segunda-feira, 4 de maio de 2015

Conheça a cirurgiã de livros de Porto Alegre



Sílvia Breitsameter sentiu o peso da história quando viu em sua frente os rabiscos originais das obras de um de seus escritores favoritos, Erico Verissimo.

Em um instante, viajou para a primeira metade do século passado, onde pôde ver que o autor, que imaginara sério, era na verdade um engraçadinho.

Nos rascunhos de Fantoches, livro de contos lançado em 1932, ele destacou um trecho em que os protagonistas formam um triângulo amoroso e, em um cantinho, escreveu, à caneta e em letra cursiva: “O eterno triângulo, que nos tempos que correm está se transformando em polígono”.

Tocar neste pedacinho de relíquia, hoje envidraçada no acervo permanente do Centro Cultural Erico Verissimo, em Porto Alegre, não é para qualquer um. Sílvia teve esse privilégio porque exerce uma profissão que, por muitos — mas não por ela —, é enquadrada na categoria “em extinção”. Há 38 anos, ela é restauradora de livros.

— Sentir a personalidade do artista por meio de seus manuscritos e ver as dúvidas que ele tinha quando decide substituir uma palavra por outra é algo muito emocionante — diz Silvia, 55 anos.

Ela foi a responsável por limpar a sujidade (termo técnico para a famosa sujeira), recuperar os fragmentos rasgados, neutralizar a acidez do papel quebradiço e reforçar a costura das brochuras de Erico, em um trabalho cheio de minúcia e cuidado. 

Embora alguns exemplares cheguem às suas mãos mais parecendo um quebra-cabeças, um lema rege o conserto: invadir a obra o menos possível ou, sob outro ponto de vista, salvaguardar o original ao máximo.

Para isso, nada de materiais permanentes. Fotografias esgualepadas, outra demanda frequente em seu laboratório, ela restaura utilizando guache, uma tinta removível. Caso surja alguma técnica melhor no futuro, é possível retirar a pintura e aplicar algo mais adequado.

— Afinal, não fui eu quem fez a obra, mas me empenho em entregá-la mais bonita do que quando chegou — diz Silvia, especialista em Conservação e Restauração de Papel Couro e Pergaminho, pela Academia Europeia de Florença, na Itália, e professora desta mesma matéria na sua oficina, a Livro e Arte.

Sílvia é mesmo parte de um grupo seleto. Na Associação Brasileira de Encadernação e Restauro (Aber), à qual é credenciada, são apenas 95 membros ativos — em 28 anos, nunca passou de cem.

A raridade de profissionais dá ao ofício ares de distinção. Quem mais poderia ter acesso, de pertinho, a gravuras originais de Dom Quixote, datadas de 1856, ou a exemplares do jornal O Noticiador, um dos pioneiros da imprensa gaúcha, que descrevia as sagas da Revolução Farroupilha?

Seria bom se desse tempo de ler tudo. Frente à tentação, Sílvia implementou uma metodologia curiosa na rotina da oficina: livros e publicações dessa singularidade são restaurados de cabeça para baixo.

— Senão, ninguém trabalha — brinca. — São materiais muito ricos.

Mas riqueza é um conceito relativo. Uma obra não precisa ser de alguém famoso para ter valor.

Livros de coleções particulares e álbuns de fotografia carregam um quê sentimental tão forte que Sílvia se debruça neles como se fossem seus.

No laboratório, há um armário de aço e uma porta corta-fogo para evitar qualquer incidente. 

Repousa na lista de espera, por exemplo, um compilado de atas e documentos históricos de um centro espírita septuagenário de Porto Alegre.

— Não há réplicas. Se aquilo se perde, se perde também a história desse lugar.

Não são só obras amareladas pelo tempo que chegam para o hospital de Sílvia. Tem bastante coisa nova que o cachorro comeu, que o bebê rasgou, que alguém deixou cair na lama.

Um cliente, por exemplo, teve toda sua biblioteca inundada durante uma enchente. Nesses casos, o material vai direto para o pronto-socorro.

Os reparos mais urgentes doem em Sílvia porque não há outra alternativa senão apelar aos produtos químicos. E quando aplicam-se os químicos, diz ela, a originalidade da obra se esvai um bocado. Mas, pelo menos, fica livre das doenças que não puderam ser saradas com trincha ou pincel.

Sílvia tinha 17 anos quando descobriu sua vocação. Fazia um curso de secretariado no Colégio Comercial Protásio Alves e estagiava no Instituto Estadual do Livro. No dia 23 de abril de 1977, participou, por acaso, de uma reportagem — de Zero Hora, aliás — sobre encadernação e restauração. Pronto. Apaixonou-se. Da paixão, a vontade incansável de requintar a técnica. 



O currículo da profissional é um sem-fim de cursos de aperfeiçoamento, desde preservação em papel até limpeza de superfícies, passando por encadernação flexível em pergaminhos de obras raras e tratamento de documentos em tinta ferrogálica (óxido de ferro + galha). 

Constaria, se existisse, um curso sobre recuperação de ingressos antigos. Como não há, Sílvia adaptou o que sabia para reconstituir o tíquete da inauguração do Beira-Rio, em 1969, a pedido de um rapaz que queria dar um presente ao pai.

O trabalho dela garantiu um momento de felicidade em família — algo do que se orgulha.

Para multiplicar o conhecimento, Sílvia ensina o que sabe para 27 alunos, que se dividem em três turmas. Tem seis funcionários que a ajudam a cumprir a demanda — atualmente, 50 materiais diferentes estão aguardando atendimento.

Leva, em média, 40 dias para entregar a obra pronta ao cliente.

O custo varia conforme o nível de estrago e o número de páginas. Para um senhor que chegou ao laboratório pedindo orçamento para um livrinho de família, amareladíssimo porém inteiro, cobrou R$ 35.

Mas há obras cujo valor de recuperação alcança os quatro dígitos.

Para qualquer caso, o procedimento é o mesmo: primeiro, a ficha técnica; depois, bisturi para alavancar as sujeirinhas, trincha para varrê-las e químicos, se necessário (descolar durex sem danificar a folha, por exemplo, só é possível com um líquido chamado xilol). 

Preferencialmente de luvas, para não engordurar as folhas. Nos tempos em que se discute a digitalização de tudo, estaria o ofício de Sílvia correndo risco de acabar? 

Ela responde puxando um Umberto Eco da estante. Título: Não Contem com o Fim do Livro.

— Não é porque veio o aspirador de pó que a vassoura vai deixar de ser usada. A tecnologia é maravilhosa para pesquisar, mas não para ler. Com um livro, não há risco de acabar a bateria ou dar pane e ter de resetar. 

O dedo é suficiente para virar a página e o cérebro é o nosso HD. Fora que os e-readers não têm aquele cheiro maravilhoso de livro. É um cheiro afetivo — opina a cirurgiã dos livros.



Matéria publicada no jornal Diário Gaúcho, pela jornalista Luísa Martins no dia 30/04/2015
Foto: Júlio Cordeiro/Agência RBS

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