domingo, 29 de abril de 2012

Cervantes de Literatura

O poeta chileno Nicanor Parra ganhou nesta segunda-feira o Prêmio Cervantes de literatura, considerado o Nobel da literatura em espanhol. Criado em 1975, o prêmio paga 125 mil euros (o equivalente a R$ 310 mil) a seu vencedor.

Parra, que tem 97 anos de idade, não pôde ir à Espanha para receber o prêmio, mas enviou um de seus netos, Cristóbal Ugarte, como representante. No discurso, seu neto destacou que “os prêmios são como as ‘Dulcinéias de Toboso’, quando mais pensamos nelas, mais longe e enigmáticas são”.

Parra é considerado o criador da chamada antipoesia — a introdução da linguagem cotidiana na poesia tradicional — e é o único membro do famoso trio de escritores chilenos composto por Pablo Neruda e Vicente Huidobro ainda vivo.

Parra começou a escrever poesia muito jovem e publicou seu primeiro livro, “Cancionero sin nombre”, em 1937. Foi em 1954, com “Poemas e antipoemas”, que atingiu o ápice de sua antipoesia. Em 1969, o chileno ganhou o Prêmio Nacional de Literatura do Chile com “Obra gruesa”.

Já ganharam o Cervantes autores como a espanhola Ana María Matute, vencedora no ano passado, o peruano Mario Vargas Llosa e o argentino Jorge Luis Borges, entre outros.

Na edição deste ano, o prêmio teve que ser entregue pelos príncipes de Astúrias, Felipe de Bourbon e Letizia Ortiz. O rei Juan Carlos, que costuma presidiar o evento, recupera-se de uma cirurgia no quadril.

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sexta-feira, 27 de abril de 2012

Gustav Klimt


Gustav Klimt foi um artista de quadros exuberantes que admirava as mulheres e acreditava no domínio feminino explorando suas figuras com sensualidade extrema chegando ao sexual. 

Evidenciou o feminino em grande parte de sua obra, sendo criticado por conservadores, incompreendido pelo erotismo que retratava e várias vezes sendo rotulado de pornográfico. Contudo foi o artista vienense mais querido e admirado do seu tempo.

Um artista de extrema importância que simboliza o estilo art nouveau da virada do século 19 para o século 20, assim como também simboliza os questionamentos e transformações humanas comportamentais na fase de transição dos séculos. 


Acreditava na libertação pela arte e era influenciado por Nietzsche, Wagner e Schopenhauer. Nasceu em 1862 no subúrbio de Viena, Áustria, e foi o segundo de sete irmãos de uma família humilde.



Após concluir os estudos primários então com 14 anos foi admitido na Escola das Artes Decorativas, ligada ao Museu Austríaco Imperial e Real de Arte e Indústria de Viena, tendo sido seu trabalho de admissão um desenho de uma cabeça feminina, feito a partir de um molde de gesso.

Nesta escola, junto com seus irmãos Ernest e Georg, Klimt estudou desenho ornamental, teoria de projeções, perspectiva e teoria do estilo entre outros temas que acompanhavam em aulas práticas e foi o único aluno desta escola a ter uma grande carreira artística. Com seu irmão Ernest e seu amigo Frans Matsh, Klimt trabalhou nos vitrais da Igreja Votiva.

Por volta de 1880, Klimt, Ernest e Matsh fundaram a Companhia dos Artistas e através da empresa Fellner und Hellmer, especializada em construção de teatros, conseguiam trabalhos realizando painéis decorativos, entre eles a escadaria do Museu de Arte de Viena. 

Nesta época entrava em cena na Europa a arte floral e seu estilo pessoal começava a surgir, quando em 1891 foi contratado para pintar um painel no Teatro Imperial de Viena. Klimt neste painel retratou um imenso quadro da elite vienense desertando olhares e admiração. 

A partir desta pintura a ingressou no mundo cultural da burguesia e foi premiado ao final do trabalho com a Cruz de Mérito de Ouro (1888).


Com a morte de seu irmão no ano seguinte, Klimt fechou a Companhia dos Artistas e passou a decorar casas particulares e fazer retratos ao mesmo tempo em que ingressava na Sociedade dos Artistas Vienenses, porém esta sociedade era composta por conservadores e ele não ficou por muito tempo.

Permaneceu assim até 1894, quando foi convidado pelo Ministro da Cultura, Von Hartel a pintar o Salão Nobre do Anfiteatro da Universidade de Viena. O tema a ele sugerido para os quadros era A Vitória da Luz sobre a Escuridão, para representar a Filosofia, a Medicina e a Jurisprudência. Klimt rejeitou o tema e abandonou seu estilo adotado até então, adotando o estilo art nouveau, provocando espanto entre os tradicionalistas.

Com estes painéis causou choque e os diretores e professores acharam uma provocação.


Klimt recebeu duras e impiedosas críticas por ter realizado uma obra “pessimista e com grande simbolismo erótico”. Criou polêmica ao pintar corpos femininos nus em poses consideradas obscenas para a época, com rostos e expressões com ar de lascívia e mórbida sensualidade, olhos semifechados e bocas entreabertas.

Ele, junto com seu novo grupo estavam entusiasmados com as novas propostas artísticas que surgiam na Europa e fundaram em 1897 o Secessão, que era um grupo de dissidentes que haviam rompido com os conservadores da Sociedade de Artistas Vienenses.

Este grupo era liderado por Klimt e logo uniram-se a ele escritores, artistas e políticos de correntes de esquerda. Eles também editavam a revista “Ver Sacrum”, onde Klimt fez várias ilustrações. Em 1898 o Secessão realizou a primeira mostra e com a renda desta construíram o Palácio do Secessão, que funcionou como sede para o movimento.

A partir de 1902 ocorreram notáveis mudanças na linguagem visual de seus trabalhos, e o simbolismo tornou-se mais acentuado nas obras que ele realizava.


Em 1905 Klimt decide rescindir o contrato com Os Quadros da Faculdade” , devolve ao Estado os honorários pelo seu trabalho, deixa o Secessão e vai para Berlim participar da exposição da Aliança dos Artistas Alemães, onde recebe o Prêmio Villa Romana. Seus quadros A Medicina, A Filosofia e A Jurisprudência foram retomados pelo Estado e queimados depois, na Áustria.

Ele une-se aos pintores Egon Schiele e Oskar Kokoschka, também austríacos e viaja pela Europa, agora cada vez mais sua obra ganha personalidade e vai tornando-se especialista em pintar figuras femininas envoltas em ricas e grandiosas ornamentações, consagrando definitivamente seu estilo e dando início à fase mais reconhecida de sua carreira, chamado Fase Dourada. 

Nesta fase Klimt buscou inspiração na estética de arte bizantina, com formas geométricas, trabalhando bidimensionalidade, os mosaicos onde retratava o feminino de forma figuritivista e com muitos adornos. 

O realismo somente fica presente ao retratar rostos e mãos com perfeição. As roupas e fundos dos quadros são tomados por ricos ornamentos, arabescos, espirais e muitos e pequenos objetos trabalhados em infinitas formas e cores quentes, douradas e metálicas exuberantes. É a dualidade representada de várias maneiras, como a abstração e o realismo, a alegria e a tristeza, o domínio e a submissão, no mesmo quadro.


De muitos produzidos nesta época, dois quadros ganham grande importância, um deles é O Beijo, considerado como o auge do período, onde Klimt retrata Emilie, sua amante e ele mesmo em fusão de dois corpos em um beijo apaixonado e em Dánae, um quadro provocativo de uma mulher ruiva, adormecida entre moedas de ouro e espermatozóides.

Nos primeiros anos do século 20 a fase dourada vai dando espaço ao expressionismo. Em 1909 Klimt viaja para Paris entrando em contato com o fauvismo e com obras de Toulouse-Lautrec, criando agora cenários menos elaborados e fazendo cada vez menos uso de figuras geométricas e dos tons dourados. 

É quando pintou o quadro O Chapéu de Plumas Negras, A Vida e a Morte, A Virgem, e também quando há a inclusão de novos elementos em seus quadros como natureza e água. Klimt cria paisagens campestres e do Castelo Kammer, sua propriedade, o Castelo Kammer, nota-se também influência do cubismo.

