sexta-feira, 29 de junho de 2012

Sombras da Noite


Essa história assombrosa e cult, que arrepiou os norte-americanos nos anos 60 e 70, quando gerou mais de 200 telefilmes na rede ABC, conta a saga do triste vampiro Barnabas Collins, que vive seu drama no século XVIII e acorda, para novos horrores, nos anos 70 — os anos loucos do sexo, das drogas e do rock and roll.

Atrás dele, apaixonada e vingativa, vem a alucinada Angelique, com seu passado de menina prisioneira do próprio pai e cujos sonhos foram destroçados, 200 anos antes, pelo próprio Barnabas.

Essa trama cheia de suspense, amores destroçados, sonhos perdidos, feitiçaria, dramas existenciais, assédio e vingança, além de muito romantismo e muita história, é contada pela atriz e escritora Lara Parker, que interpretou Angelique na série de TV.

Barnabas e Angelique estão de volta também no cinema, interpretados por Johnny Depp e Eva Green, no mais novo filme do excêntrico Tim Burton.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vida secreta de Laszlo, Conde Drácula



Esqueça o morto-vivo mais famoso da literatura mundial, esse romance em forma de diário nada tem a ver com o sobrenatural que Bram Stocker criou e que depois influenciou uma série de personagens similares, inclusive um vampiro cheio de glitter que brilha no sol.

O livro é uma reconstrução do lado psíquico e sexual do personagem, Laszlo é um jovem médico húngaro que visita Paris para estudar com o renomado médico Dr.Charcot, que seria a principal influência de Freud.

Durante a estada na cidade das luzes, o jovem húngaro descobre o lado pervertido da cidade e se apaixona por Stacia, uma jovem paciente do hospital onde trabalha e dá  vazão a impulsos antes desconhecidos.

Laszlo se torna um assassino, mergulhando em uma mistura de sexo e sede por sangue quase que insaciável, o jovem retorna a seu país e aterroriza sua cidade em sua busca pela possessão completa das mulheres com quem se relaciona.

Escrito como um diário, revela o médico preso dentro de um monstro, que luta entre juramento de curar as pessoas e seu desejo assassino.

Eletrizante.

Marcello Lopes

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No mundo mágico de "Guerra dos Tronos"


No meio do almoço no Delaunay, um pequeno e elegante restaurante ao estilo europeu em Londres, George R.R. Martin compara a grossa fatia de frango a milanesa que está no meu prato a um mapa de um reino imaginário. O fato de ele ser um dos escritores de romances de fantasia de maior sucesso do mundo, e criador dos livros em que a bem-sucedida série de TV "Guerra dos Tronos" é baseada, torna isso um pouco menos surpreendente do que de outra maneira poderia ser. Mas não muito.

Apontando para a minha comida de formato irregular com sua faca, ele elabora: "Há várias pequenas baías onde poderia haver cidades", diz ele jovialmente, como se estivesse fazendo a comparação mais óbvia do mundo.

É um momento divertido e Martin, de 63 anos, parece estar apreciando a vida. Ele tem motivo - 9 milhões de cópias de seus livros foram vendidas no ano passado. Os cinco volumes de "As Crônicas de Gelo e Fogo", sua saga vertiginosa de reinos medievais envolvidos em uma guerra mortal, totalizam mais de 5.000 páginas e mais dois livros (muito longos) serão lançados antes de o ciclo ser concluído.

O primeiro, chamado "A Guerra dos Tronos", exigiu de Martin cinco anos para ser escrito e foi publicado em 1996. Em 2005, quando o quarto volume, "O Festim dos Corvos", foi lançado, ele era um bem-sucedido autor do gênero, galgando as principais listas de best-sellers. Então, em abril de 2011, as coisas mudaram muito para Martin. Da noite para o dia, ele ficou famoso no mundo inteiro quando o canal pago HBO exibiu o primeiro episódio de sua nova série "Guerra dos Tronos".

Esta luxuosa, fiel e cara (segundo relatos, US$ 60 milhões por temporada) adaptação da história de magia de Martin - e muito sexo - fez um enorme sucesso. Com a segunda temporada [que foi ao ar nos EUA entre abril e junho deste ano], ela se transformou na mais bem-sucedida série da HBO, exibida em 29 países e com um número médio de mais de 10 milhões de telespectadores nos EUA por episódio. Os fãs incluem o fundador do Facebook Mark Zuckerberg, que no mês passado deu um churrasco para amigos mais próximos cujo tema foi "Guerra dos Tronos" - com carne de bode e "partes indefinidas de animais".

Chego cedo ao restaurante, apenas para encontrar meu convidado já esperando, sentado em uma banqueta de couro verde. Há um jarro de água e dois copos sobre a toalha branca, com algumas baguetes artesanais e manteiga. É uma cena simples e pacífica, e parece que Martin está ali há horas. Em seu mundo imaginário esplêndido dos reinos de Westeros, a sorte favorece aqueles que são rápidos e bem preparados.

Com sua barba espessa e grandes óculos, Martin é uma figura de impacto. Ele está usando um paletó roxo escuro adornado sobre uma camisa preta. O que chama mais a atenção é sua capa de pescador preta, que tem um pequeno broche no formato de uma tartaruga afixado na frente. Não é um visual que se vê muito no Delaunay, onde as outras mesas começam a ser ocupadas por homens de terno. Pelos trechos de conversas que consigo ouvir aleatoriamente, negócios são fechados aqui, e "takeovers" programados - um toque moderno dos calculistas cortesãos de King's Landing, a rica capital ao sul de Westeros.

Pergunto a Martin sobre sua infância. Seu sotaque é agradavelmente grave para um ouvido britânico. Ele vem de Bayonne, Nova Jersey ("uma cidade operária"), onde nasceu e foi criado, filho de um estivador. Ele era solitário? "Bem, eu tinha alguns amigos, mas eu era principalmente o garoto com o nariz enfiado em um livro." Era louco por histórias em quadrinhos (ainda possui uma valiosa coleção) e lia muito.

A família Martin - ele tem duas irmãs mais novas - vivia perto do porto de Bayonne, em um conjunto habitacional erguido pelo governo federal. O dinheiro era escasso - seu pai, um veterano de guerra, tinha períodos de desemprego. O mundo de Martin era constituído de apenas cinco quadras, delimitadas por água.



"Havia um pequeno lugar coberto de grama ali, onde me sentava e sonhava, e ninguém mais o conhecia. Eu podia ver não só os barcos como também os grandes navios que passavam pela Baía de Newark, navios de carga de todas as partes do mundo, com suas bandeiras. Tinha vontade de conhecer o mundo. Não podia vê-lo, mas eu o tinha em minha imaginação, e é por isso que estou sempre lendo livros. Eu podia ira para Marte ou a Terra Média ou para a Era Hiboriana." (Esta última referência é o mundo imaginário de Robert E. Howard, lar de "Conan, o Bárbaro".)

De volta à Londres dos dias atuais, os cardápios chegaram. "Me recomendaram o schnitzel", diz ele, enquanto consideramos um número extraordinário de opções. Pedimos o schnitzel Wiener para ele e frango para mim. Ele vem com quê? Nada, responde a garçonete, dando de ombros e fazendo com as mãos um gesto mostrando que o prato é grande. 

Imagino um espaço vazio no prato e pedimos acompanhamentos. "Purê amanteigado parece bom", diz Martin. Escolho broto de brócolis com amêndoas. Antecipando os pesados pratos principais, pedimos salada para a entrada - chicória, pêra e rúcula para ele; abacate, rabanete e alface americana para mim. Ele faz sinal para eu escolher o vinho. "Vá em frente! Um rosé seria bom, afinal você vai comer frango."

Martin, que está envolvido de perto com a série "Guerra dos Tronos" e escreve ele mesmo um episódio de cada temporada, acredita que seu sucesso está no apelo universal. "A HBO já fez algumas séries clássicas: 'Os Sopranos', 'Deadwood', 'The Wire' - que muitas pessoas consideram as melhores de todos os tempos. Mas a maioria de seus programas é muito americana. 

O que significa para alguém da Tailândia assistir aos conflitos de 'Os Sopranos' em Nova Jersey? Mas 'Guerra dos Tronos', sendo uma fantasia, ambientada em um reino imaginário e abordando certas questões universais - o poder e a família, o amor e o dever, tudo isso -, fala com muitas culturas diferentes."

"Guerra dos Tronos" também ganhou fama pelo uso da "exposição sexual" - mantém os telespectadores amarrados com uma combinação de enredo complexo e conduta sexual explícita. "Isso é algo que não está nos livros, é claro", diz ele. "Há muito sexo nos livros, mas não exposição sexual. Tenho muitas maneiras de fazer exposição que não estão disponíveis para David e Dan [Benioff e Weiss, roteiristas e produtores de 'Guerra dos Tronos']."

Esquentando o assunto, ele insiste nos possíveis usos mais amplos da exposição sexual. "Ela deveria ser adotada pelo setor. Pense como as reuniões de staff seriam mais interessantes se enquanto eles estivessem lhes dando as instruções...." Ele deixa a frase morrer, mas a imagem mental me faz resfolegar de tanto rir.

Martin não é nenhuma novidade para o mundo da televisão. Ele vendeu sua primeira história de ficção científica em 1970, quando estava na faculdade, e seu primeiro romance foi publicado em 1977. Em 1983 ele esperava alcançar o sucesso com seu quarto livro, "Armageddon Rag", sobre uma banda de rock. No entanto, lembra ele, "foi o meu romance que menos vendeu e basicamente destruiu minha carreira de escritor na época". 

Por estranho que pareça, o mesmo livro teve seus direitos comprados para a produção de um filme por um escritor e, embora o filme jamais tenha sido realizado, o escritor recrutou Martin para trabalhar em um remake da cultuada série de TV "Twilight Zone". Nos anos que se seguiram, ele trabalhou em pilotos e reescreveu roteiros para terceiros. "Ganhei muito dinheiro, mas fiz pouca TV", diz ele.

Nossas entradas chegam. A minha é uma alface redonda tombada. A de Martin, por outro lado, parece uma obra de arte comestível, com suas folhas de chicória maravilhosamente arranjadas. Mastigamos em um quase silêncio camarada, até que pergunto como a fama afetou sua escrita: milhões de pessoas estão dependendo dele para a continuidade da série na TV, e que ele nos diga como a saga termina. "Tenho um assistente e recentemente contratei um segundo", explica ele. "Estou meio que lidando com o fato de que me tornei uma pequena indústria - 'Westeros Incorporated' -, por assim dizer."


A ajuda extra, ele diz, o libera para se concentrar em escrever. "Escrevo melhor quando realmente me perco em meu mundo. Eu me isolo do mundo exterior. Tenho dificuldades para equilibrar o meu mundo real e o artificial. Quando o trabalho flui bem, dias e semanas inteiras passam e de repente percebo que estou com todas aquelas contas vencidas e, meu Deus, não desfiz a mala e está jogada em um canto há semanas." (Martin mora em Santa Fe com sua mulher, Parris, que ele conheceu em uma convenção de fãs de ficção científica)

O mundo fictício de Martin não é ensolarado. As principais personagens tendem a morrer. De maneira terrível. Houve, por exemplo, protestos na internet depois que Sean Bean, que fazia o nobre Ned Stark na primeira temporada, foi decapitado. "Fiquei surpreso com a reação àquela cena", diz Martin, entusiasmado. "Sean Bean já morreu bastante, esta não é a sua primeira morte. Há um vídeo no YouTube em que você pode vê-lo morrer 21 vezes em 21 filmes diferentes. Portanto, a ideia de ele morrer não é inteiramente nova para nós."

Ele explora sua chicória de maneira metódica. Tendo desistido de minha alface, sugiro que Westeros talvez seja a civilização "alternativa" mais bem imaginada desde a Terra Média de J.R.R. Tolkien e, de modo parecido, enfronhou-se no mainstream da consciência literária. Martin, que há muito reconheceu que tem uma dívida enorme com Tolkien, diz: "Houve milhares de anos de fantasia antes da Tolkien, mas a maneira como ela é moldada, como um gênero editorial comercial moderno, e os livros de fantasia que foram escritos no último meio século, tem a influência de Tolkien. Portanto isso ainda meio que define o campo de atuação."

