segunda-feira, 11 de maio de 2015

John K. King - Livraria




Um jornalista espanhol em um artigo disse que a livraria John K King poderia ser usada como inspiração para o escritor Carlos Ruiz Zafón em uma continuação do livro A Sombra do Vento, pois a livraria se parece e muito com o cemitério dos livros perdidos.

Localizada em uma antiga fábrica construída nos primeiros anos do século XX, pintada de azul celeste, esse edifício de ladrilho guarda a livraria especializada em livros usados e raros, alguns deles com relativo valor.






A blogueira de Detroit fez uma visita à livraria











A John K King é a mais antiga e maior livraria de usados e raros de Detroit, são 4 andares + o porão repletos de livros de todos os tipos, gêneros.

Nas prateleiras há diversos avisos com a exata localização dos gêneros e diversas banquetas para se alcançar as prateleiras mais altas.






















sexta-feira, 8 de maio de 2015

8 de Maio – Dia da Vitória!

Depois da assinatura, o general Jodl (centro), levantou-se, pediu permissão para falar e em alemão disse: “Com esta assinatura o povo Alemão e as forças armadas alemãs entregam-se, para bem ou para mau, em mãos dos vencedores. Nesta guerra que durou mais de cinco anos, o povo e as forças armadas foram capazes de realizar gestos memoráveis, sofrendo talvez mais que qualquer outro povo no mundo. Nesta hora só posso expressar a esperança de que os vencedores lhes tratem com espírito generoso”.


A intenção dos libertadores era tornar o dia 9 de Maio de 1945 o Dia da Vitória na Europa, porém a notícia, de alguma forma, vazou, e em poucas horas, por vários pontos do Continente, jornais, folhetins e rádios anunciavam a captulação total das forças do Eixo na Europa. A notícia caiu como uma chuva depois de longo período de seca.

Para os brasileiros que lutavam na Itália o Dia da Vitória chegou mais cedo.

Com Mussolini capturado e morto pelos partigiani em 28 de Abril de 1945 e, enfim, o suicídio de Adolf Hitler no dia 31 de Abril de 1945, o Eixo Roma-Berlim desaparecia.

No dia 2 de Maio de 1945 às 14 horas, as forças alemãs que resistiam na Itália se renderam ao IV Corpo de Exército, do qual fazia parte a FEB, resultado de negociações secretas, onde o General alemão Schlemmer assinou um termo de rendição no Quartel General do IV Corpo.

Declarava-se, então, 2 de Maio de 1945, O Dia da Vitória na Itália. Foi um período de ocupação em que os brasileiros saborearam diferentes manifestações do povo libertadado, até o dia da esperada notícia.

Após confirmada a libertação, os brasileiros, assim como todos os libertadores, queriam desfrutar sua glória, mas a realidade era bem diferente.

No Livro “A Casa das Laranjas” (2009) Moura e um Sargento queriam se despedir da população que libertaram, mas os camponeses não foram receptivos.



“Moura resolveu dar uma passada por Riola e despedir-se de Ida. Não teve dificuldades em desgarrar do comboio que cortava a Itália de norte a sul. Estava acompanhado de um sargento que também tinha seus motivos para voltar ao Vale do Reno. Após horas de estrada, já de noite, chegavam próximo a Porretta, onde pretendiam dormir. 

Avistaram, em meio ao campo, um casarão iluminado de onde vinha música. Era algo fascinante após tantos meses de blecaute, em que as noites eram tristes e o silêncio interrompido apenas por explosões.

Não foi necessário acordo. Seguiram decididos ao que parecia ser diversão garantida. Pararam o jipe, saltaram e entraram timidamente ao amplo galpão, onde corria um animado baile de camponeses. Foram logo notados e os olhares não eram receptivos. Ficaram em um canto, achando que seriam tolerados e acabariam por entrosar-se. 