Em 1910 participou da Bienal de Veneza tendo aprovação unânime e recebeu o prêmio da Exposição Internacional de Roma.



Obras mais eróticas são produzidas a partir deste momento pelo artista, são mais de 3000 desenhos de modelos nus que frequentavam seu ateliê e Klimt foi acusado de exagero erótico por Ornamentação e Crime, outros quadros dessa época são Masturbação Feminina, Adão e Eva e Mulher Sentada com as Coxas Abertas.


Com o começo da Primeira Guerra Mundial em 1914 e com o falecimento de sua mãe em 1915 acontece uma mudança em sua obra, Klimt adota a monocromia em suas paisagens tornando seus quadros mais sombrios.

Em 1916 participou de uma exposição do Secessão em Berlim com Egon Schiele e Kokoschka.



Finalmente em 1917 recebeu reconhecimento e foi admitido na Academia de Arte de Viena, sendo eleito membro honorário da entidade.

Porém faleceu no ano seguinte de AVC, e foi enterrado em Viena.


Seduzido pela personalidade extravagante de Gustave Klimt, o cineasta Raoul Ruiz dirigiu o filme "Klimt", com John Malkovitch no papel do artista e Verônica Ferres no papel de sua modelo predileta, Emilie Flöge.

O propósito do filme foi retratar a vida do artista cuja pintura sexual e exuberante simboliza o estilo art nouveau da virada do século 19 para o século 20.

No início da carreira, Gustav Klimt trabalhava junto com um de seus irmãos, Ernst. Ainda rapazes, ao entrarem na Escola de Artes Aplicadas de Viena, os dois conheceram um outro jovem artista, Franz Matsch, de quem se tornaram amigos e parceiros profissionais. 

Ao deixar a escola, o trio montou um estúdio particular em sociedade e começou a receber encomendas. Gustav, Ernst e Franz fizeram alguns trabalhos de painéis decorativos em mansões na cidade até surgir o primeiro grande convite: decorar as escadarias e o teto do Teatro Municipal de Viena. 

Em 1904, o milionário e industrial belga Adolphe Stoclet encomendou ao arquiteto vanguardista Joseph Hoffman a construção de um palácio em Bruxelas. 

Coube a Gustav Klimt a realização de um mural para a sala de jantar. Klimt concebeu então o painel "Árvore da Vida", no qual utilizou pastilhas douradas, pedaços de azulejos, mármore, metal esmaltado e até mesmo pedras preciosas.

O Beijo

Árvore da Vida
Fotos: Google

Orhan Pamuk e o museu da Inocência


Numa casa vermelho-escura otomana no distrito de antiquários de Istambul, um bairro em acelerada ascensão social onde objetos trabalhados em bronze se espalham nas calçadas de íngremes ruas de paralelepípedos, está tomando forma um museu idiossincrático.

Ao entrarmos, a primeira coisa que vemos é uma parede inteira pontilhada de pontas de cigarros uniformemente espaçadas - prova da prolongada agonia de um homem que furtivamente guardou 4.213 bitucas dos cigarros de sua amada depois que ela se casou com outra pessoa. Mas a palavra "obsessão" é desestimulada, diz Orhan Pamuk, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, enquanto supervisiona os toques finais de seu Museu da Inocência.

Pamuk, um artista "manqué", estudou arquitetura, mas migrou para a literatura aos 23 anos. Seu "museu sentimental" foi concebido em meados da década de 1990 como contraponto a seu oitavo livro, "O Museu da Inocência" (2008) - publicado depois que ele recebeu o Nobel em 2006. Como o autor, seu herói Kemal nasceu na abastada burguesia de Istambul. Mas após um envolvimento amoroso com Füsun, bela vendedora e distante parente pobre, Kemal rompe um noivado oficial para tentar reconquistá-la. A história tem os contornos dos melodramas televisivos turcos (Pamuk passou uma temporada escrevendo roteiros na década de 1980).

Mas a dor é real em um romance que, como grande parte da ficção de Pamuk, sonda as ansiedades e falsidades da vida, em que a sensação é de uma sociedade atrasada, embora imite uma modernidade ocidentalizada. A amada de Kemal morre e - incapaz de encontrar paz - ele constrói um museu com os objetos que ela tocou, enquanto Pamuk reúne lembranças para inspirar a narrativa.

Na demorada reta final até a abertura do museu, Pamuk está bastante animado, dançando em torno das escadas de pintores e da fiação ao som do ruído ensurdecedor de furadeiras e serras ("Eu não vou dizer para eles irem embora - eu quero que isso seja autêntico", ele berra, com um sorriso). Aos 59 anos, alegria e entusiasmo o tornam ainda mais juvenil. Em 1998 ele comprou uma dilapidada casa de esquina em Cukurcuma, nas ruelas de Beyoglu, do outro lado do Chifre de Ouro, em relação aos palácios de Sultanahmet, mas foi frustrado pela lentidão da reforma.

"É como construir uma casa: a burocracia - o encanador nunca vem na hora combinada. Honestamente, muita lamentação e arrependimento foi investido nela." Pamuk diz ter devolvido uma pequena verba destinada pela cidade de Istambul por causa de um "acirrado embate político" e bancou "95%" do projeto com dinheiro proveniente de seus direitos autorais, trabalhando com arquitetos turcos e alemães, entre eles Ihsan Bilgin e Gregor Sunder-Plassmann. Ele também teve de contratar guarda-costas, em razão de antigas ameaças de morte de facções de extrema-direita.

O pequeno museu é, predominantemente, uma sequência de pequenos nichos, cada um correspondente a um dos 83 capítulos da novela - faltam 10, que serão incluídos posteriormente. "Nossa constituição é o livro", afirma Pamuk. "Foi uma alegria desenvolver o romance com a textura viva daquele tempo." Embora o caso de amor de Kemal aconteça nos anos 1970 e 80 - superposto ao golpe militar na Turquia em 1980 - a mostra cobre o meio século a partir dos anos 1950.

Construída em 1894, a casa é supostamente a casa da família Füsun. A vitrine de saleiros junto ao poço da escada comemora os jantares de Kemal lá. Em destaque, vê-se o vestido que ela supostamente usava quando Kemal a seduziu. "Isso é o mais próximo que chegamos dela", murmura Pamuk, como se falasse de um conhecido. Há largas coleções de brincos, grampos de cabelo e caixas de fósforos, surrupiados no "ritual de consolação" de Kemal e um sortimento variado de objetos: de um coração de porcelana quebrado a um triciclo de brinquedo. Muitos já estavam na coleção de Pamuk, mas ele adquiriu centenas de fotografias e cartões-postais anônimos. Seus romances, acredita ele, têm uma qualidade "eclética - milhares de pequenas coisas. Nós também estamos fazendo isso; museus têm tudo a ver com detalhes".

Três anos atrás, vi alguns desses objetos espalhados no chão de seu escritório, nas imediações. Mas cada nicho, aqui, é composto como uma instalação de arte, surrealista, minimalista ou barroca. Pamuk, que elabora as capas de seus livros, esquematizou muitos dos nichos. "Está cada vez mais um museu de atmosfera", diz. O efeito desejado é uma "aura ou sentimento do livro". Felizmente, isso inclui seu humor. Um cartaz anatômico fornece uma "analogia de como começa a dor do amor". Um surreal tubo com gravata borboleta evoca o psiquiatra que a noiva de Kemal insiste que ele consulte. As descascadas persianas verdes e um lampião, recuperados de uma mansão abandonada à beira do Bósforo, lembram Kemal das impotentes noites em que ele tentava apaziguar sua pretendida. Em "Streets that Remind Me of Her" (ruas que me fazem lembrar dela), um mapa de 1934 do bairro de Nisantasi - o bairro rico da família de Pamuk -, há áreas assinaladas com amarelo, laranja ou vermelho, dependendo do grau de angústia que suas associações despertam em Kemal.

