quarta-feira, 30 de maio de 2012

Uma vida dividida em três

"Sou um repórter." Uma frase simples como essa vira uma espécie de profissão de fé para um dos melhores biógrafos da geração que sucede a nomes tarimbados como os de Fernando Morais e Ruy Castro, autores de duas das mais bem-sucedidas biografias dos últimos anos, as de Assis Chateaubriand ("Chatô - O Rei do Brasil") e Nelson Rodrigues ("O Anjo Pornográfico"). O cearense Lira Neto, 49 anos, já escarafunchou com métodos jornalísticos vidas tão díspares quanto as do escritor José de Alencar, do presidente Castello Branco, da cantora Maysa e do Padre Cícero.

Agora, Lira Neto está de volta às livrarias com um relato peso-pesado, a história do personagem mais emblemático da nossa vida política, o presidente Getúlio Vargas (1882-1954). "Getúlio - 1882-1930. Dos Anos de Formação à Conquista do Poder" é parte de uma trilogia que só deve ficar pronta em 2014, quando se comemoram os 60 anos da morte do antigo ditador e depois presidente eleito democraticamente.

"Agora sou um biógrafo profissional", diz Lira Neto. Ele está há dez anos em São Paulo, mas não faz muito tempo desde que conseguiu definir a sua profissão com todas as letras. Lira Neto ralou em diversas redações antes de se aventurar no lado escuro de Getúlio Vargas. No jornal "O Povo", de Fortaleza, foi repórter, editor e ombudsman. "A experiência de ombudsman foi melhor que um doutorado em jornalismo", diz. "No jornal, a gente trabalha com o piloto automático ligado e tem pouco tempo para refletir sobre o próprio ofício."

Lira Neto tinha pouco tempo também para escrever os textos que não fossem do jornal. Seus livros começam tateando um espaço na própria agenda do jornalista. A primeira investida do escritor foi sobre a biografia de um médico sanitarista pouco conhecido, Rodolfo Teófico, que enfrentou as epidemias de varíola no Nordeste já na virada do século XIX para o século XX. Chama-se "O Poder e a Peste" (1999). "Fiquei surpreso ao ver o meu biografado entre os 100 nomes brasileiros mais importantes do século levantados pela revista 'Veja'."

Dessas primeiras 200 páginas produzidas nas brechas do trabalho jornalístico, Lira Neto saltou para um volume mais robusto, o da biografia "Castello - A Marcha para a Ditadura" (2004), sobre o primeiro presidente da era militar. Com ela, as coisas começam a melhorar no quesito tempo. "Eu estava decidido a sair das redações e tentar uma carreira solo." Lira Neto conseguiu se segurar escrevendo como "free-lancer" para jornais e revistas. De forma inconsciente, estabeleceu um norte para o seu interesse como biógrafo - o poder, já estampado na capa do primeiro livro. 

É a partir deste fio que ele explica, hoje, onde está o tema numa biografia como "Maysa: Só Numa Multidão de Amores" (2007). "Ali tem outras facetas do poder, como, por exemplo, a mídia", ele diz. Maysa foi um sucesso tão grande que lhe possibilitou romper de vez com os grilhões da redação, incluindo os "frilas". O livro está na 13º edição, foi minissérie de sucesso na Rede Globo e partiu de arquivos e diários cedidos pelo filho da cantora, Jayme Monjardim, que, aliás, não gostou nem um pouco do resultado, apesar de ter dirigido o programa e de ter purgado aí todo o desencanto que nutria em relação à mãe.Ponto para o biógrafo.

Esse tipo de acesso à documentos-chave vem sendo uma característica do trabalho do Lira Neto biógrafo. Para escrever "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão" (2009), um volume de peso respeitável, o escritor usou uma misteriosa fonte - que ele não revela de jeito nenhum. Graças a ela, ele mergulhou em arquivos secretos do Vaticano. No caso de Castello Branco, Lira Neto pode examinar os arquivos do brasilianista John Foster Dulles, que tinha escrito dois livros sobre o militar. "Ele generosamente me passou todas as notas de entrevistas com gente que eu já não conseguiria entrevistar: Juscelino, Jango. 

Ele confiou integralmente no meu trabalho e isso foi decisivo." Um dia, em casa, Lira Neto recebeu uma encomenda por Sedex que era um verdadeiro tesouro: 12 livros encadernados com as notas datilografadas das entrevistas. "E tive acesso irrestrito ao acervo do próprio Castello, sob a guarda da Escola de Comando e Estado Maior do Exército, no Rio (a ECEME). Essas informações não mudaram a história do Brasil, mas serviram para elucidar melhor esse personagem tão contraditório, um homem que se dizia um democrata, um humanista, amigo de Raquel de Queirós, a quem contou histórias engraçadíssimas, mostrando que, por incrível que pareça, era um sujeito bem humorado".

No caso de Getúlio, o faro de repórter falou mais alto. Havia um agravante poderoso. Em matéria de volume, os livros escritos sobre o político gaúcho tomam quase todas as prateleiras das estantes de Lira Neto no escritório que ele ocupa dentro de casa, no bairro do Sumaré, em São Paulo. Contra tanta informação (e desinformação), o escritor teve de se esmerar. Uma das verdades propagadas ao longo do tempo dizia respeito a um caso de assassinato do qual Getúlio era acusado, e sobre o qual o grande inimigo dele, Carlos Lacerda, costumava vociferar com a boca cheia de fel. Ainda nos anos 20, uma índia é estrupada e um cacique morto a tiros por um certo Getúlio Dornelles Vargas, acompanhado de um cúmplice. Getúlio consegue fugir da prisão de um jeito suspeito e tudo fica por isso mesmo.

Lira Neto fez o que qualquer repórter um pouco mais consciente faria: foi atrás do processo e o leu de cabo a rabo. Ali, na altura da página 100, ele descobriu uma verdade que contradiz diversos livros escritos sobre o ditador, preocupados demais com outras questões que não essa. O homem que cometera tais atrocidades contra os índios era um homônimo do ex-presidente Getúlio Vargas.

"Esta biografia é o projeto da minha vida", afirma Lira Neto. "Toda informação vem referendada por uma fonte histórica." Os especialistas do mundo acadêmico acolheram com simpatia o primeiro volume da série. O historiador Boris Fausto, que escreveu um clássico sobre a Revolução de 30, dá o tom na quarta capa do livro: "Com base numa impressionante pesquisa, Lira Neto narra, com brilho e riqueza de detalhes, a história da vida pessoal e da vida pública de Getúlio."