Seus próprios livros redefiniram a ficção de fantasia para o século XXI? "Talvez. Eles certamente acrescentaram alguns elementos que estavam faltando." Pergunto se isso inclui papéis realmente bons para as mulheres - e anões. Na saga de Martin, as mulheres são tão moralmente comprometidas e sexualmente pragmáticas quanto os homens. E o anão Tyrion Lannister (representado na série por Peter Dinklage, em um desempenho vencedor do prêmio Emmy) é o mais próximo que os livros têm de um herói.

Martin está entusiasmado por me conduzir. "Mas eu acho que Tolkien criou pelo menos um grande papel para uma mulher. Amo Eowyn, ela realmente é a única mulher naquilo. Arwen foi criada para o filme. Tolkien era um cara do século XIX, um veterano da Primeira Guerra Mundial, e o fato de seus livros ainda tocar o leitor moderno, e eles são apreciados por milhões de pessoas hoje, é um sinal de seu brilho. Acho que ele continuará sendo lido por séculos e séculos."

Ele está pregando aos convertidos ao mundo da fantasia. Digo a ele que quando era adolescente, eu tinha um mapa da Terra Média pregado na parede do quarto, com a rota da jornada de Frodo marcada com tachinhas. Os mapas são muito importantes na fantasia, diz Martin (um livro com mapas de seus mundos imaginários será lançado em breve). "Quando você está lendo uma ficção histórica e uma personagem diz 'preciso ir até a Cornualha', você sabe onde a Cornualha fica, você não precisa de um mapa. Mas quando uma personagem de Westeros diz 'preciso ir até Dorne', você não sabe onde isso fica. Portanto, tivemos que incluir um mapa nos créditos de abertura [da série de TV]."

Nossos pratos principais chegam. Olhamos para eles, cada um com uma fatia grossa e enorme de carne aparentemente em formatos de reinos de fantasia. Fico contente por ter pedido também o brócolis, enquanto Martin mexe em seu purê. Entre garfadas, ele me conta como escreveu sua primeira saga de fantasia na infância. "Na América, na época, em lugares como Woolworths, você podia comprar "tartarugas baratas" - elas vinham em uma pequena bandeja de plástico, com água em um dos lados e uma divisória no meio, pedras do outro lado e uma pequena palmeira de mentira." 

Ele mostra o layout com as mãos. "Aqueles eram os únicos animais de estimação que podíamos ter. Eu tinha um castelo de brinquedo armado perto da minha cama, feito de lata, e o pátio era grande o suficiente para abrigar duas tartarugas-tanques. Tinha cinco ou seis tartarugas que viviam no castelo. Decidi que elas eram cavaleiros, lordes e reis, e assim comecei a escrever uma série inteira de fantasia sobre o reino das tartarugas e o rei das tartarugas.

"E aquelas tartarugas pareciam morrer muito facilmente. Acho que o ambiente não era muito bom para elas. Às vezes elas fugiam e eu as encontrava debaixo da geladeira um mês depois, todas mortas. Portanto, minhas tartarugas continuavam morrendo, o que era muito doloroso, mas também me fez pensar: 'Por que elas estão morrendo? Bem, elas estão se matando em conspirações sinistras'. 

Comecei a escrever aquela fantasia sobre quem estava matando quem, e as guerras de sucessão. Portanto, originalmente 'Guerra dos Tronos' começou com tartarugas, eu acho." Vejo que este é o significado do broche de tartaruga em sua capa. Ele faz um sinal com a cabeça e ri.

Desisto do schnitzel. Martin também acaba desistindo e os pratos são levados. Ele está ansioso para ir para casa. "Essas viagens são divertidas, mas interferem na minha escrita. 

Sempre tive problemas com prazos e ainda tenho, conforme você percebeu", diz ele, numa referência irônica ao lançamento atrasado, no terceiro trimestre do ano passado, de "A Dança dos Dragões", o quinto livro da saga, que levou alguns fãs impacientes a demonstrar sua ira na internet. Ele diz que o sexto livro, "The Winds of Winter", está "bem encaminhado", mas precisará ainda de uns dois anos para ser concluído.

Há mais de mil personagens nos livros e tramas muito complexas que atravessam anos. 

Pergunto se ele tem a cronologia em uma planilha. Ele toca a cabeça e diz: "Está tudo aqui".

(Tradução de Mario Zamarian)

Literatura, uma ciência exata

Suponha que a literatura existe por um motivo biológico crucial: para permitir que o ser humano simule situações e aprenda com elas. Esse mecanismo cognitivo permite que você viva a experiência de seduzir a mulher de um homem poderoso sem correr nenhum risco, por exemplo, ou vivencie uma grande batalha sem se ferir. Mais que um universo imaginário onde nos lançamos por puro prazer, a narrativa pode ter um papel importante na evolução.

Essas e outras teorias do professor de literatura Jonathan Gottschall, do Washington & Jefferson College, a 48 km de Pittsburgh, na Pensilvânia, integram a mais nova investida das ciências exatas no campo das humanas. Esse casamento causou polêmica alguns anos atrás e ainda é alvo de críticas, como frequentemente ocorre no surgimento de tendências inovadoras na interpretação da subjetividade literária. Considerada por alguns uma ameaça ao progresso obtido por tendências contemporâneas como o pós-estruturalismo e o novo historicismo, essa tendência vem atraindo interesse crescente do público e das editoras.

Gottschall ficou mais conhecido no Brasil recentemente por sua experiência de imersão em esportes como o vale-tudo, numa tentativa de compreender a fascinação pela violência. Gottschall lançou em abril o livro "The Storytelling Animal: How Stories Make Us Human" (Houghton Mifflin Harcourt, 272 págs., US$ 14,45) em que emprega uma abordagem mais amigável ao leitor comum para explicar suas teorias sobre os efeitos da literatura e seu papel na evolução do homem. Para o público acadêmico, Gottschall lançou em maio "Graphing Jane Austen: The Evolutionary Basis of Literary Meaning" (Palgrave Macmillan, 318 págs., US$ 74,79), em que se uniu a outros pesquisadores para provar que os romances da britânica Jane Austen (1775-1817), seja por meio de suas personagens ou tramas, exibem características darwinistas importantes que podem ajudar a decifrar a verdadeira função da literatura.

Em "The Storytelling Animal", Gottschall procura explicar uma das grandes perguntas a que chegou em seus estudos: por que os seres humanos criam histórias? "A narrativa é tão básica para nossa existência, está tão presente em nossas vidas, que a maioria de nós não percebe. A narrativa, do ponto de vista puramente biológico, parece uma grande perda de tempo, passamos tanto tempo de nossas vidas em mundos imaginários. Então por que fazemos isso?", questiona.

Com base na teoria evolucionista, Gottschall propõe a hipótese da simulação para explicar a importância da narrativa. Enquanto alguns acham que a capacidade narrativa do ser humano é nada mais que um grande acidente da evolução sem nenhum benefício ao seu processo, o professor defende que há um benefício evolutivo oculto que ajuda a própria humanidade a sobreviver. Para isso, a narrativa seguiria uma estrutura habitual de problema e solução. Como um simulador que ensina alguém a pilotar, a literatura permite que enfrentemos possíveis problemas e achemos a solução. Assim, é possível viver a experiência e até aprender com ela, mas sem correr os riscos.

"Um exemplo é que a leitura nos permite viver a experiência de seduzir a mulher de um homem poderoso, algo perigoso, mas sem enfrentarmos os riscos. Isso ainda é uma teoria, mas me parece que é consistente com as evidências disponíveis", diz.

Como provar essa hipótese empiricamente é a questão crucial, admite o pesquisador. Gottschall cita estudos da Universidade de Toronto comandados pelo professor Keith E. Stanovich que tentam testar a hipótese da simulação. Também já existem estudos mostrando que as pessoas que leem mais se saem melhor em diversas tarefas e até ampliam a empatia. Um exemplo é a pesquisa conduzida pela professora da Universidade de Kentucky Lisa Zunshine.

Financiada pela Fundação Teagle, Lisa investigou como estudantes universitários processam a leitura. O estudo usou equipamentos de ressonância magnética funcional para observar em tempo real a atividade cerebral. "Esse é o tipo de pesquisa que eu gostaria de ver - é exatamente o que eu defendo há anos", Gottschall diz. "Precisamos derrubar esse muro entre as ciências exatas e as humanas para solucionar essa questões, precisamos que professores de humanas cruzem essa barreira e aprendam métodos científicos", acrescenta.

Gottschall argumenta que a ficção é poderosa - para o bem ou o mal. "Temos essa noção de que entramos nos mundos literários e é algo divertido, mas saímos deles da mesma maneira que entramos. Estamos exagerando nossa imunidade para a ficção, porque ela realmente muda as pessoas. Mas não devemos nos convencer de que a literatura é totalmente boa - ela é uma ferramenta que as pessoas podem usar para propagar qualquer tipo de ideia que queiram, pois quando você lê uma obra de ficção abandona o ceticismo e se torna mais maleável à mensagem da narrativa."

Gottschall admite que seus estudos sobre o poder da narrativa podem parecer uma grande invenção da roda, porque é evidente que as histórias sempre mudaram o mundo, do abolicionismo inspirado por "A Cabana do Pai Tomás", de Harriet Beecher Stowe, ao belicismo revanchista de "Minha Luta", de Adolf Hitler. Mas, com base em suas pesquisas, ele sustenta que "se você quer que uma mensagem realmente se enterre no cérebro humano, não mostre uma tabela ou uma apresentação de Powerpoint, mas conte uma história, porque é nesse momento que estamos vulneráveis".

Numa entrevista ao Valor no Riverside Park, próximo à Universidade Columbia, Lisa Zunshine diz acreditar que seu trabalho está sendo cada vez mais aceito e cita como exemplo a petição que ela e cinco colegas apresentaram há alguns anos à Modern Language Association, a principal associação americana de professores de literatura, sugerindo a criação de um novo grupo voltado à abordagem cognitiva. O pedido foi aceito e a discussão começou com 250 membros.

Atualmente, o grupo conta com mais de 2 mil integrantes e também consegue emplacar todo ano uma mesa de debates na altamente competitiva reunião anual da MLA. Lisa, que foi agraciada com uma bolsa da Fundação Guggenheim de 2007 a 2009 para passar um semestre como professora visitante no departamento de psicologia da Universidade de Yale, também diz que várias editoras têm demonstrado interesse em publicar livros sobre abordagens cognitivas dos estudos literários, sua especialidade, e que o campo ganha cada vez mais vertentes, como a narratologia cognitiva e a neuroestética.

Lisa acredita que o estudo cognitivo da literatura pode ser útil para o mundo dos negócios. Isso porque, segundo ela, os psicólogos cognitivos buscam compreender a maneira como as pessoas interpretam diferentes estados da mente, seja por meio da observação ou por outros indícios. Para entender qualquer obra de ficção, por exemplo, é preciso compreender o estado mental dos personagens, num jogo complexo em que buscamos adivinhar o que outras pessoas acham que os outros estão pensando e assim por diante, até o quinto nível desse relacionamento, quando a compreensão se torna impossível. "Se você quiser tornar um modelo empresarial mais convincente, pode incorporar o conhecimento sobre esses diferentes estados mentais na sua explicação", afirma.

Na literatura, conta Lisa, o processo é o mesmo, pois "quando falamos de emoções ou pensamentos, essa narrativa se torna mais interessante do que se fosse contada com uma simples descrição."

Keith Gandal, professor de literatura da Universidade da Cidade de Nova York, integra a facção de pesquisadores que questiona o uso de teorias científicas para explicar acontecimentos na literatura ou na história. "Minha crítica ao evolucionismo na literatura não é que ele usa a ciência, mas que ele o faz de maneira anticientífica ou contra o método científico. Ele trabalha pela dedução e não pela indução. Assim, o evolucionismo na literatura me parece tão 'leviano' quanto os estudos literários que quer substituir", comenta o professor.