O museu, como o romance, é em igual medida celebração da cidade natal de Pamuk, casa e lamentação por um amor perdido. "É, em parte, memória da cultura, como vamos a um piquenique como este" - Pamuk aponta para uma cesta repleta de frutas. Isso dá margem a um nicho pós-moderno de curiosidades que podem ser apreciadas sem conhecer o romance. Usando tecnologia museológica de ponta, ele mescla documentário e ficção, produzindo um efeito a um só tempo lúdico e profundo. Vídeos mostrando o Bósforo são exibidos em telas, enquanto luvas de boxe acima de uma máquina de escrever aludem ao ex-datilógrafo de Pamuk, que tinha um segundo emprego de boxeador. Pouca coisa é o que parece. Após testes com cigarros fumados por uma máquina de vácuo, as pontas de cigarro que estão sendo instaladas por uma mulher em uma escada são de autoria de um artista plástico. Até mesmo o comercial de TV para o refrigerante Meltem no estilo dos anos 1970 é uma campanha simulada por um dos maiores publicitários da Turquia em homenagem a um refrigerante fictício.

"É um museu nostálgico", admite Pamuk. "Mas não apenas isso. O fato é que estamos preservando coisas que nunca foram representadas, evidenciando qualidades comuns, da vida cotidiana. Acreditamos fortemente em honrar essas efemérides". Figurinhas de futebolistas que vêm com os chicletes comprados por Kemal custaram caro, porque "na Turquia, colecionadores também disputam a posse desses objetos". Existem trenzinhos e bilhetes de viagem nas balsas. "As pessoas em Istambul, assim como em Veneza, são nostálgicas em relação às embarcações. Também serão ouvidos sons emitidos através de orifícios nas caixas" - ele imita uma sirene de nevoeiro. O relógio de parede levado escada acima ("Este é um momento importante", anuncia Pamuk) está sendo regulado por um dos principais relojoeiros de Istambul, que se comprometeu a garantir que manterá a hora certa.

Kemal visita 1.743 museus em 15 anos, e Pamuk viu "perto desse número" durante viagens para lançamentos de livros na década de 1990, entre eles o Gustave-Moreau, em Paris, e a Casa de Thomas Mann, em Lübeck. Como escreveu no "Modest Manifesto", havia poucos museus em Istambul, quando ele era criança, mas aqueles que ele visitou depois o convenceram de que, como os romances, podem falar em nome das pessoas e não de instituições.

Os museus, afirma agora, "deveriam ser mais como romances - menos sobre nações, tribos, instituições; mais sobre histórias pessoais". Eles "sempre representaram o poder - um príncipe ou Estado, grupos institucionais. Bem, nós também temos um poder: esse sujeito loucamente apaixonado, chorando, colecionando cigarros. Afirmamos que sua experiência é universal, todo mundo, acreditamos, se apaixona e passa pelos estados de ânimo de Kemal". Assim como Kemal se dá conta de que "eu também poderia ter algo digno de ser exibido orgulhosamente, e a noção me libertou", diz Pamuk, "estamos dizendo: 'Construa o seu museu e você terá poder'. Pelo menos você não se envergonhará de sua coleção ou de sua história".

O romance contém um mapa de situação e um bilhete para entrada gratuita. Ele será carimbado pelos guardas em ternos de veludo "da cor de madeira escura", como estipula Kemal. Pamuk tem um conjunto de ternos, "porque às vezes os usarei discretamente e montarei guarda aos objetos". Assim, os visitantes não deverão se surpreender caso encontrem o agraciado com o Nobel à espreita, entre os nichos. "Vou trabalhar nisso durante 20 anos, até eu morrer; será divertido."

O Museu da Inocência, em Istambul, será inaugurado no dia 27. (Tradução de Sergio Blum)
Por Maya Jaggi | Do Financial Times, de Istambul
www.masumiyetmuzesi.org

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lev Sinovievitch Kopelev

Em entrevista à Deutsche Welle em novembro de 1992, Lev Kopelev afirmou: "Não existe outro exemplo de tamanha conexão entre dois povos como é a história do conhecimento mútuo entre alemães e russos". Esse era o foco de seus estudos em Wuppertal, no oeste da Alemanha. Durante dez anos, o escritor nascido em 9 de abril de 1912 em Kiev pesquisou as relações teuto-russas na universidade local.

Por mais que se sentisse ligado à terra de Goethe, Schiller e Thomas Mann, não foi por livre e espontânea vontade que ele passou os últimos anos de sua existência no país. Em fevereiro de 1981, o então chefe do Partido Comunista Russo, Leonid Brejnev, assinara sua expatriação. Na ocasião, Kopelev estava na Alemanha, pela primeira vez na vida.

Antes, ele fora repetidamente convidado para visitar o país, primeiramente pelo prêmio Nobel da Literatura Heinrich Böll, durante uma visita a Moscou em 1962. Na época, Kopelev queria ir à Alemanha, mas não podia. Os pedidos seus e de sua esposa Raissa Orlova – também escritora – eram sistematicamente negados. Em certo ponto, ambos desistiram da intenção.

O casal só voltou a apresentar um novo requerimento no início dos anos 80, a partir da promessa do regime soviético ao então chanceler federal alemão, Willy Brandt, de que os Kopelev poderiam retornar ao país de origem após a viagem. Esse era um ponto importante para o autor: a União Soviética era sua pátria. Uma pátria que ele amava. Apesar de tudo.

Lev Sinovievitch Kopelev nasceu na Ucrânia, na época parte da URSS. Filho de um agrônomo, estudou Germanística, Filosofia, Literatura e História e era considerado um paradigma moral. Em 1941, alistou-se no Exército Vermelho e tentou impedir os atos de crueldade durante a invasão da Prússia Oriental. Condenado por "propaganda burguês-humanista de compaixão com o inimigo", teve que passar quase dez anos na prisão.

Reabilitado em 1956, após a morte de Josef Stalin, tornou-se docente em Moscou. Porém, devido a seu empenho em prol dos críticos do regime a partir de 1966, as chicanas do Estado soviético voltaram a se intensificar. Após a experiência terrível nos campos de concentração do Gulag e a marcha das tropas do Pacto de Varsóvia sobre Praga e outras cidades, Kopelev renegou o comunismo, no qual depositara esperanças por tanto tempo.

Mais tarde comentaria assim esse processo: "Quando nos manifestamos contra a perseguição injusta de gente que pensava diferente, não se tratava de uma luta contra o regime. Queríamos tornar o regime justo. Queríamos aprimorá-lo, Queríamos reformá-lo. Não éramos revolucionários". Durante muito tempo, Kopelev e seus correligionários acreditaram ser possível reformar o regime soviético.

Porém em 1981 o Kremlin não mais os queria. "Pensávamos que as intenções deles eram honestas, que era um acordo entre cavalheiros", comentariam Kopelev e a esposa mais tarde, em relação à permissão de viajar. Na verdade, fora uma armadilha e, para o casal, um choque. "Ficamos amargurados e desolados." Por outro lado, a expatriação foi também "uma libertação de todas as obrigações em relação ao Estado soviético"

A cidade alemã de Colônia tornou-se a nova casa do casal. Era a partir dali que Kopelev lutava pela reconciliação entre russos e alemães. Em seu projeto de pesquisa em Wuppertal, ele estudou sobre a imagem que os russos faziam da Alemanha e a que a Rússia fazia dos alemães. E novamente encontrou Heinrich Böll, com quem mantivera uma amizade por correspondência durante duas décadas, desde a viagem do alemão a Moscou. Mais tarde, o dissidente russo declararia: "Ele foi uma das pessoas mais importantes de minha vida". Quando Böll faleceu, em 1985, Kopelev foi um dos que carregaram seu caixão.

O caminho do russo terminou em 18 de junho de 1997, em Colônia. Sua urna foi trasladada para Moscou, e suas cinzas sepultadas no Cemitério Donskoi, ao lado da esposa Raissa. Graças às mudanças políticas no Kremlin, o escritor ainda pudera visitar várias vezes a pátria russa, mas não quisera mais permanecer.

Em Colônia, às margens do Rio Reno, desde 2009 o Lew Kopelew Weg – um caminho de terra no Parque Beethoven – relembra o grande conciliador. Desde 2001, o fórum que leva seu nome concede, a intervalos irregulares, o Prêmio Lev Kopelev a pessoas, projetos ou organizações que atuam segundo o espírito do autor – entre duas pátrias.

