segunda-feira, 18 de junho de 2012

Os mercados e os valores

O colapso econômico que se seguiu ao surto de crescimento do crédito teve às vezes um sabor de traição conjugal. Havia um sistema, e uma filosofia econômica, a sustentá-lo, que deveria nos fazer felizes.

Por certo tempo, nos fez.

Agora, num momento em que o crescimento mantido à base de injeções financeiras e os cada vez mais altos preços das residências viram lembrança remota, percebemos como fomos bobos. A exemplo da esposa fiel que ignora os avisos dos amigos, queríamos acreditar numa coisa que, com a vantagem da visão retrospectiva, percebemos não ser possível.

Mais tristes, mas mais espertos, podemos agora optar entre dar uma outra chance ao sistema ou deixá-lo para trás na busca de algo melhor. A objeção ao capitalismo atual é materialista: de que não cumpre a promessa de criar prosperidade para todos. Mas, e se o maior problema não estiver no fato de o capitalismo ter descumprido sua promessa, e sim na própria promessa?

Nesse caso, as mudanças de que precisamos vão muito além de ajambrar incentivos econômicos. Dois livros novos que singram essas águas mais turvas e questionam os axiomas do capitalismo de mercado são "What Money Can't Buy", de Michael Sandel, e "How Much Is Enough?", de Robert e Edward Skidelsky. Ambos querem que vejamos nosso caso de amor com o capitalismo como uma troca fáustica. 

A advertência é de que soltar as rédeas dos mercados envolve abrir mão de parte da nossa alma.

Para Sandel, filósofo político de Harvard, "migramos de ter uma economia de mercado para ser uma sociedade de mercado" - com que ele quer dizer que tratamos cada vez mais as coisas importantes da vida simplesmente como commodities disponíveis para compra e venda. Para Robert Skidelsky, o historiador da economia conhecido por sua biografia de John Maynard Keynes, e seu filho Edward, filósofo acadêmico, o problema é a insaciabilidade.

A busca incessante de mais - rendas mais elevadas, crescimento mais acelerado - está nos furtando à vida que gostaríamos de viver, e não nos ajudando a conquistá-la. Ambos os livros argumentam que a fé nos mercados solapou sub-repticiamente as coisas que mais nos interessam, ou que mais deveriam nos interessar.

Nem Sandel nem os Skidelsky condenam o capitalismo e os mercados como tais. Mas são radicais no sentido estrito da palavra: eles nos conduzem a repensar nossa opinião sobre os mercados. Na verdade, são mais convincentemente radicais do que a maioria dos anticapitalistas confessos.

Sua advertência é que nossa capacidade - individual e coletiva - de buscar uma vida de valor foi minada porque uma determinada forma de filosofia política, e, em especial, a influência do pensamento econômico atual, empanou nossa compreensão do que é a vida que gostaríamos de viver.

Os Skidelsky começam com "o erro de Keynes". Este não é o Keynes da "Teoria Geral", mas o das "Economic Possibilities for Our Grandchildren" (Possibilidades econômicas para os nossos netos), o ensaio de 1930 que imaginava que o capitalismo liberal mundial poderia produzir um século a partir de então. Keynes previu um padrão de vida de quatro a oito vezes mais elevado, o que colocaria "o problema econômico... com uma solução em vista".

Mais concretamente, isso significaria conseguir "atender nossas necessidades sem ter de trabalhar mais do que três horas ao dia. A possibilidade... era que aprenderíamos a usar nosso lazer adicional para viver 'de forma inteligente, agradável e bem'".

Keynes acertou quanto ao crescimento per capita, que alcança, em média, 400% nos países ricos desde que ele fez o prognóstico. No quesito horas trabalhadas, errou redondamente. As pessoas de fato trabalham menos do que antes, mas não estamos próximos de trocar o período integral de oito horas de trabalho por vidas dominadas pelo lazer.

O que não está óbvio é por que a visão de Keynes não se realizou, apesar de as condições atuais da economia permitirem que isso aconteça. Como o título dos Skidelsky deixa claro, eles culpam a obsessão pelo crescimento. Mas isso não parece totalmente correto. O crescimento da produtividade não impede, por si só, a obtenção da vida que gostaríamos de viver defendida por eles nem a adoção de políticas que a tornem mais alcançável. O problema, admitem, é aquele lamentado pelos moralistas: ver o poder aquisitivo não como um meio para chegar à vida que gostaríamos de viver, mas como um fim em si mesmo.