Mas as primeiras palavras que lhes dirigiam, ainda não compreensíveis no sentido exato, eram de evidente animosidade. Às palavras seguiram-se gestos, ainda mais inequívocos, para que fossem embora. Aqueles contandini, tão gentis em outras ocasiões, os olhavam com ódio. A guerra acabara e os liberatori de ontem não eram bem-vindos, pois já faziam parte de um passado que todos queriam esquecer.

Eram homens fardados a quem muitos daqueles pais tinham vendido a honra de suas filhas em troca de rações de alimento. Não tinham lugar no retorno a uma vida digna. (Faria, 2009, p. 214-215)

Porém, após alguns dias passados do Dia da Vitória, o povo italiano, que tanto sofreu durante os anos de ocupação, passou a ver os brasileiros como seus libertadores e demonstrar-lhes algum tipo de respeito e gratidão, como nos relata o veterano da FEB, Victório Nalesso em seu Livro “Diário de um Combatente”, 2005, p. 131.

“Pois bem, terminadas as festividades da Vitória, voltamos para o nosso acampamento. Lá ficamos sabendo que no dia seguinte haveria uma missa campal promovida e coordenada por autoridades religiosas, padres católicos brasileiros e italianos.

Todos os preparativos dessa grande cerimônia ficaram por conta da comunidade religiosa italiana. Lembro-me ainda que após a missa, centenas de meninos e meninas traziam buquês de flores brancas. Em ordem, as mesmas faziam entregas dessas flores aos soldados brasileiros debaixo de músicas e hinos executadas por um coral de muitas vozes.

A emoção foi tão forte, que chorei no momento em que uma menina entregou-me o buquê de flores e me abraçou.

Logo após a notícia do fim da guerra chegar aos ouvidos dos brasileiros, todos ficaram com um sentimento de que aquilo tudo poderia ser mentira, um engano ou ainda, uma piada de mal gosto, mas com os boatos crescendo, eram impossível não crer na vitória.

Dificil mesmo era fazer boa parte dos combatentes alemães desgarrados, esfarrapados, desarmados e abandonados por seus superiores acreditarem nisso, pois com a notícia, muitos não sabiam o que fazer, nem pra onde ir.

Até um coronel alemão, em dado momento ficou em dúvida sem aquilo era mesmo o fim da guerra, como nos mostra Joel Silveira em seu livro “O inverno da Guerra”, 2005, p. 170.



“Foi então que começou a cair uma chuvinha rala e fria – e também absolutamente neutra, pois molhava a todos nós, vencedores e vencidos. Imperturbavelmente, um coronel alemão, de nome Gunther Habecker, continuou como estava. Mas um sargento alemão, ao vê-lo exposto à chuva que engrossava, gritou qualquer coisa em alemão.

Logo um velho soldado destacou-se do resto do batalhão, trazendo um guarda-chuva. O sargento arrancou-o das mãos do soldado, pulou para o assento de trás do pequeno carro do coronel e abriu sobre sua cabeça.

O coronel Gunther, comandante de Artilharia. repetiu um conhecido gesto, erguendo a mão que segurava a luva de couro, e o seu carro pôs-se novamente em movimento. Ao roçar nosso jipe, fez uma espécie de continência, à qual o meu motorista, um enfezado e exausto terceiro-sargento, respondeu com um sonoro palavrão em português.”

“Não havia dúvida: a guerra tinha acabado, definitivamente. Tudo indicava isso: o prosaico guarda-chuva aberto sobre a cabeça do coronel alemão, sua continência vaga (mais cumprimento do que continência) e o indisciplinado palavrão do meu sargento – não restava dúvida: tais demonstrações tão à margem da ordem castrense eram a prova definitiva, a que me faltava, de que de fato A GUERRA CHEGARA AO FIM.”

