quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A culpa é das estrelas



O romance entre dois adolescentes com câncer tinha tudo para ser piegas e até mesmo melodramático, mas o autor conseguiu imprimir um ritmo, uma prosa que domina os efeitos colaterais de se contar uma história de duas crianças sem nenhuma perspectiva de futuro e ainda assim nos fazer ler o livro de um gole só. 

A maioria dos personagens com câncer tem uma abordagem cinza e deprimida, mas os personagens de John Green transbordam força de vontade e realismo, e Hazel Grace é uma delas, com um intelecto acima do normal para sua idade, a jovem vai delineando sua estória e seus medos à medida que avançamos no livro.

O romance de Hazel Grace e Augustus se inicia quando ela começa a frequentar um grupo de apoio em uma igreja, ela sobrevive à doença graças a uma droga que atrasa a metástase em seus pulmões e ele perdeu a perna por causa de um osteosarcoma. 

Além da doença, o que os une é a vontade imensa de viver, de sobreviver e acima de tudo, amar. 

Ao longo do romance, eles se conhecem, trocam ideias sobre o mundo saudável e sobre o câncer, e Hazel apresenta seu livro predileto, e juntos embarcam em uma viagem à Amsterdã para conhecer o autor da história que os aproximou mais ainda. 

Nessa viagem eles buscam respostas para as lacunas que o autor deixou no seu único romance, e também respostas para seus próprios desejos.  


Gostei muito do livro, a linguagem é simples, os personagens são cativantes e a ideia do sofrimento que as pessoas passam com qualquer tipo de câncer é muito realista.

O modo como o autor dá importância aos personagens secundários me agradou bastante, Isaac que é amigo de ambos os adolescentes, Mônica que termina o namoro com Isaac após a perda da visão, os pais de Hazel e Gus, nos mostra que o câncer atinge outros além do doente.



Marcello Lopes

terça-feira, 27 de agosto de 2013

4 de Julho



Nunca tinha lido James Patterson & Maxine Paetro, e menos ainda ouvido falar do Clube das Mulheres contra o crime, vergonha eu sei!

Então eu baixei alguns e-books do James e fiquei feliz por saber que baixei 4 títulos dessa série e mais 2 do Alex Cross, que eu só conhecia dos filmes do Morgan Freeman.

Patterson e Maxine contam a história sobre a tenente Lindsay Boxer e de suas amigas enfrentando um enigma perigoso, quem está matando os moradores de Half Moon Bay.

Mas antes disso, somos apresentados à um outro problema que a Tenente deverá solucionar antes de descobrir os assassinos, quando Lindsay tomava alguns drinks com suas amigas, recebe uma ligação do inspetor Jacobi dizendo que um carro suspeito havia sido visto na área onde um assassinato havia ocorrido.

Juntos eles partem para perseguição ao carro pelas ruas de São Francisco, quando o carro bate, os policiais tem uma surpresa, eram apenas duas crianças. Duas crianças que agora choravam assustadas e feridas, pedindo para que os policiais não informassem à seus pais que pegaram o carro escondido.

Preocupados com a situação e com o iminente perigo de explosão, os policiais guardam suas armas e vão ajudar os adolescentes, mas enquanto Jacobi pede ajuda médica, a garota que dirigia, de apenas 15 anos, saca uma arma e atira em Lindsay. E o garoto seguindo as ações da menina, alveja o parceiro da tenente, agredindo-o quando ele cai inconsciente.

A tenente age em legítima defesa e atira nas duas crianças. A garota tem morte imediata, enquanto que seu irmão torna-se paraplégico.

Ao desvendar o passado dos dois jovens, descobre-se que os irmãos eram obcecados por crimes e estavam matando outros adolescentes.

A tenente é indiciada pelo assassinato da menina. Os pais dela querem vingança.

A cidade divide-se então. Parte acha que Lindsay agiu corretamente, e parte acredita que ela é uma assassina de menores. Para fugir da mídia e ter algum descanso ela vai ficar na casa de sua irmã, em Half Moon Bay.

Mas sua busca por paz logo termina, pois a pacata cidade está sendo alvo de vários assassinatos, e todos eles com a marca registrada do crime que Boxer não conseguiu desvendar dez anos atrás.