Escrita e pesquisada com a perspectiva do jornalista, ajudado por uma equipe de jovens pesquisadores, e arrematada com o estilo narrativo de um fã confesso de Ernest Hemingway, entre outros autores americanos do primeiro time, a série de Getúlio nasceu protegida pelo aval entusiasmado do editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras. Ele e mais o apoio da RT Features, que comprou os direitos autorais da obra ainda quando era apenas uma pálida ideia, possibilitaram a Lira Neto a concretização do projeto da sua vida. "Preciso ficar cinco ou seis anos sem me preocupar com a conta de luz", pediu ele, no que foi atendido. A historiografia de Getúlio Vargas agradece.

“Getúlio — 1882-1930. Dos Anos de Formação à Conquista do Poder”. De Lira Neto. Companhia das Letras. 624 págs., R$ 52,50

Texto: Valor Econômico

A literatura de choque de Lionel Shriver

Lionel Shriver tem obsessão pela fama. Há quase 15 anos ela vem pensando nesse tema, mais sensível desde o sucesso comercial de "Precisamos Falar sobre o Kevin", romance transformado em filme pela diretora Lynne Ramsay. "Eu criei um monstro", ela se referiu na época ao burburinho em torno do seu livro, rejeitado por várias casas editoriais de grande porte até uma pequena editora publicá-lo em 2003.

A rejeição a um enredo agressivo se mostrou vigorosa, segundo Shriver, por conta dos ataques ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Não fazia sentido inventar uma ficção sobre uma mãe impotente e um filho que, sem nenhum arrependimento, promove uma carnificina. A escritora estava fora de sintonia com o desejo do público. Ninguém se interessaria por mais violência, asseguraram os editores que leram o original. A propaganda boca a boca, porém, desencadeou a popularidade de Shriver. A autora aprendeu a lição: existem pessoas a fim de assuntos desafiadores, mas o mercado editorial sempre as subestima.

No fim dos anos 1990, porém, ela não conhecia o poder dos leitores. O receio de ver o seu trabalho desdenhado travara Shriver cinco antes de lançar "Precisamos Falar Sobre o Kevin", ganhador do Orange Prize de 2005. Ao terminar "The New Republic", romance agora publicado nos Estados Unidos, ela não o submeteu à avaliação de nenhum editor. A obra não chegaria às livrarias, pois o seu conteúdo não era vendável em um país que trata "o terrorismo como um problema tedioso de estrangeiros", a escritora explicou no prefácio do seu novo livro, o qual, ela garante, preserva as mesmas linhas da versão finalizada em 1998.

Concebido antes do 11 de Setembro, "The New Republic" (importado; editora Harper Collins, US$ 26,99) tem um teor profético. O terrorismo da trama ficcional antecipou o exibicionismo dos atos cruéis e reais de organizações como a Al-Qaeda e de "lobos solitários" como Anders Behring Breivik e Mohammed Merah. "Terroristas necessitam dos jornalistas para ampliar as suas atrocidades e a mídia em massa se presta a esse papel prontamente", diz Shriver em entrevista ao Valor. "O que motiva essas pessoas, mais do que qualquer proposta da sua agenda, é a ânsia descontrolada por atenção."

Nem o fato de essa publicidade ser negativa invalidaria a tese de Shriver. "Também não importa se a fama é póstuma. Homens-bomba e jovens atiradores suicidas concretizam os seus planos tendo em vista a certeza de que a sua atrocidade vai receber uma cobertura espetacular", diz. "Ao continuarmos a estimular a comoção almejada pelos terroristas, nós encorajamos outras pessoas a fazer o mesmo."

Edgar Kellogg, um zero à esquerda e protagonista de "The New Republic", é a encarnação desse desejo por notoriedade a qualquer custo. Após dez anos como advogado de uma firma que presta serviços para Wall Street, Kellogg decide se tornar jornalista freelance, aos 37 anos, pois imagina a excitação e as incertezas da nova profissão.

"Na ambição de ser admirado, ele é inclinado a admirar os carismáticos." Por respeitar o trabalho de Toby Falconer, ex-colega de infância e repórter do jornal "National Record", Kellogg bate à porta do diário e é contratado como correspondente internacional. Ele recebe a missão de encontrar Barrington Sadler, repórter estabelecido em Barba e desaparecido há meses.

Barba é uma região inventada por Shriver ao sul de Portugal. Ali, os Soldados Ousados de Barba (SOB, sigla cujas iniciais podem significar um palavrão em inglês) usam táticas terroristas para reivindicar a independência daquele pedaço isolado de terra.

"Escolhi Portugal porque o país não tem um histórico de terrorismo", diz. "Eu queria que 'The New Republic' se passasse em um fim de mundo desconhecido. A ideia era gerar ironia ao criar uma península pobre com uma comida hedionda, cerveja detestável, tempo horrível, cultura insignificante, para a qual, de repente, atentados com bombas chamam a atenção." O fato de a maioria dos habitantes de Barba não querer independência torna a situação mais absurda, segundo a escritora.

"'The New Republic' satiriza os correspondentes internacionais pomposos e arrogantes", diz a escritora. "Estou muito atenta, atualmente, à dependência em relação a esses repórteres para obter informação sobre o resto do mundo." O entendimento de Shriver pode ser considerado privilegiado, pois alguns dos seus melhores amigos exercem aquela função. Há anos, ela escreve para veículos americanos e ingleses, como "The Economist", "The New York Times", "The Guardian" e "The Wall Street Journal", citados no seu novo livro.

Shriver costuma escrever romances em reação às notícias que consome com voracidade. Ela trata a realidade como a sua musa, tal como fez em seu livro anterior, de 2010, "Tempo É Dinheiro" (editora Intrínseca, 448 págs., R$ 39,90, traduzido por Vera Ribeiro), que está sendo lançado agora no Brasil. Ao relatar os dramas de duas famílias afetadas por doenças graves, o livro faz eco ao estado calamitoso do sistema hospitalar dos Estados Unidos. Os americanos penam para pagar tratamentos caríssimos e ter planos de saúde cuja cobertura de despesas é limitada.

Mas, ao contrário de "Tempo É Dinheiro", ela desempenhou em "The New Republic" uma função jornalística por vezes esquecida - antecipar as consequências dos fatos. Agora, Shriver é capaz de avaliar em retrospecto o fracasso da segurança na América, apesar do assassinato de Osama bin Laden há mais de um ano. "Os americanos não têm consciência de que permitiram que o terrorismo distorcesse o seu estilo de vida", diz. "George Bush Jr. estabeleceu uma política externa cujas diretrizes têm efeitos políticos equivalentes aos da atuação da mídia: dar mais moral aos terroristas."

Texto: Valor Econômico

terça-feira, 29 de maio de 2012

Trombone Shorty no Brasil


Prodígio do sopro, o americano Troy “Trombone Shorty” Andrews é um dos mais virtuosos músicos de sua geração. Nascido e criado no histórico bairro Treme de Nova Orleans, aos seis anos de idade já tocava trompete e trombone com a fluência de um adulto no grupo de seu irmão mais velho.

