quarta-feira, 27 de junho de 2012

No mundo mágico de "Guerra dos Tronos"


No meio do almoço no Delaunay, um pequeno e elegante restaurante ao estilo europeu em Londres, George R.R. Martin compara a grossa fatia de frango a milanesa que está no meu prato a um mapa de um reino imaginário. O fato de ele ser um dos escritores de romances de fantasia de maior sucesso do mundo, e criador dos livros em que a bem-sucedida série de TV "Guerra dos Tronos" é baseada, torna isso um pouco menos surpreendente do que de outra maneira poderia ser. Mas não muito.

Apontando para a minha comida de formato irregular com sua faca, ele elabora: "Há várias pequenas baías onde poderia haver cidades", diz ele jovialmente, como se estivesse fazendo a comparação mais óbvia do mundo.

É um momento divertido e Martin, de 63 anos, parece estar apreciando a vida. Ele tem motivo - 9 milhões de cópias de seus livros foram vendidas no ano passado. Os cinco volumes de "As Crônicas de Gelo e Fogo", sua saga vertiginosa de reinos medievais envolvidos em uma guerra mortal, totalizam mais de 5.000 páginas e mais dois livros (muito longos) serão lançados antes de o ciclo ser concluído.

O primeiro, chamado "A Guerra dos Tronos", exigiu de Martin cinco anos para ser escrito e foi publicado em 1996. Em 2005, quando o quarto volume, "O Festim dos Corvos", foi lançado, ele era um bem-sucedido autor do gênero, galgando as principais listas de best-sellers. Então, em abril de 2011, as coisas mudaram muito para Martin. Da noite para o dia, ele ficou famoso no mundo inteiro quando o canal pago HBO exibiu o primeiro episódio de sua nova série "Guerra dos Tronos".

Esta luxuosa, fiel e cara (segundo relatos, US$ 60 milhões por temporada) adaptação da história de magia de Martin - e muito sexo - fez um enorme sucesso. Com a segunda temporada [que foi ao ar nos EUA entre abril e junho deste ano], ela se transformou na mais bem-sucedida série da HBO, exibida em 29 países e com um número médio de mais de 10 milhões de telespectadores nos EUA por episódio. Os fãs incluem o fundador do Facebook Mark Zuckerberg, que no mês passado deu um churrasco para amigos mais próximos cujo tema foi "Guerra dos Tronos" - com carne de bode e "partes indefinidas de animais".

Chego cedo ao restaurante, apenas para encontrar meu convidado já esperando, sentado em uma banqueta de couro verde. Há um jarro de água e dois copos sobre a toalha branca, com algumas baguetes artesanais e manteiga. É uma cena simples e pacífica, e parece que Martin está ali há horas. Em seu mundo imaginário esplêndido dos reinos de Westeros, a sorte favorece aqueles que são rápidos e bem preparados.

Com sua barba espessa e grandes óculos, Martin é uma figura de impacto. Ele está usando um paletó roxo escuro adornado sobre uma camisa preta. O que chama mais a atenção é sua capa de pescador preta, que tem um pequeno broche no formato de uma tartaruga afixado na frente. Não é um visual que se vê muito no Delaunay, onde as outras mesas começam a ser ocupadas por homens de terno. Pelos trechos de conversas que consigo ouvir aleatoriamente, negócios são fechados aqui, e "takeovers" programados - um toque moderno dos calculistas cortesãos de King's Landing, a rica capital ao sul de Westeros.

Pergunto a Martin sobre sua infância. Seu sotaque é agradavelmente grave para um ouvido britânico. Ele vem de Bayonne, Nova Jersey ("uma cidade operária"), onde nasceu e foi criado, filho de um estivador. Ele era solitário? "Bem, eu tinha alguns amigos, mas eu era principalmente o garoto com o nariz enfiado em um livro." Era louco por histórias em quadrinhos (ainda possui uma valiosa coleção) e lia muito.

A família Martin - ele tem duas irmãs mais novas - vivia perto do porto de Bayonne, em um conjunto habitacional erguido pelo governo federal. O dinheiro era escasso - seu pai, um veterano de guerra, tinha períodos de desemprego. O mundo de Martin era constituído de apenas cinco quadras, delimitadas por água.



"Havia um pequeno lugar coberto de grama ali, onde me sentava e sonhava, e ninguém mais o conhecia. Eu podia ver não só os barcos como também os grandes navios que passavam pela Baía de Newark, navios de carga de todas as partes do mundo, com suas bandeiras. Tinha vontade de conhecer o mundo. Não podia vê-lo, mas eu o tinha em minha imaginação, e é por isso que estou sempre lendo livros. Eu podia ira para Marte ou a Terra Média ou para a Era Hiboriana." (Esta última referência é o mundo imaginário de Robert E. Howard, lar de "Conan, o Bárbaro".)

