segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Hildegard von Bingen







Hildegard von Bingen (Bermersheim vor der Höhe, verão de 1098 — Mosteiro de Rupertsberg, 17 de setembro de 1179), foi uma monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora alemã e mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha.

Foi proclamada pelo Papa Bento XVI, em carta apostólica de 7 de outubro de 2012, Doutora da Igreja Universal.

Personalidade muito citada mas de fato pouco conhecida pelo grande público moderno, rompendo as barreiras dos preconceitos contra as mulheres que existiam em seu tempo, se tornou respeitada como uma autoridade em assuntos teológicos, louvada por seus contemporâneos em altos termos.

Hoje é considerada uma das figuras mais singulares e importantes do século XII europeu, e suas conquistas têm poucos paralelos mesmo entre os homens mais ilustres e eruditos de sua geração.

Seus vários e extensos escritos mostram que ela possuía uma concepção mística e integrada do universo, ainda que essa concepção não excluísse o realismo e encontrasse no mundo muitos problemas. A solução para eles, de acordo com suas ideias, devia advir de uma união cooperativa e harmoniosa entre corpo e espírito, entre natureza, vontade humana e graça divina.

Mas não tentou inaugurar uma nova corrente de pensamento religioso; sempre permaneceu fiel à ortodoxia do Catolicismo, e combateu as heresias e a corrupção do clero.

Fólio 0317 recto do Riesencodex, com a primeira página da Vita Sanctae Hildegardis.

Quis acima de tudo desvelar para seus semelhantes os mistérios da religião, do cosmos, do homem e da natureza. Para ela o universo era a resposta para as dúvidas da humanidade, e a humanidade era a resposta para o enigma do universo. Mas, como ela escreveu, se a humanidade não fizesse a pergunta, o Espírito Santo não poderia respondê-la.

Foi a primeira de uma longa série de mulheres influentes tanto na religião como na política, e um representante típico da aristocracia cultural beneditina. Orgulhosa de pertencer a uma elite social e espiritual, mostrou-se no entanto humilde e submissa a Deus.

Além de mística, teóloga e pregadora, foi poetisa e compositora talentosa, deixando obra de vulto e original. Também fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias doenças.

Seus primeiros biógrafos a mencionaram como santa e lhe atribuíram alguns milagres, em vida e logo após a sua morte. Abriu-se um processo de canonização, mas sua causa parou na beatificação.

Entretanto, em 1584, sem cerimônia oficial, seu nome foi incluído no Martirológio Romano como santa. Em 2012 o papa Bento XVI reafirmou oficialmente sua santidade e a proclamou Doutora da Igreja. Seu dia é festejado em muitas dioceses alemãs.

Depois de um longo período de obscuridade, sua vida e obra vêm recebendo atenção crescente desde a segunda metade do século XX; seus escritos começaram a ser traduzidos para várias línguas, muitos livros e ensaios já lhe foram dedicados e foram feitas diversas gravações com sua música.

Retrato de Hildegarda no Liber scivias Domini

Fontes documentais primitivas


A principal fonte de informação sobre sua vida é a biografia que foi escrita por seu secretário, o monge Gottfried, Vita Sanctae Hildegardis, mas quando ele morreu, em 1176, deixou a obra inacabada.

Somente uma década mais tarde o monge Theoderic, de Echternach, retomou o trabalho, escrevendo mais dois volumes e provendo um prefácio. Embora Gottfried tenha vivido em contato direto com Hildegarda e conhecido muito de sua vida, informações essenciais não foram incluídas no seu livro, nem mesmo o lugar e a data de nascimento foram indicados. 

Além disso, seu relato é convencionalmente laudatório, mas por outro lado transcreveu boa parte da correspondência de Hildegarda. A contribuição de Theoderic foi também importante porque ele usou longas passagens autobiográficas de material autógrafo que mais tarde foi perdido.

Mas como toda hagiografia daquela época, seus autores não se propuseram a oferecer uma narração "objetiva" de sua carreira - o propósito primário foi o de mostrá-la ao mundo como uma sábia, uma profetisa e uma santa, encontrando para todos os seus atos uma justificação sobrenatural e uma inspiração divina, e advogando claramente sua canonização oficial.

Outra fonte de suma importância é a sua própria correspondência, e os prefácios que escreveu para seus livros, onde muitas vezes deu detalhes de como, quando e onde foram escritos. 