Autoria: Michael Borgers (av)
Revisão: Luisa Frey

Beethoven na sociedade: por trás do titã da música

O aristocrata britânico John Russell descreveu como "selvagem e desleixada" a aparência de seu contemporâneo Beethoven, os olhos "cheios de energia impetuosa; seus cabelos, que aparentemente nem pente nem tesoura visitam, há anos". Para Russell, o músico alemão gravemente doente estava "perdido para a sociedade".

Que tipo de homem era Ludwig van Beethoven? Uma viagem por sua infância leva à casa onde nasceu, em Bonn. Numa minúscula câmara de mansarda – o lugar onde presumivelmente se encontrava seu berço – vê-se um busto do artista em seus últimos anos de vida, em Viena.

Um dândi em Viena

Contudo, a real aparência do compositor devia ser bem diferente desse retrato idealizado, na opinião de Michael Ladenburger, curador da Casa Beethoven, em entrevista à Deutsche Welle. "Beethoven era um homem de apenas 1,60 metro de altura, feio e muitas vezes descuidado, com o rosto coberto de marcas de varíola – mas dotado de grande carisma. E isso o tornava muito atraente, também para o sexo feminino."

A posteridade idealizou Beethoven como titã da arte musical, torturado pelo destino. Contudo, testemunhos da época, suas cartas e cadernos de conversação o mostram como um amante da comida e da bebida, inquilino bagunceiro e truculento, artista sutil e apaixonado, amigo ríspido, mas também afetuoso.

Rabugento e irascível, muitas vezes ele ofendia seus interlocutores. No entanto, mal chegado a Viena, encontrou rapidamente mecenas e acesso aos meios nobres influentes. Para encenar com maior efeito suas aparições, adquiriu roupa elegante da moda e até mesmo um cavalo.

Amada Imortal 


Seu relacionamento com as mulheres permanece um mistério. Beethoven jamais se casou. É certo que se apaixonou intensamente por várias de suas alunas de piano nobres. Segundo a biografia de seu criado Anton Schindler, houve também uma série de "casos românticos". No entanto, era impensável para uma jovem dama da nobreza ligar-se a um membro da burguesia, como ele.

Até hoje não se sabe a quem nem quando o músico dedicou as seguintes linhas, encontradas em seu espólio:

"Já na cama, as ideias se dirigem a ti, minha Amada Imortal, aqui e ali alegres, e então tristes. Viver, só posso ou inteiramente contigo ou de jeito nenhum; sim, decidi errar por terras longínquas, até que possa voar para teus braços..." 

As frequentes trocas de endereço sugerem que o compositor fosse um inquilino nômade. Beate Angelika Kraus, estudiosa de Beethoven, tem outra explicação para este fato. "As mudanças se devem ao fato de ele geralmente sair da cidade no verão e, ao retornar a Viena no outono, escolher uma nova casa. Afinal de contas, não era tão abastado assim que pudesse manter paralelamente uma moradia na cidade e outra no campo."

Objetos pessoais, como a escrivaninha de viagem, à qual o compositor trabalhava – comparável ao atual laptop –, ou seu elegante relógio de mesa, demonstram que ele tinha um senso apurado para o design de bom gosto.

Ao julgar os demais, Beethoven não tinha papas na língua. Com rudeza característica, chegou a se indispor com seu amigo, o renomado violinista Ignaz Schuppanzigh: "Tu que não venhas mais aqui em casa! És um cachorro falso, e o carrasco que leve os cachorros falsos!". Numa carta de 19 de agosto de 1823, Beethoven expõe um rico repertório de insultos, que vão desde "esta porca de empregada" até "vilão desgraçado".

John Russell descreve as visitas regulares de Beethoven a uma hospedaria, "onde à noite bebia vinho e cerveja num canto, comia queijo e peixe defumado e lia o jornal. Ao adentrar a hospedaria um homem cuja cara desagradou a Beethoven, este cuspiu diversas vezes e deixou o local bradando: 'Que cara de mau caráter". 

Já em 1796, fizeram-se notar os primeiros sinais de uma afecção auditiva. Beethoven sentiu-se cada vez mais isolado, evitando progressivamente o contato com as pessoas e o mundo externo.

Em seu Testamento de Heiligenstadt, de 1802, o artista, de 31 anos, expõe aos irmãos o terrível dilema que o fazia sofrer e pensar em suicídio. Ele, que nascera com um temperamento fogoso e vivaz, era forçado agora a passar a vida na solidão. Afinal, não podia dizer às pessoas: "Falem mais alto, sou surdo!". Pois como compreenderiam que um músico privado da audição pudesse compor?

Os anos de moléstia e surdez progressiva fizeram que os traços de caráter de Beethoven se acentuassem e fossem ficando mais negativos em relação ao contato externo. No estágio final da surdez, ele era forçado a levar consigo um caderninho de conversação, para poder se comunicar com as outras pessoas.

Michael Ladenburger resume: "Está claro que Beethoven extraiu grande força das rupturas em sua biografia e em sua personalidade, ao se revoltar contra elas, ao impor a si mesmo parâmetros muito altos. Assim, essas fraquezas não são apenas negativas, mas formavam uma superfície áspera contra a qual ele se atritava, e onde se burilava com resultados prodigiosos, no que concerne sua obra".

Autoria: Hildburg Heider / Augusto Valente
Revisão: Marcio Damasceno

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Atores cubanos vão aos EUA divulgar filme e somem no país


Dois atores cubanos, protagonistas de um filme que relata as aventuras de jovens que querem sair de Cuba, desapareceram nesta semana logos depois de pisarem em solo americano, para onde viajaram para apresentar a produção no Festival de Cinema de Tribeca.

O site do jornal "The Huffington Post" afirmou neste domingo que Anailín de la Rúa e Javier Núñez Florián, ambos de 20 anos, saíram de Cuba junto com outros companheiros de elenco com a intenção de participar da estreia de "Una Noche" no conhecido festival nova-iorquino.

No entanto, se separaram de seus colegas quando na quarta-feira fizeram escala em Miami (Flórida), segundo explicou ao site o ator Daniel Arrechada.

"Estou sozinho em Nova York", confirmou Arrechada, acrescentando que está disposto a voltar a Cuba, mas não se sente à vontade para julgar seus companheiros.

"É uma decisão pessoal. Nem todos temos que ficar e nem todos temos que voltar", defendeu.

Já a diretora do filme, Lucy Mulloy, comentou ao site que, embora esteja "decepcionada" e "surpresa" pela decisão dos dois atores, "compreende" a fuga.

"Una Noche", co-produção de Cuba, Estados Unidos e Reino Unido, concorre neste ano ao prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Tribeca.

O filme conta a história de Raúl e Elio, dois adolescentes cubanos que enfrentam o dilema de abandonar a ilha na busca por uma vida melhor em Miami.

É, o comunismo é tão bom na Ilha Encantada de Fidel que quem pode abandona tudo e foge só com a roupa do corpo... Ainda bem que não foi no Brasil, Dilma e sua turma os devolveriam indignados com a atitude de abandonar o sonho revolucionário.

Fonte: Folha

Aristodemo Becherini



Filho de Aurélio Becherini (1879-1939), considerado o primeiro repórter fotográfico paulistano, Aristodemo Becherini (1911-1985) começou a fotografar aos 14 anos, mas seu olhar estava relacionado à publicidade. Mesmo assim, em paralelo, registrou as ruas de São Paulo e diferentemente de seu pai, há momentos que sua obra deixa o puro caráter documental para esboçar um ensejo mais moderno.

"Ele constrói o cotidiano da cidade, mas não é um olhar ingênuo, é uma fotografia muito exata", diz Henrique Siqueira, diretor da Casa da Imagem, que inaugura amanhã a primeira mostra já realizada sobre o trabalho de Aristodemo Becherini.