Com a ajuda do delegado Stark, a tenente corre contra o tempo para desvendar essa série de assassinatos, em meio à perseguições na praia, reforma de um carro e o cuidado de uma porca de estimação.

Narrativa bem construída, sem dar pistas de quem é o assassino e dos seus motivos para os assassinatos.

Vale a pena!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Livraria da Vila

Entrada da loja

Desde seu nascimento, recebeu a melhor educação possível. Tratada pelos pais, familiares e amigos com muito carinho, ela correspondeu às expectativas e se tornou a queridinha de todos. 

Charmosa, acolhedora, receptiva e democrática, em pouco tempo a Vila foi adotada por aqueles que compartilhavam a visão de livraria como um ponto de encontro, um lugar para ver gente, comprar livro, passar o tempo, tomar café, ouvir histórias.

Sem perder seus atributos de caráter e formação, a Vila estabeleceu-se em outras terras, aprendeu artes e outras línguas, sustentou seu interesse original nos livros infanto-juvenis e ampliou o conhecimento em literatura brasileira e estrangeira.

Adquiriu gosto por música e filmes. E por eventos culturais. Criou auditórios onde apresenta palestras, cursos, debates, pocket shows e contação de histórias. Sem falar dos lançamentos de livros e seção de autógrafos.



Tenho alguns amigos que trabalham na rede e é sempre bom ver que essa rede de lojas está crescendo e se desenvolvendo.

Nesse momento são 7 lojas, mas há planos para abertura de outras lojas, inclusive fora de São Paulo.

O atendimento hoje é uma das referências em São Paulo, já que a Livraria Cultura optou pelo atendimento estilo Fran´s Café de ser, ou seja, lixo total.

Vale a pena conferir as novas lojas com o design do bem-sucedido arquiteto Isay Weinfeld,criador também do design do Hotel Fasano e da Forneria San Paolo – além de lojas das grifes Forum, Clube Chocolate e Havaianas, todas localizadas na badalada rua Oscar Freire, em São Paulo.

http://www.livrariadavila.com.br

http://www.isayweinfeld.com/


Vista do mezanino/café
 







quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Promessa do livreiro



Em A Promessa do Livreiro, o autor John Dunning nos presenteia com mais uma aventura de Janeway, que em um dia comum recebe a visita de uma senhora que lhe pede um favor quase impossível, recuperar uma coleção de obras raras de um famoso explorador Richard Burton que era de propriedade da sua família, mas fora roubado 80 anos atrás.

Quando Janeway hesita, ela entrega uma edição autografada pelo explorador como prova de credibilidade.

Dias se passam e Janeway descobre que a mulher foi assassinada por causa do livro e por causa disso, ele decide investigar o roubo e o assassinato.

Janeway deixa a cidade e vai atrás de 2 "livreiros" vigaristas na cidade de Boston, e descobre que pode existir mais de uma pessoa ligada ao crime, e encontra em suas investigações, uma advogada, um escritor e um guarda-costas.

Um livro de suspense e com enigmas históricos à medida que a trama vai sendo construída.

Vale a pena !!!

Marcello Lopes

domingo, 11 de agosto de 2013

Real Gabinete Português de Leitura


O Real Gabinete Português de Leitura possui a maior e a mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal.

O seu acervo, inteiramente informatizado, é da ordem de 350.000 volumes.

A biblioteca recebe de Portugal, pelo estatuto do “depósito legal”, um exemplar das obras publicadas no país. 

Além de Macau, agora sob a soberania da República Popular da China, e que até há pouco tempo também era beneficiada com o “depósito legal”, o Real Gabinete é a única instituição, fora do território português, que mantém aquele privilégio.

Alguns espécimes de obras raras ou manuscritos, poderão ser consultados por investigadores e especialistas com autorização especial.

A consulta é franqueada aos leitores no salão da biblioteca, com o auxílio das bibliotecárias.

Os sócios do Real Gabinete, que estão em dia com a contribuição mensal, podem levar até 3 livros como empréstimo a domicílio, pelo prazo máximo de 15 dias, desde que se trate de edições posteriores a 1950.