Uma outra biografia, também incompleta, foi deixada pelo monge Guibert de Gembloux, o último secretário de Hildegarda, e sobrevivem ainda alguns documentos eclesiásticos e algumas crônicas posteriores do próprio mosteiro, que acrescentam dados úteis, como a Acta Inquisitionis, elaborada pela Igreja quando as monjas de Rupertsberg pleitearam sua canonização.

 



Recentemente foi descoberta a biografia sobre Jutta, sua mestra, mas se dá um painel interessante sobre o contexto cultural da época e sobre os primeiros anos de Hildegarda, a cronologia que apresenta não concorda com a maioria das outras fontes conhecidas.

Embora com algumas perdas, o principal de sua produção foi preservado e chegou aos dias de hoje. Sobrevivem dez manuscritos integrais do Scivias, cinco do Liber vitae meritorum, cinco do Liber divinorum operum, três do Physica, um do Causae et curae, e dezenove com um número variado de suas cartas, além de um grande número de trechos citados em obras alheias e fragmentos diversos, mas o mais importante é o Riesencodex, conservado na Biblioteca Estatal de Hesse, na Alemanha, com sua obra quase completa, excluindo o tratado sobre ciência natural. 

Foi considerado em sua época como a versão definitiva de seus escritos. Não deve ter sido concluído no período de sua vida, mas com toda probabilidade foi uma edição iniciada por ela mesma, e executada por um grupo de assistentes anônimos de Rupertsberg. 

Foi escrito como volumes separados, que entre os séculos XV e XVI foram reunidos em um só códice com 481 fólios, pesando 15 kg.




Ideias gerais e posição histórica

Seus escritos evidenciam que ela tinha um profundo interesse pela natureza e pela história do mundo.

Para ela a Criação e a vida eram essencialmente boas e santas, mas procurava em tudo um significado dentro do drama da Salvação universal e uma utilidade prática para a melhoria da vida na Terra como um todo.

Contudo, se torna difícil para a pesquisa moderna interpretar muito de seus textos em virtude de sua densa rede de simbolismos, alegorias e metáforas, mas essa mesma complexidade e riqueza é um dos motivos de tanto interesse atual sobre seu pensamento. Segundo Jane Duran, a metafísica de Hildegarda evoluiu de modo a formar um conceito integrado sobre o que significa ser Humano no contexto da Criação divina, através de um diálogo entre o vitalismo monista, tipificado na sua concepção abrangente e unificada da origem, estrutura e destino do cosmos, e o dualismo, expresso em sua constante preocupação com a luta entre o bem e o mal.

Tentou mostrar que o homem desempenha um papel de grande relevo na ordem do mundo, mas enfatizou sua união essencial e indissolúvel com o restante da natureza. Também reafirmou a primazia absoluta do Criador, o Deus Triuno, como a fonte, essência, substância, justificativa e fim de tudo:

"Deus é quem vive, é quem trabalha, e é quem conhece. Nele todas as coisas têm o potencial da perfeição. Todas as coisas se tornam distintas e perfeitas através daqueles três poderes.... Deus está além da mente e do entendimento de todas as criaturas. Na claridade de seus mistérios e segredos Ele provê para tudo e governa sobre todos, assim como a cabeça governa todo o corpo".




Sua cosmologia incluía ainda outras entidades em uma ordenação hierarquizada, como os anjos e diversas outras que descreveu em suas visões, e incluía nesta ordem as virtudes em abstrato, o que de certa forma a aproximava da concepção platônica das ideias, que em sua época estava sendo redescoberta através dos escritos do Pseudo-Dionísio e de Escoto Erígena.

Sua concepção da anatomia esotérica do ser humano derivava em parte da filosofia clássica, ao vê-lo composto por proporções específicas dos quatro elementos, mas a herança cristã, predominante, se tornava evidente na aceitação da ortodoxia católica em todos os aspectos fundamentais.

A forma humana era a forma por excelência da Encarnação do Verbo divino; assim os homens eram verdadeiras encarnações divinas, compostos por alma e corpo numa união originalmente harmoniosa e pura - Adão e Eva -, e ainda que descrevesse a alma presentemente como caída, continuava poderosa e podia ser redimida pela graça de Cristo e pelo exercício das virtudes, e enfim voltar voluntária e conscientemente para sua origem sublime. 