Quando o fotógrafo morreu, sua filha, Araceli, doou ao Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura paulistana cerca de 1,3 mil negativos e imagens que ele fez em sua vida. O acervo está guardado na Casa da Imagem, unidade do Museu da Cidade de São Paulo, assim como 419 chapas de vidro das obras de Aurélio - mas a coleção da família não compreende nada da produção do irmão de Aristodemo, Henrique, que foi seu sócio no estúdio fotográfico voltado para a criação de anúncios publicitários. Desse acervo, afinal, Siqueira fez seleção curatorial de apenas 24 imagens que formam a exposição Aristodemo Becherini: Entre a Cidade e a Publicidade, com fotografias criadas entre 1925 e 1952. "É o início da verticalização da cidade", afirma o curador.


Aristodemo não chegou a embarcar na experimentação pela qual a fotografia passava no fim da década de 1940 ou início dos anos 50, como se vê nas criações, por exemplo, dos fotocineclubistas - como Thomaz Farkas ou German Lorca. Mas justamente o contexto de verticalização de São Paulo propiciou ao fotógrafo registrar obras mais "modernas", como as em que destaca um prédio com elemento. Entre as peculiaridades da obra de Aristodemo, Henrique Siqueira cita imagens que ele realizou a partir do alto de edifícios ou fotografias noturnas que realçam os anúncios luminosos que surgiam na cidade.

Vê-se, assim, a transformação de São Paulo nos trabalhos do fotógrafo, mas é importante também ressaltar que Aristodemo pegou sua câmera muitas vezes para registrar fatos de época como o discurso de Luís Carlos Prestes em 1945 no Pacaembu, manifestações comunistas da década de 30, festas de carnaval, competições de regatas no Rio Tietê ou a construção da rodovia Anchieta - esses momentos estão nas obras e em vídeo.


Imaginação 

Ao mesmo tempo, a Casa da Imagem também inaugura amanhã uma exposição dedicada ao reverenciado fotógrafo Carlos Moreira. Desde 1964, ele fotografa diariamente - e a Praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, é, sempre, um de seus locais preferidos.

O trabalho de Carlos Moreira não é documental. "Nunca fotografava São Paulo, era uma cidade imaginária", ele afirma em depoimento para o museu por ocasião de sua mostra. "Outras cidades se encontravam naquele ambiente. A fotografia é uma elaboração da imaginação."

Nas 28 fotografias que compõem A Praça Ramos de Azevedo na Fotografia de Carlos Moreira, com curadoria de Siqueira e Monica Caldiron, a localidade - com suas estátuas, arredores, transeuntes, frequentadores, moradores de rua - é o espaço para o fotógrafo ressaltar o humano. "Há as minúcias do movimento, a observação sutil", destaca a curadora.

A mostra apresenta um conjunto de obras - todas em preto e branco - criadas por Moreira entre a década de 1960 e os anos 2000. Inevitável perceber a transformação poética e íntima do olhar de um mestre.

Casa da Imagem. R. Roberto Simonsen, 136-B, Centro, 3106-5122. Até 29/7. QUANTO: Grátis.

Dia Mundial do Livro


O Dia Internacional do Livro teve a sua origem na Catalunha, uma região da Espanha.

A data começou a ser celebrada em 7 de outubro de 1926, em comemoração ao nascimento deMiguel de Cervantes, escritor espanhol. O escritor e editor valenciano, estabelecido em Barcelona,Vicent Clavel Andrés, propôs este dia para a Câmara Oficial do Livro de Barcelona.

Em 6 de fevereiro de 1926, o governo espanhol, presidido por Miguel Primo de Rivera, aceitou a data e o rei Alfonso XIII assinou o decreto real que instituiu a Festa do Livro Espanhol.

No ano de 1930, a data comemorativa foi trasladada para 23 de abril, dia do falecimento de Cervantes.

Mais tarde, em 1996, a UNESCO instituiu 23 de abril como o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, em virtude de a 23 de abril se assinalar o falecimento de outros escritores, como Josep Pla, escritor catalão, e William Shakespeare, dramaturgo inglês.

No caso do escritor inglês, tal data não é precisa, pois que em Inglaterra, naquele tempo, ainda utilizava o calendário juliano, pelo que havia uma diferença de 10 dias apara o calendário gregoriano usado em Espanha. Assim Shakespeare faleceu efectivamente 10 dias depois de Cervantes.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Arriscar é viver



Esse livro retrata bem o perigo do extremismo e das ideias cristalizadas. 

Acompanhamos a vida de Felicks, desde o momento em que ele foi despachado com seu irmão para a Suíça pela mãe antes da invasão da Polônia pela Alemanha, em 1939, aos nove anos. Sem dinheiro para três passagens de trem, ela ficou e perdeu o contato com os filhos.

O personagem principal é um conservador, vive sua vida sem emoções e sem mudanças, por muitos anos procurou sua mãe que ficou para trás e seu irmão que o abandonou na casa dos tios na Suíça para se juntar  a Resistência Francesa.

Quando Felicks cresce vai morar em Paris, participando ativamente do partido comunista francês, trabalhando em uma fábrica de veículos, pouco tempo depois trabalha como assistente gráfico em um jornal comunista e é lá que inicia seu próprio negócio, um guia turístico dos países comunistas, viajando e detalhando atrações turísticas desses países isolados pela cortina russa.

Essa rotina de viagens e solidão dura 30 anos, um dia ele recebe uma proposta para vender seu guia e à partir dessa proposta que sua vida irá mudar, numa viagem aos Estados Unidos, sente-se uma “estranha relíquia da velha Europa que tinha saído do quadro entalhado da família”. 

Pouco a pouco todas as suas convicções são abaladas por inúmeros acontecimentos, tanto históricos como pessoais. 

Feliks viaja atrás do sonho, do passado ou futuro, às vezes do impossível, e deixa o leitor inquieto. Ele retorna à sua cidade Lódź, reencontra “as pegadas da infância” e faz um balanço da vida desde que se afastou da mãe e depois do irmão. Há reviravoltas nas suas posições ideológicas e pessoais, o que pensava ser não era mais, era o contrário. 

Percebe que o que imaginava sobre a família era falso, ilusão, da mesma forma que o que sentia em relação ao partido. 

Arriscar é viver é um mergulho num “mundo sujo, de duas caras” – os bastidores da II Guerra, da Guerra Fria, do desmoronamento da União Soviética e do comunismo europeu. Mas não sob o ponto de vista de quem fez a guerra, mas de quem sofreu com ela. O romance discute política e relações familiares. Os grandes e pequenos eventos da História. 

Sobre o autor: 

Nascido em 1949, o escritor inglês Jim Powell fez uma estréia madura e de rápido sucesso mundial. Seu primeiro romance foi publicado no Reino Unido e nos Estados Unidos em 2010 e logo ganhou traduções em cerca de quinze países. No Brasil, The breaking of eggs acaba de ser lançado pela Geração Editorial com o título de Arriscar é viver

Marcello Lopes 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

U Boats - Mergulhando na História



Para quem gosta de histórias da 2° Guerra, o Nestor Antunes de Magalhães é 2º Ten R/1 do Exército Brasileiro tendo servido os nove últimos anos de sua vida profissional no Museu do Comando Militar do Sul em Porto Alegre/RS.

Nestor Antunes


É membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil e mergulhador CMAS com quatro especializações. Mergulhou em inúmeros naufrágios por toda costa brasileira.



Seu blog é http://cavaleirodasprofundezas.blogspot.com.br/






Vale a pena !!!!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Jonah Lehrer: o prodígio que ilumina o cérebro


Há um momento familiar para qualquer pessoa que já tenha desperdiçado horas inocentes assistindo a desenhos animados antigos. Ocorre quando Wile e Coyote, Hortelino Troca-Letras, Popeye ou dezenas de outros personagens passam por um súbito momento de inspiração: uma lâmpada surge brilhando por cima de suas cabeças, iluminando o dilema.

Aha! Problema resolvido! E em seguida o personagem usa esse instante de genialidade para se arremessar de um precipício no deserto, disparar contra o maldito coelho ou recuperar uma lata perdida de espinafre e nocautear Brutus.

Diversão sem compromisso. Mas de acordo com os despachos da frente científica trazidos a nós por Jonah Lehrer, o menino prodígio da ciência popular, a imagem é literalmente verdadeira.

