terça-feira, 15 de novembro de 2016

McNally Jackson Bookstore




Muito se pensou que as livrarias independentes estariam extintas nessa época principalmente por causa de 10 anos de recessão e da queda de lucro das pequenas lojas causada pela força das grandes redes de livrarias e pelo uso do Kindle, saber que a McNally Jackson Books ainda existe é um milagre.

Aberta em 2004, oriunda de uma família livreira canadense com lojas em Winnipeg e Saskatoon, 

A loja foi inaugurada como McNally Robinson e em Agosto de 2008 se tornou McNally Jackson. 

Localizada na parte baixa de Manhattan.






A livraria é linda, iluminada e aberta, moderna mas aconchegante. Os assoalhos de madeira desgastados contrastam com o vidro e a escada em alumínio escovado que leva ao andar de baixo, com um lindo lustre que está localizado sobre a escada. 




A loja tem seu toque pessoal, cada expositor na livraria tem um pedaço de pano e flores, um toque que McNally aprendeu com sua mãe ao crescer. Da mesma forma, o papel de parede que decora o café é inteiramente composto de páginas da própria coleção de livros de McNally.





Me parece reconfortante sentar no café cercado por todas essas páginas de livros, lidas e marcadas com caneta pela proprietária, traduzindo assim a silenciosa conversa entre leitor e livro. 

Clique nas fotos para ampliar: 

















Máquina para imprimir os livros on demand
Endereço: 52 Prince St, New York, NY 10012, EUA
Site: www.mcnallyjackson.com

domingo, 13 de março de 2016

Béla Bartok



Béla Viktor János Bartók, compositor e pianista húngaro, que se destacou como pesquisador de música folclórica da Europa Oriental, morreu em Nova York em 26 de setembro de 1945. Bartók foi um dos fundadores da etnomusicologia, ciência que estuda a música em seu contexto cultural ou a antropologia da música (Merriam, 1964).

Bartók nasceu em 1881 em Nagyszentmiklós, região situada na confluência das culturas húngara, romena e eslovaca e tradicional foco de oposição aos Habsburgos. Sua mãe deu-lhe as primeiras aulas de piano aos cinco anos. Em 1888, com a morte do país, a família passou a viver em Vinogradiv, atual Ucrânia.

Com 11 anos, Bartók deu seu primeiro concerto: o allegro da sonata Waldstein, de Beethoven, e sua composição O Curso do Danúbio. A família se trasladou então a Presburgo, atual Bratislava, capital da Eslováquia, onde László Erkel lhe ensinou harmonia e piano.

Com 17 anos, ingressa na Academia de Música. Lá conhece Zoltan Kodály, com quem empreenderia uma recopilação da música folclórica húngara. Em 1903 compõe um extenso poema sinfônico, Kossuth, herói da revolução húngara de 1848.

A partir de 1905, aprofunda seus conhecimentos da música tradicional e canções folclóricas magiares.

Junto com Kodály percorre os povoados da Hungria e da Romênia, recolhendo num gramofone milhares de canções. Fizeram o mesmo com boa parte da Europa Central e até da Turquia. 

Pensava-se que a música folclórica húngara se baseava em melodias zíngaras, como as rapsódias compostas por Liszt. No entanto, Bartók descobriu que as antigas melodias húngaras se baseavam em escalas pentatônicas, a exemplo da música asiática ou siberiana.

Em 1905, adota Paris por motivo do concurso Rubinstein. Afasta-se da religião e se declara um “ateu profundo e sereno”. Em 1916, contudo, anuncia publicamente sua conversão ao unitarismo.

Em 1907, compõe Três Canções Populares Húngaras e no ano seguinte, Quarteto para Cordas. 

Em 1909, casa-se com Marta Ziegler, sua aluna de 16 anos. Em 1911, escreveu sua única ópera, “O Castelo de Barba Azul”, que só estreou em 1918, com a condição que apagasse do programa o nome do libretista, Bela Balazs, devido às suas ideias políticas. Bartok se negou.