Gandal alerta para um possível perigo do uso do evolucionismo na interpretação de obras de ficção: o de uma teoria ser usada para explicar tudo. Ele cita um exemplo do pensamento do filósofo francês Michel Foucault, seu mentor na Universidade de Berkeley, para suscitar o que considera ser o problema.

Num ensaio chamado "Two Lectures", na coletânea "Power/Knowledge" (Vintage, 288 págs., US$ 10,44), Foucault questiona o uso do marxismo e da teoria da dominação da classe burguesa como ferramenta para explicar todos as questões, inclusive a repressão da sexualidade infantil. "Essas deduções sempre são possíveis. Elas são simultaneamente corretas e falsas. Acima de tudo, elas são superficiais demais, porque sempre é possível fazer o oposto e mostrar precisamente pelo apelo do princípio da dominância da classe burguesa que as formas de controle da sexualidade infantil jamais poderiam ser previstas", escreveu o filósofo francês.

Para Gandal, o mesmo problema se apresenta na aplicação da teoria evolucionista à literatura ou à história. O darwinismo sempre pode explicar o surgimento e as características do modernismo americano ou da mobilização americana para a Primeira Guerra, um dos temas pesquisados por Gandal, mas também pode provar exatamente o oposto, de que a teoria evolucionista poderia ter previsto um tipo diferente de mobilização para a guerra e um tipo diferente de literatura. "Aplicar uma teoria ou usar a dedução não me parece esclarecedor ou interessante. É 'bobo' precisamente porque pode ser feito sem pesquisas históricas e sem rigor", observa.

O professor defende a ideia de que um dos principais objetivos dos estudos literários é descobrir coisas que ainda não sabemos para tentar responder a perguntas reais. E a única maneira de fazer isso seria pela indução, começando com um questionamento real cuja resposta ainda não é conhecida. 

Assim, o pesquisador estabelece o que considera as regras do jogo para os estudos literários: "Por que essas obras-primas do modernismo americano surgiram nesse período? Por que têm similaridades na trama e nos personagens? Por que compartilham algumas características estilísticas parecidas? E a partir daí tentar responder a essas perguntas por meio da pesquisa histórica, tentando recriar o contexto da história para reconstruir a imprevisível confluência de acontecimentos e forças históricas que moldaram um conjunto de obras".

Gottschall diz que, apesar de ainda haver estudiosos que rejeitem suas teorias, há interesse crescente do público por novas abordagens dos estudos literários. A forte reação dos acadêmicos de literatura "é a história mais antiga do mundo", reflete. "Hoje em dia, elas [as críticas] são mais no sentido de que eu quero voltar no tempo e apagar todo esse progresso que fizemos. 

Dizem até que eu odeio a literatura - pois, para eles, se você leva a biologia para a literatura, quer destruir a literatura, você só quer triturá-la em sua máquina científica. É basicamente uma ideia supersticiosa de que se você consegue explicar algo acaba com a mágica que faz aquilo funcionar."

Por outro lado, Gottschall conta que recebeu um apoio muito forte dos estudiosos da ciência e da psicologia, "pessoas que têm uma mente mais empírica, que se decepcionaram com o pós-modernismo meio louco das humanidades".

Por Patrick Brock De Nova York (Valor Econômico)

terça-feira, 19 de junho de 2012

Jaime Prado Gouvêa


No dia 9 de maio, o Paiol Literário — promovido pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná — recebeu o escritor Jaime Prado Gouvêa. Nascido em Belo Horizonte (MG), em 1945, Gouvêa é Bacharel em Direito pela UFMG. Atuou como jornalista no Jornal da Tarde, de São Paulo, e na sucursal belo-horizontina de O Globo. Entre 1969 e 1986, integrou a equipe do Suplemento Literário de Minas Gerais, do qual é atualmente superintendente. 

É autor dos livros de contos Areia tornando em pedra, Dorinha Dorê e Fichas de vitrola, e do romance O altar das montanhas de Minas. Em 2007, publicou Fichas de vitrola & outros contos, reunião do antigo livro e de contos inéditos, pelo qual foi um dos ganhadores do Prêmio Jabuti 2008. 

Na conversa abaixo, mediada pelo escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda no Teatro Paiol, em Curitiba, Gouvêa fala sobre sua trajetória na literatura, critica o excesso de livros sendo publicados e de exposição dos escritores e relembra os tempos da Geração Suplemento e a relação com Murilo Rubião, fundador do Suplemento Literário de Minas Gerais.

Redondinho
Eu não sei. A literatura me salvou, numa determinada época. Tenho uma ligação muito grande com meus livros. Não sei exatamente que espaço a gente ocupa na vida do leitor. Mas se, por acaso, a literatura da gente servir para alguma coisa, já cumpriu um pedaço da função dela. Esse negócio de ler depende — tem gente que gosta, tem gente que não gosta. É sempre bom, né? Para nós, que estamos escrevendo, e para eles, que podem aprender alguma coisa. Mas não sei se é questão de aprender alguma coisa, também. Às vezes bate, por exemplo, num problema que a pessoa tem, e pode ajudar, pode não ajudar. Não sei. É o meu modo de me exprimir, quem eu sou. Por isso, eu falo que sou eu. Realmente, o que eu escrevo sou eu, não posso escrever pelos outros. Mudar o mundo, ninguém muda. É uma tentativa de entender alguma coisa. Pode melhorar algo. Pode melhorar as pessoas, pode piorar também, dependendo da literatura. Mas mudar o mundo, não. O mundo não tem jeito de ser mudado, é assim mesmo, sempre foi. Redondinho…

Mexendo com literatura
Olha, o meu pessoal não era muito de literatura, não. Meu pai era promotor, então tinha muito livro de Direito. Minha mãe tinha essa leitura de mãe, mesmo — quando tinha alguma coisa. Não era muita coisa, não. Mas quando lancei meu segundo livro [Dorinha Dorê, de 1975], um tio meu, do lado da minha mãe, da família Prado, apareceu lá em casa com um monte de jornais antigos, que eram as coisas que meu avô escrevia. Nem para os filhos ele tinha mostrado. E os levou para mim. Falou: “Você é o único sujeito da família que está mexendo com literatura”. E me entregou. Tinha até uma peça de teatro escrita por esse meu avô, de 1901. Era coisa meio bobinha, assim, mas, claro, de 1901.

Terrível medo do ridículo
Até hoje tenho problema com multidão. Quando eu era pequeno, fui a um aniversário na casa de uma tia, cheio de gente. E lá, havia uma senhora bem gorda. Colocaram na mesa um bolo que parecia uma gelatina, bem mole, e essa mulher se levantou [para pegar o bolo]. Eu tinha quatro anos de idade e, achando que estava fazendo muito bonito, puxei a cadeira e a mulher caiu. Achei que todo mundo ia rir, mas me deram uma bronca (“Quase você mata a véia!”). Nunca mais me esqueci desse negócio. Toda vez que aparecia gente lá em casa parecia que estavam me acusando, sabe? E entendi porque que esse negócio de “aparecer” é ridículo. Se você quer aparecer, tem que aparecer direito. Isso marca, velho, você nunca mais esquece, não.

Começando a gostar
Quando conheci o Humberto Werneck, no juvenil do basquete do Minas, a gente tinha 14 anos de idade. Ele era leitor de Fernando Sabino, começou a fazer umas crônicas no Colégio Estadual — eu estudava no Loyola, se não me engano, nessa época. E era aquela competição de menino: comecei a ver as coisas dele, ele começou a me emprestar os livros e fui começando a gostar. Foi o contato mais direto com a literatura que eu tive. E aconteceu uma coisa engraçada: ele passou para o conto, eu também — crônica eu nunca fiz, crônica tipo Fernando Sabino. Mas não sei o que aconteceu com o Humberto. Foi mexer com jornal, achou que o negócio dele era aquele. Eu continuei e ele parou. Ficou num livro de contos que publicou há pouco tempo [Pequenos fantasmas, de 2005], que são contos da década de 1960. O grande talento dessa Geração Suplemento [Literário de Minas Gerais], na minha opinião, era ele. O Sérgio Sant’Anna estava começando nessa época e, para mim, estava bem abaixo do Humberto. Mas ele deu essa parada. Hoje continua escrevendo crônicas e você vê o talento do sujeito, mas na literatura mesmo — conto, romance, ficção —, ele deu um bloqueio e nunca mais fez nada, o que achei um desperdício. Então, meu contato com a literatura foram os livros que peguei na casa dele. Primeiro que a gente não tinha dinheiro para comprar livro. E, lá em casa, não tinha esses negócios. Meu pai sempre falava: “Meu filho, você está escrevendo, mas estuda outra coisa, que esse negócio não serve para nada”. Só no final da vida, quando ele viu que eu tinha ganhado uns prêmios, falou: “Até que enfim você está fazendo alguma coisa”. “Pois é, e você queria que eu fizesse outra.” Meu pai era um sujeito que nasceu em fazenda, também não tinha ligação com esse negócio, não. Ele gostava de Machado de Assis, umas coisas assim. Ainda bem, né? Podia ser pior. Ele lia mais livro de Direito.

Impressão digital
Minhas leituras sempre foram meio caóticas. Sempre gostei de uma literatura que, inclusive, não tem nada a ver com a minha: o texto rigoroso do Graciliano Ramos, o texto limpo do Rubem Braga, o poder de síntese do Dalton Trevisan. Gosto muito do tipo de literatura feita pelo John Cheever, pelo Cortázar, pelo Scott Fitzgerald. São bem diferentes. O Fitzgerald também tem uma sonoridade que acho bonita, melhor do que aquele negócio seco do Hemingway. Mas é questão de gosto pessoal. Tudo é meio caótico. Sempre pego uma coisinha de um cara, de outro. No fundo, a gente escreve a gente mesmo, não tem jeito. Cada um tem uma impressão digital. Se ficar copiando os outros, o cara não vai a lugar nenhum.

Desenvolvimento natural
Nunca pensei em termos profissionais. Naquela época, eu fazia uns poeminhas — péssimos, ainda bem que parei. Mas serviu para uma coisa, no futuro: o exercício de poesia nos dá um molejo para escrever. Você aprende o som — tanto que andei fazendo umas letras de música, depois. Já vi muito cara que nunca mexeu com poesia cujo texto é mais duro, não tem aquela sonoridade, aquela coisa toda. E uso muito o negócio de ritmo, frase longas, frases curtas. Eu lembro do primeiro conto que escrevi; eu já tinha 21 anos, foi em 1966. Escrevi a mão. É o primeiro conto que está no meu primeiro livro. Um continho lá. O que eu achava que era uma crônica, quando fui ver, era um conto — pequeno, mas era. Aí fui vendo que, realmente, aqueles poemas que eu estava fazendo eram muito chatos; comecei a tentar [escrever mais contos] e foi dando certo. Mais tarde, quando eu já tinha três livros, falei: “Quem sabe eu faça um romance?”. Aí sentei e fiz esse aí [O altar das montanhas de Minas]. Se bem que, no começo, o personagem mesmo fica na dúvida sobre como começar. Eu mesmo estava assim. Então, à medida que fui fazendo, o negócio foi se desenvolvendo. Mas é meio caótico, não tem uma ordem, não.

Primeiro conto
Vira-mão: esse conto, eu mostrei para o Humberto. A gente tinha essa mania de ficar mostrando. E ele um dia chegou com um jornalzinho chamado DX, da faculdade de Engenharia, com esse conto lá. Ele datilografou o negócio, entregou para os caras e eles publicaram. Foi a minha estréia. No jornalzinho da Engenharia. Eu falei: “Como é que isso foi parar aqui?”. Achei bacana o negócio impresso. E você vai entrando nessa.

