quinta-feira, 5 de julho de 2012

Nova literatura brasileira busca caráter cosmopolita

Ele já foi definido por Luiz Schwarcz, fundador e editor da Companhia das Letras, como "um concorrente agressivo, mas leal". Os sinais de agressividade são nítidos em Roberto Feith, sócio e diretor geral da editora Objetiva, desde 2005 integrada ao grupo espanhol Prisa Santillana. Feith quer abraçar o mundo, mas não sozinho.

Hoje, em coletiva na 10ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), Feith anuncia quais serão os 20 escritores que farão parte da primeira edição da "Granta" - a mais influente revista literária de inglesa - dedicada a autores brasileiros. "Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros" será publicada em novembro no Reino Unido e, em 2013, nos países de língua espanhola. O diretor da Objetiva já fala em edições da "Granta" brasileira na China.

Em entrevista ao Valor, Feith comentou as expectativas para a versão brasileira da "Granta"; mostrou-se otimista com a atual fase da literatura brasileira e, como presidente da Distribuidora de Livros Digitais (DLD), marcou até data para a explosão dos e-books no Brasil: dezembro de 2012.

Valor: Qual a expectativa da editora para o lançamento da "Granta" com brasileiros?

Roberto Feith: É muito boa, por dois motivos: após mais de um ano de trabalho, estamos seguros de que a coletânea alcança seu objetivo principal - identificar a maior parte dos jovens escritores que vão definir o mapa da literatura brasileira na próxima década. Além disso, o projeto é fruto de uma singular parceria com as "Grantas" inglesa e espanhola. Já nasce com a certeza de que alcançará cerca de 50 mil assinantes e, portanto, amantes da boa literatura nos EUA, na Inglaterra, Espanha e América Latina. Há discussões em andamento para publicação da "Granta" em chinês e em alemão. Saber que vamos ajudar a levar o trabalho desses escritores brasileiros para leitores através do globo é especialmente gratificante.

Valor: O que mais o surpreendeu nos 20 textos selecionados?

Feith: Os textos foram avaliados e selecionados por um júri independente e altamente qualificado, de sete pessoas. Li muitos dos 240 textos inscritos, inclusive os 20 escolhidos pelo júri. O resultado é uma coletânea potente, diversa e com uma perspectiva cosmopolita, de escritores cidadãos do mundo e plenamente inseridos no seu tempo.

Valor: Qual é a imagem que o estrangeiro tem da literatura brasileira? O Brasil, mesmo revelando bons autores, ainda é o país de Paulo Coelho e Jorge Amado?

Feith: Existe uma grande curiosidade de leitores de todo o mundo sobre a cultura produzida no Brasil moderno, ascendente, ocupando espaço mais amplo no contexto global. Se a vitalidade econômica já é reconhecida, o mesmo ainda não ocorre no âmbito cultural e, particularmente, literário. Há uma defasagem. Por isso, existe o desejo de editores, jornalistas e leitores de conhecer a produção brasileira para além dos autores consagrados e dos estereótipos. O que essas pessoas têm é menos uma imagem, e mais uma grande curiosidade sobre a nossa literatura.

Valor: O Brasil será homenageado em 2013 na Feira de Frankfurt. Qual é a lição de casa que temos de fazer até lá e como a Objetiva está se preparando para o evento?

Feith: A Feira de Frankfurt é uma oportunidade, mas as oportunidades e a demanda pela produção literária brasileira vão além da feira. Temos sentido isso nos encontros com editores estrangeiros nos últimos anos. Um número crescente pede informações, pergunta por novos autores, expressa um interesse concreto em publicar escritores brasileiros. A publicação da "Granta - Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros" em diversos países é reflexo desse interesse. Também temos divulgado autores da Alfaguara, como Ronaldo Correia de Brito, Francisco Dantas, Ricardo Lísias, Reinaldo Moraes e outros, elaborando traduções de suas obras e distribuindo essas para editores de todo o mundo.

Valor: O senhor é presidente do conselho da Distribuidora de Livros Digitais (DLD). Há um ano, declarou que os livros digitais estavam se preparando para decolar no fim de 2011 e inicio de 2012 e que até 2015 a venda de livros com esse formato irá superar 8 milhões de exemplares por ano. Pesquisas mostram que a venda de e-books é baixa no Brasil. Continua otimista?

Feith: Eu diria que minha bola de cristal estava defeituosa e as previsões adiantadas em 12 meses. Nesses últimos dois anos as editoras associadas na DLD têm se empenhado em três objetivos: que o mercado do livro digital no Brasil incorpore o que há de melhor de fora, mas também contemple valores brasileiros; que os preços sejam mais baixos do que os destes mesmos livros no formato impresso, mas que permitam remunerar o trabalho de escritores, livrarias virtuais e editoras; e que haja oferta crescente, diversificada e de qualidade de títulos digitais no Brasil.

Valor: O senhor não está, de novo, sendo otimista demais?

Feith: Espero que minha bola de cristal não me deixe na mão, mas creio que o Natal de 2012 será o primeiro no qual o livro digital ocupará um espaço relevante.

Valor: O senhor já foi definido pelo Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, como "um concorrente agressivo, mas leal". Onde estão os sinais de sua agressividade e lealdade na condução da Objetiva?

Feith: Acho que só o Luiz, ou outros colegas, podem responder. Nos últimos anos, o mercado editorial brasileiro vem sendo caracterizado por uma concorrência cada vez mais intensa, que foi o vetor da sua profissionalização e da redução do preço médio do livro de 34% desde 2006, segundo pesquisa feita pela Fipe da Universidade de São Paulo (USP) em 2011. E essa concorrência aumentou ainda mais recentemente, com a entrada de novas e competentes editoras, como a Leya, Intrínseca e Novo Conceito. Aumenta a diversidade e volume da oferta, caem preços e o consumidor ganha. Para editores, os desafios são crescentes, mas isso é o processo natural da evolução de qualquer segmento de mercado.

Por Tom Cardoso para o Valor, de São Paulo

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