Criatura dúplice, ao mesmo tempo fraco e forte, augusto e deplorável, mortal e imortal, o homem de qualquer forma ocupava para ela o lugar mais destacado na estrutura do cosmos, espelhando-o em si mesmo e sendo o rei e senhor da natureza. Por isso jamais poderia viver em isolamento e devia trabalhar em prol de tudo ao seu redor, tanto para o bem do mundo como para seu próprio, pois o corolário de sua visão era que tudo fazia parte dele e ele fazia parte de tudo, tudo estava em Deus e Deus estava em tudo através da Encarnação. 

Desse modo, com o uso da razão, da vontade e do senso de responsabilidade de que fora dotado, e com o concurso das outras potências espirituais que Deus depositara em sua alma e que faziam parte da vida e poder do próprio Deus, o homem podia, se quisesse, ser um auxiliar inestimável de seu Criador na realização de todas as potencialidades do universo. 

Porém mais do que uma opção, a colaboração entre homem e Deus era, para Hildegarda, indispensável para que o universo chegasse à sua plena floração (opus per hominem floreat), e não é gratuita a palavra "floração", pois em todos os seus escritos natureza e homem são sempre correlacionados e compartilham também de uma simbologia comum.

A intimidade entre homem e natureza era tanta que, segundo o que escreveu, o comportamento humano era capaz de alterar o meio ambiente, atribuindo a irregularidade do clima ao estado de incessante inquietude humana, pois essa agitação confundia os elementos e os fazia saírem de seus limites, com resultados desastrosos. 

Chegou a dar fala aos elementos naturais, fazendo-os clamar pela justiça divina contra a insensatez humana: "Todos os elementos e todas as criaturas choram em alta voz diante da profanação da natureza e da devoção maligna da humanidade ao seu modo de vida de rebelião contra Deus, enquanto que a natureza irracional cumpre submissa as leis divinas. 

Eis o motivo pelo qual a natureza protesta tão amargamente contra a humanidade", ao que Deus respondia dizendo: "Eu os purgarei com minhas varas e os atormentarei até que voltem para mim.... os ventos terão fedor de putrefação e o ar vomitará tanta sujeira que as pessoas não ousarão sequer abrir suas bocas", e esse quadro soa como uma sombria prefiguração dos problemas ecológicos de hoje.

Antiga abadia onde Hildegarda viveu

Se o mundo físico e seus elementos constituintes estavam para Hildegarda investidos de tanta importância, os meios pelos quais o homem tomava conhecimento do mundo também foram valorizados - seus sentidos corpóreos - a ponto de ela declarar que "somos fortalecidos e conseguimos a salvação de nossas almas através dos cinco sentidos.... podemos conhecer todo o mundo através de nossa visão, entendê-lo através de nossos ouvidos, distinguir as coisas pelo olfato.... dominá-lo com nosso toque, e desse modo chegamos a conhecer o verdadeiro Deus, autor de toda a Criação", o que ressalta o papel central que atribuía à Encarnação no processo de Redenção da humanidade.

Seus escritos mais importantes, os que relatam suas inúmeras visões, não eram inconsistentes com o pensamento corrente de sua época. Apesar do florescimento das universidades e da ciência em geral, a inspiração divina na aquisição do verdadeiro conhecimento era ainda aceita como uma possibilidade real, e de extrema importância quando considerada autêntica, como foi o seu caso.

Todo o conhecimento que acumulou procedeu, segundo sua declaração, da fonte sobrenatural, apesar se valer de muita observação e experimentalismo diretos especialmente quando estudou a medicina e áreas correlatas. O dado mais original em seu pensamento foi sua forte tendência a analisar tudo numa perspectiva holística, e disso deriva o seu grande apelo para os movimentos ecológico, pacifista e naturista modernos.

Ao interligar várias correntes distintas de pensamento em um corpo conceitual bastante integrado, seu trabalho tem afinidade com o de pensadores contemporâneos que não podem ser encaixados facilmente em uma única escola, como Alan Watts e Fritjof Capra. Para Hildegarda não fazia sentido analisar um fenômeno específico isoladamente, mas era essencial ter uma visão do todo e dos múltiplos relacionamentos estabelecidos entre suas partes.

Apesar de Hildegarda ocupar um lugar importante na cultura do século XII, é difícil determinar as fontes teóricas para sua cosmologia e sua exegese. 