Entrada no Suplemento
O Suplemento, eu devo exatamente a Curitiba. Eu tinha publicado um conto lá, em 1967, um negócio do Humberto. Em 1969, entrei num concurso da Fundepar [Fundação Educacional do Paraná]. Era meu segundo concurso. Ganhei um dos prêmios e, na mesma época, apareceu uma vaga no Suplemento. O Humberto virou para o Murilo [Rubião] e disse: “Olha, ele ganhou um prêmio, é funcionário público, é fácil para entrar”. E o Murilo me chamou. Entrei no Suplemento desse jeito. Amizade. O Humberto puxava a gente e o Murilo confiava muito nele. Cheguei e os colegas meus de faculdade estavam todos lá: Adão Ventura, poeta da minha sala; Duílio Gomes; uma série de pessoas. O Suplemento ficava na Imprensa Oficial, no Centro, a dois quarteirões da faculdade de Direito, pertinho dos botecos que a gente freqüentava. Uns foram para frente, outros ficaram pelo caminho… Na época, a gente não pensa que está fazendo alguma coisa, e depois se assusta. Tantos livros… Aquele pessoal está aí também, o Sérgio Sant’Anna, esse povo todo. O [Luiz] Vilela. Mas também já está na época de criar os novos. Que nem criaram a gente.

Murilo Rubião
Como escritor, acho que o Murilo nunca influenciou ninguém. Fazia o tipo de coisa dele, começava e morria nele. O negócio do Murilo era o seguinte: em 1966, em plena ditadura, ele fez o Suplemento. E segurava a barra da gente demais da conta, entende? Ele pegava o pessoal mais novo — coisa que hoje, quando estou mexendo no Suplemento, tento fazer: sempre publicar um sujeito que está aparecendo, equilibrando com alguém que já tenha uma carreira mais sólida, aquela bobagem veterana e tal. Então ele tinha os amigos dele, publicava a turma dele — Emílio Moura, esse pessoal todo, até Carlos Drummond de Andrade, que era seu amigo — e misturava com os novos, com a turma nova. Geralmente, hoje eu vejo, era tudo iniciante, e não se esperava maravilha nenhuma, não. Se o Murilo visse que o cara tinha um jeito para o negócio, ele publicava. Mas nunca o vi elogiar nada. A única vez em que o Murilo me elogiou foi a coisa mais engraçada. Foi dois meses antes de ele morrer, quando lancei meu romance [O altar das montanhas de Minas, de 1991]. Encontrei com ele lá na porta do [Edifício] Maletta, numa galeria no Centro da cidade, e ele falou: “Jaiminho, rapaz, até que enfim você acertou”. Falei: “Murilo, tem quase 30 anos que eu te conheço…”. Ele era assim. Não era de elogiar, mas você sabia que, quando ele estava publicando, ou era porque gostava ou porque levava fé no sujeito. Nunca foi de passar a mão na cabeça de ninguém nem nada. Mas defendia a gente. Naquele tempo era academia, era bispo, era militar, tudo a fim de pegar o pessoal do Suplemento. E ele segurava a barra. Segurava mesmo. Porque tinha prestígio com esse pessoal. Fora de lá, ele costumava nos chamar para tomar uísque, e parecia um menino também, gostava de ficar com a gente. Então, era um cara muito legal, muito honesto. E muito íntegro. Lembro de uma coisa que ele falou para mim: “Olha, o negócio é o seguinte, você não é obrigado a publicar um livro por ano, não. Mas, quando for escrever um livro, tem que ser ‘o’ livro. Pode ser um, mas tem que ser caprichado”. Eram os conselhos que ele dava. Mas sem ser conselho paternal, nem nada. Ele falava também: “O livro você tem que escrever. Não tem importância ficar publicando”. Ele passava anos sem publicar nada porque estava em casa trabalhando suas coisinhas ali. Enquanto não ficasse satisfeito, não publicava.

O convidado
Foram 33 contos que ele [Murilo Rubião] completou. Mas teve um que ele levou quase 30 anos para escrever. O convidado é famoso. Teve um seminário qualquer lá em São Paulo, aonde foi todo mundo — Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Murilo, esse pessoal todo. Um dia, ia ter uma festa e chamaram o Murilo. Ele falou: “Não vou, não, que estou escrevendo um conto”. E o pessoal foi. Quando voltaram, estava o Murilo dormindo e um cesto cheio de papel, tudo escrito assim: “O convidado, conto de Murilo Rubião” — e mais nada. Muitos anos depois, o Paulo Mendes Campos fez uma carta para ele (e que virou crônica), falando: “Murilo, o negócio é o seguinte: o convidado existe, a festa é que não existe”. Acho que ele levou 26 anos para fazer daquilo um grande conto. Ele sabia que tinha um conto para fazer, mas não sabia qual. O Murilo era uma figura fantástica, ele era próprio para o fantástico. Era uma figura.

Fim de uma geração
O Suplemento perdeu sua grande vantagem: ele funcionava numa sala da Imprensa Oficial. Era o suplemento do Minas Gerais, que é o diário oficial, e por isso se chamaSuplemento Literário. Então tinha uma sala lá no Centro da cidade, que ficava quase do lado do Maletta, aquele lugar onde tinha os bares em que a turma se juntava, de tarde. A turma da faculdade de Direito ia lá, era um ponto de encontro. O Sérgio Sant’Anna trabalhava na Justiça do Trabalho, ali perto. O Fernando Brant trabalhava na sucursal d’O Cruzeiro. Às quatro horas, eles iam lá fazer uma chacrinha e depois a gente ia para os botecos. Então tinha essa convivência, estava sempre cheio de gente. Como o pessoal, é evidente, foi crescendo, casando, mudando de cidade, de país, essa geração foi sumindo. Uma época teve uma briga séria, no tempo do Wander Piroli, quando quiseram mexer no jornal e o pessoal mandou todo mundo embora. Nós ficamos oito anos fora. Voltamos quando Tancredo Neves foi eleito governador [em 1983] e botou o Murilo como diretor da Imprensa; ele chamou a turma toda de volta. Mas nossa turma já estava 20 anos mais velha. Depois, o Murilo passou para a Secretaria de Cultura e o pessoal não queria mais saber dele [do Suplemento]. Falei: “Vou tentar fazer renascer a idéia do Murilo”. Os “consagrados” da época eram a gente — o Sérgio, o Vilela, esses caras que, antes, eram meninos. Tentei seguir a filosofia do Murilo: mesclar o negócio, fazer um jornal bonito. Mas acontece que, hoje, o Suplemento fica num anexo no fundo do Museu Mineiro, uma salinha desse tamanho, aonde não vai ninguém. Hoje, o pessoal, em vez de ir lá levar as coisas, manda tudo por e-mail, computador, esse troço todo. Então, perdeu-se o convívio que a gente tinha, essa idéia de geração. Isso é o que funcionava. Nós lançamos em 1971 uma antologia chamada Contos gerais, com 22 contistas. Desses 22, dez eram nascidos em 1945. Dez. Depois disso, comecei a prestar atenção: aparecia um sujeito nascido em 1949; outro nascido em 1951; outro, em 1958 — um aqui, outro ali. Perdeu-se aquela turma. E essa turma nossa, inclusive, para mim só existiu por causa daquela redação. Muita gente ali, eu mesmo, talvez não fosse para frente se não tivesse um lugar onde publicar. Imagino que muita gente de talento tenha desistido no meio do caminho porque não tinha esse lugar. Acho que a importância doSuplemento foi essa, essa maneira de juntar o pessoal, de conviver. O convívio era muito legal. E, além do pessoal novo, todo santo dia apareciam lá Affonso Ávila, Ildeu Brandão, Emílio Moura — que era professor de economia lá perto —, Libério Neves. Sem contar a turma que ia lá de vez em quando, visitar: Clarice, Drummond, Vinicius. Iam porque eram amigos do Murilo. E ficavam a tarde inteira, papeando com a gente. Murilo Mendes, no fim da vida, com 72 anos, dois anos antes de morrer, foi lá e passou uma tarde com a gente. Foi um ponto de encontro. E isso desapareceu, principalmente com esse negócio de internet e outras coisas. Hoje, o cara manda um negócio para você, você publica e nem está sabendo. Perdeu aquele convívio. Isso é que fazia a geração.

Em cada comarca
O Suplemento, atualmente, sou eu com dois diretores. Um é o Fabrício Marques, que é poeta, e o outro é o João Pombo Barile, jornalista. As colaborações vêm por e-mail, a gente pede ao pessoal. Tem gente de todo lado. Tem, por exemplo, o Sergio Faraco, do Rio Grande do Sul, que vive mandando coisas para a gente. O Álvaro Costa e Silva, o Marechal [do Rio de Janeiro]. Mas é assim, entende? Não tem contato. O Suplemento até hoje é encartado noMinas Gerais. O Minas Gerais vai para todos os municípios. Onde tiver uma comarca tem que ir. Todos os municípios do estado. Antonio Barreto, um poeta de Passos, muito bom poeta, já me confessou: a única coisa que tinha para ler lá na terra dele era o Suplemento. Agora, ele é distribuído mais ou menos feito o Rascunho — em alguns pontos. Mandamos para assinantes. O Suplemento também tem uma turma de assinantes, mas é de graça, não é vendido. Agora, não dá para calcular quantos. Acho que são 15 ou 18 mil exemplares… E vão para o exterior, para um monte de gente, você nem imagina onde está chegando. O bom é isso: chega em cada lugar estranhíssimo.

Salvando contos
Esse livro [Areia tornando pedra, de 1970] foi o seguinte: primeiro, uma falta de autocrítica imensa. Eu tinha escrito 16 contos na vida e publiquei um livro com 15. Só tirei um. Tanto que, quando fui reeditar Fichas de vitrola [de 1986, reeditado em 2007], resolvi salvar alguma coisa desse primeiro livro. Não ia reeditar livro de infância, de juventude, negócio de principiante. E só consegui salvar dois contos do primeiro livro, você imagine. E um desses foi um dos premiados no Paraná. Os outros dois que também foram premiados aqui, eu não quis colocar. Era muito bom na época. Sempre falo: não renego o troço, não. Para a época, foi aquilo. Mas fiquei pensando o que eu publicaria hoje. Esses, eu não publicaria. Do segundo livro, salvei seis. Dois do primeiro. Tinha três inéditos em livro, que juntei com os outros contos, para equilibrar o tamanho do Fichas de vitrola.

Primeiros livros
O primeiro [livro, Areia tornando em pedra]foi o seguinte: eu estava no Suplemento, tinha acabado de entrar, e eles tinham na Imprensa uma comissão que editava livros. Se aprovassem o livro do sujeito, editavam. A gente pagava uma parte do material, coisa mínima, o pai da gente pagava o negócio, tinha direito a 400 exemplares e dava 600 para a Imprensa. Falamos: “Vamos tirar esse negócio de ‘Imprensa’ e botar ‘Edições Oficina’”. E saiu livro meu, do Silviano Santiago… Todo mundo publicou na Edições Oficina, como se a editora existisse. Então foi esse negócio da facilidade. Montei o livro, o Humberto fez a orelha para mim. Era tudo coisa de amigo, mesmo. Arrumamos uma ilustradora do Suplemento para fazer a capa. A gente trabalhava na Imprensa e rodou lá mesmo. Tinha um parque gráfico imenso. Eles estão até querendo voltar a fazer uma editora. Tudo bem, eu dou a maior força. Então, teve essa facilidade. Depois apareceu uma editora chamada Interlivros, de um cara meio doido que resolveu lançar uns livros de bolso. Começou com o Wander Piroli e o Luiz Gonzaga Vieira. Eu estava com esse Dorinha Dorê, mandei para ele e ele publicou também. Mas durou pouco tempo. Essa editora, evidentemente, foi à falência. Fazia venda em banca de jornal, mas ele era mais doido que os outros: era livrinho de bolso em papel-jornal, que traça adora… Sei que esse livro meu está extinto, fiquei com dois exemplares. Eu passava lá na editora de vez em quando e pegava dez exemplares para eu distribuir — era baratinho e não tinha distribuição nenhuma. Cheguei lá, estava fechada. Perguntei para um sujeito na rua: “Cadê minha editora?”. “A editora acabou, tem seis meses, já. O estoque foi todo para o papel velho.” Acabou desse jeito.