Continuou concentrado em recolher a música folclórica da Europa Central, Bálcãs e Turquia. Durante a I Guerra Mundial compôs dois balés: “O Príncipe de Madeira” e “O Mandarim Maravilhoso”, duas sonatas para violino e piano, peças harmônica e estruturalmente complexas.

Bartók se divorciou de Marta em 1923 e se casou com uma estudante de piano, Ditta Pásztory, com quem fez uma turnê pela Europa interpretando concertos para dois pianos.

Em 1927-1928 compôs o 3º e 4º de Cordas, considerados uns dos mais importantes da música clássica. O 5º Quarteto retorna a uma linguagem harmônica mais simples. O 6º Quarteto foi escrito em 1939.

Entrementes, Hitler e a II Guerra Mundial iriam provocar impacto em sua vida. Bartók jamais se comprometeu com regimes fascistas. Opôs-se a Horty quando integrou a Hungria na esfera nazista. Mudou de editor quando este se afiliou ao nazismo. Pediu que sua música fosse incluída na “exposição sobre a música degenerada” patrocinada pelos nazistas em Düsseldorf.

Com o início da guerra, foi tentado a deixar a Hungria. Compõe então “Contrastes”, um de seus últimos grandes êxitos. Em agosto de 1940 muda-se para os Estados Unidos e pouco depois se alista na Força Naval norte-americana.

No entanto, Bartók sentia-se profundamente afetado pelo exílio. No começo foi bem recebido, porém recusou um posto de professor de composição na Curtis University embora tenha aceitado o título de doutor honoris causa pela Universidade de Columbia. Apesar de ser celebrado como etno-musicólogo e pianista, não era reconhecido como compositor e havia pouco interesse em sua música e a crítica era severa. Por outro lado, a Casa Baldwin requisitou um piano emprestado, o que o impediu de realizar concertos com sua mulher Ditta.

Em princípios de 1943, deu seu último concerto como intérprete quando os primeiros sintomas de leucemia já se manifestavam. Estimulado pelos colegas músicos norte-americanos recobra confiança e compõe o Concerto para Orquestra que lhe foi encomendado pelo maestro Serge Koussevitzki, a obra mais popular de Bartók. Animado, compõe ainda o Concerto para Piano nº 3 e o Concerto para Viola. A pedido do extraordinário violinista Yehudi Menuhin, compôs a Sonata para Violino Solo.

Com a libertação da Hungria, o país lhe ofereceu ser deputado. Aceitou, mesmo sabendo que não poderia assumir. Em setembro de 1945, morre em Nova York de leucemia. Foi enterrado no cemitério Ferncliff. Porém, em julho de 1988, seus restos foram transferidos para Budapeste a pedido dos filhos.

A música de Bartók está baseada em grande parte em suas investigações sobre o folclore e poderia dividir-se em dois grandes blocos, distintos quanto à concepção, todavia complementares entre si, chegando a alternar-se inclusive numa mesma obra em diferentes seções. São o sistema diatônico, fundado na música folclórica, seus modos e ritmos e na escala acústica; e o sistema cromático, influenciado também pelo folclore.




Fonte: Opera Mundi

Lamentações sobre meu velho robe ou conselho a quem tem mais gosto que fortuna

Por que não o guardei? Ele era feito para mim; eu estava afeito a ele. Ele moldava todas as dobras do meu corpo, sem incomodá­-lo; com ele, eu andava belo e pitoresco. O novo, rígido, pomposo, faz de mim um manequim. Não havia nenhuma necessidade minha a que sua complacência não se prestasse; pois a indigência é quase sempre industriosa.

Se um livro estava coberto de poeira, um pedaço do pano se oferecia para espaná-lo. Se a tinta seca recusava-se a fluir de minha pluma, ele punha o próprio flanco à disposição. Viam-se nele, traçados em longas linhas negras, os serviços frequentes que me prestara. Essas linhas compridas anunciavam o literato, o escritor, o homem que trabalha. Agora, tenho ares de rico desocupado; ninguém sabe quem sou.

