terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ravel, a perda de um braço e o jazz

O nome Ravel (1875-1937), para muitos, é instantaneamente associado a uma de suas obras mais conhecidas: o Bolero, que o imortalizou pelo qualificado manuseio de diversos timbres e instrumentos musicais inseridos em uma melodia marcante. 

Não tão popularizados quanto seu célebre Bolero, mas igualmente pertencentes à elite da literatura musical, estão seus dois concertos para piano, onde o ”swing jazz” que dominava o continente americano no início dos anos 30, se encontra a tradição clássica. É assim mesmo. 

Durante os anos 1930 e 1931 - ano em que os dois concertos foram escritos –  desconhecer nomes como Duke Ellington ou Glen Miller era sinônimo de alienação.

E foi na França de Ravel que o jazz, com o Quintette du Hot Club de France,  ganhou contornos precisos no continente europeu. 

Ravel não era indiferente a tudo isso. 

E com ousadia, a título de exemplo, insere o saxofone como instrumento sinfônico em seu Bolero e, em seus dois concertos para piano, indiscutivelmente, o elemento jazzístico ganha vida.

Um desses concertos (em ré maior), foi escrito para ser executado somente pela mão esquerda do pianista e dedicado a Paul Wittgenstein, pianista e amigo, que tivera o braço direito amputado durante a Primeira Guerra Mundial. 

O que espanta nessa obra, de clima tenso, altamente dramático e denso, é a impressão de se estar ouvindo uma obra sendo executada por ambas as mãos do solista.

O seu outro concerto (em sol maior), de caráter mais lúdico, explora o lado jazzístico com incisos de tirar o fôlego, altamente percussivos.

Os videos abaixo falam por si. 

Interpretados por dois grandes pianistas da atualidade – a argentina Martha Argerich e o polonês Krystian Zimerman -, cada uma dessas obras, nas mãos dos intérpretes, ganha ambientação musical própria.

O primeiro deles, com Argerich interpretando o célebre Concerto em sol maior, na íntegra, o recado é vigoroso, decidido e puro. 

A entrada da obra (com a exposição de seu tema principal) desenvolve-se para momentos de pura adrenalina, como o retratado em 03:15. 

O contraste criado entre o piano romântico e lírico de 07:23, que se transforma em piano-tambor em 07:48, merece igual destaque. O final do primeiro movimento, em 08:51, se dá de modo lúdico e preciso.

A seguir, em 08:53, inicia-se o segundo movimento, um tema central repleto de pureza e transcendência. 

O sorriso da pianista em 17:33, de satisfação, é o de quem também descobre a fugacidade desta vida diante de momentos como esse. 

Em 17:55 vem o ataque final, arrebatador.


O Concerto para a Mão Esquerda está, propositalmente, inserido no primeiro vídeo abaixo somente em áudio, com a intenção de mostrar a você, leitor, como uma única mão ao piano é capaz de criar tantas sonoridades.

Observem a entrada retumbante do solista em 2:02, em total domínio.

Fonte: Alvaro Siviero