De volta à Londres dos dias atuais, os cardápios chegaram. "Me recomendaram o schnitzel", diz ele, enquanto consideramos um número extraordinário de opções. Pedimos o schnitzel Wiener para ele e frango para mim. Ele vem com quê? Nada, responde a garçonete, dando de ombros e fazendo com as mãos um gesto mostrando que o prato é grande. 

Imagino um espaço vazio no prato e pedimos acompanhamentos. "Purê amanteigado parece bom", diz Martin. Escolho broto de brócolis com amêndoas. Antecipando os pesados pratos principais, pedimos salada para a entrada - chicória, pêra e rúcula para ele; abacate, rabanete e alface americana para mim. Ele faz sinal para eu escolher o vinho. "Vá em frente! Um rosé seria bom, afinal você vai comer frango."

Martin, que está envolvido de perto com a série "Guerra dos Tronos" e escreve ele mesmo um episódio de cada temporada, acredita que seu sucesso está no apelo universal. "A HBO já fez algumas séries clássicas: 'Os Sopranos', 'Deadwood', 'The Wire' - que muitas pessoas consideram as melhores de todos os tempos. Mas a maioria de seus programas é muito americana. 

O que significa para alguém da Tailândia assistir aos conflitos de 'Os Sopranos' em Nova Jersey? Mas 'Guerra dos Tronos', sendo uma fantasia, ambientada em um reino imaginário e abordando certas questões universais - o poder e a família, o amor e o dever, tudo isso -, fala com muitas culturas diferentes."

"Guerra dos Tronos" também ganhou fama pelo uso da "exposição sexual" - mantém os telespectadores amarrados com uma combinação de enredo complexo e conduta sexual explícita. "Isso é algo que não está nos livros, é claro", diz ele. "Há muito sexo nos livros, mas não exposição sexual. Tenho muitas maneiras de fazer exposição que não estão disponíveis para David e Dan [Benioff e Weiss, roteiristas e produtores de 'Guerra dos Tronos']."

Esquentando o assunto, ele insiste nos possíveis usos mais amplos da exposição sexual. "Ela deveria ser adotada pelo setor. Pense como as reuniões de staff seriam mais interessantes se enquanto eles estivessem lhes dando as instruções...." Ele deixa a frase morrer, mas a imagem mental me faz resfolegar de tanto rir.

Martin não é nenhuma novidade para o mundo da televisão. Ele vendeu sua primeira história de ficção científica em 1970, quando estava na faculdade, e seu primeiro romance foi publicado em 1977. Em 1983 ele esperava alcançar o sucesso com seu quarto livro, "Armageddon Rag", sobre uma banda de rock. No entanto, lembra ele, "foi o meu romance que menos vendeu e basicamente destruiu minha carreira de escritor na época". 

Por estranho que pareça, o mesmo livro teve seus direitos comprados para a produção de um filme por um escritor e, embora o filme jamais tenha sido realizado, o escritor recrutou Martin para trabalhar em um remake da cultuada série de TV "Twilight Zone". Nos anos que se seguiram, ele trabalhou em pilotos e reescreveu roteiros para terceiros. "Ganhei muito dinheiro, mas fiz pouca TV", diz ele.

Nossas entradas chegam. A minha é uma alface redonda tombada. A de Martin, por outro lado, parece uma obra de arte comestível, com suas folhas de chicória maravilhosamente arranjadas. Mastigamos em um quase silêncio camarada, até que pergunto como a fama afetou sua escrita: milhões de pessoas estão dependendo dele para a continuidade da série na TV, e que ele nos diga como a saga termina. "Tenho um assistente e recentemente contratei um segundo", explica ele. "Estou meio que lidando com o fato de que me tornei uma pequena indústria - 'Westeros Incorporated' -, por assim dizer."


A ajuda extra, ele diz, o libera para se concentrar em escrever. "Escrevo melhor quando realmente me perco em meu mundo. Eu me isolo do mundo exterior. Tenho dificuldades para equilibrar o meu mundo real e o artificial. Quando o trabalho flui bem, dias e semanas inteiras passam e de repente percebo que estou com todas aquelas contas vencidas e, meu Deus, não desfiz a mala e está jogada em um canto há semanas." (Martin mora em Santa Fe com sua mulher, Parris, que ele conheceu em uma convenção de fãs de ficção científica)

O mundo fictício de Martin não é ensolarado. As principais personagens tendem a morrer. De maneira terrível. Houve, por exemplo, protestos na internet depois que Sean Bean, que fazia o nobre Ned Stark na primeira temporada, foi decapitado. "Fiquei surpreso com a reação àquela cena", diz Martin, entusiasmado. "Sean Bean já morreu bastante, esta não é a sua primeira morte. Há um vídeo no YouTube em que você pode vê-lo morrer 21 vezes em 21 filmes diferentes. Portanto, a ideia de ele morrer não é inteiramente nova para nós."