Entre as obras mais raras da biblioteca podemos citar a edição "prínceps" de " Os Lusíadas", de 1572, que pertenceu à "Companhia de Jesus"; as "Ordenações de Dom Manuel" por Jacob Cromberger, editadas em 1521; os "Capitolos de Cortes e Leys que sobre alguns delles fizeram", editados em 1539; "



A verdadeira informaram das terras do Preste Joam, segundo vio e escreveo ho padre Francisco Alvarez", de 1540.

Possui ainda manuscritos autógrafos do "Amor de Perdição", de Camilo Castelo Branco e o "Dicionário da Língua Tupy, de Gonçalves Dias, além de centenas de cartas de escritores.

Ao entrar no vestíbulo do edifício do Real Gabinete, o visitante tem oportunidade de verificar que o seu interior nada fica a dever à majestade de seu exterior, destacando-se, desde logo, diversas obras de arte, como os bustos em mármore de Eduardo Lemos e de Joaquim da Costa Ramalho Ortigão, e em bronze, do Conde Dias Garcia, de Eduardo Severo e do Rei D. Carlos I, de Portugal.

Diversas outras obras ornamentam os armários de madeira trabalhada da instituição, como a lindíssima maquete do monumento a Pedro Álvares Cabral, doada ao Gabinete pelo seu autor, Mestre Rodolpho Bernardelli, e pequenos bustos de “D. Manuel I”, do escultor Simões da Silva, de “Eça de Queirós”, com a indicação apenas da fundição – Cavina, o de “Ramalho Ortigão”, numa bela terracota do Mestre Teixeira Lopes, o de “Herculano”, sem assinatura e, finalmente o do “Padre Manuel da Nóbrega”, de J. Mello Pimenta.

Na escadaria, em seu primeiro lanço, encontra-se o “Relicário da Saudade”, homenagem póstuma a Sacadura Cabral, o realizador com o Almirante Gago Coutinho, da primeira travessia aérea Lisboa-Rio. Contém páginas em pergaminho com os autógrafos de Pio XII, D. Manuel II, de Portugal, D. Afonso XIII, de Espanha, do Rei Alberto I, da Bélgica, assinaturas de muitas outras altas personalidades, inclusive as sentidas palavras do próprio Gago Coutinho a referir-se “ao seu camarada Sacadura Cabral, morto no acidente com o seu avião Fokker”, de cujos destroços ali figura um pedaço envolto em cartão de ouro.

Na mesma escadaria encontram-se ainda o busto do Conselheiro J. O. Sá Camelo Lampreia, antigo Ministro de Portugal no Brasil, um artístico candeeiro em ferro trabalhado, os bustos de Gago Coutinho e do escritor e jornalista Paulo Barreto (João do Rio).

Ao nível do andar superior vê-se o busto do Benemérito Albino de Souza Cruz, o primoroso trabalho de ourivesaria portuguesa, a dominar todo o átrio, que é o “Altar da Pátria”, bem como uma placa oval de prata portuguesa, do mesmo ourives, dos quais passamos a dar uma descrição mais pormenorizada.

Obra de ourivesaria e escultura de grande significação e importância, esta obra de arte é única e de valor incalculável, na opinião dos entendidos, tendo em vista que não se encontraria quem produzisse outra semelhante.



Altar da Pátria

Medindo 1,70 m de altura, a alegoria assinala os fatos principais da epopéia lusitana, desde as suas primeiras conquistas marítimas. 

Da sua base em mármore negro, formando belo contraste com a prata de que é feito, apontam para os quatro pontos cardeais outras tantas naves, PARA BUSCAR DO MUNDO NOVAS PARTES, como indicando que nenhum ponto do globo habitado foi estranho aos audazes navegadores. 

Em plano mais elevado, em faces opostas, rodeados de Nereidas e de Tritões, assistem Vênus e Netuno à partida dessas caravelas, tendo a seus pés o oceano revolto, onde se banham outras divindades do mar. 

Todas estas figuras são talhadas em marfim, o que as torna mais suaves em relação ao metal. Essa evocação simbólica foi inspirada nos “Lusíadas”, donde se lê, em cada uma das flâmulas que flutuam nos mastros das naves, um verso do poema. 