Ainda adolescente, foi descoberto por Lenny Kravitz, que o convidou para integrar a sua seção de metais e a entrar em turnê com a sua banda. Hoje, com apenas 26 anos de idade, o jovem músico tem experiência de artista tarimbado. 

Além de se apresentar frequentemente com artistas consagrados, como Jeff Beck, U2, Norah Jones e Diana Krall, seu projeto solo “Trombone Shorty & Orleans Avenue”, nomeado ao Grammy em 2010 pelo disco de estreia “Backatown”, o credenciou a participar dos maiores festivais de música do mundo.



Data: 09 de Junho
Atrações: Clayton Brothers Quintet / Trombone Shorty & Orleans Avenue / Maceo Parker with guests Fred Welsey and Pee Wee
Horário: 20h30

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Falling Skies



Sem surpresas, a TNT anunciou a renovação da série produzida por Steven Spielberg, que terá 10 episódios em sua segunda temporada, com previsão de estreia para a Summer Season de 2012.

Até o momento, o canal americano já exibiu quatro dos 10 episódios produzidos para a primeira temporada.

“Falling Skies” estreou em junho nos EUA registrando cerca de 5.9 milhões de telespectadores, com 3.8 milhões entre o público alvo (18 a 49 anos) em sua exibição ao vivo. Somando com as reprises e o DVR, a estreia da série chegou a 8 milhões de telespectadores.

No entanto, a produção não conseguiu manter os números. Na semana seguinte, a série sofreu uma perda de 25% do público , registrando 4.2 milhões e 1.5% entre o público alvo. Apesar da queda, a série ainda oferece à TNT um bom nível de audiência.


A história de “Falling Skies” acompanha a vida de sobreviventes de uma invasão alienígena que lutam para derrotar as forças inimigas. No Brasil, a série é exibida em dois canais: Space e TNT, em versão dublada e legendada, respectivamente.

Os produtores disseram que a ordem de Steven Spielberg é não transformar a série em um grande enigma. A proposta é criar um mistério, resolvê-lo, criar outro, resolvê-lo, e assim por diante. 

Desta forma, gradualmente, o público ficará sabendo mais sobre a raça alienígena que invadiu a Terra. 

Várias respostas começam a aparecer a partir do episódio sete desta temporada, sendo que, até o final, o público saberá mais sobre os planos dos Skitters e os motivos pelos quais eles estão atrás das crianças.



Uma nova raça alienígena surgirá na trama.

Segundo os produtores, a série não irá mostrar flashbacks das cenas da invasão alienígena, que ocorreu seis meses antes. Toda a narrativa será no tempo atual dos personagens.



Texto: Fernanda Furquim 

domingo, 27 de maio de 2012

Killing Season



Realizado por Mark Steven Johnson
Com John Travolta, Robert De Niro
Gênero: Ação

Sinopse - A história de "Killing Season" se baseia na história em um veterano de guerra (Robert De Niro) que se isolou nas Montanhas dos Apalaches, onde, certo dia, recebe a visita de um turista (John Travolta) com quem trava uma forte amizade, no entanto, este turista é na realidade um ex-soldado sérvio que quer se vingar do veterano que lutou na Guerra da Sérvia.

Parece ser muito bom, pelo enredo que deve ser aquela guerra psicológica que no fim desata em uma batalha e pelos atores, eu adoro os dois, gosto muito do John Travolta fazendo papel de vilão, e Robert De Niro, bem, é Robert De Niro.

Ansioso para baixar esse filme.

Quando redes sociais provocam demissões

Outra matéria interessante que eu li e repasso aqui na íntegra:

A internet possibilita qualquer pessoa a se manifestar publicamente. Mas a possibilidade indiscriminada de expressão também trouxe uma série de problemas: opiniões preconceituosas, críticas inoportunas, além, é claro, do oversharing. Talvez por não entender o alcance das ferramentas da web, há quem se expresse como se estivesse na mesa de bar, sem pensar ou medir as consequências. Muitos não entendem que aquilo que se coloca na internet pode ser compartilhado e encontrado por qualquer um. E o estrago vai muito além de situações constrangedoras: além de destruir sua reputação, pode provocar demissão e até prisão – como aconteceu na semana passada, quando uma estudante de direito foi condenada por discriminação por ter tweetado “Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!” depois das eleições presidenciais de 2010.

A autora da ofensa, Mayara Petruso, levou 1 ano e 5 meses de reclusão, convertidos em prestação de serviço comunitário e pagamento de multa. Antes disso, já havia sido demitida do escritório de advocacia no qual estagiava. O caso de Mayara não é isolado: cada vez mais pessoas têm perdido seus empregos após manifestações infelizes no Twitter ou outra rede social, não apenas estudantes inexperientes, mas também funcionários de altos cargos. No início do ano, um funcionário do setor de imprensa da Presidência da República também foi exonerado depois de publicar no Twitter uma piada com José Serra. O mesmo aconteceu com um torcedor do Corínthians que postou no Twitter comentários criticando o São Paulo, clube patrocinado pela empresa da qual é diretor.

Fora do Brasil, uma brincadeira coletiva de funcionários da cadeia norte-americana Domino’s Pizza provocou demissões. Eles se filmaram colocando papel higiênico na pizza e pedaços de queijo no nariz. O chefe não gostou de ver o vídeo postado no YouTube e a história, claro, não acabou em pizza. Já a repórter da CNN foi para rua depois de dizer no Twitter que estava triste com a morte do aiatolá Mohammed Hussein Fadlallah, a quem disse considerar “um gigante”. Teve que se despedir de uma empresa na qual trabalhava há 20 anos, provando que até mesmo profissionais experientes das comunicações estão sujeitos a cair na armadilha.

Justa causa

Como o uso das redes sociais não para de crescer, é provável que surjam muito mais casos como estes. Para Eugênio Hainzenreder Junior, especialista do Instituto Millenium e professor de Direito da PUC-RS, se alguém expressar uma opinião que cause danos à empresa a qual seu nome está ligado, a empresa tem o direito legal de demiti-lo por justa causa.

“A internet é hoje uma forma de comunicação fantástica, pois é rápida, eficaz e barata. No entanto, se deve ter muito cuidado com essa ferramenta, pois a informação nela divulgada, rapidamente se propaga de maneira que não mais se pode controlar os destinatários de determinada mensagem e a sua publicidade”, explica o especialista. “É inegável que o trabalhador possui, como qualquer outro cidadão, direito à liberdade de expressão, bem como tem a faculdade de fazer parte de redes sociais, ou de emitir opinião pessoal sobre determinados assuntos. No entanto, este direito, seja na internet ou fora dela, não é absoluto. Enquanto empregados, ainda que fora do horário de serviço e distante fisicamente do local de trabalho, permanecemos vinculados a deveres básicos do contrato de trabalho, tais como o dever de zelo, de urbanidade, de diligência, de confiança, entre outros. Dessa maneira, um comentário desabonador ou difamatório postado de forma pública na internet pelo empregado, que venha a romper, ou que, de alguma forma, possa abalar a imagem do empregador, pode sim gerar uma dispensa por justa causa”.

