sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Kerschensteiner e a escola do trabalho




Kerschensteiner ensinou em todos os níveis de ensino e exerceu funções públicas de conselheiro escolar da cidade de Munique e real comissário das escolas bávaras. Na Universidade de Munique, foi professor de Teoria da Educação. 

As suas maiores influências pedagógicas foram Pestalozzi e Dewey, embora também tenha tido
grandes afinidades com Eduard Spranger.

"Em Kerschensteiner a teoria brota naturalmente da prática, ou melhor, uma e outra estão em intercâmbio permanente. Sustentava, como o seu mestre Pestalozzi, que todo o ensino deve adaptar-se aos graus de desenvolvimento do espírito, pois a educação verdadeira só se realiza mediante o encontro fecundo de um espírito receptivo com os bens culturais de acordo com o dito espírito".

Kerschensteiner foi um precursor da escola ativa e das escolas profissionais. "A partir da sua nomeação como conselheiro escolar, compreendeu que a reforma solicitada pelo corpo docente das escolas primárias de Munique, não poderia consistir numa simples redução das matérias de ensino, mas sim que devia chegar, também, à organização dos próprios conhecimentos, para que estes servissem com o meio educativo. Desde aí, a educação passou a ser o centro das suas preocupações reformadoras. Para que a escola de aperfeiçoamento exercesse uma influência realmente educativa,
introduziu nela o trabalho manual.

A sua originalidade consistiu em ter utilizado os interesses práticos da juventude como ponto de partida da educação e ter procurado estabelecer um laço estreito entre o ensino teórico e os exercícios práticos". Ao pedagogo alemão faltava suficiente cultura filosófica para poder desenvolver uma teoria da educação original, pelo que se deixou influenciar pela teoria de Eduard Spranger.

A finalidade da educação é a formação do espírito, daí que deve preocupar-se com a interiorização de uma pluralidade de valores: "cada um de nós, de acordo com a sua individualidade e no seio da comunidade a que pertence, experimenta por conta própria, no curso do seu desenvolvimento, os valores espirituais adequados aos bens culturais e pessoais da dita comunidade. A educação como ato da comunidade cultural, tem por objeto a formação do ser espiritual do indivíduo e pretende realizar nele os valores espirituais imanentes na comunidade.

Ao contrário da criação artística, a educação nunca é um assunto exclusivo do educador, mas é em igual grau um assunto do próprio ser em formação. Requer que os valores espirituais constituam o centro do ser.

Existe uma pluralidade infinita de valores cujas relações são com frequência contraditórias: valores sensíveis e valores espirituais, valores pessoais, individuais e valores tradicionais da comunidade, valores objetivos e subjetivos, para assinalar apenas alguns grupos antitéticos.

A verdadeira cultura consiste precisamente em criar em si mesmo a harmonia e a unidade entre valores múltiplos e diversos. Esta unidade realizada num indivíduo constitui a sua personalidade.

Esta é o valor mais elevado, o bem maior que o homem pode adquirir no decurso do seu
desenvolvimento". O desenvolvimento espiritual do aluno deve conduzir à formação de uma pessoa autônoma.

Como o poderá fazer? O professor precisa de respeitar os interesses do aluno, mas deve fazer-se uma distinção entre os interesses imediatos e os interesses imediatos. O interesse suscitado por um objeto que se toma como meio para alcançar um fim é um interesse imediato. Os interesse imediatos são os que são considerados em si mesmos, sem estabelecerem relação alguma com os fins a que se destinam. São, por exemplo, os jogos e os trabalhos manuais. "Todo o interesse mediato é suscetível de se transformar em interesse imediato e vice-versa.

Por exemplo, alguém que se interessa por certos campos da matemática, porque os ditos conhecimentos são necessários para resolver problemas de física (interesse mediato). Pode ser que esse estudo o satisfaça até ao ponto em que as matemáticas se convertem, pouco a pouco, para essa pessoa num centro de interesse em si e que se consagre, de ora em diante, a ele pelo prazer que encontra na exatidão e perfeição dessa ciência (centroimediato)".

