terça-feira, 19 de junho de 2012

Jaime Prado Gouvêa


No dia 9 de maio, o Paiol Literário — promovido pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e o Sesi Paraná — recebeu o escritor Jaime Prado Gouvêa. Nascido em Belo Horizonte (MG), em 1945, Gouvêa é Bacharel em Direito pela UFMG. Atuou como jornalista no Jornal da Tarde, de São Paulo, e na sucursal belo-horizontina de O Globo. Entre 1969 e 1986, integrou a equipe do Suplemento Literário de Minas Gerais, do qual é atualmente superintendente. 

É autor dos livros de contos Areia tornando em pedra, Dorinha Dorê e Fichas de vitrola, e do romance O altar das montanhas de Minas. Em 2007, publicou Fichas de vitrola & outros contos, reunião do antigo livro e de contos inéditos, pelo qual foi um dos ganhadores do Prêmio Jabuti 2008. 

Na conversa abaixo, mediada pelo escritor e jornalista Luís Henrique Pellanda no Teatro Paiol, em Curitiba, Gouvêa fala sobre sua trajetória na literatura, critica o excesso de livros sendo publicados e de exposição dos escritores e relembra os tempos da Geração Suplemento e a relação com Murilo Rubião, fundador do Suplemento Literário de Minas Gerais.

Redondinho
Eu não sei. A literatura me salvou, numa determinada época. Tenho uma ligação muito grande com meus livros. Não sei exatamente que espaço a gente ocupa na vida do leitor. Mas se, por acaso, a literatura da gente servir para alguma coisa, já cumpriu um pedaço da função dela. Esse negócio de ler depende — tem gente que gosta, tem gente que não gosta. É sempre bom, né? Para nós, que estamos escrevendo, e para eles, que podem aprender alguma coisa. Mas não sei se é questão de aprender alguma coisa, também. Às vezes bate, por exemplo, num problema que a pessoa tem, e pode ajudar, pode não ajudar. Não sei. É o meu modo de me exprimir, quem eu sou. Por isso, eu falo que sou eu. Realmente, o que eu escrevo sou eu, não posso escrever pelos outros. Mudar o mundo, ninguém muda. É uma tentativa de entender alguma coisa. Pode melhorar algo. Pode melhorar as pessoas, pode piorar também, dependendo da literatura. Mas mudar o mundo, não. O mundo não tem jeito de ser mudado, é assim mesmo, sempre foi. Redondinho…

Mexendo com literatura
Olha, o meu pessoal não era muito de literatura, não. Meu pai era promotor, então tinha muito livro de Direito. Minha mãe tinha essa leitura de mãe, mesmo — quando tinha alguma coisa. Não era muita coisa, não. Mas quando lancei meu segundo livro [Dorinha Dorê, de 1975], um tio meu, do lado da minha mãe, da família Prado, apareceu lá em casa com um monte de jornais antigos, que eram as coisas que meu avô escrevia. Nem para os filhos ele tinha mostrado. E os levou para mim. Falou: “Você é o único sujeito da família que está mexendo com literatura”. E me entregou. Tinha até uma peça de teatro escrita por esse meu avô, de 1901. Era coisa meio bobinha, assim, mas, claro, de 1901.

Terrível medo do ridículo
Até hoje tenho problema com multidão. Quando eu era pequeno, fui a um aniversário na casa de uma tia, cheio de gente. E lá, havia uma senhora bem gorda. Colocaram na mesa um bolo que parecia uma gelatina, bem mole, e essa mulher se levantou [para pegar o bolo]. Eu tinha quatro anos de idade e, achando que estava fazendo muito bonito, puxei a cadeira e a mulher caiu. Achei que todo mundo ia rir, mas me deram uma bronca (“Quase você mata a véia!”). Nunca mais me esqueci desse negócio. Toda vez que aparecia gente lá em casa parecia que estavam me acusando, sabe? E entendi porque que esse negócio de “aparecer” é ridículo. Se você quer aparecer, tem que aparecer direito. Isso marca, velho, você nunca mais esquece, não.