Antes da internet, críticas ao trabalho ficavam restritas às mesas de bar ou às fofocas do “rádio corredor”. Hoje, há quem use as redes sociais para criticar publicamente seu chefe e as orientações de sua empresa. Mais de um profissional, de diversas áreas, já foi punido por essa indisciplina. No âmbito do direito do trabalho, no Brasil, não há nenhuma lei específica que trate de forma expressa a justa causa pelo uso específico da internet ou de redes sociais, já que, segundo Hainzenreder Junior, as situações existentes na CLT são suficientes para regular o tema.

“O art. 482 da CLT prevê hipóteses gerais de falta grave cometida pelo empregado que podem englobar a dispensa por justa causa em razão do uso indevido da internet”, observa. “Por exemplo, comentários desabonadores à imagem da empresa ou do chefe, veiculados na internet pelo trabalhador, poderiam ser enquadrados como “ato lesivo da honra ou da boa fama praticadas contra o empregador e superiores hierárquicos”.

Espionagem

Mesmo sem mudanças nas legislações, as relações entre chefes e funcionários, no entanto, estão ganhando novos tópicos e preocupações. Hoje, alguns chefes se esforçam em espionar seus empregados nas redes sociais, às vezes usando nomes falsos para ter acesso a informações que normalmente ficariam na esfera privada. Outros, já chegaram a exigir senhas de Facebook.

“Deve-se ter muita cautela em relação aquilo que é de caráter privado ou público”, alerta Hainzenreder Junior. “Inquestionavelmente, o empregado possui direito à vida privada e, portanto, deve ter preservado o sigilo em relação às suas correspondência pessoais, sejam elas eletrônicas ou postais. Portanto, no espaço efetivamente privado do empregado, não poderia haver fiscalização pelo empregador. Isso, no entanto, não se aplica ao email corporativo fornecido pela empresa, que tem sido entendido como ferramenta de trabalho (assim, passível, inclusive, de monitoramento pelo empregador) e em relação às informações lançadas pelo empregado que são de acesso público na rede. Ou seja, o trabalhador não pode esperar o direito de “estar só” ou de não ser fiscalizado nos espaços em que sabidamente não tem uma razoável expectativa de privacidade”.

Compartilhamentos infelizes na internet não provocam problemas apenas no trabalho. Nem é preciso citar relacionamentos que acabaram por causa do mau uso das redes sociais. Por outro lado, um caso na Holanda chama a atenção. Depois de um passeio de bicicleta pelos Alpes franceses, Johan Minkjan resolveu se gabar nas redes sociais. O problema é que Minkjan recebia uma pensão do governo por invalidez. Ao descobrir pela internet as suas performances sob duas rodas, a seguradora exigiu que ele devolvesse a soma do seu seguro social.

Políticos também têm provado do veneno da internet. Nos Estados Unidos, o deputado Anthony Weiner teve que se afastar do Congresso depois de compartilhar publicamente uma foto sua de cueca. Na verdade, Weiner se atrapalhou com os botões: sua intenção era enviar somente a uma jovem com quem flertava, mas acabou mandando para o seu Twitter público.

A deputada Soninha Francine virou motivo de piada depois de usar o Twitter para fazer ironia sobre problemas com o metrô de São Paulo. Depois de uma colisão entre dois veículos do metrô que deixou dezenas de feridos, ela tweetou: “Metrô caótico? Não fosse pela TV e Twitter, nem saberia. Peguei Linha Verde e Amarela ‘sussa’”. Em pouco tempo, as hashtags utilizadas pela pré-candidata à prefeitura de São Paulo – #sussa e #mtoloco – entraram para os trending topics (assuntos mais comentados) do Twitter.

Em vez de se desculpar e aceitar que havia tratado com descaso as vítimas do acidente, a deputada preferiu se justificar: “Povo desatento. Não é muito louco quando você tem um caos em um serviço e passa por ele incólume?” Em um país sério, é provável que Soninha se sentiria tão envergonhada que acabaria abandonando a carreira política. Ela continua no cargo, resta a ver o tamanho do estrago de suas gafes na campanha para a prefeitura de São Paulo, para a qual é pré-candidata.

Figura pública ou desconhecida, influente ou anônima, não importa. Os usuários das redes sociais precisam ter prudência na hora de se manifestar. É recomendável respirar fundo, pensar duas vezes, e evitar de tweetar quando se está bêbado ou irritado.

“O ideal é sempre agir com razoabilidade e bom senso”, avalia Hainzenreder Junior. “Da mesma forma como devemos ter cautela ao divulgar opiniões pessoais presencialmente a um grupo de pessoas, clientes ou amigos, é importante ter zelo nos espaços virtuais. 

Na realidade, penso que a cautela deve ser ainda maior na internet, pois as informações nela divulgadas podem ser eternizadas, alteradas, rastreadas, gravadas, etc. Assim, não se recomenda, exemplificativamente, postar comentários sobre o supervisor ou colega quando se está de cabeça quente, ou após uma discussão com o chefe, pois o arrependimento posterior pode ser ineficaz. 

O melhor é agir sempre de forma urbana, seja na rede ou fora dela, deixando para desabafar ou fazer comentários do cotidiano da relação de emprego no âmbito restrito da intimidade de cada um”.

Texto: Bolívar Torres

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sombra




Sombra, do inglês Michael Morpurgo, também autor de Cavalo de Guerra, filmado por Steven Spielberg, começa quase como um conto de fadas inglês e vai nos surpreendendo a cada página, a cada capítulo, levando ao aprofundamento dos dramas humanos. 


Em meio à guerra no Afeganistão, uma cachorra perdida, ferida e esfomeada, da raça springer spaniel, aparece diante de uma caverna, onde uma família tenta se proteger das ameaças dos soldados do Talibã. 

Um garoto afegão procura protegê-la e ela não o larga mais, apesar de enxotada e apedrejada por outras pessoas. Ele, então, a apelida de Sombra. Uma sombra que vai protegê-lo, guiá-lo e ajudá-lo a fugir do inferno.

O enredo está acontecendo agora, neste exato momento, permeado pela fome, frio, dor e morte. 

É o drama atualíssimo dos refugiados, uma tragédia que vem afligindo grande parte da humanidade, sobretudo nas últimas décadas. Milhões de pessoas estão sendo obrigadas a abandonar as suas raízes em busca de um pouco de paz. É a diáspora moderna dos que fogem da guerra, da fome, da perseguição.

