quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cultura do best seller e falta de livrarias restringem acesso à leitura

Finalmente enxergamos que é preciso regulamentar os mercados livreiro e editorial. É chegada a hora de tratarmos o livro não como uma simples mercadoria, mas sim como patrimônio cultural de uma nação. 

Enfim, o mercado percebeu que ter o comércio de livros nas mãos de poucos é extremamente comprometedor para a nossa rica bibliodiversidade e é um complicador para a nossa cultura.

A bibliodiversidade é uma preocupação do mercado livreiro com a formação do leitor. Trata-se de colocar à disposição uma maior variedade de títulos. Os grandes grupos editoriais e livreiros apostam na cultura do best seller. 

É claro que esses lançamentos mantêm muitas vezes o faturamento das livrarias, mas é necessário preocupar-se com a qualidade editorial e com a formação do leitor, que se dá por meio de bons livros clássicos.

Esses clássicos têm sido preteridos em virtude de terem um apelo comercial supostamente menor. A circulação dessas obras acaba sendo, de certa forma, esquecida, deixada de lado, para se priorizar as atualidades. 

Outra ameaça à bibliodiversidade é justamente a perda dos fundos de catálogo, os chamados de “cauda longa”. Esses não têm vendagem tão expressiva, mas são importantes e muitos estão esgotados, porque não há interesse de colocar em circulação livros com baixa vendagem.

Há mais de 10 anos a ANL defende a moralização do mercado livreiro brasileiro, indo muito além de estabelecer a Lei do Preço Fixo. Entendemos que a atuação do livreiro como agente literário pode contribuir muito para que possamos melhorar nossos precários índices de leitura. 

Para isto, é fundamental que todos que participam da cadeia produtiva, criativa e mediadora do livro valorizem a livraria do seu bairro, da sua cidade, e enxerguem nelas a possibilidade de formar novos leitores.

Não se pode negar, ainda, o avanço social por que passa o nosso país, a diminuição da desigualdade e o aumento da escolaridade, com acesso ao ensino em todos os níveis. 

Como complemento a essa ascensão cultural que vive o país, é necessário facilitar o acesso ao livro e à leitura, e faltam livrarias para esse público. Infelizmente, com a concentração de mercado e as restrições que as editoras impõem às pequenas e médias livrarias, o acesso ao livro e à leitura fica restrito às grandes superfícies.

Levantamento realizado pela ANL (Associação Nacional de Livrarias) constata um enorme deficit de livrarias no Brasil. Temos uma média de 1 livraria para 65 mil habitantes, sendo que o recomendado pela Unesco é de 1 livraria para 10 mil habitantes. A falta de livrarias nos mais diversos rincões de nosso país desestimula a leitura.

Por mais que queiramos investir e acreditar no mercado do livro digital, é na loja física que o livreiro consegue manter o seu negócio. É um mercado promissor. 

Desde que as regras do jogo sejam seguidas e respeitadas, podemos competir de forma justa. Isto é, o autor materializa sua ideia, a editora transforma em edição, a distribuidora abastece o mercado e o livreiro atende o leitor.

Como afirmado por alguns especialistas do setor, não basta a Lei do Preço Fixo para manter o setor saudável e equilibrado. É preciso que algumas práticas nocivas ao livreiro, principalmente de pequeno e médio porte, sejam revistas nas transações comercias.

Para implementação e um pacto pela leitura, é necessário vontade e valorizar parcerias entre editoras, distribuidores e livrarias.

Texto de autoria de Ednilson Xavier,

Um comentário:

Edison Junior disse...

Caro Marcello,

Falando estritamente do ponto de vista de um leitor e consumidor de livros relativamente voraz, acho difícil que as pequenas livrarias sobrevivam nesse contexto. Livros, independentemente de sua qualidade literária, podem ser encontrados em bancas de jornais, padarias, farmácias, postos de gasolina etc. Isso para não mencionar as mega stores e, claro, a internet.

Em todos impera a obviedade dos best sellers, religiosos e auto-ajudas da vida. Mesmo nas mega stores, lá estão eles entre os livros em destaque. É difícil encontrar uma em que um vendedor que realmente entenda do assunto lhe apresente algo novo, diferente, que esteja em uma estante escondida. Alguns vendedores não parecem ser capazes de ler mais do que 140 caracteres, que dirá um livro. Talvez essa fosse uma coisa que poderia diferenciar uma livraria de bairro das demais, mas não imagino que haja público suficiente para isso, espero estar errado.

Depois de muito relutar, tornei-me há menos de um ano adepto do Kindle. Achava, e ainda acho, muito chato ler textos longos em computador ou mesmo no pesado iPad. Além disso, tinha aquela mística do livro físico, do cheiro, do tato etc. O Kindle (e talvez os outros dispositivos de leitura eletrônicos – não os conheço) não atende a esses requisitos, óbvio, nem se presta para ler livros com ilustrações, mas tem um monte de praticidades no dia a dia que compensam essas faltas. É pequeno, leve, tem luz própria e muitas outras facilidades. Não me abstenho, vez por outra, de comprar um livro “de verdade”, mas vou confessar uma coisa, estou adorando.

Um grande abraço!

Edison