deus-dará e que pareciam capazes de eximi­-la da injúria que a ameaçava. Um dia, seguiu seu destino, e, apesar de minha preguiça, as brochuras e os papéis foram se perfilar nos escaninhos de uma escrivaninha preciosa.

Funesto instinto das conveniências! Tato delicado e ruinoso, que desloca, que edifica, que derruba; que esvazia os cofres dos pais; que deixa as filhas sem dote e os filhos sem educação; que é causa de coisas tão belas e de males tão grandes. Tu, que em minha casa substituíste a mesa de madeira pela escrivani­nha preciosa e fatal, és tu que levas as nações à perdição, és tu que quiçá, um dia, levarás minhas coisas à ponte Saint-Michel, onde se ouvirá a voz rouca de um pregoeiro gritar: Vinte luíses por uma Vênus de cócoras!

O intervalo que restava entre o tampo da tal escrivaninha e a Tempestade de Vernet, logo acima, formava um vazio desagradável ao olhar. O vazio foi preen­chido por um relógio de pêndulo, e que relógio! Um relógio à Geoffrin, um relógio em que o ouro contrasta com o bronze.

Havia um canto vago junto à janela. Esse canto exigia uma secretária, que afinal obteve.

Outro vazio desagradável, entre o tampo da secretária e o belo busto de Rubens, foi preenchido por dois La Grenée.

Aqui fica uma Madalena do mesmo artista; ali, um esboço de De Vien ou de Machy – porque dei para gostar de esboços. E foi assim que o reduto edificante do filósofo transformou-se no gabinete escandaloso do publicano. Sou um insulto à miséria nacional.

Da minha mediocridade primeira, só restou um capacho. Esse tapete mesqui­nho não se enquadra em meu luxo, bem o sinto. Mas jurei e juro de novo que os pés de Denis, o filósofo, jamais pisarão uma obra-prima da Savonnerie, que guar­darei esse tapete à maneira daquele camponês que, transferido da choupana ao palácio de seu soberano, conservou consigo os tamancos.

Quando, pela manhã, coberto em suntuoso escarlate, entro em meu gabinete, basta baixar a vista para perceber meu antigo capacho; ele me recorda meu primeiro estado, e o orgulho se detém à entrada de meu coração.

Não, meu amigo, não: ainda não fui corrompido. Minha porta ainda se abre ao necessitado que se dirige a mim; ele encontra em mim a mesma afabilidade de antes. Eu o escuto, eu o aconselho, eu o socorro, eu o lamento. Minha alma não se endureceu; minha cabeça não se exaltou. Meu dorso é bom e sincero, como antigamente.

É o mesmo tom de franqueza; é a mesma sensibilidade. Meu luxo é de pouca data, e o veneno ainda não agiu. Mas, com o tempo, quem sabe o que pode acontecer? Que esperar de quem esqueceu mulher e filha, fez dívidas, deixou de ser esposo e pai e, em vez de depositar no fundo de um cofre fiel uma soma útil…

Ah, santo profeta! Erguei vossas mãos aos céus, rogai por um amigo em perigo, dizei a Deus: Se vês em teus decretos eternos que a riqueza corrompe o coração de Denis, não poupes as obras-primas que ele idolatra; destrói todas e leva-o de volta à sua primeira pobreza. Eu, da minha parte, direi aos céus: Ó Deus, eu me resigno à prece do santo profeta e à tua vontade! Abandono tudo em tuas mãos; toma tudo de volta; sim, tudo, exceto o Vernet! Ah, deixa-me o Vernet!

Não foi o artista, foste tu que o criaste. Respeita a obra da amizade, respeita a tua obra. Vê esse farol, vê essa torre adjacente que se ergue à direita, vê essa velha árvore que os ventos dilaceraram. Como é bela essa massa! Sob a massa escura, vê esses rochedos cobertos de verde. Foi assim que tua mão poderosa os formou; foi assim que tua mão benfazeja os cobriu. Vê esse terraço desigual, que desce do pé dos rochedos até o mar.

É a imagem das degradações que permitiste ao tempo exercer sobre as coisas mais sólidas do mundo. Teu sol brilharia de outro modo? Deus, se aniquilas esta obra de arte, dir-se-á que és um Deus ciumento. Apieda-te dos infelizes espalhados por esse litoral. Não te basta ter mostrado a eles o fundo dos abismos? Tu os salvaste apenas para perdê-los? Escuta a prece desse que te agradece. Auxilia aquele que reúne os tristes restos de sua fortuna. 