Um jornalista inglês aposentado, seu neto e um garoto afegão estruturam esta história sensível e comovente, que começa em Cambridge e faz um tour forçado pelo Afeganistão, passando por vários países, até retornar à Inglaterra, exatamente ao Yarl’s Wood, um centro de remoção de imigrantes em Bedfordshire. 

É lá que os refugiados ficam e de onde muitos são mandados de volta.

Apesar do tema dramático, o autor consegue banhá-lo com um humanismo sem fronteira. O livro pode ser lido por uma criança, um adolescente, um adulto, um idoso. E todos vão se identificar, entender exatamente o que está se passando. E tomar partido, inclusive aqueles que acham que cada um deve ficar em seu país de origem, como se o planeta não fosse a morada de todos os homens, indistintamente.

Embora seja uma obra de ficção, Sombra mostra um ângulo feio da humanidade, que muitos pretendem esconder. É um enfoque sobre um caso isolado, mas que chama a atenção para milhões de outros. 

Para amenizar esta tragédia universal, o poeta e escritor Morpurgo banha cada página com muito humanismo, deixando a crueldade como pano de fundo. Outro ponto forte desta obra são as ilustrações de Christian Birmingham, que se fundem à história, tornando-a ainda mais pungente.

Se perguntarem se dói, esta história dói. Mas não é o drama pelo drama, um comércio de emoções baratas. Ao contrário, leva-nos a entender que a vida é uma só em qualquer lugar, frágil e bonita, encantadora e misteriosa. Sombra é uma obra de luz, um farol que pode nos guiar a um mundo melhor. 

E os cachorros têm um bom faro para isso. 

Absurdos de um país falido

Lendo a Folha de São Paulo hoje, me deparei com uma postagem do André Barcinski (que eu adoro!) 

Ele fez uma comparação com os valores gastos para a Copa do Mundo, que provavelmente será um vexame tanto dentro do campo quanto fora dele.

Seguem as comparações:

O “novo” Maracanã vale 1289 escolas

A reforma do Maracanã custará R$ 931 milhões. Há poucos dias, o governo de Santa Catarina anunciou a construção de nove escolas, a um custo total de R$ 6,5 milhões. Cada escola atenderá a 520 alunos. Ou seja: o que o governo está gastando com a reforma do estádio no Rio seria suficiente para colocar 670 mil alunos na escola.

Outro dado curioso: o orçamento anual da Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro em 2011 foi de R$ 120 milhões. A reforma do Maracanã, portanto, consumirá o equivalente a 7,7 anos do dinheiro gasto com a educação no Estado.

Um Itaquerão vale 38 hospitais

O estádio do Corinthians custará R$ 890 milhões. Enquanto isso, a Universidade Federal do Tocantins anunciou a construção de um hospital universitário, ao custo de R$ 23 milhões.

A reforma de um estádio de treino em Roraima vale a reconstrução da Região Serrana do Rio

Os governos federal e de Roraima estão investindo R$ 100 milhões para reformar o Estádio Canarinho, em Boa Vista, apenas para que a cidade possa tentar ser escolhida como sede de treino – isso mesmo, sede de treino – por uma das 31 seleções que virão para a Copa do Mundo. Para isso, Boa Vista vai disputar com outros 158 municípios no país, que também querem receber treinos das equipes.

O valor é o mesmo que a presidenta Dilma liberou para ajudar a reconstruir oito cidades – incluindo Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis – atingidas pelas enchentes de 2011, que mataram cerca de mil pessoas.

Gastos públicos com a Copa acabariam com 80% da miséria no país

Essa semana, a presidenta Dilma Rousseff lançou o plano “Brasil Carinhoso”, com um investimento de R$ 10 bilhões até 2014. Segundo a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, o programa terá “impacto imediato de 40% na redução da miséria (considerando os valores repassados a todas as faixas etárias)” e de “62% entre as crianças de zero a seis anos”.

Os gastos totais com a Copa, segundo o Portal da Copa, chegam a R$ 25 bilhões (tem gente que calcula mais de 30, mas deixa pra lá), sendo que pelo menos 80% desse total (R$ 20 bilhões) vêm dos cofres públicos. Façam os cálculos.

É ou não é para ficar empolgado com a Copa?

Texto: André Barcinski (http://andrebarcinski.blogfolha.uol.com.br/

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cabeça Tubarão


Certo dia, Eric Sanderson acorda sem vestígios de memória: não sabe quem é, onde está nem como foi parar ali. Não encontra nenhuma foto ou documento com seu nome estampado. Como se não bastasse, começa a receber cartas de si mesmo.

Guiado por elas, conhece uma psiquiatra, que o recebe no consultório com um diagnóstico tenebroso: amnésia dissociativa, uma forma rara da doença que arrasta suas lembranças de volta à estaca zero toda vez que ele apresenta algum progresso.

Segundo a médica, Eric perdeu a namorada há três anos em um acidente na Grécia, e desde então começou a apresentar lacunas na memória.

A doença só piorou, e a cada recorrência – aquela seria a décima primeira – ele se lembrava menos.

Porém, aos poucos Sanderson descobre que suas memórias não foram perdidas, mas devoradas por um tubarão de idéias que continua em seu encalço. Enquanto foge desse monstro feito literalmente de palavras, vai juntando as pistas de sua identidade perdida, com a ajuda de cartas que enviou para si mesmo do passado.

Entre túneis de palavras, subterrâneos de papel, sociedades secretas de arqueologia, monstros conceituais e amores de carne e osso, Sanderson encontra outro poderoso inimigo de identidades, além de um cientista-samurai afundado em papéis e inúmeras figuras pitorescas que se juntam a ele na caçada final.

Cabeça Tubarão é um verdadeiro jogo entre o mundo conceitual e o real, e sua originalidade se estende aos truques tipográficos, às criaturas de palavras que saltam de suas páginas e à criptografia de textos.

Por todo o livro, há códigos e mistérios a serem decifrados, numa prosa que combina o ritmo frenético de um blockbuster com o refinamento literário de um escritor jovem e promissor.

Ok. Devo dizer que precisei de alguns anos para ler esse livro, esclareço, livro é momento, se você não estiver harmonizado você não consegue ler a obra. E foi esse o caso, enquanto eu trabalhava na Saraiva Morumbi, esse título fazia a cabeça do pessoal de literatura, confesso que tentei ler e não passei das primeiras páginas.


Passado um tempo, retornei ao livro pois não consigo deixar uma obra sem ser lida, mesmo que eu a odeie, mas nesse caso eu adorei, o livro é uma viagem, um estilo Matrix, a cena onde Sanderson encontra o tubarão pela primeira vez é algo alucinógeno, é preciso atenção ao ler, as diversas dicas e frases subliminares para se entender o que acontece com o personagem, sem dúvida esse livro será lembrado pela peculiaridade e originalidade.