Começando a gostar
Quando conheci o Humberto Werneck, no juvenil do basquete do Minas, a gente tinha 14 anos de idade. Ele era leitor de Fernando Sabino, começou a fazer umas crônicas no Colégio Estadual — eu estudava no Loyola, se não me engano, nessa época. E era aquela competição de menino: comecei a ver as coisas dele, ele começou a me emprestar os livros e fui começando a gostar. Foi o contato mais direto com a literatura que eu tive. E aconteceu uma coisa engraçada: ele passou para o conto, eu também — crônica eu nunca fiz, crônica tipo Fernando Sabino. Mas não sei o que aconteceu com o Humberto. Foi mexer com jornal, achou que o negócio dele era aquele. Eu continuei e ele parou. Ficou num livro de contos que publicou há pouco tempo [Pequenos fantasmas, de 2005], que são contos da década de 1960. O grande talento dessa Geração Suplemento [Literário de Minas Gerais], na minha opinião, era ele. O Sérgio Sant’Anna estava começando nessa época e, para mim, estava bem abaixo do Humberto. Mas ele deu essa parada. Hoje continua escrevendo crônicas e você vê o talento do sujeito, mas na literatura mesmo — conto, romance, ficção —, ele deu um bloqueio e nunca mais fez nada, o que achei um desperdício. Então, meu contato com a literatura foram os livros que peguei na casa dele. Primeiro que a gente não tinha dinheiro para comprar livro. E, lá em casa, não tinha esses negócios. Meu pai sempre falava: “Meu filho, você está escrevendo, mas estuda outra coisa, que esse negócio não serve para nada”. Só no final da vida, quando ele viu que eu tinha ganhado uns prêmios, falou: “Até que enfim você está fazendo alguma coisa”. “Pois é, e você queria que eu fizesse outra.” Meu pai era um sujeito que nasceu em fazenda, também não tinha ligação com esse negócio, não. Ele gostava de Machado de Assis, umas coisas assim. Ainda bem, né? Podia ser pior. Ele lia mais livro de Direito.

Impressão digital
Minhas leituras sempre foram meio caóticas. Sempre gostei de uma literatura que, inclusive, não tem nada a ver com a minha: o texto rigoroso do Graciliano Ramos, o texto limpo do Rubem Braga, o poder de síntese do Dalton Trevisan. Gosto muito do tipo de literatura feita pelo John Cheever, pelo Cortázar, pelo Scott Fitzgerald. São bem diferentes. O Fitzgerald também tem uma sonoridade que acho bonita, melhor do que aquele negócio seco do Hemingway. Mas é questão de gosto pessoal. Tudo é meio caótico. Sempre pego uma coisinha de um cara, de outro. No fundo, a gente escreve a gente mesmo, não tem jeito. Cada um tem uma impressão digital. Se ficar copiando os outros, o cara não vai a lugar nenhum.

Desenvolvimento natural
Nunca pensei em termos profissionais. Naquela época, eu fazia uns poeminhas — péssimos, ainda bem que parei. Mas serviu para uma coisa, no futuro: o exercício de poesia nos dá um molejo para escrever. Você aprende o som — tanto que andei fazendo umas letras de música, depois. Já vi muito cara que nunca mexeu com poesia cujo texto é mais duro, não tem aquela sonoridade, aquela coisa toda. E uso muito o negócio de ritmo, frase longas, frases curtas. Eu lembro do primeiro conto que escrevi; eu já tinha 21 anos, foi em 1966. Escrevi a mão. É o primeiro conto que está no meu primeiro livro. Um continho lá. O que eu achava que era uma crônica, quando fui ver, era um conto — pequeno, mas era. Aí fui vendo que, realmente, aqueles poemas que eu estava fazendo eram muito chatos; comecei a tentar [escrever mais contos] e foi dando certo. Mais tarde, quando eu já tinha três livros, falei: “Quem sabe eu faça um romance?”. Aí sentei e fiz esse aí [O altar das montanhas de Minas]. Se bem que, no começo, o personagem mesmo fica na dúvida sobre como começar. Eu mesmo estava assim. Então, à medida que fui fazendo, o negócio foi se desenvolvendo. Mas é meio caótico, não tem uma ordem, não.

Primeiro conto
Vira-mão: esse conto, eu mostrei para o Humberto. A gente tinha essa mania de ficar mostrando. E ele um dia chegou com um jornalzinho chamado DX, da faculdade de Engenharia, com esse conto lá. Ele datilografou o negócio, entregou para os caras e eles publicaram. Foi a minha estréia. No jornalzinho da Engenharia. Eu falei: “Como é que isso foi parar aqui?”. Achei bacana o negócio impresso. E você vai entrando nessa.

Entrada no Suplemento
O Suplemento, eu devo exatamente a Curitiba. Eu tinha publicado um conto lá, em 1967, um negócio do Humberto. Em 1969, entrei num concurso da Fundepar [Fundação Educacional do Paraná]. Era meu segundo concurso. Ganhei um dos prêmios e, na mesma época, apareceu uma vaga no Suplemento. O Humberto virou para o Murilo [Rubião] e disse: “Olha, ele ganhou um prêmio, é funcionário público, é fácil para entrar”. E o Murilo me chamou. Entrei no Suplemento desse jeito. Amizade. O Humberto puxava a gente e o Murilo confiava muito nele. Cheguei e os colegas meus de faculdade estavam todos lá: Adão Ventura, poeta da minha sala; Duílio Gomes; uma série de pessoas. O Suplemento ficava na Imprensa Oficial, no Centro, a dois quarteirões da faculdade de Direito, pertinho dos botecos que a gente freqüentava. Uns foram para frente, outros ficaram pelo caminho… Na época, a gente não pensa que está fazendo alguma coisa, e depois se assusta. Tantos livros… Aquele pessoal está aí também, o Sérgio Sant’Anna, esse povo todo. O [Luiz] Vilela. Mas também já está na época de criar os novos. Que nem criaram a gente.