Colocando sua força na inspiração divina e dizendo-se iletrada, apenas em poucos casos citou outros autores em seus próprios escritos. Além das fontes óbvias das Escrituras e da literatura patrística produzida entre outros por Santo Agostinho, São Gregório Magno e o venerável Beda, que eram canônicos e largamente conhecidos, tentativas de ligá-la a escritores além destes têm se provado sempre conjeturais, especialmente no que tange aos clássicos e aos apócrifos, mas com muita probabilidade retirou inspiração também da literatura beneditina, dos populares florilégios sobre os santos e de contemporâneos doutos como Bernardo de Claraval e Hugo de São Vitor.

Outros aspectos de sua carreira e obra que têm sido de muito interesse para a atualidade são, em primeiro lugar, o fato de ela ter sido uma mulher respeitada numa sociedade patriarcal misógina que via as mulheres com olhos cheios de preconceito, correspondendo-se em pé de igualdade com papas, altos prelados e autoridades profanas, e conseguindo muito do que quis; e em segundo, o grande papel que atribuía ao feminino na ordem do universo. 

Imagens femininas alegóricas investidas de grande poder abundam em seus textos, como a Fé, a Igreja e a Caridade, mas em especial a figura da Sabedoria, e é significativo que ela se recusasse atribuir a culpa do pecado original a Eva. 

O próprio Deus, em seu tempo invariavelmente considerado uma entidade masculina, é descrito por ela muitas vezes como uma mãe amamentando a Criação e velando por sua progênie. 

Mas é preciso assinalar que essa ênfase no feminino não a levou a uma negação do masculino, nem a um confronto direto com as definições da ortodoxia dogmática do Cristianismo - o que ela parece ter buscado foi uma harmonização entre os opostos, o que também fez parte de uma tendência de seu tempo se lembramos do crescimento então do culto Mariano, do qual ela mesma foi grande devota. 

Em terceiro lugar vem sua abordagem franca da sexualidade humana, analisada tanto sob uma óptica teológica quanto fisiológica, mas também nesse terreno foi cuidadosa, herdando parte da tendência condenatória do desejo e do prazer sensual de seu tempo mas mostrando-os como funções essenciais do corpo e necessárias para o bem-estar humano no estágio evolutivo em que se encontra. 

Finalmente, traçando um painel histórico dos papéis sociais tradicionalmente atribuídos às mulheres - a maternidade ou a vida religiosa - não via nenhum deles como de todo satisfatórios, mas se manteve numa posição ambivalente a esse respeito, com certeza pressionada pelo seu contexto.

Como observou Barbara Newman, sua contribuição foi tão excepcional em se tratando de uma mulher de sua época, que os pesquisadores modernos, com todo seu aparato teórico e instrumental, ainda consideram difícil analisá-la com suficiente objetividade e avaliar sua real importância. 

Alguns a consideram simplesmente uma anomalia bem sucedida; muitos compreensivelmente duvidam da origem divina de seus escritos, mas em geral não se considera imprópria a elevadíssima estima que ela desfrutou entre seus contemporâneos, que a chamaram de "A Sibila do Reno", a "Profetisa dos Teutões" e outros epítetos grandiloquentes, nem se vê como injusto ela ter-se tornado um dos ícones do movimento feminista do século XX. 

É de assinalar algumas de suas conquistas: foi a primeira mulher a ser considerada uma autoridade em assuntos teológicos; a única mulher medieval a quem se concedeu o direito de pregar a doutrina cristã em público; a autora do primeiro auto sacro jamais escrito e o único dramaturgo no século XII que não permaneceu anônimo; a única mulher medieval a ser lembrada como compositora de um extenso e qualificado corpo de obras musicais; o primeiro autor a escrever sobre sexualidade e ginecologia de um ponto de vista feminino, e o primeiro santo a ter uma biografia oficial que inclui trechos autobiográficos. 

Todas essas realizações são extraordinariamente notáveis por ela ter sido uma mulher do século XII, mas não apenas por isso, suas obras em todos os campos a que se dedicou têm um elevado mérito próprio independentemente de seu gênero, e ela foi comparada a sábios seus contemporâneos como Avicena. 

Mas a despeito de em muitos pontos ela ser uma pioneira e uma inovadora, em muitos outros ela manteve uma postura conservadora, às vezes até retrógrada, e somente um estudo contextualizado e detalhado pode trazer à luz onde sua obra foi típica ou atípica, original ou rotineira.