O centro é formado por espessa coluna de minúsculos relevos, em volta da qual se destacam, em prata e marfim, os vultos dos quatro principais criadores das glórias lusitanas: o INFANTE D. HENRIQUE, VASCO DA GAMA, PEDRO ÁLVARES CABRAL e LUÍS DE CAMÕES. 

No cimo da coluna, sobre os motivos ornamentais, duas figuras simbólicas representam os dois rios do Oriente, perlustrados pelos portugueses: o INDO e o GANGES. Arremata-a a imagem da Fé, alçando para o infinito a Cruz eterna, que guiou sempre o espírito do grande povo português, através de triunfos e vicissitudes, e o protegeu nos seus admiráveis arrojos. 

Executada em prata e marfim, na Casa Reis & Filhos no Porto pelo ourives Antonio Maria Ribeiro.

Fez parte do Pavilhão Português da Feira de Amostras, Exposição do Rio de Janeiro em 1922, por ocasião do Centenário da Independência do Brasil. Após a exposição, em 1923, a Colônia Portuguesa no Rio de Janeiro a adquiriu e ofereceu ao Real Gabinete.



Placa Oval 

Placa Oval de prata portuguesa e marfim, repuxada e cinzelada, em homenagem a Luís de Camões, tendo ao centro cena mitológica representando os deuses do Olimpo, à esquerda, o poeta sendo coroado com louvores e, à direita, Ondinas e Tritões; ao alto, o retrato do poeta; aparecem os ventos de Áquila e Boreas, navios e em listéis versos dos Lusíadas. Contraste do Porto, marca e assinatura do ourives Antonio Maria Ribeiro. 

Acondicionada em estojo de nogueira, forrado de tecido, tampo de cristal bizotado, fechos de prata com o mesmo contraste e marca. Fez parte do Pavilhão Português da Feira de Amostras, Exposição do Rio de Janeiro em 1922, por ocasião do Centenário da Independência do Brasil. Cavalete em mogno, estilo Renascença.

No grande Salão de Leitura ganha destaque uma curiosa estante de madeira e cristal, cujas proporções se fazem notar, e onde está guardado o “Livro de Ouro”, de homenagem ao presidente Eduardo de Lemos, que os portugueses do Brasil preparavam para lhe oferecer por ocasião de seu regresso ao Rio de Janeiro, da viagem em que a morte o surpreendeu em Portugal no dia 14 de outubro de 1884.

Trata-se de um álbum com variado e preciosíssimo repositório de manifestações de figuras ilustres da vida intelectual, artística e política do Brasil, bem como de grande número de instituições, que forma um volume com a grossura de 6 cm, em encadernação de luxo de Garzaro, Paris.



Arquitetura



O reinado de D. Manuel I (1491-1521), no auge da expansão ultramarina portuguesa, assistiu ao florescimento da arquitetura manuelina, que se carateriza pela exuberância plástica, o naturalismo, a robustez, a dinâmica de curvas e o recurso a motivos inspirados na flora marítima e na náutica da época dos Descobrimentos.

Exemplos típicos desse estilo são o Mosteiro dos Jerônimos e a Torre de Belém, em Lisboa, e a janela manuelina do Convento de Cristo, em Tomar.

No século XIX, sob inspiração nacionalista, há um ressurgimento desse estilo, o neomanuelino, presente em obras de reforma do Mosteiro dos Jerônimos, na Estação do Rossio, em Lisboa, na Câmara Municipal de Sintra, no Palacete da Regaleira e no Palace Hotel do Buçaco.

Opondo-se ao neogótico que se manifestava em diversos países da Europa, o neomanuelino representou em Portugal, uma forma de "resistência da identidade nacional". 

No Brasil, além do Real Gabinete, no Rio de Janeiro, os principais edifícios neomanuelinos são o Gabinete Português de Leitura de Salvador e o Centro Português de Santos.

No Rio de Janeiro vivia, nos anos trinta do século XIX, uma ainda não muito numerosa colônia de portugueses, que, majoritariamente, apresentava centros de interesse comuns; por isso, poucos anos após a independência, esses elementos vieram a fundar um centro associativo capaz de lhes possibilitar “isolarem-se na doce recordação das coisas da pátria e na ilustração do espírito, pela leitura sã dos bons autores e dos periódicos da época”.

