sexta-feira, 13 de julho de 2012

Em Busca do tempo perdido

Uma xícara de chá, uma porção de madeleines e o mergulho nas lembranças de uma época já inacessível. Elementos proustianos que, para Jennifer Egan, em seus 20 anos, eram um tédio: quem se importa com esse tipo de assunto? Sentia-se eterna.

Hoje com 49 anos, Jennifer, que venceu o Pulitzer de ficção de 2011 com "A Visita Cruel do Tempo" (Intrínseca, 466 págs., R$ 29,90), percebe uma mudança: até quem tem 20 anos se sente defasado e percebe visceralmente os impactos da passagem do tempo. Efeito dos avanços tecnológicos?

Em um encontro com a reportagem do Valor durante a mais recente Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), onde participou de uma mesa com o britânico Ian McEwan, a escritora americana falou sobre o passado, o presente e o que a preocupa e empolga quando pensa no futuro.

Valor: "A Visita Cruel do Tempo" tem uma estrutura curiosa, com idas e vindas no tempo e várias vozes. Como foi o processo de escrita?

Jennifer Egan: No começo, eu tinha apenas um tempo e um lugar: o momento em que uma mulher vê a carteira de outra e a furta. E isso veio da vida real. Minha mãe estava me visitando em Nova York, e nós fomos almoçar no restaurante do hotel. No banheiro, vi uma carteira e pensei: "Meu Deus, alguém poderia pegar isso". E, em seguida: "Eu poderia pegar essa carteira!" Foi um ponto de vista interessante, e decidi escrever sobre aquele momento, o que se tornou o primeiro capítulo de "A Visita Cruel do Tempo". Meu processo de escrita é guiado por isto: tento acessar algo em meu inconsciente, pois é onde as coisas mais divertidas estão. Terminei esse texto e voltei ao livro em que estava trabalhando na época - e que continuo tentando escrever até hoje, na verdade. Mas me vi pensando no chefe de Sasha [a personagem que furta a carteira], um produtor musical decadente chamado Bennie. "Ok, vou fazer mais uma pausa e escrever sobre esse cara." E fiz o que se tornou o segundo capítulo do livro. O curioso é que a história se passava num momento anterior ao do primeiro capítulo, algo que eu não havia planejado. Aí voltei ao trabalho, mas me peguei pensando: "E a ex-mulher de Bennie?" Decidi escrever só mais um texto, sobre ela, e a história recuou ainda mais no tempo. Aí percebi que não ia fazer o outro livro e sim esse. Foi ótimo que tenha sido assim, porque muitas decisões já haviam sido tomadas: a história seria contada em partes independentes, cada uma diferente das outras e focada em um personagem. Eu só precisava seguir minha curiosidade.

Valor: Tinha a impressão de que a história havia sido construída em torno de Sasha.

Jennifer: Os homens geralmente acham que o livro é sobre Bennie [risos]. Mas eu acho que é sobre os dois. Para mim, são como protagonistas "gêmeos".

Valor: Vi em uma entrevista que a ficção científica não desperta muito seu interesse. Por que escreveu sobre seus personagens no futuro?

Jennifer: Seguindo as regras do livro - que pareciam ser: pegue um personagem periférico e siga-o -, eu era levada a diferentes épocas. Assim que percebi isso, soube que a certa altura teria que escrever sobre Alex, o cara com quem Sasha sai no primeiro capítulo. Ele era perfeito: jovem, ingênuo, meio arrogante... Como ele estaria na meia-idade? Alex tem 20 e poucos anos em 2006, então, para saber como ele seria, tive que "ir" para o futuro. Resisti a isso, mas a outra opção era mover todo o resto do livro para trás, de modo que Alex estivesse na meia-idade agora. Isso não fazia sentido: eu sairia de minha época e, musicalmente, teria que escrever sobre Elvis Presley! Então respirei fundo e fui em frente.

Valor: Em sua visão de futuro, aquecimento global e tecnologia são temas centrais.