É certo, porém, que seu conservadorismo em tudo o que era essencial ao dogma cristão, face ao poder indisputável da Igreja naquele tempo, foi o que possibilitou sua ascensão a uma posição tão destacada, de onde abriu um caminho para que outras mais tarde lhe seguissem o exemplo sem serem imediatamente silenciadas.

Também é interessante notar que suas ideias sobre as regras e disciplinas monásticas se inseriam numa tradição que em seu tempo já parecia antiquada, diante da emergência de novas formas de religiosidade que enfatizavam a pobreza absoluta em imitação do exemplo evangélico. 

Sua posição a esse respeito ficou clara na polêmica que travou com Tengswich, abadessa de um mosteiro em Andernach, que a havia acusado de receber em sua casa apenas jovens da nobreza e lhes permitir o uso de jóias finas durante a Eucaristia. 

Respondeu ironicamente dizendo que não se devia manter animais de espécies diferentes na mesma gaiola, defendendo o princípio da discriminação de classe, acrescentando que até mesmo os anjos possuíam uma hierarquia e que as monjas deviam sim se vestir como nobres em sua condição de esposas de um rei, Cristo. 

Nesse sentido ela continuava o costume do clero de origem aristocrática de combinar renúncia pessoal de bens, poderes e títulos seculares ao mesmo tempo que preservavam sua influência, prestígio e riqueza corporativa. 

Essa posição aparentemente elitista, que tem-lhe atraído críticas também na atualidade, era consistente com a sua atuação como reformadora social e religiosa, já que não propôs uma mudança na estrutura da sociedade ou da Igreja, apenas combateu seus abusos e perversões. 

Apoiava a tendência de seu tempo de interpenetração dos poderes temporal e espiritual sob a primazia da Igreja, desejando restabelecer na Cristandade a sujeição dos príncipes ao clero, e do povo às hierarquias constituídas, mas dentro do espírito da ordem e da justiça sociais.

Famosa em vida, sua obra se tornou uma influência sobre os beneditinos, foi aceita como autoridade pelos teólogos da influente Universidade de Paris, teve seus escritos compilados e comentados por vários autores, e chegou a ser plagiada. Mas ela não criou uma "escola". 

Sua contribuição como escritora, teóloga e compositora musical foi esquecida pouco depois de seu desaparecimento - salvo na Inglaterra, onde permaneceu em alta até o século XIV -, tanto pela mudança na sensibilidade da época, que passou a ver seu estilo como obscuro e difícil, e também em virtude de sua obra ter sido bastante ofuscada pela de sua única continuadora direta, Elisabeth de Schönau, que foi muito mais lida apesar de hoje ser considerada de menor importância e muito menos brilhante.

Foi mais lembrada pelos séculos à frente como profetisa, pregadora e visionária, principalmente pela circulação de algumas de suas cartas e pela divulgação de uma série de suas profecias apocalípticas, compiladas, resumidas e interpoladas com comentários próprios pelo monge cisterciense Gebeno de Eberbach. Intitulada Pentachronon (c. 1220), essa coletânea se tornou muito mais popular do que seus escritos originais para o gosto da Idade Média tardia e foi reproduzida em incontáveis manuscritos.

Durante o Renascimento sua figura foi em parte redescoberta, com a publicação de um relato um tanto fantasioso sobre sua vida pelo abade de Sponheim, e as primeiras edições impressas do Scivias e do Physica apareceram na França em 1513 e em 1533, respectivamente. 

Por outro lado, a autenticidade de seus escritos foi posta em dúvida, sendo considerados um produto do monge Volmar ou de algum outro autor escrevendo sob pseudônimo, e ela foi acusada de protestantismo pela sua condenação dos abusos do clero.

A partir da segunda metade do século XX o interesse pela sua figura histórica e seus escritos renasceu, especialmente através dos estudos monumentais de Marianna Schrader, Christel Meier e Aldegundis Führkötter, e com as traduções feitas dos originais latinos para o inglês por Otto Müller, tornando acessível seu trabalho para um público muito mais vasto, de modo que atualmente sua produção já é objeto de análises particularizadas por um bom número de acadêmicos da Europa e Estados Unidos, destacando-se Peter Dronke, Barbara Newman e Heinrich Schipperges, entre muitos outros.

Obras Literárias Canônicas

  • Liber scivias Domini
  • Liber vitae meritorum
  • Liber divinorum operum

Obra musical 

Fólio 466 recto do Riesencodex, onde aparece um trecho da Symphonia armonie celestium revelationum.