Nas mãos do editor
O Fichas ganhou, em 1982, o Prêmio Guimarães Rosa. Era o Prêmio Minas Gerais de hoje, que é um prêmio nacional. Nacional, assim, qualquer um podia entrar; entrava pouquíssima gente de fora, mas entrava. Então, passei três anos mandando o livro para tudo quanto é editor. É aquele negócio: a turma acha que prêmio realmente influencia, mas influencia, não. Em 1984, mais ou menos, o Pedro Paulo de Sena Madureira era editor da Nova Fronteira, se não me engano. Ele resolveu fazer um lançamento em Belo Horizonte com Adélia Prado, Wander Piroli e com mais uns dois caras. O Piroli conhecia o meu livro, passou lá no Suplemento e virou para mim: “Me dá esse livro que está na sua gaveta”. “Mas quem falou que tem livro na minha gaveta?” “Tem.” E tinha. Esse livro estava lá. Pegou, levou para o Pedro Paulo e falou: “Você vai ler esse negócio agora”. No dia seguinte, o Pedro Paulo telefona lá para casa: “Vem cá, que eu preciso te conhecer, que eu vou editar teu livro”. Desse jeito. Mas por quê? Porque o Piroli botou no peito dele. Foi aí que eu vi que esse negócio de mandar livro para editor não adianta nada. Se você não entrega na mão do cara… Então, o Pedro Paulo levou o livro e acabou publicando na Guanabara. Ele saiu de lá, foi para São Paulo. Quando escrevi o romance, pedi para o Humberto ver se achava uma editora qualquer lá em São Paulo, porque em Belo Horizonte não tem editora adulta, só de literatura infantil — que coisa mais esquisita, né? Levou, encontrou o Pedro Paulo na rua, com o livro na mão, e o Pedro Paulo disse: “Me dá aqui”. Levou e publicou na Siciliano. E é tudo assim, na loucura.

Conto não vende
Quem falou isso não fui eu, foi o Pedro Paulo. Ele editou esses dois livros [O altar das montanhas de Minas e Fichas de vitrola]. Quando lancei o romance, saiu escrito embaixo: “romance”. Virei para ele: “Me explica uma coisa: por que você não botou ‘contos’ nesse aqui e botou ‘romance’ no outro?”. “Porque se eu botar conto, você não vende.” E ele é editor, um grande editor, esse cara. Falou que poesia nem pensar. Para ele, como comerciante, era um fracasso. Só se fosse de Drummond para cima. Tanto que as pessoas de poesia penam até hoje para publicar alguma coisa. E falou isso claramente comigo: “Está provado que o pessoal, o povão, gosta de romance. E de preferência grande, para ler na praia, esse troço todo”. Conto não é para iniciante mesmo, cheguei a essa conclusão. O cara precisa ter uma certa maneira de ler que não é a da literatura de entretenimento — não é mesmo. Romance pode ser. Conto de entretenimento, eu nunca vi. Então, é um negócio que exige mais dos outros.

Quatrocentos malucos
Eu até tenho lá em casa as prestações de conta da Record — esses dois livros [O altar das montanhas de Minas e Fichas de vitrola & outros contos] estão na Record. Até hoje, nenhum dos dois passou de 500 exemplares vendidos. Eu nunca vou ser best-seller na vida, pode ter certeza. Nunca. Não tem jeito. Também não sou de ficar indo em escola, essas coisas, o que tem muita gente que faz. Você sabe, até para vir aqui foi meio complicado. Mas para mim está bom. Quatrocentos e tantos livros de um e quatrocentos e tantos de outro. Já é muito maluco lendo as minhas coisas. Já é coisa demais.


Medo da decadência
Quando cheguei ao romance, achei que estava esgotado. Tanto que passei para o romance quando já tinha três livros de contos. E, por algum motivo, dei uma parada. Aconteceram algumas coisas na minha vida, foi uma época em que meus pais morreram, e fiquei um pouco afastado. Quando vi os resultados das vendas de livro, falei: “Pô, ninguém quer ler nada”. Fiquei meio desanimado. Quando escrevi mesmo, foi uma época em que precisei escrever, tanto que eu falo que isso me salvou um pouco. Foi uma época meio difícil na minha vida. Desandei a escrever e foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Aconteceu aquele negócio de separação, de namoro, aqueles troços — naquela época a gente sofria pacas, hoje nem sei mais. Tem um amigo meu com quem aconteceu um negócio desse e ele acabou morrendo, porque desandou a beber. Eu desandei a escrever. Então funcionou muito nessa época, e por isso tem muito de mim nessas coisas. Quando eu via que o negócio estava ficando muito pessoal, eu mesmo esculhambava, fazia gozação. E o pior é que funcionava, rapaz. Quanto mais chateado você estava, mais o pessoal gostava. Então foi bom. Para a literatura, foi bom. Depois, entrei numa fase em que vi: “Pô, já tenho esses livros todos…”. Hoje você entra numa livraria e até desanima de tanto livro que tem, tanta coisa ruim. E aí você perde exatamente o fundamental, que é o tesão para escrever. Eu falei: “Não vou fazer coisa pior do que já fiz”. Isso eu meti na cabeça e não tem jeito. Tenho certo medo dessa decadência. O dia em que aparecer uma coisa legal, não tenho nada contra, não. Acho que a literatura chama a gente, a gente não vai atrás dela. Toda vez em que tentei fazer alguma coisa, que tinha que fazer, nunca saiu nada que prestasse. Tem uma hora em que o negócio baixa em você e você vai lá e faz. Se pintar isso algum dia, volto e faço numa boa. Não vou ficar escrevendo por escrever, detesto isso, acho muito ruim. Já vi muita gente boa que achava que tinha que publicar livro de dois em dois anos. Então esse cara tinha um livro ótimo um dia, mas depois publicava umas três bobagens. Quando vê que não está a fim e não está legal… Falta um pouco de sangue nas coisas. Quando reeditei os contos todos num volume só e reeditei o romance, na mesma editora, com a mesma capista e o mesmo tipo, disse: “Minha obra completa são dois volumes”. Falei: “Não vou escrever mais nada, senão vai atrapalhar esse negócio”. Mas, se pintar, pintou.

Brincando de Deus
Projetei meus problemas na literatura. Ao invés de ficar com o sofrimento, eu passava para o personagem. Falei: “Já que alguém vai sofrer, agora eu sou Deus, você é que vai, eu que mando”. É uma maneira de usar aquele negócio a seu favor. Eu desandei a produzir. Ao invés de ficar engolindo a coisa, eu a transformei em literatura. Isso deu um sentido para mim. As coisas voltaram a acontecer, melhoraram. Foi isso.

Obrigação
A gente deve ter um respeito pelas coisas que já fez, entende? Acho isso fundamental. Tem gente que trata mal a própria obra. Ele mesmo esculhamba aquilo, ele mesmo faz um negócio malfeito. Eu não gosto disso, não. Já que você vai publicar, faça o que melhor que puder. São as coisas que aprendi com o Murilo [Rubião]. Faça um livro. Faça o melhor que puder. Você não vai fazer a melhor literatura, e nem sempre tem capacidade para isso. Mas o melhor que você puder é obrigação sua. Eu acho que é.

Papel e caneta
Eu faço umas anotações, mas não é nada. Não tenho método. Não tenho nada. Não tenho mania nenhuma. A única coisa que eu gostava era de escrever a mão. Até hoje. Gosto de uma caneta, de um bloquinho. Eu não freqüentava livraria. Freqüentava papelaria. Achava um barato mexer com bloco. Ganhei um computador tem sete anos, se não me engano. Minha irmã comprou e me deu de presente porque estava nervosa: eu tinha uma máquina de escrever que vivia mandando consertar e ninguém consertava mais aquilo. Ela me deu um computador e arrumou um professor para eu mexer com ele. Foi o único computador que tive até hoje, e gosto muito dele. Não quero nada novo também, não. Mas eu gostava mesmo, na verdade, era do seguinte: escrever a mão. Acho gostoso escrever a mão. Não sei por quê, mas cada um tem uma doideira. Tanto que quando começava alguma coisa à máquina, não era legal. O computador, por exemplo. Hoje eu redijo alguma coisa ou recebo algum texto que o pessoal manda para o Suplemento. Eu imprimo para ler no papel. Porque na tela não tenho uma visão legal — não sei por quê, mas não enxergo bem a coisa. Cada um tem uma mania, né? A minha é essa.

Rigor ou maluquice
Quando leio uma coisa que não está batendo, enquanto eu não resolver aquilo… O Fichas de vitrola tem um conto, o primeiro, Concerto para berimbau e gaita, em que ficou faltando uma palavra de duas letras. A palavra “lá”. Você acredita que até hoje me incomoda? Isso me incomoda de um jeito! Uma vírgula que deixei de colocar no negócio… Maluquice mesmo. Não é bem rigor… Mas como é que eu pude fazer uma besteira dessas? Esse troço é terrível.


Reconhecimento
Quando ia trabalhar — eu fingia que trabalhava, que era funcionário público, né? —, eu passava sempre na frente de um supermercado que tinha perto da Rua da Bahia. Ali, na entrada das mercadorias, havia um balcão. Passei de manhã cedo, vi um livro amarelo em cima do negócio e pensei: “Já vi esse livro”. Era o meu. Todo amassado, grifado. A pessoa fez anotações e tal. Aí veio uma moça lá de dentro, que trabalhava no supermercado: “O senhor deseja alguma coisa?”. Falei: “Estava vendo esse livro, esse livro é meu”. Ela falou: “Não é, não!”. Achei ótimo. No lugar em que você menos espera, a pessoa não faz a menor idéia de quem você é e está gostando da coisa que você fez. Acho isso um barato. Isso é o que eu acho que funciona. A mesma coisa quando apareceu esse prêmio Jabuti para o meu livro[Fichas de vitrola & outros contos], uma reedição que tem contos de 40 anos de idade, do começo do Suplemento. E fazia 20 anos que eu não escrevia. De repente, você, ainda vivo, ganha um prêmio, concorrendo com gente que escreveu algo agora… Falei: “Esse livro sobreviveu”. Isso é o que eu acho que coloca a gente lá em cima. Ficou em terceiro lugar — não tem importância nenhuma. Mas achei legal o reconhecimento, você entende? Se fosse uma coisa que eu tivesse acabado de fazer, tudo bem. Mas é uma coisa antiga, nunca tinha acontecido nada, e tantos anos depois, com outro tipo de leitor, que possivelmente nem era nascido quando escrevi, o negócio de repente aparece. Quer dizer, a sensação do efêmero desapareceu para mim. O negócio sobreviveu a esse tempo. O meu medo era escrever e no ano seguinte nunca mais, o negócio perder a importância. Isso enche a gente de vaidade mesmo. Vai ficando bom.

Muito livro, pouca qualidade
Tem livro demais da conta e, se você espremer, sai pouca coisa. O problema é que antigamente eram dez caras publicando e você salvava dois. Hoje você salva dois em duzentos. É muita coisa. Há pouco tempo apareceu — já se vão cinco anos, mais ou menos — uma poeta lá em Belo Horizonte, a Ana Martins Marques, que é sensacional. Ela já apareceu com um negócio de altíssimo nível. Mas você conta nos dedos. O problema é esse. E todo dia tem lançamento. Você dá uma olhada, desanima. É gente demais da conta. Tem mais gente [escrevendo agora do que na época da Geração Suplemento] porque a população aumentou, né? Mas em matéria de qualidade, acho que não chega aos pés, não. Talvez seja essa diluição. Uma publicação costuma juntar uma turma — não é fazer panela, não, mas conviver. Mudou muito. A internet deu uma espairada tão grande nisso, que até pode ser um negócio legal no futuro, mas por enquanto a qualidade não está grande coisa, não.

Trabalhadinho
Vejo o romance como uma história, como um filme, linear. O conto já exige um pouco mais de dedicação, de atenção. O conto nem sempre tem uma história. O romance, geralmente, é uma história. E o cara pode ler, pode parar, voltar depois. O conto já é um negócio mais compacto. O conto é mais perto da poesia do que de outra coisa, é um negócio mais fechado. E é mais trabalhadinho. No conto, o cara não enrola; num romance, você enrola. Eu sei, porque fiz um romance e você vai enrolando. O conto não, você bate ali naquele negócio.