Do grupo, pelo papel relevante que desempenhou dentro da associação, não pode deixar de se destacar o Dr. José Marcelino da Rocha Cabral, verdadeiro mentor espiritual da coletividade e Francisco Eduardo Alves Viana, responsável pela redação dos primeiros estatutos.

Rocha Cabral, devido às “idéias adiantadas de progresso que abertamente professava”, viu-se na necessidade de deixar o Reino e acabou por, em 1828, aportar ao Rio, onde já encontrou outros colegas a exercer a advocacia; tratava-se de um homem culto e brilhante, que aliava às capacidades jornalísticas as de eloqüente legista. Alves Viana, por seu turno, havia nascido na Ilha da Madeira e era comerciante. 

A cidade do Rio de Janeiro assumiu-se, na fundação de associações de tipo cultural, como pioneira, pois logo a 14 de Maio de 1837, na casa do advogado português Dr. António José Coelho Louzada se reuniram quarenta e três imigrados, a fim de assinar a certidão de nascimento do Gabinete Português de Leitura.
Seria interessante conhecer o ambiente carioca em que se movimentava aquele grupo de portugueses, “varões prestantes”, “homens robustos pela fé e pela abnegação”, sempre “movidos pelo amor do nome nacional”, onde pontificava o Dr. José Marcelino, mas tal, neste contexto, torna-se impraticável.

Reunido o cenáculo, presidido pelo dono da casa e pelo então encarregado de negócios de Portugal, fundaram, naquela primeira reunião de portugueses residentes no Império, não apenas o Gabinete Português de Leitura, mas muito mais do que isso, pois insuflaram vida à colônia portuguesa do Rio de Janeiro.
A diretoria, ali eleita, desde logo corroborou a principal finalidade da agremiação e, unindo a consciência do saber a um sentimento patriótico, durante o seu mandato, organizou catálogos que servissem para a encomenda de livros, adquiriu manuscritos raros, obteve obras de autores portugueses, assinou três periódicos de Lisboa, dois do Porto, dois de Londres, dois de França e um de Buenos Aires, “todos, dos que costumam trazer mais amplas e verídicas notícias comerciais, e políticas”. Subscreveu ainda todos os jornais brasileiros que então se publicavam.

Com estas aquisições que se prolongaram, com uma maior ou menor intensidade, ao longo de mais de século e meio de existência, a que se somaram legados e doações, particulares ou estatais, o Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro conseguiu formar a sua, ainda hoje, portentosa livraria; o acervo da biblioteca, em 1860, contava já com cerca de 33.000 volumes e, vinte anos depois, rondava os cinqüenta mil exemplares. 

Neste contexto, não admira, pois que, em 1880, fosse considerada a mais importante biblioteca do Brasil, depois da Pública do Rio de Janeiro.

O Gabinete Português de Leitura teve a sua primeira sede no sobrado do número 83 da rua de S. Pedro, embora, em 1842, se transferisse para a rua da Quitanda, onde ocupou um “belo prédio de três pavimentos, de fachada azulejada e beiral de telhas de canal esmaltadas em Alcobaça”; no entanto, o espaço necessário para guardar os numerosos livros que possuía tornou-se exíguo e, em 1850, a diretoria viu-se obrigada a procurar novo abrigo, desta feita, na então “periférica” rua dos Beneditinos.

Como a biblioteca não parasse de aumentar, este edifício acabou por deixar de caucionar as exigências da associação, impelindo as diretorias, pelo menos a partir de 1861, a pensar na construção de uma casa própria que respondesse, com comodidade e eficácia, às carências e objetivos da instituição.

Foi também, e paradoxalmente, mais ou menos por esta altura que a coletividade passou por uma crise que quase se pode denominar de crescimento, porque, entre os mais velhos (os fundadores do Gabinete) e uma geração de imigrados jovens, chegados ao Brasil a partir de 1842, veio a travar-se, em sucessivas assembleias, uma luta cerrada, dado que os segundos, gente ligada às novas correntes estético-literárias (entre os quais se contava Joaquim da Costa Ramalho Ortigão) pretendiam a reforma das coleções da biblioteca e um amplo alargamento do círculo de influências.