Marcello Lopes 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Carlos Fuentes - Falecimento


Tal como os murais de Diego Rivera, os romances de Carlos Fuentes tratam da identidade mexicana em suas dimensões política, social, psicológica e mítica. Além de escritor, Fuentes foi diplomata e embaixador extraoficial da cultura latino-americana. 

Carlos Fuentes Macías nasceu em 11 de Novembro de 1928. Estudou na Suíça e nos Estados Unidos da América. Foi embaixador no México e na França e lecionou em universidades como a de Harvard, Cambridge e Princeton, entre outras. Também residiu em cidades como Quito, Montevideu, Rio de Janeiro, Washington D. C., Santiago e Buenos Aires.

Seus primeiros romances retratam o México urbano contemporâneo regido pelo determinismo econômico (e mítico), pela amnésia histórica e por uma imagem ossificada de seu passado revolucionário. Seus protagonistas sofrem a estagnação da sociedade que ajudaram a construir como uma morte em vida. 

La Región más Transparente (romance publicado em 1958) retrata isso de um modo panorâmico e caleidoscópico, com múltiplos personagens e pontos de vista representando vários estratos sociais. A Morte de Artemio Cruz (publicado em 1962) é a alucinação do protagonista no leito de morte narrada em três vozes - "eu", "você", "ele", - "eus" conflitantes que só fundem-se na morte.

Após o romance anterior, publicou Cambio de Piel (em 1967), e A Cabeça de Hidra(em 1978). Gringo Velho (publicado em 1985) é menos pessimista: a solteirona americana Harriet Winslow revê longamente seu passado no México revolucionário dando sinais de ter mudado suas atitudes puritanas e crescido como mulher.



Igualmente sombrios, entretanto, lúdicos, são Cristóvão Nonato (publicado em 1987), em que um feto-narrador espera nascer em 12 de Outubro de 1992, e Terra Nostra (publicado em 1975), um vasto épico circular de 1492-1999 que pode ser descrito como a reconquista do Velho Mundo pelo Novo. 

Nos dois romances, o apocalipse enfrenta a utopia e terminam ambos com potencial de um novo Gênese. Também escreveu um ensaio recente, em 2004, intitulado Contra Bush, em que critica intensamente as atitudes governamentais mal-pensadas e incompetentes do ex-presidente norte-americano George W. Bush.

Defensor de Fidel Castro e dos Sandinistas, crítico às vezes feroz dos Estados Unidos da América, Carlos Fuentes teve sua entrada naquele país recusada três vezes, mas tornou-se, em 1987, professor titular de estudos latino-americanos na Universidade de Harvard. 

Com demasiado grau de certeza, pode-se afirmar que Carlos Fuentes é um legítimo e requintado representante da bela e ilustre cultura latino-americana.

Texto: Eliakim Ferreira Oliveira

Exposição Masp - Modigliani


Durou só três horas a primeira e única mostra individual que Amedeo Modigliani fez em vida. Quando o artista expôs 33 nus femininos numa galeria parisiense em 1917, a polícia interditou a exposição no vernissage, alegando ser um atentado ao pudor.

Diante de suas telas, no entanto, essa acusação espanta. Seus nus, um deles agora peça-chave da grande mostra do artista italiano que começa no Masp nesta quinta, não têm quase nada de lascívia.

Modigliani, que morreu tísico aos 36 anos, em 1920, foi para os críticos um retratista da alma, um artista que mergulhava na psique de seus modelos. Na cultura popular, é o cara que pintava homens e mulheres de pescoços alongados e traços angulosos.

E uma coisa não anula a outra. Sua forma de ver o mundo partiu de uma noção clara da cultura clássica, grega e renascentista. Passou pela influência de vanguardistas --Brancusi, na escultura, e Cézanne, na pintura-- e terminou distorcida por uma visão arraigada em conceitos e números da cabala judaica.

Talvez por esses e outros motivos suas mulheres nuas jamais teriam a volúpia ou o realismo do que fez Gustave Courbet com o sexo escancarado da modelo no clássico "A Origem do Mundo", nem mesmo as segundas intenções da "Olympia", de Manet.


"É uma visão traumática do corpo feminino, sem provocações ou sedução", analisa Christian Parisot, um dos curadores da mostra no Masp. "Aspectos anatômicos não interessam, já que ele propõe uma nova dinâmica do corpo feminino, inaugura uma sensualidade distinta."

Em sua "Grande Figura Nua Deitada", que estará no Masp, Modigliani retratou Céline Howard, mulher de um escultor americano em Paris.

"Ela posou três vezes para ele, sempre ao lado do marido cão de guarda", conta o crítico Olívio Guedes.


"Ele fez sua carne de cores quentes, manipulando a temperatura da pele. Mas ao mesmo tempo construiu um olhar que escruta, quase capaz de ver dentro do espectador."

Modigliani fez dos olhos de seus retratados uma espécie de radiografia dos sentimentos. Escondeu neles muitas vezes símbolos e números cabalísticos. Também alternava texturas, eliminava a íris de alguns retratados, fazendo olhos chapados, negros, ou até quadriculados, penetrantes e estranhos.

Seus ambientes, sempre fechados e em tons quentes, também reforçam essa ideia de mundo intimista, figuras mergulhadas num universo paralelo que se alongam e se esticam em direção ao céu.

Esses rostos e olhos ovalados e pontiagudos vêm ao mesmo tempo dessa visão religiosa -a ideia cabalista de uma descida da luz divina para o plano terreno-, de obras de artistas vienenses como Klimt e Egon Schiele e das esculturas que observou, desde os exemplares africanos que faziam a cabeça dos cubistas ao reducionismo formal das obras de Brancusi.



Modigliani, aliás, construiu quase toda a sua obra, mesmo as pinturas, usando um raciocínio escultórico, de traços sintéticos e linhas de força bruta. Seus biógrafos dizem que ele só não se tornou um grande escultor pela fraqueza de sua musculatura e sua doença pulmonar.


Usando as pedras importadas para a construção do metrô de Paris e papel de embrulhar pão para fazer seus rascunhos, Modigliani fez algumas esculturas, como as cariátides da mostra no Masp.

"Ele tem um grande interesse pela estatuária grega e, ao mesmo tempo, por obras primitivas", analisa Parisot. "Sua escultura é uma combinação de elementos negroides com preceitos cubistas."

Mas tanto as esculturas quanto as pinturas devem toda a sua força à compulsão febril com que desenhava. Ele chegava a fazer até cem desenhos por dia em folhas que se acumulavam no ateliê e desapareceram com o tempo.

"Essa era sua maneira de traduzir em imagens suas visões imediatas", diz Parisot. "São testemunhos do pensamento por trás das obras."