Ele explora sua chicória de maneira metódica. Tendo desistido de minha alface, sugiro que Westeros talvez seja a civilização "alternativa" mais bem imaginada desde a Terra Média de J.R.R. Tolkien e, de modo parecido, enfronhou-se no mainstream da consciência literária. Martin, que há muito reconheceu que tem uma dívida enorme com Tolkien, diz: "Houve milhares de anos de fantasia antes da Tolkien, mas a maneira como ela é moldada, como um gênero editorial comercial moderno, e os livros de fantasia que foram escritos no último meio século, tem a influência de Tolkien. Portanto isso ainda meio que define o campo de atuação."

Seus próprios livros redefiniram a ficção de fantasia para o século XXI? "Talvez. Eles certamente acrescentaram alguns elementos que estavam faltando." Pergunto se isso inclui papéis realmente bons para as mulheres - e anões. Na saga de Martin, as mulheres são tão moralmente comprometidas e sexualmente pragmáticas quanto os homens. E o anão Tyrion Lannister (representado na série por Peter Dinklage, em um desempenho vencedor do prêmio Emmy) é o mais próximo que os livros têm de um herói.

Martin está entusiasmado por me conduzir. "Mas eu acho que Tolkien criou pelo menos um grande papel para uma mulher. Amo Eowyn, ela realmente é a única mulher naquilo. Arwen foi criada para o filme. Tolkien era um cara do século XIX, um veterano da Primeira Guerra Mundial, e o fato de seus livros ainda tocar o leitor moderno, e eles são apreciados por milhões de pessoas hoje, é um sinal de seu brilho. Acho que ele continuará sendo lido por séculos e séculos."

Ele está pregando aos convertidos ao mundo da fantasia. Digo a ele que quando era adolescente, eu tinha um mapa da Terra Média pregado na parede do quarto, com a rota da jornada de Frodo marcada com tachinhas. Os mapas são muito importantes na fantasia, diz Martin (um livro com mapas de seus mundos imaginários será lançado em breve). "Quando você está lendo uma ficção histórica e uma personagem diz 'preciso ir até a Cornualha', você sabe onde a Cornualha fica, você não precisa de um mapa. Mas quando uma personagem de Westeros diz 'preciso ir até Dorne', você não sabe onde isso fica. Portanto, tivemos que incluir um mapa nos créditos de abertura [da série de TV]."

Nossos pratos principais chegam. Olhamos para eles, cada um com uma fatia grossa e enorme de carne aparentemente em formatos de reinos de fantasia. Fico contente por ter pedido também o brócolis, enquanto Martin mexe em seu purê. Entre garfadas, ele me conta como escreveu sua primeira saga de fantasia na infância. "Na América, na época, em lugares como Woolworths, você podia comprar "tartarugas baratas" - elas vinham em uma pequena bandeja de plástico, com água em um dos lados e uma divisória no meio, pedras do outro lado e uma pequena palmeira de mentira." 

Ele mostra o layout com as mãos. "Aqueles eram os únicos animais de estimação que podíamos ter. Eu tinha um castelo de brinquedo armado perto da minha cama, feito de lata, e o pátio era grande o suficiente para abrigar duas tartarugas-tanques. Tinha cinco ou seis tartarugas que viviam no castelo. Decidi que elas eram cavaleiros, lordes e reis, e assim comecei a escrever uma série inteira de fantasia sobre o reino das tartarugas e o rei das tartarugas.

"E aquelas tartarugas pareciam morrer muito facilmente. Acho que o ambiente não era muito bom para elas. Às vezes elas fugiam e eu as encontrava debaixo da geladeira um mês depois, todas mortas. Portanto, minhas tartarugas continuavam morrendo, o que era muito doloroso, mas também me fez pensar: 'Por que elas estão morrendo? Bem, elas estão se matando em conspirações sinistras'. 

Comecei a escrever aquela fantasia sobre quem estava matando quem, e as guerras de sucessão. Portanto, originalmente 'Guerra dos Tronos' começou com tartarugas, eu acho." Vejo que este é o significado do broche de tartaruga em sua capa. Ele faz um sinal com a cabeça e ri.

Desisto do schnitzel. Martin também acaba desistindo e os pratos são levados. Ele está ansioso para ir para casa. "Essas viagens são divertidas, mas interferem na minha escrita. 

Sempre tive problemas com prazos e ainda tenho, conforme você percebeu", diz ele, numa referência irônica ao lançamento atrasado, no terceiro trimestre do ano passado, de "A Dança dos Dragões", o quinto livro da saga, que levou alguns fãs impacientes a demonstrar sua ira na internet. Ele diz que o sexto livro, "The Winds of Winter", está "bem encaminhado", mas precisará ainda de uns dois anos para ser concluído.

Há mais de mil personagens nos livros e tramas muito complexas que atravessam anos. 

Pergunto se ele tem a cronologia em uma planilha. Ele toca a cabeça e diz: "Está tudo aqui".

(Tradução de Mario Zamarian)

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