A técnica da música de Hildegarda se insere em linhas gerais, mas com diferenças importantes, no contexto do canto gregoriano. Não fez uso dos recursos harmônicos e rítmicos que estavam sendo introduzidos pelos proto-polifonistas da Catedral de Notre-Dame de Paris, e sua música, até onde se pôde descobrir, é inteiramente monódica e melódica, embora ela possivelmente estivesse familiarizada com a técnica do organum76 e o estilo de seu melodismo incorpore elementos da vanguarda musical de sua época e seja ele mesmo inovador em vários aspectos. 

Os poemas que servem de substrato à música, sempre em latim, são construídos livremente, em versos brancos com metros desiguais, e com estruturas estróficas flexíveis, adaptando-se ao conteúdo textual.

Sua música é modal, mas emprega os modos com muita liberdade, e é típico de seu estilo o uso intensivo do mais instável de todos, o frígio. Usa frequentes melismas com finalidades expressivas, alguns de até cinquenta notas sobre palavras particularmente importantes, com um caso de oitenta notas na antífona O vos angeli; trabalha numa tessitura ampla de mais de duas oitavas, em certas peças quase três oitavas, exigindo muito do intérprete e sendo um caso único na música vocal medieval, e sua construção melódica se faz amiúde através de graus disjuntos, sendo muito comum um salto de quinta ascendente que é sua marca registrada. 

Para construir a forma total da composição emprega a variação motívica, com um fragmento melódico reconhecível que aparece várias vezes ao longo da peça em contextos diversos, e usa muitas vezes seções em modos distintos com fins estruturais.16 78 É provável, a partir de algumas alusões de Hildegarda, que ela tenha empregado rotineiramente recursos instrumentais acessórios, capazes de prover algum grau de heterofonia ornamental, mas não sobrevive nenhuma partitura com notação de instrumentos, e restam apenas as linhas vocais.

A produção de Hildegarda está compreendida em duas obras: o auto sacro Ordo Virtutum (A Ordem das Virtudes) e a Symphonia armonie celestium revelationum (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestes), uma coletânea heterogênea de 77 canções para uso litúrgico ou semi-litúrgico. É importante assinalar que sua produção poética-musical é toda de cunho moralizante e pedagógico, está intimamente ligada aos seus escritos teológicos, e foi-lhe inspirada durante suas inúmeras visões. 

E mais do que isso, completamente alheia aos dilemas morais de outros compositores sacros de seu tempo, acusados de introduzirem excessiva beleza sensual nas longas e floridas linhas melódicas que se tornavam comuns, e de com isso distraírem perigosamente quem atendia ao serviço divino, Hildegarda via a música como parte quintessencial do ser humano - ele não poderia viver sem ela, pois reunia de forma única alma e corpo e também de certa forma compensava a perda do Éden.

A música tinha, para Hildegarda, poderes imensos:

"…a música de júbilo suaviza os corações endurecidos, e lhes extrai as lágrimas de compunção, invocando o Espírito Santo… e as canções atravessam (os corações) de modo que eles possam compreender a Palavra perfeitamente; pois a graça divina assim age, banindo toda escuridão, e tornando luminosas todas as coisas que são obscuras para os sentidos corpóreos por causa da fraqueza da carne".

"Na música se pode ouvir o som da paixão que arde no peito de uma virgem. 

Podemos ouvir o botão se tornando flor.

Podemos ouvir o fulgor da luz espiritual brilhando do céu. 

Podemos ouvir a profundidade do pensamento dos profetas. 

Podemos ouvir a sabedoria dos apóstolos se espalhando pelo mundo inteiro. 

Podemos ouvir o sangue a pingar das chagas dos mártires. 

Podemos ouvir os mais íntimos movimentos do coração que caminha para a santidade. 

Podemos ouvir a alegria de uma menina diante da beleza da terra de Deus. 

Na música a criação devolve para seu Criador seu júbilo e sua exultação; e dá graças por sua própria existência. 

Também podemos ouvir na música a harmonia entre pessoas que antes eram inimigos e agora são amigos. 