Muita exposição
Tenho alguns amigos que estão sempre indo a escolas fazer debate com alunos, fazer a divulgação de seus livros, essa coisa toda. Não tenho costume disso. E não faço muita questão. Não gosto de falar em público. Na verdade, é o seguinte: acho que quem tem que aparecer é o livro, e não o cara. Não vejo muita vantagem em conhecer a pessoa que escreveu o livro. Tanto que, numa das poucas vezes em que fui a uma faculdade, falei: “Vou, com a condição de a turma ler meu livro antes de eu chegar lá”. Eu tinha esse livro em estoque, era o Fichas. Eles iam fechar a Guanabara e perguntaram se eu queria ficar com o estoque. Fiquei. Dei 60 livros: “Depois que todo mundo ler, você me chama. Aí, nós vamos discutir o livro”. Porque não vou chegar lá e ficar explicando: “O livro que fiz é assim e assim”. Esse não é o papel do cara. O papel do cara é escrever. Tenho certa bronca com esse negócio, escritor não devia aparecer demais, não. Já vi escritores terríveis com uma obra maravilhosa. Sempre prefiro o livro ao cara. Quando falei daquela pessoa que tinha meu livro e não sabia quem eu era, vi que o livro estava funcionando, o papel é dele. Um belo dia, vou morrer e ninguém vai saber quem eu sou. O livro é que tem que ficar. É uma questão pessoal, não gosto muito dessa exposição. E tem gente que adora esse negócio, né? Fala demais da conta, faz um monte de movimentos. Depois, você vai ver a obra dele e é uma bobagenzinha que não tem importância nenhuma. Não faz meu gênero, não acho legal. Quando é negócio de menino, por exemplo, se for para despertar o interesse dele [pela leitura, em escolas], é outro tipo de coisa. Mas não a exposição do sujeito como se fosse uma estrelinha, esse troço todo, que acho uma bobagem. E tem muito cara que é assim. Acha que só porque escreve tem que aparecer em capa de revista. Literatura é outro tipo de coisa.

Para todos os gostos
Geralmente, quando vou escrever, já sei mais ou menos o que quero e vou direto, não sou de muito rascunho. Hoje faço uns diários, umas coisas assim, e vou anotando umas bobagens, mas sei que não vão dar em nada. E nem anoto pensando em literatura, mas para uso interno. Com a pessoa que faz isso planejado, geralmente não dá certo; tem que ser espontâneo. Mas cada um é de um jeito, né? Tem gente para tudo, tem leitor para tudo. Tem tudo. O bom é isso.

Projeto desenvolvido desde 2006 pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, o Sesi Paraná e a Fiep.

Texto extraído integralmente daqui.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os mercados e os valores

O colapso econômico que se seguiu ao surto de crescimento do crédito teve às vezes um sabor de traição conjugal. Havia um sistema, e uma filosofia econômica, a sustentá-lo, que deveria nos fazer felizes.

Por certo tempo, nos fez.

Agora, num momento em que o crescimento mantido à base de injeções financeiras e os cada vez mais altos preços das residências viram lembrança remota, percebemos como fomos bobos. A exemplo da esposa fiel que ignora os avisos dos amigos, queríamos acreditar numa coisa que, com a vantagem da visão retrospectiva, percebemos não ser possível.

Mais tristes, mas mais espertos, podemos agora optar entre dar uma outra chance ao sistema ou deixá-lo para trás na busca de algo melhor. A objeção ao capitalismo atual é materialista: de que não cumpre a promessa de criar prosperidade para todos. Mas, e se o maior problema não estiver no fato de o capitalismo ter descumprido sua promessa, e sim na própria promessa?

Nesse caso, as mudanças de que precisamos vão muito além de ajambrar incentivos econômicos. Dois livros novos que singram essas águas mais turvas e questionam os axiomas do capitalismo de mercado são "What Money Can't Buy", de Michael Sandel, e "How Much Is Enough?", de Robert e Edward Skidelsky. Ambos querem que vejamos nosso caso de amor com o capitalismo como uma troca fáustica. 

A advertência é de que soltar as rédeas dos mercados envolve abrir mão de parte da nossa alma.

Para Sandel, filósofo político de Harvard, "migramos de ter uma economia de mercado para ser uma sociedade de mercado" - com que ele quer dizer que tratamos cada vez mais as coisas importantes da vida simplesmente como commodities disponíveis para compra e venda. Para Robert Skidelsky, o historiador da economia conhecido por sua biografia de John Maynard Keynes, e seu filho Edward, filósofo acadêmico, o problema é a insaciabilidade.

A busca incessante de mais - rendas mais elevadas, crescimento mais acelerado - está nos furtando à vida que gostaríamos de viver, e não nos ajudando a conquistá-la. Ambos os livros argumentam que a fé nos mercados solapou sub-repticiamente as coisas que mais nos interessam, ou que mais deveriam nos interessar.

Nem Sandel nem os Skidelsky condenam o capitalismo e os mercados como tais. Mas são radicais no sentido estrito da palavra: eles nos conduzem a repensar nossa opinião sobre os mercados. Na verdade, são mais convincentemente radicais do que a maioria dos anticapitalistas confessos.

Sua advertência é que nossa capacidade - individual e coletiva - de buscar uma vida de valor foi minada porque uma determinada forma de filosofia política, e, em especial, a influência do pensamento econômico atual, empanou nossa compreensão do que é a vida que gostaríamos de viver.

Os Skidelsky começam com "o erro de Keynes". Este não é o Keynes da "Teoria Geral", mas o das "Economic Possibilities for Our Grandchildren" (Possibilidades econômicas para os nossos netos), o ensaio de 1930 que imaginava que o capitalismo liberal mundial poderia produzir um século a partir de então. Keynes previu um padrão de vida de quatro a oito vezes mais elevado, o que colocaria "o problema econômico... com uma solução em vista".

Mais concretamente, isso significaria conseguir "atender nossas necessidades sem ter de trabalhar mais do que três horas ao dia. A possibilidade... era que aprenderíamos a usar nosso lazer adicional para viver 'de forma inteligente, agradável e bem'".

Keynes acertou quanto ao crescimento per capita, que alcança, em média, 400% nos países ricos desde que ele fez o prognóstico. No quesito horas trabalhadas, errou redondamente. As pessoas de fato trabalham menos do que antes, mas não estamos próximos de trocar o período integral de oito horas de trabalho por vidas dominadas pelo lazer.

O que não está óbvio é por que a visão de Keynes não se realizou, apesar de as condições atuais da economia permitirem que isso aconteça. Como o título dos Skidelsky deixa claro, eles culpam a obsessão pelo crescimento. Mas isso não parece totalmente correto. O crescimento da produtividade não impede, por si só, a obtenção da vida que gostaríamos de viver defendida por eles nem a adoção de políticas que a tornem mais alcançável. O problema, admitem, é aquele lamentado pelos moralistas: ver o poder aquisitivo não como um meio para chegar à vida que gostaríamos de viver, mas como um fim em si mesmo.

Sandel preocupa-se com a comercialização. Na medida em que as normas do mercado encampam campos cada vez mais amplos da atividade humana, cada vez mais as coisas são avaliadas como se fossem produtos aguardando a fixação de um preço. A bateria de fatos de Sandel é um espetáculo bizarro de transações comerciais até recentemente inauditas. 

Por exemplo, os lugares para o público nas sessões do Congresso americano são distribuídos por ordem de chegada. Mas empresas interessadas contratam alguém para fazer fila no seu lugar.

"What Money Can't Buy" (O que o dinheiro não pode comprar) está cheio de exemplos do que o dinheiro, na verdade, compra. Sandel faz desfilar diante dos nossos olhos os comentários de beisebol patrocinados por empresas, o mercado de cambistas de ingressos para missas papais, a mulher que autorizou, por US$ 10 mil, que se tatuasse o endereço do site de um cassino em sua testa, as "barrigas de aluguel" indianas.

Sandel mostra por que mudanças desse tipo são profundamente importantes - e por que os economistas erram ao se irritar com o que encaram como oposição irracional às soluções de mercado.

Consideremos o benefício da amizade, convida ele. Suponhamos que você está se sentindo sozinho, mas tem dinheiro para gastar. Por que não pagar por companhia? A resposta, naturalmente, é que, por mais que você possa pagar alguém para fazer o que os amigos normalmente fazem - dar um pulo na sua casa para jantar, cuidar do seu gato, ouvir seus problemas amorosos -, isso não transformaria a pessoa em sua amiga.

No caso da amizade, podemos todos ver que a comercialização de um relacionamento o transforma em outra coisa. O argumento de Sandel é que isso pode ser verdadeiro para muitas outras coisas que valorizamos. Tratar uma coisa como boa para ser comprada e vendida por um preço pode corromper seu significado não comercial.

O que é marcante, e que os Skidelsky também mostram, é como o pensamento econômico convencional normalmente desafina em reflexões sobre valores. Isso deriva da própria experiência dos autores com economistas que brandem imperialisticamente seu método de análise social e ludibriam intelectualmente as autoridades de política econômica.

O que fazer? E o que fazer agora - quando as pessoas castigadas pela austeridade podem ser perdoadas por não encarar o excesso de materialismo como seu problema principal?

Os Skidelsky fazem propostas cuja falta de originalidade não as diminui. Defendem uma renda básica, impostos sobre o consumo e limites à publicidade. São ideias suficientemente racionais de política econômica. Mas parecem inadequadas como resposta ao "erro de Keynes". Afinal, as atuais políticas não impedem muitos de nós de trabalhar menos, de nos contentarmos com "o suficiente" e de cultivar a vida que gostaríamos de viver. O problema certamente se deve, de qualquer modo, tanto às políticas públicas quanto às nossas atitudes.

O enfoque de Sandel é mais promissor, por ser mais modesto. Ele propõe que se discuta como deveríamos avaliar as coisas. Isso é sutilmente diferente (embora ele possa discordar) de escolher políticas com base numa ideia da vida que gostaríamos de viver. O pensamento político e econômico dominante talvez nos diga agora que políticas de governo não deveriam impingir qualquer concepção determinada de como as pessoas devem viver sua vida; deveriam limitar-se a respeitar direitos e preferências dos indivíduos. 

Mas isso, mesmo assim, deixa as pessoas livres para - na verdade, as obriga a - fazer juízos de valor sobre que tipo de vida vale mais a pena viver. Se optarem por vidas que parecem moralmente pobres, esse é um problema que precisa ser abordado por meio da deliberação e da educação, tanto quanto por políticas de governo.

Não estou tão convencido quanto parecem estar esses autores de que o pensamento de mercado é inimigo dos valores. Bons economistas respeitam os valores dos indivíduos. Podem ser levados a perceber, e corrigir, alguns dos juízos de valor implícitos, e injustificáveis, que alguns modelos econômicos muitas vezes fazem. Não há dúvida de que tanto Sandel quanto os Skidelsky estão certos de que a economia de livre mercado não conseguiu perceber o que realmente valorizamos. Mas essa não é tarefa da qual a economia deveria ser excluída, e sim tarefa em que deveríamos contar com sua ajuda para melhor realizá-la.

Martin Sandbu é editor de economia do FT e autor de "Just Business: Arguments in Business Ethics" (Prentice Hall)

(Tradução de Rachel Warszawski)

Fernando Monteiro

O poeta e romancista pernambucano Fernando Monteiro sente-se em intenso desacordo com o mundo contemporâneo. "Costumo dizer que, mentalmente, eu vivo na Suméria." A declaração nos autoriza a vê-lo no quarto milênio antes de Cristo, caminhando pelas ruas da cidade de Ur, uma das capitais da civilização mais antiga da humanidade. Ler seus fortes poemas - como os agora reunidos em "Mattinata" (uma coedição da editora potiguar Sol Negro com a catarinense Nephelibata) confirma essa visão. Monteiro avança, com determinação, na contramão do futuro. Mas, em um inevitável movimento circular, esse caminho o lança de volta bem à frente de nós.