Sob seu abrigo, eu não temia nem a inépcia de um criado nem a minha própria, nem as faíscas do fogo nem os respingos da água. Eu era senhor absoluto do meu velho robe; tornei-me escravo do novo.

O dragão que vigiava o velocino de ouro nunca esteve tão inquieto quanto estou. Vivo rodeado de preocupações.

O velho apaixonado que se entrega, pés e mãos atados, aos caprichos de uma jovem doidivanas diz da manhã à noite: Onde está minha boa, minha velha governanta? Que demônio me obce­cava quando a expulsei por esta aqui! E toca a chorar e a suspirar.

Eu não choro, não suspiro; mas a cada instante digo: maldito seja quem inventou a arte de dar valor ao pano comum, tingindo-o de escarlate! Maldito seja este traje precioso que agora reverencio! Onde está o meu velho, o meu modesto, o meu cômodo farrapo?

Meus amigos, guardai vossos velhos amigos. Meus amigos, temei a conquista da riqueza. Que meu exemplo sirva de instrução. A pobreza tem seus privilé­gios; a opulência tem seus incômodos.

Ó, Diógenes! Se visses teu discípulo sob o suntuoso manto de Aristipo, como não ririas! Ó, Aristipo, este manto suntuoso foi pago com tantas baixezas! Que comparação entre tua vida frouxa, rastejante, efeminada e a vida livre e rija do cínico esfarrapado! Abandonei o tonel em que reinava para servir a um tirano.

Mas isto não é tudo, meu amigo. Escuta as devastações do luxo, as consequên­cias de um luxo que vai se acumulando.

Meu velho robe era um entre os outros farrapos que me cercavam. Uma cadeira de palha, uma mesa de madeira, um tapete de Bérgamo, uma prateleira de pinho que sustentava alguns livros, umas tantas estampas esfumaçadas, sem moldura, pregadas pelos cantos ao tal tapete; suspensas entre as estampas, três ou quatro imagens em gesso formavam, junto a meu velho robe, a indigência mais harmoniosa.

Tudo está desafinado. Não há mais conjunto, não há mais unidade, não há mais beleza.

Uma nova governanta estéril que sucede outra num presbitério, a mulher que entra na casa de um viúvo, o sacerdote que substitui um sacerdote caído em desgraça, o prelado molinista que se apossa da diocese de um prelado jansenista não causam mais perturbação do que o intruso escarlate causou em minha casa.

Posso suportar sem desgosto a visão de uma camponesa. Esse pedaço de tecido grosseiro que cobre sua cabeça; essa cabeleira que cai desordenada sobre as faces; esses farrapos furados que mal a vestem; essa saia de baixo, ordiná­ria, que não chega à metade das pernas; esses pés nus e cobertos de lodo não têm como me ferir: é a imagem de uma condição que respeito, é o conjunto das desgraças de uma condição necessária e infeliz, que lamento.

Mas meu coração se subleva e, a despeito da atmosfera perfumada que a segue, tomo distância, desvio o olhar da cortesã: o toucado em ponto de Inglaterra, os punhos rasgados, as meias de seda sujas e os sapatos gastos me mostram a miséria do dia associada à opulência da véspera.

Assim seria meu domicílio, se o escarlate imperioso não tivesse submetido tudo a seu uníssono.

Vi o tapete de Bérgamo ceder a parede a que estava preso havia tanto tempo a um tecido de damasco.

Tinha duas estampas que não eram despidas de mérito, A queda do maná no deserto e Ester diante de Assuero; a triste Ester foi vergonhosamente expulsa por um ancião de Rubens, e A queda do maná foi dissipada por umaTempestade de Vernet.

A cadeira de palha foi relegada ao vestíbulo pela poltrona de marroquim.

Homero, Virgílio, Horácio, Cícero tiveram que aliviar o pinho frágil que se curvava sob sua massa, para se trancarem num armário em marchetaria, asilo mais digno deles que de mim.