Para nós, brasileiros, o Dia da Vitória, que é lembrado por uma minoria vergonhosa da população, com notas de 30 segundos em jornais, serve para não esquecermos que um dia cerca de 25.000 homens enfrentaram toda sorte de dificuldades, como o adestramento diminuto, armamentos precários, a falta de experiência em oposição a um inimigo calejado de batalhas, um terreno adverso e severas condições climáticas.

Esses homens lutaram contra a intolerância, contra a opressão, contra o totalitarismo escravista e a discriminação racial.

Devemos a esses homens, a vitória da liberdade, da democracia e da paz, conquistada e embebida em sangue de bravos brasileiros, que defenderam nossa honra e soberania com sua coragem, seus valores e seu patriotismo.

Se você conhece um veterano combatente, olhe-o nos olhos e diga-lhe “muito obrigado”. Ele certamente saberá do que você está falando.

Fonte: Portal FEB

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Conheça a cirurgiã de livros de Porto Alegre



Sílvia Breitsameter sentiu o peso da história quando viu em sua frente os rabiscos originais das obras de um de seus escritores favoritos, Erico Verissimo.

Em um instante, viajou para a primeira metade do século passado, onde pôde ver que o autor, que imaginara sério, era na verdade um engraçadinho.

Nos rascunhos de Fantoches, livro de contos lançado em 1932, ele destacou um trecho em que os protagonistas formam um triângulo amoroso e, em um cantinho, escreveu, à caneta e em letra cursiva: “O eterno triângulo, que nos tempos que correm está se transformando em polígono”.

Tocar neste pedacinho de relíquia, hoje envidraçada no acervo permanente do Centro Cultural Erico Verissimo, em Porto Alegre, não é para qualquer um. Sílvia teve esse privilégio porque exerce uma profissão que, por muitos — mas não por ela —, é enquadrada na categoria “em extinção”. Há 38 anos, ela é restauradora de livros.

— Sentir a personalidade do artista por meio de seus manuscritos e ver as dúvidas que ele tinha quando decide substituir uma palavra por outra é algo muito emocionante — diz Silvia, 55 anos.

Ela foi a responsável por limpar a sujidade (termo técnico para a famosa sujeira), recuperar os fragmentos rasgados, neutralizar a acidez do papel quebradiço e reforçar a costura das brochuras de Erico, em um trabalho cheio de minúcia e cuidado. 

Embora alguns exemplares cheguem às suas mãos mais parecendo um quebra-cabeças, um lema rege o conserto: invadir a obra o menos possível ou, sob outro ponto de vista, salvaguardar o original ao máximo.

Para isso, nada de materiais permanentes. Fotografias esgualepadas, outra demanda frequente em seu laboratório, ela restaura utilizando guache, uma tinta removível. Caso surja alguma técnica melhor no futuro, é possível retirar a pintura e aplicar algo mais adequado.

— Afinal, não fui eu quem fez a obra, mas me empenho em entregá-la mais bonita do que quando chegou — diz Silvia, especialista em Conservação e Restauração de Papel Couro e Pergaminho, pela Academia Europeia de Florença, na Itália, e professora desta mesma matéria na sua oficina, a Livro e Arte.

Sílvia é mesmo parte de um grupo seleto. Na Associação Brasileira de Encadernação e Restauro (Aber), à qual é credenciada, são apenas 95 membros ativos — em 28 anos, nunca passou de cem.

A raridade de profissionais dá ao ofício ares de distinção. Quem mais poderia ter acesso, de pertinho, a gravuras originais de Dom Quixote, datadas de 1856, ou a exemplares do jornal O Noticiador, um dos pioneiros da imprensa gaúcha, que descrevia as sagas da Revolução Farroupilha?

Seria bom se desse tempo de ler tudo. Frente à tentação, Sílvia implementou uma metodologia curiosa na rotina da oficina: livros e publicações dessa singularidade são restaurados de cabeça para baixo.

— Senão, ninguém trabalha — brinca. — São materiais muito ricos.

Mas riqueza é um conceito relativo. Uma obra não precisa ser de alguém famoso para ter valor.