O pedagogo alemão divide o desenvolvimento humano em quatro fases:

  1. Fase da primeira infância, durante os dois primeiros anos de vida, nos quais a criança age por impulsos, procurando a satisfação imediata dos seus instintos; é uma fase que dá a primazia aos valores vegetativos. 
  2. Fase da segunda infância ou idade do jogo, que vai dos três aos sete anos, na qual os instintos e as sensações se associam às percepções e representações; a vontade manifesta-se em forma de atividades, de acordo com as inclinações; começa a despertar a consciências das finalidades e objetivos.
  3. Fase dos interesses egocêntricos do trabalho, que vai dos oito anos aos catorze anos, na qual há uma procura intencional de realizações de ordem prática, manifesta na produção de objetos e na realização de atividades produtivas; começa a desenvolver-se a atividade reflexiva e começam a nascer alguns interesses espirituais. 
  4. Fase dos interesses objetivos do trabalho ou idade da adolescência e da maturidade, que vai dos quinze anos em diante, na qual se começa a desenvolver um sistema de valores e se começa a alcançar a autonomia; nesta fase, começa a tomar forma a vocação e o desejo de alcançar uma profissão.
Os bens culturais são a objetivação do espírito humano e, por isso, têm um grande valor formativo. 


A ação pedagógica visa ajudar a penetrar os bens culturais no espírito e na personalidade do aluno.

"De acordo com a noção de cultura, o fim último do ensino não pode ser a pura transmissão dos conhecimentos, mas sim o desenvolvimento do sentido dos valores. Além disso, todo o sistema de ensino se revela defeituoso se apenas se interessar com bens culturais, teóricos e estéticos, esquecendo o bem cultural social da comunidade, dos seus valores éticos e religiosos.

As comunidades de valores são sempre comunidades de trabalho. Por conseguinte, a escola deve organizar-se, na medida do possível, como comunidade de trabalho, onde mestres e alunos estão unidos para realizar uma obra comum".

A pedagogia de Kerschensteiner encara a educação numa perspectiva global e ampla, já que inclui os museus, as associações culturais, os teatros, os jornais, as revistas, o cinema e a rádio, a par das escolas, entre as instituições educativas. Todas as instituições da primeira categoria podem ter um valor educativo. Mas, podem não tomar em consideração esse valor.

Por exemplo, um museu pode converter-se em lugar educativo e pode também não ser mais do que um depósito de erudição ou um gabinete de curiosidades. O mesmo acontece com as escolas: quando os alunos não aprendem, aquelas não estão a cumprir a sua finalidade educativa. O pedagogo alemão estabelece a distinção entre as escolas de cultura geral e as escolas profissionais.

Ambas são necessárias e têm valor educativo, mas visam objetivos diferentes: as primeiras destinam-se a formar trabalhadores intelectuais e as segundas a formarem os diversos profissionais necessários à sociedade.

O pedagogo alemão critica aqueles que separam a educação da instrução. O professor não é apenas um especialista de um determinado ramo do saber, mas também um formador, um educador interessado em ajudar a desenvolver a personalidade do educando.

A ação pedagógica é um ato de compreensão, um ato de amor, um ato espiritual e um ato teórico. Ao professor são necessários certos requisitos psicológicos: simpatia, finura de sentimentos, alegria, entusiasmo e capacidade de observação e dediagnóstico.

Os princípios gerais da educação defendidos pelo pedagogo alemão são sete:

  1. Princípio da totalidade: primazia á constituição global da personalidade do aluno e à formação integral. 
  2. Princípio da atualidade: organizar a ação pedagógica de maneira a satisfazer o sistema axiológico e teleológico de cada fase de desenvolvimento do aluno. 
  3. Princípio da autoridade: desenvolver a obediência heterónoma até que o aluno tenha maturidade para aceitar uma obediência autônoma; exercer a autoridade no respeito pela pessoa. 
  4. Princípio da liberdade: deixar o aluno escolher os meios para atingir os fins. 
  5. Princípio da atividade: envolver ativamente a mente do aluno nas tarefas de aprendizagem. 
  6. Princípio da sociabilidade: equilibrar a autonomia pessoal com os interesses da comunidade. 
  7. Princípio da individualidade: respeitar as diferenças, os ritmos e os interesses dos alunos.

Referência bibliográfica: 

Savioz, R. (1992). "Georg Kerschensteiner", in Jean Château. Los
Grandes Pedagogos. México: Fondo de Cultura Económica, p.231

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