Um grande espelho apoderou-se do bordo da chaminé.

As duas belas imagens em gesso que eu devia à amizade de Falconet e que ele mesmo reparara foram deslocadas por uma Vênus de cócoras – a argila moderna quebrada pelo bronze antigo.

A mesa de madeira ainda disputava terreno, abrigada sob uma multidão de brochuras e papéis empilhados ao deus-dará e que pareciam capazes de eximi­-la da injúria que a ameaçava. Um dia, seguiu seu destino, e, apesar de minha preguiça, as brochuras e os papéis foram se perfilar nos escaninhos de uma escrivaninha preciosa.

Funesto instinto das conveniências! Tato delicado e ruinoso, que desloca, que edifica, que derruba; que esvazia os cofres dos pais; que deixa as filhas sem dote e os filhos sem educação; que é causa de coisas tão belas e de males tão grandes. Tu, que em minha casa substituíste a mesa de madeira pela escrivani­nha preciosa e fatal, és tu que levas as nações à perdição, és tu que quiçá, um dia, levarás minhas coisas à ponte Saint-Michel, onde se ouvirá a voz rouca de um pregoeiro gritar: Vinte luíses por uma Vênus de cócoras!

O intervalo que restava entre o tampo da tal escrivaninha e a Tempestade de Vernet, logo acima, formava um vazio desagradável ao olhar. O vazio foi preen­chido por um relógio de pêndulo, e que relógio! Um relógio à Geoffrin, um relógio em que o ouro contrasta com o bronze.

Havia um canto vago junto à janela. Esse canto exigia uma secretária, que afinal obteve.

Outro vazio desagradável, entre o tampo da secretária e o belo busto de Rubens, foi preenchido por dois La Grenée.

Aqui fica uma Madalena do mesmo artista; ali, um esboço de De Vien ou de Machy – porque dei para gostar de esboços. E foi assim que o reduto edificante do filósofo transformou-se no gabinete escandaloso do publicano. Sou um insulto à miséria nacional.

Da minha mediocridade primeira, só restou um capacho. Esse tapete mesqui­nho não se enquadra em meu luxo, bem o sinto. Mas jurei e juro de novo que os pés de Denis, o filósofo, jamais pisarão uma obra-prima da Savonnerie, que guar­darei esse tapete à maneira daquele camponês que, transferido da choupana ao palácio de seu soberano, conservou consigo os tamancos.

Quando, pela manhã, coberto em suntuoso escarlate, entro em meu gabinete, basta baixar a vista para perceber meu antigo capacho; ele me recorda meu primeiro estado, e o orgulho se detém à entrada de meu coração.

Não, meu amigo, não: ainda não fui corrompido. Minha porta ainda se abre ao necessitado que se dirige a mim; ele encontra em mim a mesma afabilidade de antes. Eu o escuto, eu o aconselho, eu o socorro, eu o lamento. Minha alma não se endureceu; minha cabeça não se exaltou. Meu dorso é bom e sincero, como antigamente.

É o mesmo tom de franqueza; é a mesma sensibilidade. Meu luxo é de pouca data, e o veneno ainda não agiu. Mas, com o tempo, quem sabe o que pode acontecer? Que esperar de quem esqueceu mulher e filha, fez dívidas, deixou de ser esposo e pai e, em vez de depositar no fundo de um cofre fiel uma soma útil…

Ah, santo profeta! Erguei vossas mãos aos céus, rogai por um amigo em perigo, dizei a Deus: Se vês em teus decretos eternos que a riqueza corrompe o coração de Denis, não poupes as obras-primas que ele idolatra; destrói todas e leva-o de volta à sua primeira pobreza. Eu, da minha parte, direi aos céus: Ó Deus, eu me resigno à prece do santo profeta e à tua vontade! Abandono tudo em tuas mãos; toma tudo de volta; sim, tudo, exceto o Vernet! Ah, deixa-me o Vernet!