Poucos escritores brasileiros parecem tão bem equipados para observar o contemporâneo. Sabe Monteiro que essa posição o alija do centro dos negócios literários e o empurra, em consequência, para um posto marginal. "Ninguém que viva na Suméria pode despertar o interesse de algum baladeiro que acabe de pegar essa entrevista para ler", diz, resignado. Mas não é só de resignação que se trata: Monteiro conhece as vantagens de sua posição deslocada. Tem uma visão do mundo que, na maior parte do tempo, nos foge. A nós que, afogados na vibração do contemporâneo, só aceitamos as deduções práticas e imediatas e odiamos tomar distância e pensar.

Os temas da escrita de Fernando Monteiro são antigos. Ele mesmo enumera: o significado da vida, a existência ou não de Deus, o limite inexorável da morte, o mistério do amor, a implacabilidade do tempo. Temas que parecem inúteis e desgastados em um mundo atordoado pelo imediato e pelo tempo real. "A renitente mesquinhez humana, no entanto capaz de se transformar em ascese na pintura da Capela Sistina, permanece no centro do meu interesse." Não por um apego doentio pelo passado; não pelo desejo de fugir ao presente. Ao contrário: para se colocar em um posto de observação imune às turbulências contemporâneas e, assim, ver com mais clareza e melhor.

Autor de importantes romances como "As Confissões de Lúcio" (Francis, 2006), "Aspades, ETs, Etc." (Record, 2000) e "A Cabeça no Fundo do Entulho" (Record, 1999), seus livros - como as obras de um distante caminhante das ruas de Ur - permanecem, em geral, esquecidos ou relegados à zona - cada vez mais desprezada pelo mercado - da "escrita difícil". Exilado à força da cena literária, o corajoso Monteiro decidiu assumir o exílio como destino e dele arrancar sua potência. Decisão que o levou, em 2009, com "Vi uma Foto de Anna Akhmátova" (Editora da Fundação Cultural do Recife), a abandonar transitoriamente a prosa para se dedicar exclusivamente à poesia.

"A ficção brasileira caiu numa armadilha, talvez autopreparada com a ajuda de editores ávidos e leitores cheios de preguiça", avalia, sem poupar a ênfase. Nesse cenário de desolação, ele optou por uma nova posição: "Estão tratando de piscinas vazias, na maior parte dos romances por aí, e resolvi dar mergulhos longe disso, na praia deserta da poesia". Na poesia, ele acredita, editores e leitores o deixam, enfim, em paz. Não precisa seguir modas, adotar tendências de mercado, submeter-se às pressões da crítica. Volta a ser - mas sempre foi assim como romancista! - absolutamente dono de si.

Agora se sente melhor: mais livre e com um controle mais fino do próprio espírito. Voltando a si, pode observar com mais clareza o mundo em destroços que o (nos) cerca. "Sinto um prazer enorme em descer pela trilha da tarde, rumo à vereda da poesia, que não tem forma capaz de se esgotar." Luta, desse modo, para desglamourizar o trabalho literário, limpá-lo dos valores rápidos e superficiais do presente, devolvê-lo ao passado mais remoto no qual os sumérios - inventores da escrita cuneiforme - tiveram a chance única de partir do zero absoluto.

Fernando Monteiro, o poeta, observa a literatura sem ilusões. Afirma: "Se não chega a ser um trabalho como qualquer outro - por exemplo, o do patologista que disseca cadáveres assobiando um sambinha -, é, ainda assim, um trabalho que não precisa mergulhar no robertocarlismo das superstições, que levam alguns romancistas a até se benzer antes de se sentar para escrever". Em seu retorno ao passado, Monteiro não pretende enfrentar monstros mitológicos ou desnudar tesouros ocultos: quer, apenas, retomar contato com as raízes mais internas do homem. As mesmas que, em nosso mundo atordoante de luzes e de instantâneos, nos fogem, diluídas em vapor.

O solitário Monteiro - que passa a maior parte dos dias em seu apartamento no Recife - não se incomoda, apenas, com as pressões do mercado, quando elas impõem a necessidade de vendas rápidas, leituras confortáveis e memórias descartáveis. Indispõe-se, mais ainda, contra certa visão "midiática" da literatura, "para tentar sobreviver em um mundo sem perguntas, sem angústia a não ser sobre empregos, academias de ginástica e a hora mais correta de investir na Bolsa". A palavra, angústia, parece estar no centro de tudo: é da experiência da angústia que, equipado com imagens feéricas e pilhas de fragmentos, o mundo contemporâneo se esforça, em desespero, para escapar. Mas será possível um mundo sem angústia? Mais ainda: será possível pensar em uma arte que não tenha a angústia, origem do humano, como fundamento?

Monteiro tem, hoje, poucos interlocutores. Com o artista Francisco Brennand, de 84 anos, troca uma sucessão contínua de e-mails a respeito de arte e de literatura. Ainda ativo e lúcido, Brennand precisa, contudo, que a secretária digite seus e-mails - e, por isso, o ritmo da conversa é sempre mais lento. Já com o cineasta José Carlos Targino, 20 anos mais moço, se encontra regularmente em algum bar discreto para conversar sobre poesia e cinema. Bares obscuros, às margens das luzes, "onde seja talvez impossível aparecer algum intelectual de shopping", ironiza.

No mais, fica em casa, quieto, relendo. Depois do lançamento de "Mattinata", como sempre faz, recolheu-se para um período de meditação e leitura. "A vida é breve e os autores verdadeiramente instigantes, como um Nabokov e não um Borges, merecem releituras contínuas." Está sempre a reler Nabokov, uma de suas referências fundamentais. E quase nunca abandona um exemplar do "Moby Dick", de Melville, que no momento relê pela 22ª vez. "E eu não pulo as partes 'chatas'. Não pulo, nem mesmo, aquelas relações tediosas de cachalotes."

Não descarta, contudo, os autores contemporâneos. Admira, em particular, os livros de Rubens Figueiredo e de Elvira Vigna. "São dois escritores originais, trabalhando fora do trilho de aproximação - suicida - do real, que nos devolve o entorno no colo, como se fosse uma espécie de atração fatal do jornalismo 'ficcionado'." É, ainda, leitor entusiasmado de Bernardo Carvalho. Monteiro bate com força no neonaturalismo que domina parte importante da ficção brasileira atual. Não aceita que a literatura se reduza à fotografia.

Tem dificuldades, porém, de falar a respeito da própria ficção. "O título de meu primeiro romance, 'Aspades, ETs, Etc.', talvez contenha uma pista [nos "ETs"] sobre a minha alienígena figura de escritor não interessado em literatura sociológica de violência urbana." Bate-se, ainda, contra os livros de encomenda, "os livros que editores acham que deveriam ser escritos". Isola-se em seu projeto pessoal, agarra-se a ele - e não arrasta o pé de sua estrada, por mais tortuosa que ela seja.

Monteiro é um combatente feroz do "gosto médio", que se espalha, segundo ele, com a disseminação da literatura na internet. "Muito mais provavelmente, a internet dissemina e reforça o ruim, em vez de despertar para o bom", afirma. Prossegue, pouco se importando com os inimigos que possa cultivar: "É o gosto médio - devastador - que domina nos blogs e nas redes, em que tudo, praticamente tudo, pode ser escrito e nada é para ser escutado, se não for em termos de receitas baratas para se viver como se fosse num aquário". Pode-se discordar das posições de Fernando Monteiro. Pode-se, até mesmo, nelas apontar um excesso de fúria. Mas não se pode negar sua coragem intelectual. Atributo, é preciso dizer, que anda em baixa em um meio dominado - para o bem e para o mal - pelas relações de gentileza e compadrio.

Na web, Monteiro detecta pragas como a multiplicação de imitadores baratos de poetas como Adélia Prado. Protesta: "Adélia não é simples, porém quem a imita pensa que é fácil evitar o destino de Sylvia Plath e ficar só com a parte 'boa' das platitudes escritas, como se escrever fosse - nas palavras de Pasternak - apenas atravessar um campo. Não, não é". Escrever (ao contrário do que a internet tantas vezes nos sugere) não é fácil. A experiência da escrita nos empurra para caminhos múltiplos, tensos, que precisamos apesar de tudo sustentar, pensa Monteiro. É preciso tropeçar, errar, transformar-se, inquietar-se, ou nada se escreve que valha a pena. "Há 13 maneiras de olhar um melro, segundo Wallace Stevens", ele nos lembra. "Estou ainda na quarta, ou talvez na quinta, e também descobri que os autores laterais - como o francês Victor Segalen - podem ser mais vitais do que os escritores do 'mainstream', que pisam no tapete da Literatura com maiúsculas e botas de couro envernizado."

Monteiro, um escritor das bordas. Caminha nos limites e não se importa em não ser reconhecido. Caminha no silêncio. "Aos 62 anos, o que me resta de vida não será bastante para ler o que está fora do cânone, que é, realmente, o que me interessa agora." Fernando entre os sumérios e, no entanto, despejado na zoeira do século XXI. Daí - depois do lançamento do belo "Mattinata" - necessitar de mais um intervalo. "Só posso escrever após um período de esvaziamento, no qual me comporto mais ou menos como um imbecil", diz. Sem as pausas, a música seria inaudível.

O mesmo acontece com a poesia. Recorda a advertência de Marguerite Duras: "Só pode escrever maus livros quem se dedica somente a escrever livros". Fernando Monteiro luta, ao contrário, para preencher um pouco o vazio com o próprio vazio, luta para aceitá-lo e, só depois, "tentar um novo mergulho na piscina seca da literatura". Precisa sair de si - retornar à distante Suméria, berço de todos os escritores - para voltar a si e escrever.

Texto: José Castello para o Valor Econômico

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O moderno do contra

O século XVIII foi um tempo de esperança intelectual e amor ao progresso. Os sábios dessa era racionalista entraram para a história com o nome de iluministas, e o período, como século das luzes.

A República das Letras, fazendo circular pela Europa a comunicação de ideias novas na ciência e na filosofia, punha em contato autores como os franceses Voltaire, d'Alembert e Denis Diderot e o alemão Immanuel Kant. Eram pensadores esperançosos de que, graças à revolução de ideias que operavam, a humanidade sairia da infância e entraria na vida adulta. 

Ou seja, as pessoas passariam a pensar por conta própria, sem tutelas políticas, religiosas ou intelectuais. Mas, entre os modernizadores, houve alguém do contra, que incomodou a todos: Jean-Jacques Rousseau.

Celebra-se neste ano o tricentenário do nascimento do chamado Cidadão de Genebra, em 28 de junho de 1712. Rousseau foi o homem que lançou nuvens carregadas de dúvida sobre os conceitos de modernidade, progresso e ilustração típicos do pensamento de seus interlocutores. Bruno Bernardi, do Collège International de Philosophie (CIP), em Paris, descreve a obra de Rousseau como "a autocrítica do iluminismo". 

O autor do "Contrato Social" (1762) e dos "Devaneios do Caminhante Solitário" (1776-78) não foi um reacionário intelectual, daqueles que expressam a nostalgia de tempos passados. Paradoxalmente, seu olhar crítico, muitas vezes duro, fez dele um dos mais modernos dentre os modernos e garantiu a permanência de suas ideias, admiradas e desprezadas em igual medida.

Genebra celebra o nascimento de um de seus filhos mais ilustres com o programa "Rousseau Para Todos", com um colóquio, debates e passeios pela cidade. Facetas do filósofo que ficaram um pouco esquecidas, como suas composições musicais e obras para o teatro, são recuperadas e encenadas. O destaque é a opereta "O Adivinho da Aldeia" (Le Devin du Village), em que Rousseau procura aplicar suas ideias contrárias à grandiosidade cada vez mais exótica das óperas do período. 

Em São Paulo, a PUC (Pontifícia Universidade Católica) sedia, em setembro, o colóquio "Je Suis Autre" (Eu Sou Outro), organizado pelos professores Luiz Fernando Franklin de Matos, Maria Constança Pissarra e Maria das Graças de Souza.

Maria Constança explica a escolha do título do encontro a partir da variedade de temas que Rousseau abordou: teatro, música, política, educação, idiomas. "Ele é a voz crítica do século XVIII, aquele que se contrapõe ao otimismo iluminista. Ele é este outro, aquele que questiona e se inquieta."

Também em São Paulo, a vertente artística de Rousseau está em destaque. Ao longo do ano, textos seus serão lidos no teatro Tuca, da PUC-SP: "Pigmalião", "Narciso" e "O Adivinho da Aldeia", entre outros.