No fundo, Modigliani misturou cânones clássicos e vanguardistas para construir uma obra única, um estilo que críticos não associam a uma escola ou movimento. "É algo só dele", diz Parisot. "Modigliani não teve mestres nem deixou discípulos."

Fonte: Folha de Sp

AMEDEO MODIGLIANI
ter. a dom., das 11h às 18h; qui., das 11h às 20h; até 15/7
ONDE Masp (av. Paulista, 1.578, tel. 0/xx/11/3251-5644)
QUANTO R$ 15

Amedeo Modigliani



Modigliani nasceu em uma família judia, em Livorno, Itália.

Seu trisavô materno, Solomon Garsin, emigrara de Túnis para Livorno no século XVIII. Os Garsin eram originários da Espanha, de onde haviam sido expulsos, no final do século XV, transferindo-se para Túnis.

Depois eles se transferiram para Livorno, onde nasceu o bisavô materno de Amedeo Mogigliani, Giuseppe Garsin - filho de Salomon Garsin e de Régine Spinoza.

Já a família paterna, os Modigliani, era provavelmente oriunda de Modigliana, perto de Forli, na região da Romagna. Antes de se estabelecerem em Livorno, teriam vivido em Roma, onde exploravam uma casa de penhores. Segundo Jeanne Modigliani, um certo Emanuele Modigliani teria sido encarregado pelo governo pontifical de fornecer o cobre necessário às emissões extraordinárias de moedas dos dois ateliês pontificais.

Posteriormente, não obstante uma lei dos Estados Pontifícios que proibia a posse de terras por judeus, Emmmnuele teria adquirido um vinhedo nas encostas do Albani, sendo, logo em seguida, obrigado pelas autoridades a se desfazer da vinha. Inconformado, ele teria então deixado Roma, com toda a sua família, para se instalar em Livorno, em 1849. Naquele mesmo ano, Giuseppe Garsin, depois de sofrer sérios reveses nos negócios, decide deixar Livorno e partir , com a mulher, Anna Moscato, e o filho, Isaac, para Marselha onde foi bem-sucedido.

Modigliani e Picasso
Amedeo Modigliani foi o quarto filho de Flaminio Modigliani e sua esposa Eugénie Garsin, filha de Isaac e Régine Garsin. Na época, os Garsin eram relativamente abastados - sobretudo um dos irmãos de Eugénie, Amédée Garsin, que enriquecera especulando com imóveis e mercadorias. Já os Modigliani tinham empobrecido, chegando à falência. Flaminio dedicava-se aos vários negócios da família, que incluíam mineração e agricultura na Sardenha, além de atividades comerciais em Livorno. 

Mas os negócios andaram mal. Foi o nascimento de Amedeo que salvou a família da ruína total, pois, de acordo com uma lei antiga, os credores não podiam tomar a cama de uma mulher grávida ou de uma mãe com um filho recém-nascido. Os oficiais de justiça entraram na casa da família, justamente quando Eugénie entrou em trabalho de parto. A família então protegeu seus pertences mais valiosos colocando-os por cima da cama da parturiente.


Na infância, Amedeo sofreu de diversas doenças graves - pleurisia, tifo e tuberculose -, que comprometeram sua saúde pelo resto da vida e cujo tratamento forçava-o a constantes viagens, até sua mudança definitiva para Paris, em 1906.

Também por causa da saúde precária não recebeu educação formal e voltou-se para o estudo da pintura, iniciado na cidade natal, que prosseguiu em Veneza e Florença.

Teve uma estreita relação com sua mãe, que lhe deu aulas até que ele completasse dez anos, e começou a desenhar e pintar precocemente, antes mesmo de ir para a escola. 


Aos quatorze anos, durante uma crise de febre tifóide, ele delirava e, em seu delírio, falava que queria acima de tudo ver as pinturas no Palazzo Pitti e nos Uffizi, em Florença. 

Sua mãe então prometeu a ele que, assim que se recuperasse, ela o levaria a Florença; de fato, não só cumpriu a promessa como permitiu que o filho fosse trabalhar no estúdio de Guglielmo Micheli, um dos pintores mais conhecidos de Livorno, de quem Amedeo recebe as primeiras noções de pintura. 



No ateliê de Micheli, ele conhecerá, em 1898, o grande Giovanni Fattori, sendo assim influenciado pelo movimento dos Macchiaioli, em particular pelo próprio Fattori e por Silvestro Lega.

Em 1906, Modigliani transfere-se para Paris e, ao fim de três anos de vida boêmia, executa uma de suas obras mais importantes: O violoncelista, que expôs no Salão dos Independentes de 1909.

Como outros pintores e artistas do seu tempo, viveu a experiência da extrema pobreza. Por meio dos companheiros de arte, conheceu o poeta polaco Leopold Zborowski, que se tornaria seu melhor e mais devotado amigo, além de incentivador e marchand. 

Em 1917, Zborowski consegue para Modigliani uma exposição individual na Gallerie Berthe Weill. A exposição durou apenas um dia, pois se transformou num escândalo graças aos nus expostos na vitrine da galeria.


A grande musa de Amedeo foi Jeanne Hébuterne, com quem teve uma filha, Jeanne, em 1918. Complicações na saúde fazem o pintor viajar para o sul da França com a esposa e a filha, a fim de recuperar-se. Retorna a Paris ao final de 1918.

Jeanne Hébuterne
Na noite de 24 de janeiro de 1920, aos 35 anos, Modigliani morre de tuberculose. Foi sepultado no famoso Cemitério do Père-Lachaise, em Paris.

No dia seguinte à morte do companheiro, Jeanne, grávida de nove meses, suicida-se, atirando-se do quinto andar de um edifício.

Fruto de diversas culturas, amigo de tantos artistas e encontrando-se numa conturbada fase de questionamentos e transições, sua obra entretanto não pode ser considerada filiada a nenhuma escola, sendo toda ela dotada de um estilo próprio e autônomo.

Seus nus, que provocaram escândalo em seu tempo, revelam não sensualidade, mas um desnudamento da alma humana. Seu estilo faz parte de um momento em que a arte pictórica, confrontada à fotografia, lutava para manter seu espaço, seus valores e sua estética.


O encontro com o escultor Constantin Brancusi marcou a carreira de Modigliani, que por um longo período abandonou a pintura pela escultura. Impressionado pelo cubismo, muito influenciado por Cézanne, Toulouse-Lautrec e Picasso, o artista executou nesse período esculturas nas quais se misturam influências da escola de Siena e da arte da África negra, sobretudo das esculturas do Congo e do Gabão. 


Nota-se em suas esculturas uma forte influência da arte africana e cambojana, que provavelmente conhecera no Musée de l'Homme. Seu interesse pelas máscaras africanas é evidente no tratamento dos olhos de seus modelos.