Jennifer: Tecnologia é uma escolha óbvia porque muda tão rapidamente... A questão era: como sugerir que as coisas continuaram a mudar sem fazer previsões específicas que, claro, rapidamente se mostrariam erradas? E minhas imagens tecnológicas já estão defasadas. Quando escrevi o livro, o iPhone não havia sido lançado. Eu descrevo um telefone "touchscreen" que crianças amam usar - basicamente, um iPhone. Quanto ao aquecimento global, sempre penso nisso e realmente culpo os americanos. Poderíamos liderar uma mudança, fazendo um sacrifício em prol de um bem maior, mas essa ideia não parece ter nenhuma tração política em meu país. Como eu me preocupo muito com esse tema, isso transpareceu. Não selecionei categorias, só fui imaginando como seria o mundo mais à frente. Se fizesse isso agora, o resultado seria outro, porque alguns anos se passaram e qualquer imagem do futuro é sempre uma projeção do presente.

Valor: O capítulo feito apenas com gráficos de PowerPoint é uma das coisas mais inusitadas no livro. De onde surgiu essa ideia?

Jennifer: Eu sabia que cada capítulo deveria ter uma abordagem técnica diferente e, a certa altura, vi que estava ficando sem opções. Tentei poesia, mas sou uma poeta bem ruim. Tentei teatro, só que a história que queria contar não funcionava naquele formato e ficou ruim em todos os sentidos possíveis. Mas fiquei de olho no PowerPoint. Nos Estados Unidos, ele é usado o tempo todo, até nas escolas, então por que não na ficção? O problema é que o PowerPoint soa meio corporativo... Você se sente no meio de uma reunião de negócios, que não é a sensação que a gente busca quando lê ficção. Desisti da ideia e vendi o livro sem o capítulo do PowerPoint. Porém, na hora de fazer a revisão, tive uma ideia que ainda resolvia um outro problema que eu tinha com a história. Eu não sabia como chegar à vida futura de Sasha e estava insatisfeita com isso, pois tornava Bennie mais importante que ela - nós víamos o futuro dele, mas não o de Sasha. Pensei em gráficos de PowerPoint feitos por uma criança, que não soariam corporativos. E, se essa criança fosse filha de Sasha, eu poderia vê-la no futuro. Além disso, com o PowerPoint, eu poderia descrever o deserto onde Sasha vai morar com a família - sei que isso soa estranho, mas tempo e espaço são importantes para mim e eu me empolguei. Além disso, é uma história que não poderia ser contada de outro jeito: o PowerPoint é descontínuo, o que dificulta narrar uma ação. E, naquele capítulo, muito pouco acontece. É um trecho doce, sobre uma família que se ama. Seria um tédio escrever aquilo de uma maneira convencional. Passei o verão de 2009 possuída com o PowerPoint e, na hora de entregar a revisão, disse: "Ah, adicionei um pedacinho... Um capítulo em 'slide show'". E minha agente: "O quê?!?"

Valor: Quem é seu primeiro leitor?

Jennifer: Tenho um grupo de escrita com outras cinco pessoas. Lembro que mostrei a eles o capítulo sobre Bennie, e estava superlongo, totalmente fora de controle. Eles ficaram um pouco céticos [risos]. Quando li o capítulo do PowerPoint, eles pareciam pensar: "O que ela está fazendo agora?" Mas, só de ler aqueles 'slide shows', percebi que tinham um pequeno poder.

Valor: "A Visita Cruel do Tempo" tem música, gráficos, mudanças temporais... Quais seriam as conexões entre esse livro e "O Torreão" [livro de 2006, lançado recentemente no Brasil]?

Jennifer: A conexão é basicamente temática. Ambos envolvem a colisão entre diferentes mundos. Acho também que o interesse em tecnologia é claro. Em "O Torreão", eu pensei na conexão do gótico com nosso mundo hiperconectado. Nas histórias góticas, alguém sempre é "cortado" da vida que conhecia e entra em uma estrutura na qual coisas estranhas acontecem. Tentei colidir nosso vício em comunicação com a essência do gótico, que é esse corte: vou tornar a comunicação é impossível. Mas descobri que não havia o contraste que eu tinha previsto. O gótico sempre pergunta: isso é real ou não? No livro, vejo que essa questão não faz mais sentido. O que é real hoje? Como o definimos? É o que ocorre diante de nós? Nesse caso, a maioria de nossas experiências não é real. Quis investigar esse tipo de questão, mas de um jeito leve. O gótico deve ser divertido.

Valor: Alguns escritores parecem bem entusiasmados com as possibilidades de novas tecnologias para a literatura, enquanto outros veem essas mudanças com apreensão. Como se sente?