Em setembro, o coro da Orquestra Sinfônica de São Paulo apresentará obras de compositores barrocos franceses cujas obras inspiraram os textos estéticos e críticos de Rousseau, como Jean-Philippe Rameau e Marc-Antoine Charpentier, sob direção de Naomi Munakata.

De perto ou de longe, Rousseau inspirou a maior parte dos movimentos de contestação política e social dos dois últimos séculos. Ecologistas, socialistas e anarquistas podem encontrar as raízes de suas doutrinas nos textos de Rousseau. Pioneiro ao usar a expressão "direitos dos homens", em meados do século XVIII, ele já deplorava a perda de participação democrática na modernidade, que se expandia rápido demais. 

Antes que Freud destrinchasse a intimidade da alma, um "caminhante solitário" do século XVIII mergulhava na própria "torrente de afetos" sem pudor. Quando as crianças ainda eram educadas com violência, Rousseau propunha a opção do incentivo à curiosidade.

Ele é célebre pela afirmação que abre sua obra-prima, "O Contrato Social", de 1762: "O homem nasce livre, mas em toda parte se encontra agrilhoado". Escrita em pleno coração do século que acreditou na possibilidade de fundar sociedades verdadeiramente livres, a fórmula soa como uma estocada de punhal.

Apenas 14 anos mais tarde, Thomas Jefferson abriria a declaração de independência dos Estados Unidos reafirmando a crença, "evidente por si só", nos "direitos alienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade". Rousseau foi aquele que denunciou a alienação desse direito inalienável.

O Cidadão de Genebra antecipou um problema que se tornaria urgente no século XX: o ambientalismo. Foi, talvez, o primeiro pensador moderno a afirmar sistematicamente que o homem, ao transformar a natureza para seu próprio proveito, destrói vínculos importantes com a própria origem. "Ele insiste na oposição entre natureza e cultura, mas não para rejeitar a cultura, e sim para mostrar que o processo civilizatório é positivo, mas tem um lado negativo", diz Maria Constança. "O progresso é resultado da ação humana, mas produz a negação do próprio homem."

Rousseau também antecipou um conflito que surgia no século XVIII e se tornaria crucial no fim do século XX, com a globalização. François Jacob, um dos organizadores das celebrações em Genebra e curador do Instituto e do Museu Voltaire, assinala que Rousseau associa a formação dos cidadãos à ligação com seu território, sua cultura e sua língua. 

Na falta dessas referências, os indivíduos também perdem a possibilidade de ser verdadeiramente livres. "Essa concepção nova da identidade será retomada pela Revolução Francesa, que conduzirá à criação da noção de pátria."

As críticas profundas que Rousseau faz à representação política, à propriedade privada e à liberdade individual entendida como mera ausência de restrições à ação o colocam no contrapé das sociedades que se construíam em seu tempo. Os limites que via na democracia representativa e naquilo que viria a ser o capitalismo são os mesmos que ainda se criticam, 300 anos depois.

Sobre a propriedade privada, Rousseau escreve que o verdadeiro fundador da sociedade civil foi "aquele que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas simplórias o suficiente para acreditar nele". Para Rousseau, a igualdade e a liberdade são, ambas, valores fundamentais, porque uma não existe sem a outra. Portanto, se falta liberdade na sociedade civil é porque em algum momento foi instituída a desigualdade social.

O texto que lhe deu celebridade, "Discurso sobre as Ciências e as Artes" (1750, publicado no ano seguinte), já anunciava o espírito crítico que se seguiria. O progresso da ciência não foi acompanhado pela evolução moral, argumentava Rousseau. Ao contrário, a humanidade abandonava a moralidade ao se deixar cegar pelas facilidades que o avanço técnico trazia.

A representação política, que fundava, no século XVIII, a democracia moderna, foi acerbamente atacada por Rousseau. "Não faz diferença, para ele, se estamos submetidos a uma pessoa só [monarquia] ou a várias. O fato é que sempre estamos submissos", explica Maria Constança. O problema levantado por Rousseau reaparece periodicamente na modernidade que se segue a ele.

Nos acampamentos de Madri, Nova York e Santiago do Chile, no ano passado, cartazes com os dizeres "Vocês não nos representam" eram visíveis com frequência. Bernardi cita esse exemplo para explicitar como, muitas vezes, a representatividade política até hoje aparece como insuficiente.

"Rousseau faz uma analogia da política com uma amante", diz Maria Constança. "Se queremos que a paixão continue, temos de cuidar dela continuamente. Temos de dar atenção constante." O filósofo genebrino celebra a democracia participativa dos gregos, ainda que ela excluísse escravos, mulheres e pobres, porque, nesse modelo, fazer política era responsabilidade de todos.

Só assim, ele diz, é possível fazer aparecer a "vontade geral" - um de seus conceitos mais importantes - para organizar o funcionamento da sociedade. Só a "vontade da maioria" não basta, porque também é uma forma de dominação. A vontade geral é aquela que resulta dos debates, das discussões, das diferenças, das discordâncias. 

É possível criticar a proposta como utópica, lembra Bernardi, porque tanta participação política poderia levar à imobilidade. Mas Rousseau não está preocupado em ser viável. Como filósofo, lembra Maria Constança, seu papel é nos colocar diante de um problema: "Como construir a soberania do coletivo"?

Tentativas de produzir sociedades mais igualitárias e mais coletivas surgiram diversas vezes, depois dos escritos de Rousseau, frequentemente citando o próprio autor do "Discurso sobre as Ciências e as Artes" como inspiração. A cada vez, os resultados foram menos que satisfatórios. A primeira experiência ocorreu com a Revolução Francesa de 1789. 

Os jacobinos, vertente mais radical dos revolucionários, fizeram de seu "Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens" (1754) um livro de cabeceira.

Em parte, isso explica a associação histórica que se criou entre Rousseau e grandes movimentos totalitários. Maximilien de Robespierre, o líder violento e radical que deu início ao período sanguinário do "Terror", em 1793, era um admirador confesso de Rousseau. Pouco após a morte do revolucionário, também guilhotinado, em 1794, os restos mortais de Rousseau foram trasladados de Ermenonville, onde repousavam desde sua morte, em 1778, para o Panthéon, o monumento parisiense aos nomes mais célebres da França.

Ironicamente, Rousseau descansa frente a frente com a tumba de seu maior rival, mas também referência capital da Revolução Francesa: Voltaire.

Em textos como o "Manuscrito de Neuchâtel" e os póstumos "Confissões" e "Devaneios do Caminhante Solitário", Rousseau se fez o precursor da literatura autobiográfica, confessional e intimista do século XX. Os primeiros leitores, porém, não apreciaram nem um pouco o tom desinibido (para os padrões da época) das autobiografias do filósofo.

"Emílio, ou da Educação" (1762, mesmo ano da publicação do "Contrato Social") foi recebido com escândalo e resultou em proibição na França e na Suíça. O romance, que é um manual filosófico sobre a estratégia de educar uma criança em respeito à natureza, também antecipou princípios pedagógicos do último século: a criança deixa de ser uma miniatura do adulto; mais importante do que ensinar conhecimentos determinados é passar o gosto do conhecimento.

Todo esse poder de adiantar ideias e problemas que os séculos seguintes desenvolveriam se fez acompanhar de um gosto pelo paradoxo. É por esse motivo que seu nome é evocado para justificar tanto a liberdade quanto a opressão. Também é por isso que, segundo Alain Cernuschi, professor de letras da Universidade de Lausanne, "ele irrita, fascina, inflama e comove".

O filósofo francês Michel Onfray diz que tinha admiração por Rousseau na adolescência, mas se "é bom sinal amá-lo aos 16 anos, é mau sinal amá-lo mais tarde". Escrevendo sobre o legado rousseauniano, Onfray não poupa adjetivos: trata-se de um homem "azedo, colérico, paranoico, misantropo, megalômano". Suas ideias, lembra Onfray, "nas mãos de personagens sinistros, tornaram-se armas de destruição em massa".

A filósofa e escritora Élisabeth Badinter ressalta o lado misógino de Rousseau, cujos romances e tratados atribuem à mulher um papel estritamente doméstico e materno. Ela mesma uma autora feminista, refere-se a Rousseau como o autor "antifeminista por excelência", ressalvando que, embora muitos autores da época, entre eles Voltaire, já propusessem a igualdade dos sexos, o feminismo como tal ainda estava longe de surgir.

O século de Rousseau foi o tempo dos chamados "déspotas esclarecidos", reis com poderes absolutos (ou quase), mas com os olhos na modernidade. Voltaire se instalou na corte prussiana para aconselhar o rei Frederico II. Foi no suntuoso castelo de Sans Souci, nos arredores de Berlim, que o autor de "Cândido" (1759) completou seu livro "O Século de Luís XIV". Em Portugal, o rei José I entregou as rédeas do reino ao homem que salvou o país do caos, quando um terremoto destruiu Lisboa em 1755. Era Sebastião José de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal.

Na Rússia, a imperatriz Catarina II, alemã de nascimento, juntou na corte um séquito de sábios, incluindo o físico e matemático Leonhard Euler, que batiza teoremas de cálculo, geometria e mecânica. Quando Voltaire e Diderot tiveram dificuldades financeiras, a imperatriz comprou suas bibliotecas, mas permitiu que as guardassem consigo, alegando a dificuldade de transportar os livros para a Rússia.

O espírito modernizante e revolucionário atravessou o Atlântico e inspirou os "pais fundadores" da república americana. Benjamin Franklin passou uma temporada na França, onde frequentou os salões do iluminismo, e Thomas Jefferson era um grande leitor de Montesquieu, o autor de "O Espírito das Leis" (1748), que teorizou a divisão dos poderes políticos em executivo, legislativo e judiciário. Jefferson também invocou a inspiração do "Contrato Social" de Rousseau. 

Era o "Século das Luzes" derrubando monarquias e fundando nações.

Rousseau, ao contrário, pouco pôde contar com as boas intenções dos poderosos da época. Desde a infância, não teve motivos para ver com bons olhos o funcionamento da sociedade. Sua mãe (Suzanne) morreu de parto e seu pai (Isaac, um relojoeiro) foi obrigado a fugir de Genebra, então uma cidade-Estado (a incorporação à Suíça aconteceu em 1815), por ferir um militar numa briga. O pequeno Jean-Jacques, então com dez anos, foi viver com um tio e, pouco depois, um pastor de nome Lambercier.

Em suas "Confissões", Rousseau relembra esse período, passado nos campos próximos à cidade natal, como o mais feliz de sua vida. Mas foram dois anos, apenas. Ainda adolescente, Jean-Jacques voltou a Genebra, onde se tornou aprendiz de gravura com Abel Ducommun, descrito como "brutal e autoritário". Aos 16 anos, no fim de uma noitada passada entre amigos na região vizinha (francesa) da Savóia, o futuro filósofo deu com a cara nos portões trancados de Genebra. Em vez de sentar para esperar a manhã, preferiu cair no mundo.

Daí por diante, sua biografia é uma sucessão de mudanças, muitas delas forçadas, outras fruto da paranoia: após o banimento do "Contrato Social" e de "Emílio", Rousseau passou a ver em todas as críticas que recebia um complô para derrubá-lo. 

O filósofo renegou a fé calvinista em que foi criado, para abraçar o catolicismo. Depois, mudou de ideia e voltou à religião de seus pais e de sua cidade. Viveu em Annecy, Lyon, Paris, Lausanne, Neuchâtel, Ermenonville, Chambéry e Londres. Sua estadia na Inglaterra não durou muito: convidado pelo filósofo David Hume, Rousseau rapidamente se convenceu de que o escocês estava envolvido em um complô contra ele e partiu às pressas.

De exílio em exílio, Rousseau terminou a vida empobrecido, vivendo como copista de música em Paris e, mais tarde, como agregado do marquês de Girardin, no castelo de Ermenonville. Ao morrer, em 2 de julho de 1778, foi enterrado na ilha lacustre de Peupliers, em plena natureza.

Texto de Diego Viana para o Valor Econômico