Mas todos estavam de acordo que "a necessidade mais urgente do Gabinete Português de Leitura [era] uma casa própria para a sua biblioteca, com as vastas proporções que requer[ia] a sua avultadíssima livraria"; seria “um edifício que atestar[ia] no futuro o patriotismo e a dedicação dos acuais acionistas do Gabinete”.

A transferência do Centro para a rua dos Beneditinos não fora favorável e, em 1871, a diretoria comprou o prédio onde funcionava o Hotel São Pedro, na rua da Lampadosa, atual Luís de Camões, bem perto da do Ouvidor e a dois passos da Quitanda. Era ali, “no bairro das artes e dos estudos” que se ia erguer “mais este templo da ciência”.

O espaço destinado a acomodar os livros apresentava-se cada vez mais limitado, a ponto de o relator do parecer de contas de 1872 afirmar: “O Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, terá um edifício digno de acolher os seus livros, os tantos milhares de bons amigos que aqui nos rodeiam neste acanhado tabernáculo, em cujos altares não cabe nem mais um ídolo.

Erija-se pois o templo, ou, mais parecidamente, construa-se o arsenal das armas da inteligência, onde o espírito venha revestir-se de aptidão e força para as grandes conquistas do progresso”.

Neste mesmo ano os responsáveis receberam, graças aos bons ofícios do comendador Miguel Couto dos Santos e do vice-diretor João Maria de Miranda Leone, dois projetos que se destinavam à casa da sua livraria; o primeiro, “no gosto da renascença italiana”, saíra da pena do arquiteto Pedro Bosisio e o segundo, traçado por Rafael da silva Castro, “adotava no seu desenho a arquitetura manuelina, que no edifício dos Jeronymos em Belém, consubstanciou o que Camões fez na poesia épica, e frei Luís de Souza na prosa descritiva”. 

O arquiteto lisboeta, numa carta-memória descritiva, escrita na capital a 19 de Julho de 1872, referia que, conforme lhe haviam recomendado, utilizara naquela fachada, assim como em todo o edifício o estilo manuelino, seguindo com especialidade a arquitetura da igreja dos Jerônimos.

Aliás, o posicionamento de Castro, assumindo uma atitude tipicamente romântica, capaz de criar ambientes significativos, carregados de sugestões culturais e emotivas, resultava do desejo de uma certa elite local, como se encontra bem patente nas decisões que os elementos mais empenhados do Gabinete, pertencentes, na sua maior parte, a um destacado estrato econômico e social, acabavam por tomar.

Aproximava-se, entretanto, o tricentenário da morte de Camões e, face à comunhão dos sócios mais representativos com as conotações patrióticas que envolviam este acontecimento, a instituição não pretendia, nem desejava, manter-se alheia à efeméride, tendo já a diretoria, no seu relatório de 1878, aventado a hipótese de aderir às comemorações.

Ideia bem acolhida e frutífera, pois o Gabinete, desejando ligar-se ao nome do poeta através de um laço perpétuo, escolheu um vínculo de pedra, dando simbolicamente início, nesse dia, à construção da sua nova sede.

Além disso, publicou uma edição especial de Os Lusíadas, que recebeu letra de forma na casa lisboeta de Castro Irmão, promoveu iluminações, regatas, uma marcha flambeaux, uma récita no Imperial Teatro D. Pedro II (Joaquim Nabuco foi o orador oficial) e outras manifestações.

A fim de se tornar “uma lembrança duradoura da augusta solenidade do centenário de Camões, data memorável que fulgurará perpetuamente nos anais da humanidade” e de eternizar a data do “assentamento da pedra fundamental do novo edifício”, fato que se transformou no ato mais relevante das comemorações camonianas levadas a cabo pelo Gabinete, foi ainda cunhado um numisma.

Quando se consumou a decisão de integrar o lançamento da pedra fundamental da biblioteca no âmbito daquela efeméride, foi afastado o projeto de Rafael da Silva Castro e, o “plano do edifício, cuja fachada principal ser[ia] modelada no estilo manuelino”, era o que tinha sido encomendado ao “provecto e distinto arquiteto o Sr comendador Bethencourt da Silva” o que significava a certeza antecipada de se tratar de uma “obra de mérito”; apesar disso, era ponto assente que “a fachada manuelina vir[ia] completa de Lisboa, e que no plano da obra entra[ria] considerável material de ferro”.