Jennifer: No meio. Fico pensando se as pessoas serão capazes de se concentrar, em como será o futuro dos livros... Mas também fico empolgada, claro. Escrevi um conto usando o Twitter. Trata-se de encontrar novas formas para contar histórias. Se você olhar a história do romance, verá que sempre foi assim. Os livros de Laurence Sterne [1713-1768] trazem uns quadrados pretos no início. Gosto da ideia de usar qualquer coisa que a cultura possa oferecer para a criação ficcional. E acho que cabe aos escritores manter a ficção relevante. Se a única razão para alguém ler for porque dissemos que, caso contrário, você vai se dar mal, estamos acabados! Vai ser como obrigar as pessoas a tomar vitaminas, ir à academia... Elas só lerão alguma coisa se for divertido. Só que o bom entretenimento, claro, sugere um mundo que vai além, permite que vejamos nossa vida de modo diferente.

Valor: Em "A Visita Cruel do Tempo", um dos temas é o envelhecimento e as coisas que se perdem nesse processo. Por que esse assunto a atraiu? Trata-se de algo também relacionado à tecnologia e à sensação que ela pode trazer de que tudo passa mais rapidamente?

Jennifer: Interessante... Eu não acho que o livro seja sobre envelhecimento.

Valor: Talvez porque um dos personagens impressione, o Lou...

Jennifer: Lou tem um fim triste. E é interessante como os fatos relacionados a ele parecem permanecer com os leitores. A maioria dos personagens se dá bem ao longo do livro; ainda assim, as pessoas ficam com a sensação de que é sobre a tristeza do envelhecimento. Mas você disse algo interessante em que eu tenho pensado também. Quando escrevi o livro, achei que ninguém com menos de 40 anos se interessaria por ele. Afinal, é sobre o impacto da passagem do tempo, um tema que não me atraía de jeito nenhum aos 20 anos. Eu achava duro ler Proust, pensava: "Quem se importa?" Quando cheguei perto dos 40, isso mudou. Embora eu não fosse velha, já tinha idade suficiente para ter presenciado as mudanças que o tempo traz. E foi uma surpresa ver a reação dos jovens ao livro. Isso me fez pensar se eles estão mais interessados no tema "tempo" do que eu estava na idade deles. E, caso estejam, se isso tem a ver com a tecnologia. Há alguns anos, dei aulas na NYU, para alunos de 21 anos, e eles me contaram como estavam ansiosos com o fato de os adolescentes serem mais versáteis que eles tecnologicamente. Embora eu tivesse idade para ser mãe de meus alunos, era como se eu e eles estivéssemos de um lado, e os adolescentes de outro. Eles se sentiam defasados aos 21! Talvez exista um tipo de aceleração decorrente da tecnologia que nos faz sentir o tempo de modo mais visceral.

Valor: Como seus filhos [um menino de 11 anos e outro de 9] lidam com a tecnologia?

Jennifer: Eles se sentem brutalmente privados dela [risos]. Realmente têm pouco acesso. Como eles estarão rodeados pela tecnologia no futuro, quero que a imaginação deles possa se desenvolver antes. Mas vamos encarar os fatos: eu sei usar a televisão lá de casa? Não mesmo. Meu iPhone? Esqueça. E eles sabem naturalmente como utilizar esses aparelhos, parece que está no sangue deles. Mas, voltando ao livro e à questão do tempo... Meus filhos são saudáveis, engraçados, e minha vida é muito mais fácil agora que eles cresceram. Ainda assim, sempre que vejo fotos de quando eles eram bebês, fico triste. Há sempre uma sensação de perda quando percebemos a passagem do tempo, mesmo quando nada foi perdido.

Valor: O conto que publicou no Twitter é sobre Lulu, que aparece em "A Visita Cruel do Tempo". Continua ligada aos personagens do livro? Pretende voltar a "encontrá-los"?

Jennifer: Sim, acho que vou voltar a escrever sobre eles. Não sobre Sasha e Bennie - em relação à geração deles, acho que já acabei. Mas estou interessada nos filhos deles. O único problema é que isso me levaria para um futuro ainda mais distante e eu teria que lidar com essa coisa da ficção científica de novo. Também quero ir para trás. Estou interessada nos anos 1960. Mas, se escrever outro livro, tem que ser totalmente diferente de "A Visita Cruel do Tempo". Se não conseguir, acho que vou só publicar ocasionalmente histórias sobre essas pessoas.

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