Existe de fato uma parte do cérebro associada a um súbito momento "aha!", a exemplo dos que acompanharam grandes descobertas de luminares como Isaac Newton e Arquimedes. Trata-se do giro temporal superior anterior, localizado no hemisfério direito do cérebro, logo acima da orelha. Quando você tem uma percepção súbita, ele registra forte aumento de atividade, como se uma lâmpada se acendesse.

Essa pequena pepita de informação --combinando cultura e ciência-- resume a rápida ascensão de Lehrer, um escritor precoce que vem ganhando terreno rapidamente no espaço editorial até agora reservado a Malcolm Gladwell, da revista "New Yorker".

Como Gladwell, Lehrer escreveu para a "New Yorker". Mas isso é apenas uma pequena porção de seu notável sucesso editorial. Ele é colaborador da bíblia nerd "Wired", publicou três livros, posta prolificamente em seu blog e tem espaço em publicações que variam do "Wall Street Journal" ao "Washington Post". O "New York Times" o definiu como "prodígio da ciência popular", e o "Los Angeles Times" certa vez o definiu como "um novo e importante pensador".

Nada mau para um escritor com apenas 30 anos. O território usual de Lehrer é a interseção entre as ciências físicas e as ciências humanas. Ele busca elos entre a arte e a neurologia, para explicar como reações químicas ocorridas em meio a uma massa cinzenta e esponjosa no interior de nossos crânios nos fazem amar, rir e levar adiante as nossas vidas.

Isso parece profundo, e boa parte da escrita de Lehrer envolve exemplos maravilhosos de colaboração entre o cérebro e a arte. Ele mostra como escritores e pintores anteciparam certas descobertas da neurociência, como partes diferentes de nossos cérebros batalham para tomar decisões, como a criatividade não é um dom divino reservado a alguns poucos mas pode ser compreendida, aprendida e fomentada.

Mas seu objetivo não deixa de despertar críticas. Enquanto algumas pessoas o veem como gênio, os detratores de Lehrer o acusam de repetir lugares comuns embalados em bela prosa. É um risco comum nesse campo. Ou, como disse Daniel Kahneman, psicólogo premiado com o Nobel de Economia por suas pesquisas quanto aos motivos para que as pessoas persistam em aceitar uma situação infeliz, "é preciso ter estudado Economia por muitos anos para se surpreender com as minhas pesquisas. Para minha mãe, nada do que eu digo parece novidade".

CIENTISTA HORRÍVEL

O "momento aha!" de Lehrer --e seu giro superior temporal anterior deve ter se iluminado como uma árvore de Natal-- surgiu quando ele estava trabalhando no laboratório do renomado neuropsiquiatra Eric Kandel, na Universidade Columbia, em Nova York.

Lehrer, demonstrando presciência quanto ao percurso futuro de sua carreira, estava estudando para obter um duplo diploma, em neurociência e literatura francesa. E quando estava ajudando em um projeto de estudo sobre a conexão molecular entre aromas e a memória, no laboratório de Kandel, avançou na direção de uma descoberta importante: "O que descobri foi que eu seria um cientista horrível", ele contou mais tarde a um entrevistador, lamentando os problemas que encontrou no trabalho prático de laboratório.

Mas não fez diferença, pois Lehrer havia começado a ler Marcel Proust, a caminho do trabalho, e se impressionou, em especial, com o tratamento dado por Proust ao aroma como gatilho para memórias. Lehrer descreveu o momento da seguinte forma: "Compreendi que Proust e a moderna neurociência compartilhavam de uma visão sobre como nossa memória funciona. Um ouvinte atento perceberia que estavam dizendo a mesma coisa".

Isso pôs fim às perspectivas de Lehrer como cientista mas deu início a uma carreira de escritor na qual ele funciona como intérprete entre o mundo da ciência e o das Humanas. Ao se formar em Colúmbia -onde foi editor da "Columbia Review"-, em 2003, ganhou uma bolsa Rhodes, o que o conduziu a Oxford. Chegou com um plano de estudar ciência, mas rapidamente alterou o curso e passou a estudar literatura e teologia.

Também terminou por viver em Londres, e não na cidade universitária. Foi lá que começou a escrever seu primeiro livro. "Proust Foi um Neurocientista", publicado em 2007, e deu início a uma carreira de sucesso no jornalismo.

Estreou com imenso sucesso. Lehrer estudou diversas figuras da cultura, tais como o pintor Paul Cézanne e a escritora Gertrude Stein, e estabeleceu que seus trabalhos prefiguravam descobertas da neurociência.

As pinturas semiabstratas de Cézanne permitem que a mente preencha as lacunas a fim de criar uma realidade: exatamente a maneira pela qual a visão talvez funcione. Stein prefigurou as estruturais neurais por trás da linguagem.

Foi um grande sucesso. "Lehrer se vê, e não sem razão, como uma terceira cultura de um homem só, servindo como ponte para cobrir a lacuna entre as ciências físicas e humanas", escreveu Simon Ings, no "Guardian".

Não resta dúvida de que Lehrer é muito inteligente. Nascido em 25 de junho de 1981, em Los Feliz, Angeles, seu pai, David, é um advogado defensor dos direitos humanos, e a mãe, Ariella, desenvolvia software educacional. Ele foi criado como parte de uma família feliz de classe média na ensolarada Califórnia, e os pais encorajavam a curiosidade quase maníaca do menino.

"Lembro da paciência com que minha mãe me ouvia tagarelar sobre meus mais recentes interesses", disse Lehrer ao "Observer". O interesse pela ciência sempre esteve presente, e foi confirmado quando ele visitou um primo, que estava fazendo o segundo grau, e entrou em um laboratório pela primeira vez.

Ele diz que ficou pasmo diante dos frascos e equipamentos. "Parecia a caverna de um mago", afirma. Depois de brilhar na escola, Lehrer conseguiu vaga na Universidade Colúmbia, onde conheceu Sarah Liebowitz, em um curso sobre Shakespeare. Ela o acompanhou à Inglaterra, onde trabalhou para o jornal "Boston Globe". Os dois se casaram em 2008, têm uma filha de 11 meses chamada Rose e moram em Hollywood Hills.

A localização parece perfeita. A estrada de Lehrer para o sucesso não apresentou grandes obstáculos. Depois de escrever sobre Proust, seu segundo livro tratava com maior profundidade da zona de penumbra entre a neurologia e a experiência humana, em "How We Decide", de 2009.

INDECISÃO

Estimulado por um momento de indecisão ao tentar selecionar uma marca de cereais em um supermercado lotado de marcas (experiência comum a muitos consumidores norte-americanos), Lehrer decidiu estudar o processo decisório humano. Começou por decisões dramáticas -um piloto que precisava pousar um avião avariado, um passe longo no Super Bowl, um físico que joga pôquer-, e estudou as questões neurológicas por trás delas.

Examinou como diferentes partes do cérebro cuidavam de diferentes decisões, e de que maneira isso causava impacto no mundo. Sua descrição da neurologia envolvida nas percepções de risco em longo prazo (em resumo, somos bem tolerantes a esse tipo de risco, mas a seção do cérebro que lida com o risco de curto prazo demonstra forte aversão a ele) ajuda a explicar em alguma medida as decisões horrorosas que resultaram em nossa atual crise econômica.

O trabalho foi seguido por "Imagine", seu terceiro livro, que trata da interação entre neurologia e criatividade. Longe de apontar que inovações são território reservado a gênios extraordinários, ele revela que existe ciência sólida por trás do processo criativo, e que é possível compreendê-lo neurologicamente e portanto alimentá-lo.

Não é por coincidência que as empresas mais inovadoras --entre as quais Google e 3M-- adotam culturas que encorajam pausas, tempo livre para que o pessoal trabalhe em projetos pessoais, e um ambiente de trabalho informal. Atividades como essas --que permitem que o inconsciente trabalhe em problemas sem interrupções, porque mantêm a mente consciente distraída-- apresentam índices de sucesso determinados pela neurologia. Lehrer diz que um estudo aponta até que as pessoas resolvem 30% mais enigmas depois de beberem um pouco.