Através de tudo o que então se escreveu acerca do assunto e daquilo que se consegue enxergar nas entrelinhas, visiona-se claramente o desejo da diretoria de fazer construir um imóvel que se integrasse num programa “moderno”, capaz de apresentar, entre as pedras “historicistas” e o ferro “industrial”, uma interligação perfeita.

Entretanto, e sem que se consiga vislumbrar com clareza todos os meandros, a verdade é que foram recebidos no Rio, em finais de Setembro de 1879, algumas plantas, cortes e alçados vindos de Nova Iorque.

Francisco Joaquim Bethencourt da Silva — arquiteto que fora discípulo de Grandjean de Montigny, completara os seus estudos na cidade dos papas e exercia a sua profissão no Rio de Janeiro — em resposta à encomenda de 1878 entregou no Gabinete uma fachada a inserir-se dentro de um gosto historicista, que, contudo, não ultrapassava uma certa ambigüidade neogótica; embora tenha sido considerado “um belo plano de forma elegantíssima, apreciado e elogiado por quantos o têm visto”, acabou por ser, numa reviravolta inexplicável à luz dos documentos, preterido por o “do edifício no estilo manuelino, traçado em Lisboa pelo arquiteto o sr Rafael da Silva e Castro”, funcionário agregado ao ministério das Obras Públicas, sempre a conviver paredes meias com o estilo afeto aos Descobrimentos, até porque colaborava nas obras do mosteiro dos Jerônimos.

Os responsáveis pelo Gabinete, ao optar, em 80, pelo projeto de Silva e Castro, talvez tivessem em mente a proposta enviada pelo arquiteto lisboeta no ano de 1872, mas como, posteriormente, vieram a adquirir, na rua da Lampadosa, mais dois prédios contíguos, encarregaram o alarife de riscar novo alçado, dado que a fachada se alongara quase para o dobro; é esta versão, “um muito aplaudido desenho da fachada” que, entretanto, O Occidente, excelente revista ilustrada de Lisboa, publica.

Ultrapassando todo este imbróglio, a verdade é que, integrando as festas camonianas, no dia 10 de Junho de 1880, foi lançada, pelo Imperador, a pedra fundamental do edifício. O ato contou com a presença das autoridades mais representativas da cidade, de muitos convidados e teve o “concurso de muito povo”. No pavilhão, previamente erguido para esse fim, leu-se o “auto do assentamento da pedra fundamental do edifício para a biblioteca do Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro”, que foi assinado por Sua Majestade e por grande número dos presentes.

Os trabalhos não se iniciaram logo de seguida, embora “a inauguração da nova biblioteca est[ivesse] fixada para 10 de Junho de 1884”, tempo bastante curto se se tiver em conta que a pedra da fachada seria trabalhada em Lisboa e o ferro importado da Europa. 

Para ver a obra efetivamente arrancar houve que esperar por Março de 1881, depois de terem sido estipuladas as condições que permitiram ao arquiteto Frederico José Branco passar a ser, por delegação da diretoria, o administrador geral da construção.

Em Novembro de 81, o visconde do Rio Vez, então já em Lisboa, como representante do Gabinete, contratou com Germano José de Sales, por onze contos de réis, o fornecimento da cantaria para a fachada e com o escultor Simões de Almeida a feitura das estátuas destinadas a ornamentá-la. 

Dentro de um programa consentâneo com o ideário que norteou a construção do edifício, deviam ser representados o infante D. Henrique, Luís de Camões, Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral. O artista encarregou-se ainda de esculturar, para a fachada, quatro medalhões que representassem Fernão Lopes, Gil Vicente, Alexandre Herculano e Garrett. 

Os dois últimos encontram-se insculpidos no portal da entrada, como se fossem os “guardiões eternos daquele templo do saber humano”.

O Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, a que D. Carlos, por decreto de 12 de Setembro de 1906, se dignou conceder o título de Real, em 1884 já apresentava, exteriormente, o seu edifício concluído e coberto. Neste “templo da cultura”, a estrutura superior do salão destinado à livraria, primitivamente pensada em madeira, acabou por ser, sob parecer de Frederico Branco, substituída por uma outra de vidro e ferro; com efeito, ao apresentar esta proposta, o arquiteto demonstrou estar na posse de conhecimentos tecnológicos modernos, difundidos sobretudo no período romântico.