A partir de 1912, com o agravamento de sua doença, Modigliani abandona a escultura, concentrando-se apenas na pintura.


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Café Literário - Bienal do Livro BH 2012

Aproximando autores e público em bate-papos informais, o Café Literário é uma das principais atrações da Bienal do Livro. Escritores, jornalistas e personalidades conduzem debates descontraídos sobre literatura brasileira, processo criativo, jornalismo, biografia, entre outros temas. 

É o espaço no qual o público compartilha ideias, histórias, reflexões e experiências com alguns dos escritores mais representativos do nosso tempo. 

Quem comanda a programação do Café Literário é Afonso Borges. O escritor e produtor cultural é responsável pelo programa Sempre Um Papo.

PROGRAMAÇÃO CULTURAL

18/0519h30
Literatura e Economia
Autores: Carlos Alberto Sardenberg, Míriam Leitão
MediadorAfonso Borges
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Um grande momento da historia econômica brasileira, em conversa de mestres, onde a literatura está no centro de suas vidas. Em suas diversas modalidades e, neste caso, vertida para a televisão e o rádio.
19/0515h
Meio Ambiente e Literatura
Autores: André Trigueiro, Sérgio Abranches
MediadorAfonso Borges
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Sergio Abranches é sociólogo e cientista político. André Trigueiro, jornalista e apresentador. Eles têm no livro literário a fonte de inspiração e entendimento da vida. Eles darão um excelente depoimento sobre a importância da leitura em suas vidas, e sobre como a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade podem contribuir para um mundo melhor.
Romance: Criação, Verdade e Mentira
Autores: Ana Maria Machado, Edney Silvestre
MediadorLeo Cunha
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Pensando nas atividades dos dois convidados, literatura infanto-juvenil e jornalismo, ambos vertendo-se para o romance, é proposto aqui um mergulho na criação. Uma busca de convergência entre dois autores tão distintos, em suas origens, mas que se encontram na elaboração do texto literário. E onde a verdade e a mentira se misturam.
19/0519h30
Jornalismo e Literatura
Autores: Lucas Figueiredo, Alberto Villas
MediadorJoão Paulo Cunha
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O passado e o presente se interligam por meio das técnicas jornalísticas e literárias. Lucas Figueiredo é o mais importante jornalista investigativo do Brasil. Alberto Villas, com seus almanaques, busca e rebusca no passado, as suas referências do brasileiro. Uma discussão vigorosa sobre as técnicas de jornalismo e literatura.
20/0515h
Poesia não é um detalhe, mas o detalhe
Autores: Fabrício Carpinejar, Roberto Pompeu de Toledo
MediadorSérgio Fantini
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Um poeta performático e um jornalista observador e arguto. Sintetizando este grande encontro: “Poesia não é um detalhe, mas O detalhe”.
20/0517h
Filosofia e Literatura
Autores: Marcia Tiburi, Nilton Bonder
MediadorDagmar Braga
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Um encontro entre a filosofia e a religião só pode ser bom quando se transforma em desencontro. A base da filosofia é a dúvida. A da religião, o dogma. Um eletrizante debate. O ponto comum entre os dois é o questionamento do ser humano, construído na obra dos dois escritores.
21/0519h30
Homenagem a Bartolomeu Campos de Queirós
Autores: Maria Eugênia Dias de Oliveira, Ninfa Parreiras
MediadorAfonso Borges
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Dar substância à vida e à obra de Bartolomeu Queirós é o objetivo deste painel, ao convidar duas especialistas em seu trabalho. Como participação especial, a atriz Nathália Marçal fará uma leitura do livro “Por Parte de Pai”, que está sendo adaptado para teatro pelo diretor carioca André Paes Leme. Os amigos estarão presentes, fazendo depoimentos. Uma noite inesquecível, para uma pessoa igual.
22/0519h30
Reportagem e Memória
Autores: Zuenir Ventura, Mary del Priore
MediadorCristina Agostinho
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Aqui, jornalismo converge e conversa com a história. Qual é o Brasil que se pode desenhar no futuro ao mirar tão de perto a Colônia, o Império e a atualidade? Respostas aqui, nas vozes de um jornalista que trata do contemporâneo e uma historiadora que trata a história brasileira com tanta acuidade.
23/0519h30
A Construção do Romance
Autores: Frei Betto, Luiz Ruffato
MediadorLuís Giffoni
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Vozes de dois romancistas que tiveram no conto a gênese de sua obra. O real e o imaginário aqui se encontram, numa discussão sobre criação literária e contemporaneidade.
24/0519h30
Literatura Mineira - Coletivo 21
Autores: Francisco Morais Mendes, Antonio Barreto
MediadorAdriano Macedo
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Antonio Barreto e Francisco de Morais Mendes são o ouro e o diamante modernos que a nova literatura mineira tem. A poesia de Barreto e os contos de Mendes marcaram uma época. Adriano Macedo representa os novíssimos escritores que se uniram ao redor do livro “Coletivo 21” que reúne a literatura de 21 nomes expressivos de Minas. Será um encontro que afirmará este novo tempo, mais solidário que solitário, no fazer literário.
25/0519h30
Reportagem e Ficção
Autores: Eliane Brum, Juan Pablo Villalobos
MediadorBranca de Paula
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A temática social é o forte destes dois autores. Com talento e qualidade, fizeram a transição de realidades adversas para o mundo ficcional, contagiando leitores de todas as faixas. Será uma mesa onde a literatura se transforma em ficção e realidade, e vice-versa.
26/0515h
Contos e Crônicas
Autores: Humberto Werneck, Fabrício Corsaletti
MediadorCarlos Herculano
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Dois craques do conto e da crônica aqui se encontram para conversar com os leitores sobre esta arte mínima, crítica, sempre no limite do real. Criação, diversão, entretenimento.... o que são estes dois gêneros, afinal? Humberto Werneck encontrou no conto e na crônica o melhor de seu texto que situa-se no entroncamento entre a literatura e jornalismo. Fabrício Corsaletti traz consigo a marca da nova geração da crônica brasileira.
26/0519h30
Corpo e Espírito
Autores: Waldemar Falcão, Patrícya Travassos
MediadorMalluh Praxedes
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Tendo a literatura como espinha dorsal, a saúde, a qualidade de vida e o bem-estar, sentarão à mesa com o espiritismo, astrologia e estados alterados da consciência. Como os leitores vão encarar este desafio?
27/0516h
Viagem
Autor: Amyr Klink
MediadorAfonso Borges
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Enfrentar as intempéries da natureza é, relativamente, simples. Autor de inúmeros livros sobre as viagens em alto mar até a invernagem na Antártica, este navegador encontra o maior desafio em terra: o correto planejamento, a busca de recursos para a concretização de seus sonhos. E a literatura? Como entra nisso?