Não foi o artista, foste tu que o criaste. Respeita a obra da amizade, respeita a tua obra. Vê esse farol, vê essa torre adjacente que se ergue à direita, vê essa velha árvore que os ventos dilaceraram. Como é bela essa massa! Sob a massa escura, vê esses rochedos cobertos de verde. Foi assim que tua mão poderosa os formou; foi assim que tua mão benfazeja os cobriu. Vê esse terraço desigual, que desce do pé dos rochedos até o mar.

É a imagem das degradações que permitiste ao tempo exercer sobre as coisas mais sólidas do mundo. Teu sol brilharia de outro modo? Deus, se aniquilas esta obra de arte, dir-se-á que és um Deus ciumento. Apieda-te dos infelizes espalhados por esse litoral. Não te basta ter mostrado a eles o fundo dos abismos? Tu os salvaste apenas para perdê-los? Escuta a prece desse que te agradece. Auxilia aquele que reúne os tristes restos de sua fortuna. 

Fecha os ouvidos às imprecações daquele furioso: coitado, contava com ganhos tão vantajosos; já pensava no repouso e na aposentadoria; essa era sua última viagem. Cem vezes, durante o percurso, calculara com os dedos o montante de sua fortuna; já dispusera o uso que faria dela; e eis que suas esperanças são frustradas, mal lhe resta com que cobrir seus membros nus. Comove-te com a ternura daqueles dois esposos. 

Vê o terror que inspiraste a essa mulher. Ela te rende graças pelo mal que não lhe fizeste. Enquanto isso, o filho, jovem demais para saber o perigo a que foram expostos ele mesmo, o pai e a mãe, o filho se ocupa do fiel companheiro de viagem e amarra a coleira de seu cachorro. Concede graça ao inocente. Vê essa mãe que há pouco escapou das águas ao lado do esposo; não tremeu por si mesma, e sim pelo filho. Vê como o aperta contra o corpo, vê como o beija. Ó, Deus! Reconhece as águas que criaste. Reconhece-as quando teu sopro as agita e quando tua mão as aplaca. 

Reconhece as nuvens sombrias que havias reunido e que bem quiseste dissipar. Já se vão separando, já se vão distanciando, o brilho do astro diurno já renasce sobre a face das águas; esse horizonte rubro é presságio de calmaria. Como está longe, esse horizonte! Não confina com o mar. 

O céu vai além e parece girar ao redor do globo. Ilumina de uma vez esse céu; tranquiliza de uma vez esse mar. Permite que esses marinheiros lancem de volta ao mar o navio encalhado; secunda-os em seus trabalhos; dá-lhes forças, e deixa comigo o meu quadro. Deixa-o comigo, como a vara com que castigarás o homem vaidoso. Já não é a mim que visitam, que vêm escutar: é o Vernet que vêm admirar aqui em casa. O pintor humilhou o filósofo.

Ah, meu amigo, este belo Vernet que possuo! O tema é o fim de uma tem­pestade, sem catástrofe deplorável. As águas continuam agitadas; o céu, coberto de nuvens; os marinheiros agitam-se junto ao navio encalhado; os habitantes acorrem das montanhas vizinhas.

Que espírito tem esse artista! Não precisou de mais que umas poucas figuras principais para apresentar todas as circunstâncias do momento que escolheu. Como toda essa cena é verdadeira! Como tudo está pintado com leveza, facilidade e vigor! Quero guardar este testemunho de sua amizade. Quero que meu genro transmita-o a seus filhos, e estes aos seus, e estes ainda aos filhos que lhes nascerão.

Se vísseis o belo conjunto que faz este pedaço de cena; como tudo nele é harmonioso; como os efeitos se encadeiam; como tudo se faz valer sem esforço e sem afetação; como essas montanhas à direita são vaporosas; como esses roche­dos e as edificações mais acima são belos; como essa árvore é pitoresca; como esse terraço é iluminado; como a luz vai se degradando; como as figuras são bem dis­postas, verdadeiras, ativas, naturais, vivas; como elas despertam interesse; a força com que são pintadas; a pureza com que são desenhadas; como se destacam do fundo; a enorme extensão desse espaço; a verdade dessas águas; essas nuvens, esse céu, esse horizonte!