Detalhe no teto
É por demais significativo constatar que o entusiasmo e emoção, despertados pelo edifício do Gabinete Português de Leitura, não decorreram do fato de aquele ser, com grande margem de certeza, a primeira obra de estrutura metálica construída no Rio, mas giraram em tomo do “belo estilo manuelino”, patenteado pela sua arquitetura, e da mensagem ideológica que continha.
As atenções, depois de 1884, voltaram-se para o interior do prédio, fazendo prosseguir os acabamentos e, simultaneamente, erguer as colunas, os varandins e as estantes destinadas a albergar o extraordinário espólio literário, que havia sido acumulado ao longo dos anos.

Não tendo sido possível que a inauguração da nova casa se realizasse a 10 de Junho de 1884, como estava previsto, fixou-se “o prazo final da construção [...] no futuro ano de 1886”; meta incumprida, porque, nesse Janeiro, ainda se apreciavam as propostas para a adjudicação da pintura interna e para a obra de ferro e de bronze da escada, dos caixilhos e do gradil.

Em 1885, já se “achavam colocadas no edifício” as figuras da frontaria, saídas do cinzel de Simões de Almeida, e parece que o efeito produzido era agradável, até porque se tratava de estátuas heróicas, onde sobressaía “o porte elevado [das figuras], a fisionomia grave e severa, a atitude pousada e nobre” e porque se encontravam esculpidas com enorme correção e tinham “toda a nobreza e severidade que a arte aconselha na grande estatuária que é a grande idealização dos heróis que a história registra nas suas paginas gloriosas, e que as gerações vão elevando em pedestais de ouro”.



Mas se a estatuária se inseria num programa historicista que exprimia a maneira de pensar e de atuar dos encomendantes e de alguns dos seus contemporâneos, sobretudo dos mais ilustrados, outro tanto decorre no que toca à pintura e à decoração dos interiores, bem como às obras de arte que enfeitam o imóvel.
Ainda antes da inauguração, quando em 10 de Setembro de 1887 se festejou o quinquagésimo aniversário da fundação do Gabinete, “a livraria [já] se achava colocada nas galerias da grande sala da biblioteca” e as festividades puderam desenrolar-se nas novas instalações sitas na antiga rua da Lampadosa, embora as obras só tivessem terminado em Setembro do ano seguinte e a inauguração oficial tivesse efetivamente acontecido a 22 de Dezembro de 1888.

O edifício do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, que os portugueses radicados no Rio de Janeiro ali deixaram como padrão da sua nacionalidade e como sucessão histórica do seu valor e da sua energia, por expresso desejo dos seus impulsionadores, e dentro de um espírito romântico em que o historicismo e o patriotismo se apresentavam de mãos dadas, insere-se nos cânones neomanuelinos e filiou-se, como ficou bem patente, nos Jerônimos, esse “arco de triunfo por onde Portugal, senhor dos mares, entrou na História da Civilização!...”.

Detalhe no teto

Ao longo dos séculos constata-se que a pedra sempre foi o material preferido pelos portugueses para erguer as suas obras de arte, e a magia e o significado das pedras, bem como o sentido patriótico que o edifício fluminense assumia, foram exaltados no eloqüente e longo discurso que Joaquim Nabuco, homem relacionado com as letras brasileiras, tribunício proeminente e paladino da abolição da escravatura, proferiu na sessão inaugural.

O Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro começou por ser uma instituição fundada por portugueses, poucos anos depois da independência e, ao longo dos tempos, acabou por granjear prestígio, somar triunfos e depositar no templo manuelino, padrão memorável dos descobrimentos e navegações nacionais, o atestado vivo da alma poética e do valor moral da geração que logrou deixar, em terra estranha, um monumento tão representativo do seu passado histórico e do amor à literatura pátria.

Fonte: Regina Anacleto
Arquitectura Neomanuelina no Brasil
a saudade da Pátria - Revista Camões, nº 11

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Detalhe do teto na entrada


 
Obras raras

Lustre central



Fotos: Marcello Lopes