Parece espantoso. Mas, pensando um pouco melhor, talvez não cause espanto às "pessoas comuns". Muita gente já resolveu um problema de trabalho depois de beber um cálice de vinho, para "relaxar no final do dia". E talvez esteja aí o verdadeiro gênio, o "momento aha!" de Lehrer. Ele tomou aquilo que já sabíamos por instinto e expôs a verdade científica que explica a questão -mas sem remover nada da beleza da vida.

Arte e emoções humanas --todos nossos fracassos, manias e trunfos-- talvez dependam apenas de compostos químicos e da operação dos neurônios, mas as palavras de Lehrer transformam o processo em música.

Tradução de PAULO MIGLIACCI.
PAUL HARRIS DO "OBSERVER"

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Montserrat Figueras


A soprano espanhola Montserrat Figueras foi ao lado do marido Jordi Savall o maior nome da música antiga, sendo fundadora do coro da Capela Real da Catalunha e participava ativamente do grupo Hespérion XXI ao lado do marido (foto).



Montserrat se aliou ao grupo de música antiga Ars Musicae de Barcelona interpretando as mais importantes obras de compositores espanhóis do século 16, e portugueses do século 16 e 17.





Montserrat Figueras, explorou vários aspectos musicais do século 15, e músicas do século 16 e 17 dos cristãos, judeus e mouros na Península Ibérica, estudando também os efeitos na cultura desses povos quando expulsos da região no século 16.

Esse estudo mostra que os ritmos de cada povo apresentam formas musicais idênticas.

As interpretações da soprano tiraram da obscuridade dezenas de autores medievais, trazendo vida e cor à um período histórico complexo e rico.

Montserrat nasceu em Barcelona no dia 15 de março de 1942, de uma família de amantes da música. Ela se formou em artes cênicas, mas aos 20 anos estudou canto com sua irmã, Pilar Figueras, e foi logo convidada a cantar com Ars Musicae de Barcelona, ​​conjunto catalão de música antiga que já existia desde 1935.

Ela conheceu Savall em uma aula de violoncelo em Barcelona e ambos passaram a morar na Basiléia, onde estudou com barítono suíço Kurt Widmer e com o especialista em música medieval, o americano Thomas Binkley.

O reconhecimento mundial só veio em 1991 quando ela participou junto com o marido da trilha sonora do filme Todas as manhãs do mundo com o ator francês Gérard Depardieu, a partir de então as turnês mundiais se tornaram corriqueiras, em festivais de música clássica.

Se repertório inclui músicas do Oriente Médio, música turca, do Mediterrâneo em álbuns como Isabel I Rainha de Castela, Diáspora Sefardi.

Em 1998, Montserrat e Savall criaram Alia Vox, sua própria gravadora, que em sete anos já tinha vendido mais de um milhão de discos.

Montserrat Figueras, nasceu em 15 março, 1942, morreu em 23 nov 2011.

Marcello Lopes
Vídeos: Youtube

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Mario Vargas Llosa



O Prêmio Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa vai doar os 30.000 volumes de sua biblioteca pessoal à sua cidade natal Arequipa.

O escritor peruano manifestou o seu orgulho pela terra de seu nascimento Llosa completou no dia 28 de março, 76 anos, e disse em uma conferência que a decisão de doar sua biblioteca pessoal reflete a necessidade de agradecer o carinho recebido de seus compatriotas.

"Este é o amor e carinho que tenho pela minha cidade, é um agradecimento às pessoas que terão a oportunidade de conhecer os meus segredos mais bem guardados até agora,'' disse ele.

O autor de "Conversa na Catedral'' e "O sonho do Celta" disse que se tratam de exemplares de história, filosofia, política, literatura e ciências sociais, datando de seus dias de faculdade até o presente, muitos até têm notas pessoais que ele nunca imaginou que seriam conhecidas.

Vargas Llosa disse que vai entregar os volumes gradualmente a partir de seu próximo aniversário, em 2013. 

Ele explicou que os livros estão em Lima, Madrid e Paris. O governante regional de Arequipa, Juan Manuel Guillén, agradeceu a generosidade do escritor e disse que planeja comprar uma casa ao lado da biblioteca para abrigar os livros.

Fonte: Zero Hora
Foto: Google

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Da periferia aos Estados Unidos



Uma medalhista olímpica brasileira, vinda da rede pública de ensino, está prestes a trocar o Brasil pelos Estados Unidos. Tábata Amaral de Pontes, de 18 anos, tem mais de 30 medalhas no currículo, entre competições nacionais e internacionais de física, matemática, química e astronomia, como mostrou o Jornal da Tarde em fevereiro. À época, a notícia era a aprovação dela na Universidade de São Paulo.

Agora, o leque de opções aumentou. Filha de um cobrador de ônibus e de uma vendedora de flores, moradores da periferia de São Paulo, no extremo da zona sul, Tábata foi aprovada em seis universidades norte-americanas: Harvard, Caltech, Columbia, Princeton, Yale e Pennsylvania. 

Ela concluiu o ensino médio no Etapa, como bolsista.

A felicidade de Tábata só não é maior porque a confirmação da aprovação em Harvard, na quinta-feira, foi recebida três dias antes do falecimento de seu pai. Por conta disso, a jovem não pôde conversar com a reportagem.

Em fevereiro, antes de conhecer os resultados das universidades americanas, Tábata disse ao JT que a experiência poderia ajudá-la a contribuir com “a educação no País”. 

Ela é fundadora do programa Vontade Olímpica de Aprender, (VOA) que dá aulas de matemática para alunos de colégios públicos. À época, chegou a comentar: “parece impossível passar, mas esse é o meu sonho”.

Entrevista para o JT:

1) Como começou a sua carreira olímpica? 

Participei de uma olimpíada (da área de exatas) pela primeira vez em 2005. Estava na 5ª série e estudava num colégio estadual. Fiquei com a medalha de prata da primeira Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep) e, como premiação, ganhei um curso de matemática aos sábados no Colégio Etapa. No ano seguinte, ainda como aluna de colégio público, eu ganhei a olimpíada. Sempre tive facilidade e também gosto das matérias de exatas.

2) O convite para estudar no Etapa surgiu quando?

Em 2007 fui convidada para estudar lá. Mas não tinha condições de arcar com os estudos e ganhei uma bolsa integral. O convite foi um reconhecimento do meu esforço, eu acho. Mudei para o Etapa na 7ª série e demorei para me adaptar.

3) Como foi a mudança para uma escola particular? 

Não tive dificuldades com as matérias, mas sim para me acostumar com um colégio particular. Tudo é muito diferente. No primeiro ano, fiquei deslumbrada. Tão deslumbrada que, no ano em que entrei no Etapa, acabei deixando as olimpíadas de conhecimento de lado. Imaginava que só de estar num colégio particular estava com o futuro garantido. Só voltei a pensar nas olimpíadas um ano depois, em 2008, já ambientada.

4) Quais foram as dificuldades com o novo colégio?

No começo, era o deslumbramento. Depois, o problema era financeiro. Gastava muito com transporte e alimentação. Também era uma rotina pesada. Saía 22h30 do Paraíso e chegava meia-noite na casa dos meus pais. Foi quando o Etapa começou a pagar um hotel próximo ao colégio para eu morar durante a semana e ajudar nos custos. Mesmo assim, ainda sofri para me acostumar com a distância dos meus pais.

5) Por que decidiu retomar as olimpíadas no Etapa? 

Eu não fazia parte da equipe olímpica de conhecimento do Etapa. Mesmo assim, por ser medalhista pelo colégio público, fui convidada no final do ano (em 2007) para participar da confraternização da equipe. Eles vestiam uma camiseta especial e falei para o meu pai que, no próximo ano, eu também estaria vestindo aquele uniforme. Parece bobagem, mas vê-los me despertou a vontade de voltar a competir. Nesse mesmo dia, também assisti a uma palestra de um representante do MIT (Massachusetts Institute of Technology) e decidi que iria estudar no exterior.

6) Como se preparou? 

Em 2008 eu descobri as competições de física e me apaixonei. Participei de competições na Turquia, China e Polônia. Foi fácil retomar, porque nas competições você conhece muita gente bacana. É um lugar incrível para fazer amizades. Também entrei na equipe do Colégio Etapa e cumpri a promessa que tinha feito ao meu pai. Passei a estudar e treinar com eles matemática, física, química, robótica e astronomia e a dar aulas num projeto.