A música expressa a unidade do mundo como ela era no princípio, a unidade que é restaurada através da penitência e da reconciliação"

Outros diferenciais são que suas composições foram criadas para serem cantadas por mulheres e a temática do feminino é recorrente no texto; alusões à corporalidade da prática musical e à musicalidade do corpo também são comuns. Disse ela que o cantor é como um instrumento musical de Deus, e que "as palavras simbolizam o corpo, e a música jubilosa revela as atividades do espírito; a harmonia celestial nos mostra Deus, e as palavras, a humanidade do Filho de Deus". 

Nesse sentido, segundo a análise de Bruce Holsinger, a música vivificava sua liturgia assim como a harmonia celeste vivificava o corpo de Cristo, e sugere que para ela o canto apontava para a imanência da vida espiritual dentro da carne e para a própria Encarnação divina.

As reiteradas menções ao prazer do canto e ao corpo, particularmente ao corpo feminino, quando Hildegarda teorizou sobre música, a temática do feminino tão presente nos poemas que musicou, e o estilo muitas vezes ricamente ornamental de suas melodias, desviando-se radicalmente da moderação e economia prescritas pela maioria dos teóricos da música sacra do século XII, têm dado margem a uma série de especulações contemporâneas sobre as possíveis ligações de sua concepção musical com as problemáticas do homoerotismo e da sublimação do desejo no contexto do ambiente monástico, aspectos que têm sido trazidos à evidência por numerosos pesquisadores também quando analisam outros compositores sacros de sua época, como sumarizou Holsinger.

O que é certo é que a música ocupou um lugar de enorme relevo na vida da comunidade monástica regida por Hildegarda, e todo ofício sacro era decorado com canto. 

Segundo Barbara Newman era um lugar-comum monástico em seu tempo pensar que o canto agradava a Deus quando era desempenhado com uma mente atenta e um coração devoto, imitando dessa forma os coros angélicos que se dizia estarem perpetuamente louvando a divindade em cantos exaltados, o que seguia uma tradição que remontava à Antiguidade pré-cristã.

Até pouco tempo atrás sua música permaneceu ignorada pelos historiadores em vista de seu estilo muito distinto das correntes principais da música medieval, mas diversos estudos recentes têm enfatizado a originalidade de sua criação, assim como fizeram seus próprios contemporâneos.

Suas composições tem ganhado destaque nos programas de música erudita; já há uma discografia significativa e em 1994 o álbum Vision: The Music of Hildegard von Bingen, harmonizando suas melodias vocais com recursos eletrônicos, vendeu 450 mil exemplares e permaneceu por dezesseis semanas no topo da lista Billboard na categoria de música clássica crossover.

A Abadia de Santa Hildegarda em Rüdesheim.


Discografia


  • Abbess Hildegard of Bingen: A Feather on the Breath of God." Sequences and Hymns. Gothic Voices. Hyperion CDA66039
  • "Hildegard von Bingen: Ordo Virtutum" Sequentia. two disc set. Harmonia Mundi. 77051-2-ng
  • "Hildegard von Bingen: Symphoniae: Spiritual Songs" Sequentia Deutsche Harmonia Mundi
  • "Hildegard's Lauds of St. Ursula" Focus. Indiana University Press Recording.
  • "Hildegard von Bingen Und lhre Zeit" Christophorus Digital. Includes music by Hildegard's contemporary Peter Abelard.
  • "Columbia Aspexit." Gothic Voices. Hyperion
  • "Hildegard von Bingen: Canticles of Ecstasy" DHM 05472 77320 2
  • "Voices of Blood" music by Hildegard of Bingen. Sequentia Deutsche Harmonia Mundi
  • "Vox de Nube: includes some chants by Hildegard with other Gregorian chants. Sung by the monks of Glenstal Abbey with Noirin Ni Riain, Celtic singer. Available from Sounds True Audio.
  • "Hildegard of Bingen Meditations Chants" sung by Norma Gentile SKR Classical CD.
  • "Unfurling Love's Creation" Norma Gentile, soprano. Lyrichord LEMS 8027
  • "Hildegard von Bingen: Heavenly Revelations." Early Music. Naxos 8.550998

Referência bibliográfica: 


  1. Hardin, James; Hasty, Will. Dictionary of Literary Bibliography : German writers and works of the early middle ages, 800-1170. Vol. 148. EUA: Detroit,1995. Pages 59-73.
  2. Music of Hildegard of Bingen. In: Hildegard.org. Disponível em: <http://www.hildegard.org/music/music.html>. Acesso em: 29 Julho.2014
Fotos: Google

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