Sandel preocupa-se com a comercialização. Na medida em que as normas do mercado encampam campos cada vez mais amplos da atividade humana, cada vez mais as coisas são avaliadas como se fossem produtos aguardando a fixação de um preço. A bateria de fatos de Sandel é um espetáculo bizarro de transações comerciais até recentemente inauditas. 

Por exemplo, os lugares para o público nas sessões do Congresso americano são distribuídos por ordem de chegada. Mas empresas interessadas contratam alguém para fazer fila no seu lugar.

"What Money Can't Buy" (O que o dinheiro não pode comprar) está cheio de exemplos do que o dinheiro, na verdade, compra. Sandel faz desfilar diante dos nossos olhos os comentários de beisebol patrocinados por empresas, o mercado de cambistas de ingressos para missas papais, a mulher que autorizou, por US$ 10 mil, que se tatuasse o endereço do site de um cassino em sua testa, as "barrigas de aluguel" indianas.

Sandel mostra por que mudanças desse tipo são profundamente importantes - e por que os economistas erram ao se irritar com o que encaram como oposição irracional às soluções de mercado.

Consideremos o benefício da amizade, convida ele. Suponhamos que você está se sentindo sozinho, mas tem dinheiro para gastar. Por que não pagar por companhia? A resposta, naturalmente, é que, por mais que você possa pagar alguém para fazer o que os amigos normalmente fazem - dar um pulo na sua casa para jantar, cuidar do seu gato, ouvir seus problemas amorosos -, isso não transformaria a pessoa em sua amiga.

No caso da amizade, podemos todos ver que a comercialização de um relacionamento o transforma em outra coisa. O argumento de Sandel é que isso pode ser verdadeiro para muitas outras coisas que valorizamos. Tratar uma coisa como boa para ser comprada e vendida por um preço pode corromper seu significado não comercial.

O que é marcante, e que os Skidelsky também mostram, é como o pensamento econômico convencional normalmente desafina em reflexões sobre valores. Isso deriva da própria experiência dos autores com economistas que brandem imperialisticamente seu método de análise social e ludibriam intelectualmente as autoridades de política econômica.

O que fazer? E o que fazer agora - quando as pessoas castigadas pela austeridade podem ser perdoadas por não encarar o excesso de materialismo como seu problema principal?

Os Skidelsky fazem propostas cuja falta de originalidade não as diminui. Defendem uma renda básica, impostos sobre o consumo e limites à publicidade. São ideias suficientemente racionais de política econômica. Mas parecem inadequadas como resposta ao "erro de Keynes". Afinal, as atuais políticas não impedem muitos de nós de trabalhar menos, de nos contentarmos com "o suficiente" e de cultivar a vida que gostaríamos de viver. O problema certamente se deve, de qualquer modo, tanto às políticas públicas quanto às nossas atitudes.

O enfoque de Sandel é mais promissor, por ser mais modesto. Ele propõe que se discuta como deveríamos avaliar as coisas. Isso é sutilmente diferente (embora ele possa discordar) de escolher políticas com base numa ideia da vida que gostaríamos de viver. O pensamento político e econômico dominante talvez nos diga agora que políticas de governo não deveriam impingir qualquer concepção determinada de como as pessoas devem viver sua vida; deveriam limitar-se a respeitar direitos e preferências dos indivíduos. 

Mas isso, mesmo assim, deixa as pessoas livres para - na verdade, as obriga a - fazer juízos de valor sobre que tipo de vida vale mais a pena viver. Se optarem por vidas que parecem moralmente pobres, esse é um problema que precisa ser abordado por meio da deliberação e da educação, tanto quanto por políticas de governo.

Não estou tão convencido quanto parecem estar esses autores de que o pensamento de mercado é inimigo dos valores. Bons economistas respeitam os valores dos indivíduos. Podem ser levados a perceber, e corrigir, alguns dos juízos de valor implícitos, e injustificáveis, que alguns modelos econômicos muitas vezes fazem. Não há dúvida de que tanto Sandel quanto os Skidelsky estão certos de que a economia de livre mercado não conseguiu perceber o que realmente valorizamos. Mas essa não é tarefa da qual a economia deveria ser excluída, e sim tarefa em que deveríamos contar com sua ajuda para melhor realizá-la.

Martin Sandbu é editor de economia do FT e autor de "Just Business: Arguments in Business Ethics" (Prentice Hall)

(Tradução de Rachel Warszawski)

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