7) Qual o projeto?

Há três anos, criei o projeto VOA, Vontade Olímpica de Aprender, com amigas do Etapa. Sabe, me parecia correto retribuir as oportunidades que eu tive. Nós damos aulas aos domingos de matemática e astronomia para alunos de colégios públicos. Funciona assim: buscamos colégios públicos que queiram montar equipes de conhecimento e preparamos o grupo. Hoje, temos apoio do Rotary Clube e do Etapa. Trabalhamos com oito escolas na zona sul e cerca de 200 alunos já passaram pelo projeto.

8) As competições internacionais despertaram a vontade de estudar no exterior?

No dia em que assisti à palestra do representante do MIT, eu soube que queria estudar nos Estados Unidos. Mas sabia que teria dificuldade com a língua inglesa. Ex-aluna de um colégio público, meu inglês era fraco. Há dois anos, pelo Etapa, eu também consegui uma bolsa numa escola de línguas. Fiz o curso intensivo para me preparar para os exames da universidades norte-americanas. Sei que lá fora poderei combinar graduações, algo mais difícil aqui no Brasil. Quero estudar astrofísica e ciências políticas ou sociais.

9) Quais vestibulares você prestou lá fora? 

Aguardo o resultado de Harvard, Stanford, MIT, Columbia, Yale, Dartmouth, Caltech, Princeton e Penn (University of Pennsylvania). Prestei Astrofísica e Ciências Sociais e Políticas. Parece impossível conseguir passar, mas é o meu sonho. As melhores cabeças vão estudar nessas universidades. Acho que poderei ajudar depois com a educação no País. É um sonho também.

10) Algumas vez você já sofreu com cobranças?

Não. Meus pais nunca me cobraram. Minha mãe terminou no ano passado o supletivo do ensino médio. Ela é vendedora de flores e decidiu voltar aos estudos com o meu incentivo. Já meu pai é cobrador de ônibus há pelo menos dez anos. Eles sempre me incentivaram, mas nunca exigiram nada. O colégio também não.

Fonte: JT e Estado de Sp

terça-feira, 3 de abril de 2012

A Lebre com olhos de Âmbar



Li na última semana A Lebre com olhos de Âmbar do escritor e ceramista britânico Edmund de Waal, à princípio achei que fosse um livro de literatura ficcional, mas ao longo da narração pude perceber que é uma narração sobre a história de uma família que adquiriu uma coleção de pequenas esculturas japonesas, chamadas netsuquês.

Essa coleção foi comprada por um antepassado de Edmund, e ele investiga a história das pessoas que possuíam essas esculturas antes da compra, e ao longo das páginas o escritor combina relatos das viagens que ele fez nas cidades em que as esculturas estiveram juntamente com fatos históricos da época nessas mesmas cidades.

A história começa em Paris em 1871 quando Charles Ephrussi compra a coleção completa (são 264 no total), esse mesmo Charles era grande amigo e patrocinador de diversos pintores impressionistas, depois disso a coleção aparece em Viena no começo do século 20, com o nazismo ganhando força a família foge do país deixando para trás a coleção. 

Só mais tarde a coleção seria resgatada de forma inusitada e repassada à família onde permanece no Japão até que Edmund a conheça em 1990.

O livro carrega aquela aventura que os colecionadores conhecem tão bem, e uma ótima leitura sobre memória, conservação dos objetos que contam por si só uma saga repleta de significados. 

Vale a pena.

Para ver a coleção de Edmund clique aqui

Marcello Lopes

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Livraria Lello


A empresa remonta à fundação da "Livraria Internacional de Ernesto Chardron", em 1869, na Rua dos Clérigos, n.º 296-298, no Porto. Antigo empregado da Livraria Moré, o cidadão francês Ernesto Chardron alcançou projeção como editor, sendo o primeiro a publicar grande parte das obras de Camilo Castelo Branco e outras de relevo na época, como o Tesouro da Literatura Portuguesa, de Frei Domingos Vieira. 



Após o imprevisto falecimento do fundador, aos 45 anos de idade, a casa-editora foi vendida à firma "Lugan & Genelioux, Sucessores" que, pouco depois, ficou com Mathieux Lugan como seu único proprietário. Em 1891, a Livraria Chardron adquiriu os fundos de três casas livreiras do Porto, pertencentes a A. R. da Cruz Coutinho, Francisco Gomes da Fonseca e Paulo Podestá.



Entretanto, em 1881 José Pinto de Sousa Lello abriu um estabelecimento, nos números 18-20 da Rua do Almada, dedicando-se ao comércio e edição de livros. A 30 de junho de 1894 Mathieux Lugan vendeu a antiga Livraria Chardron a José Pinto de Sousa Lello que, associado ao seu irmão António Lello, manteve a Chardron com a razão social de "Sociedade José Pinto Sousa Lello & Irmão". Em 1898, entrou para a nova sociedade o fundo bibliográfico da Livraria Lemos & C.ª, fundada pelos irmãos Maximiliano e Manuel de Lemos.



Com projeto do engenheiro Francisco Xavier Esteves, no dia 13 de janeiro de 1906 inaugurou-se o novo edfício da Livraria Lello, no número 144 da Rua das Carmelitas, causando grande impacto no meio cultural da época. De entre as diversas figuras presentes na inauguração, encontrava-se Guerra Junqueiro, Abel Botelho, João Grave, Bento Carqueja, Aurélio da Paz dos Reis, José Leite de Vasconcelos e Afonso Costa.



A 24 de maio de 1919, a razão social do estabelecimento foi alterada para "Livraria Lello e Irmão, Lda.", entrando para a sociedade Raul Reis Lello, filho de António Lello. Em 1924, entraram José Pinto da Silva Lello e Edgar Pinto da Silva Lello. 



Em 1930, foi a vez de José Pereira da Costa, genro de António Lello, entrar também para a sociedade, simplificando-se então o nome para "Livraria Lello". Cinco anos mais tarde, José da Costa afastou-se, recuperando-se a designação "Lello & Irmão". Raul Reis Lello faleceu em 1949 e António Lello em 1953. À frente da livraria seguiram-se, José Pinto da Silva Lello, falecido em 1971, e Edgar Pinto da Silva Lello, que faleceu em 1989.



Com o objetivo de se adaptar aos tempos presentes, a livraria modernizou-se, criando-se uma nova sociedade — Prólogo Livreiros, S.A. —, da qual faz parte um dos herdeiros da família Lello. Todo o espaço foi restaurado em 1995, o serviço foi atualizado e informatizado, tendo também sido criado um espaço de galeria de arte e de tertúlia que se tem afirmado como um importante polo cultural da cidade do Porto.

Concebido segundo projeto do engenheiro Xavier Esteves, a Livraria Lello é um dos mais emblemáticos edifícios do neogótico portuense, destacando-se fortemente na paisagem urbana envolvente. Trata-se de um conjunto em que a arquitetura e os elementos decorativos deixam transparecer o estilo dominante no início de século XX.


A fachada apresenta um arco abatido de grandes dimensões, com entrada central e duas montras laterais. Acima, três janelas retangulares ladeadas por duas figuras pintadas por José Bielman, representando a "Arte" e a "Ciência". Uma platibanda rendilhada remata as janelas, terminando a fachada em três pilastras encimadas por coruchéus, com vãos de arcaria de gosto neogótico. 

A decoração é complementada por motivos vegetais, formas geométricas e a designação "Lello e Irmão", sob as janelas.

No interior, os arcos quebrados apoiam-se nos pilares em que, sob baldaquinos rendilhados, o escultor Romão Júnior esculpiu os bustos dos escritores Antero de Quental, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Teófilo Braga, Tomás Ribeiro e Guerra Junqueiro. 



Os tetos trabalhados, o grande vitral que ostenta o monograma e a divisa da livraria "Decus in Labore" e a escadaria de grandes dimensões de acesso ao primeiro piso são as marcas mais significativas da livraria.

Texto: Wikipedia
Fotos: Google