Livros de coleções particulares e álbuns de fotografia carregam um quê sentimental tão forte que Sílvia se debruça neles como se fossem seus.

No laboratório, há um armário de aço e uma porta corta-fogo para evitar qualquer incidente. 

Repousa na lista de espera, por exemplo, um compilado de atas e documentos históricos de um centro espírita septuagenário de Porto Alegre.

— Não há réplicas. Se aquilo se perde, se perde também a história desse lugar.

Não são só obras amareladas pelo tempo que chegam para o hospital de Sílvia. Tem bastante coisa nova que o cachorro comeu, que o bebê rasgou, que alguém deixou cair na lama.

Um cliente, por exemplo, teve toda sua biblioteca inundada durante uma enchente. Nesses casos, o material vai direto para o pronto-socorro.

Os reparos mais urgentes doem em Sílvia porque não há outra alternativa senão apelar aos produtos químicos. E quando aplicam-se os químicos, diz ela, a originalidade da obra se esvai um bocado. Mas, pelo menos, fica livre das doenças que não puderam ser saradas com trincha ou pincel.

Sílvia tinha 17 anos quando descobriu sua vocação. Fazia um curso de secretariado no Colégio Comercial Protásio Alves e estagiava no Instituto Estadual do Livro. No dia 23 de abril de 1977, participou, por acaso, de uma reportagem — de Zero Hora, aliás — sobre encadernação e restauração. Pronto. Apaixonou-se. Da paixão, a vontade incansável de requintar a técnica. 



O currículo da profissional é um sem-fim de cursos de aperfeiçoamento, desde preservação em papel até limpeza de superfícies, passando por encadernação flexível em pergaminhos de obras raras e tratamento de documentos em tinta ferrogálica (óxido de ferro + galha). 

Constaria, se existisse, um curso sobre recuperação de ingressos antigos. Como não há, Sílvia adaptou o que sabia para reconstituir o tíquete da inauguração do Beira-Rio, em 1969, a pedido de um rapaz que queria dar um presente ao pai.

O trabalho dela garantiu um momento de felicidade em família — algo do que se orgulha.

Para multiplicar o conhecimento, Sílvia ensina o que sabe para 27 alunos, que se dividem em três turmas. Tem seis funcionários que a ajudam a cumprir a demanda — atualmente, 50 materiais diferentes estão aguardando atendimento.

Leva, em média, 40 dias para entregar a obra pronta ao cliente.

O custo varia conforme o nível de estrago e o número de páginas. Para um senhor que chegou ao laboratório pedindo orçamento para um livrinho de família, amareladíssimo porém inteiro, cobrou R$ 35.

Mas há obras cujo valor de recuperação alcança os quatro dígitos.

Para qualquer caso, o procedimento é o mesmo: primeiro, a ficha técnica; depois, bisturi para alavancar as sujeirinhas, trincha para varrê-las e químicos, se necessário (descolar durex sem danificar a folha, por exemplo, só é possível com um líquido chamado xilol). 

Preferencialmente de luvas, para não engordurar as folhas. Nos tempos em que se discute a digitalização de tudo, estaria o ofício de Sílvia correndo risco de acabar? 

Ela responde puxando um Umberto Eco da estante. Título: Não Contem com o Fim do Livro.

— Não é porque veio o aspirador de pó que a vassoura vai deixar de ser usada. A tecnologia é maravilhosa para pesquisar, mas não para ler. Com um livro, não há risco de acabar a bateria ou dar pane e ter de resetar. 

O dedo é suficiente para virar a página e o cérebro é o nosso HD. Fora que os e-readers não têm aquele cheiro maravilhoso de livro. É um cheiro afetivo — opina a cirurgiã dos livros.



Matéria publicada no jornal Diário Gaúcho, pela jornalista Luísa Martins no dia 30/04/2015
Foto: Júlio Cordeiro/Agência RBS