Aqui, o fundo é privado de luz e a frente é iluminada, ao contrário da técnica comum. Vinde ver meu Vernet, mas não o leveis de mim.

Com o tempo, as dívidas se quitarão; o remorso há de se mitigar; e terei um deleite puro. Não temei que o furor de empilhar coisas tome conta de mim outra vez. Os amigos que tinha, eu os tenho ainda; e seu número não aumentou. Tenho Laís, mas Laís não me tem.

Feliz em seus braços, estaria pronto a cedê-la a quem eu quisesse bem e a quem ela tornasse mais feliz que eu. E, para contar­-lhes um segredo ao pé do ouvido, essa Laís que se vende tão caro aos outros, essa mesma Laís não me custou nada.

Autor: Denis Diderot

Celebrizado por sua obra filosófica e pela edição da Enciclopédia, DENIS DIDEROT (1713-1784) foi um ver­sátil e prolífico escritor. O ensaio Carta sobre os cegos para o uso dos que veem (1749) e o diálogo O sobrinho de Rameau(176 1) estão entre as obras que, como esta sátira de 1768, são exemplos de seu estilo virtuoso e variado. “Lamentações sobre meu velho robe” inspirou o antropólogo americano Grant McCracken a criar o termo “efeito Diderot”, indicando a insatisfação existencial que o consumo pode gerar.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As 72 virgens do paraíso



''Os muçulmanos acreditam que se explodirem-se ou matarem os infiéis no paraíso vão ter 72, 100, 500, 1000 virgens para transar pela eternidade.''

Sinto decepcionar alguns, mas esta frase que vem sendo comum entre não-muçulmanos ignorantes que buscam desacreditar ou até mesmo zombar da religião islâmica não está nem um pouco correta.

Este clamor vem sendo feito há séculos por orientalistas, e vem do imaginário europeu do mundo islâmico sempre o retratando-o como um lugar onde os pudores sexuais eram libertinos, uma terra de luxuria e prezares intermináveis. As Mil e Uma Noites retratam bem este imaginário. Uma lida no livro ''Orientalismo'' de Edward Said pode explicar também como surgiu este conceito, ou digamos ''pré-conceito''.

O Alcorão, escritura sagrada da religião islâmica, oferece uma vasta gama de descrições da vida após a morte para os seres humanos.

A religião islâmica vê a vida terrena do ser humano como um teste de alguns anos para uma recompensa infinita e inimaginável.

O Alcorão expressa a recompensa dos justos, caridosos e piedosos de diversas formas em seus palácios, rios de mel e leite, jardins e é claro, esposas.

Mas tudo de forma análoga, e não literal.

A palavra encontrada no Alcorão para descrever as esposas dos habitantes do paraíso é ''hoor'' que vem do árabe ''brilho'', que é uma analogia a luminosidade destas criaturas que habitam o Jannah (paraíso).

Não expressam de forma alguma que serão mulheres sensuais parecidas com as que existem no mundo terreno dentro de um harém escravizadas a sexualidade de um homem, essa interpretação é do puro imaginário ocidental, que mesmo sem encontrar base na religião islâmica, ainda continua a ser atribuída a ela como crença.

E quanto ao número 72, é uma alegoria numérica muito comum na língua árabe clássica (na qual está escrito o Alcorão) para descrever grandes quantidades, não significa de maneira alguma o número exato de 72 virgens para um homem só.

Os muçulmanos creem que no paraíso após morrerem de maneira piedosa, irão ser recompensados se suas obras forem sinceras de diversas formas, e uma delas, é com as ''huris'' ou seja, esposas do paraíso.

E para as mulheres muçulmanas, também poderão se casar com o ''marido dos sonhos'' e viver com ele felizes pela eternidade.

Por: Victor Peixoto