Fecha os ouvidos às imprecações daquele furioso: coitado, contava com ganhos tão vantajosos; já pensava no repouso e na aposentadoria; essa era sua última viagem. Cem vezes, durante o percurso, calculara com os dedos o montante de sua fortuna; já dispusera o uso que faria dela; e eis que suas esperanças são frustradas, mal lhe resta com que cobrir seus membros nus. Comove-te com a ternura daqueles dois esposos. 

Vê o terror que inspiraste a essa mulher. Ela te rende graças pelo mal que não lhe fizeste. Enquanto isso, o filho, jovem demais para saber o perigo a que foram expostos ele mesmo, o pai e a mãe, o filho se ocupa do fiel companheiro de viagem e amarra a coleira de seu cachorro. Concede graça ao inocente. Vê essa mãe que há pouco escapou das águas ao lado do esposo; não tremeu por si mesma, e sim pelo filho. Vê como o aperta contra o corpo, vê como o beija. Ó, Deus! Reconhece as águas que criaste. Reconhece-as quando teu sopro as agita e quando tua mão as aplaca. 

Reconhece as nuvens sombrias que havias reunido e que bem quiseste dissipar. Já se vão separando, já se vão distanciando, o brilho do astro diurno já renasce sobre a face das águas; esse horizonte rubro é presságio de calmaria. Como está longe, esse horizonte! Não confina com o mar. 

O céu vai além e parece girar ao redor do globo. Ilumina de uma vez esse céu; tranquiliza de uma vez esse mar. Permite que esses marinheiros lancem de volta ao mar o navio encalhado; secunda-os em seus trabalhos; dá-lhes forças, e deixa comigo o meu quadro. Deixa-o comigo, como a vara com que castigarás o homem vaidoso. Já não é a mim que visitam, que vêm escutar: é o Vernet que vêm admirar aqui em casa. O pintor humilhou o filósofo.

Ah, meu amigo, este belo Vernet que possuo! O tema é o fim de uma tem­pestade, sem catástrofe deplorável. As águas continuam agitadas; o céu, coberto de nuvens; os marinheiros agitam-se junto ao navio encalhado; os habitantes acorrem das montanhas vizinhas.

Que espírito tem esse artista! Não precisou de mais que umas poucas figuras principais para apresentar todas as circunstâncias do momento que escolheu. Como toda essa cena é verdadeira! Como tudo está pintado com leveza, facilidade e vigor! Quero guardar este testemunho de sua amizade. Quero que meu genro transmita-o a seus filhos, e estes aos seus, e estes ainda aos filhos que lhes nascerão.

Se vísseis o belo conjunto que faz este pedaço de cena; como tudo nele é harmonioso; como os efeitos se encadeiam; como tudo se faz valer sem esforço e sem afetação; como essas montanhas à direita são vaporosas; como esses roche­dos e as edificações mais acima são belos; como essa árvore é pitoresca; como esse terraço é iluminado; como a luz vai se degradando; como as figuras são bem dis­postas, verdadeiras, ativas, naturais, vivas; como elas despertam interesse; a força com que são pintadas; a pureza com que são desenhadas; como se destacam do fundo; a enorme extensão desse espaço; a verdade dessas águas; essas nuvens, esse céu, esse horizonte!

Aqui, o fundo é privado de luz e a frente é iluminada, ao contrário da técnica comum. Vinde ver meu Vernet, mas não o leveis de mim.

Com o tempo, as dívidas se quitarão; o remorso há de se mitigar; e terei um deleite puro. Não temei que o furor de empilhar coisas tome conta de mim outra vez. Os amigos que tinha, eu os tenho ainda; e seu número não aumentou. Tenho Laís, mas Laís não me tem.

Feliz em seus braços, estaria pronto a cedê-la a quem eu quisesse bem e a quem ela tornasse mais feliz que eu. E, para contar­-lhes um segredo ao pé do ouvido, essa Laís que se vende tão caro aos outros, essa mesma Laís não me custou nada.

Autor: Denis Diderot

Celebrizado por sua obra filosófica e pela edição da Enciclopédia, DENIS DIDEROT (1713-1784) foi um ver­sátil e prolífico escritor. O ensaio Carta sobre os cegos para o uso dos que veem (1749) e o diálogo O sobrinho de Rameau(176 1) estão entre as obras que, como esta sátira de 1768, são exemplos de seu estilo virtuoso e variado. “Lamentações sobre meu velho robe” inspirou o antropólogo americano Grant McCracken a criar o termo “efeito Diderot”, indicando a insatisfação existencial que o consumo pode gerar.

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