Murilo Rubião
Como escritor, acho que o Murilo nunca influenciou ninguém. Fazia o tipo de coisa dele, começava e morria nele. O negócio do Murilo era o seguinte: em 1966, em plena ditadura, ele fez o Suplemento. E segurava a barra da gente demais da conta, entende? Ele pegava o pessoal mais novo — coisa que hoje, quando estou mexendo no Suplemento, tento fazer: sempre publicar um sujeito que está aparecendo, equilibrando com alguém que já tenha uma carreira mais sólida, aquela bobagem veterana e tal. Então ele tinha os amigos dele, publicava a turma dele — Emílio Moura, esse pessoal todo, até Carlos Drummond de Andrade, que era seu amigo — e misturava com os novos, com a turma nova. Geralmente, hoje eu vejo, era tudo iniciante, e não se esperava maravilha nenhuma, não. Se o Murilo visse que o cara tinha um jeito para o negócio, ele publicava. Mas nunca o vi elogiar nada. A única vez em que o Murilo me elogiou foi a coisa mais engraçada. Foi dois meses antes de ele morrer, quando lancei meu romance [O altar das montanhas de Minas, de 1991]. Encontrei com ele lá na porta do [Edifício] Maletta, numa galeria no Centro da cidade, e ele falou: “Jaiminho, rapaz, até que enfim você acertou”. Falei: “Murilo, tem quase 30 anos que eu te conheço…”. Ele era assim. Não era de elogiar, mas você sabia que, quando ele estava publicando, ou era porque gostava ou porque levava fé no sujeito. Nunca foi de passar a mão na cabeça de ninguém nem nada. Mas defendia a gente. Naquele tempo era academia, era bispo, era militar, tudo a fim de pegar o pessoal do Suplemento. E ele segurava a barra. Segurava mesmo. Porque tinha prestígio com esse pessoal. Fora de lá, ele costumava nos chamar para tomar uísque, e parecia um menino também, gostava de ficar com a gente. Então, era um cara muito legal, muito honesto. E muito íntegro. Lembro de uma coisa que ele falou para mim: “Olha, o negócio é o seguinte, você não é obrigado a publicar um livro por ano, não. Mas, quando for escrever um livro, tem que ser ‘o’ livro. Pode ser um, mas tem que ser caprichado”. Eram os conselhos que ele dava. Mas sem ser conselho paternal, nem nada. Ele falava também: “O livro você tem que escrever. Não tem importância ficar publicando”. Ele passava anos sem publicar nada porque estava em casa trabalhando suas coisinhas ali. Enquanto não ficasse satisfeito, não publicava.

O convidado
Foram 33 contos que ele [Murilo Rubião] completou. Mas teve um que ele levou quase 30 anos para escrever. O convidado é famoso. Teve um seminário qualquer lá em São Paulo, aonde foi todo mundo — Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Murilo, esse pessoal todo. Um dia, ia ter uma festa e chamaram o Murilo. Ele falou: “Não vou, não, que estou escrevendo um conto”. E o pessoal foi. Quando voltaram, estava o Murilo dormindo e um cesto cheio de papel, tudo escrito assim: “O convidado, conto de Murilo Rubião” — e mais nada. Muitos anos depois, o Paulo Mendes Campos fez uma carta para ele (e que virou crônica), falando: “Murilo, o negócio é o seguinte: o convidado existe, a festa é que não existe”. Acho que ele levou 26 anos para fazer daquilo um grande conto. Ele sabia que tinha um conto para fazer, mas não sabia qual. O Murilo era uma figura fantástica, ele era próprio para o fantástico. Era uma figura.

Fim de uma geração
O Suplemento perdeu sua grande vantagem: ele funcionava numa sala da Imprensa Oficial. Era o suplemento do Minas Gerais, que é o diário oficial, e por isso se chamaSuplemento Literário. Então tinha uma sala lá no Centro da cidade, que ficava quase do lado do Maletta, aquele lugar onde tinha os bares em que a turma se juntava, de tarde. A turma da faculdade de Direito ia lá, era um ponto de encontro. O Sérgio Sant’Anna trabalhava na Justiça do Trabalho, ali perto. O Fernando Brant trabalhava na sucursal d’O Cruzeiro. Às quatro horas, eles iam lá fazer uma chacrinha e depois a gente ia para os botecos. Então tinha essa convivência, estava sempre cheio de gente. Como o pessoal, é evidente, foi crescendo, casando, mudando de cidade, de país, essa geração foi sumindo. Uma época teve uma briga séria, no tempo do Wander Piroli, quando quiseram mexer no jornal e o pessoal mandou todo mundo embora. Nós ficamos oito anos fora. Voltamos quando Tancredo Neves foi eleito governador [em 1983] e botou o Murilo como diretor da Imprensa; ele chamou a turma toda de volta. Mas nossa turma já estava 20 anos mais velha. Depois, o Murilo passou para a Secretaria de Cultura e o pessoal não queria mais saber dele [do Suplemento]. Falei: “Vou tentar fazer renascer a idéia do Murilo”. Os “consagrados” da época eram a gente — o Sérgio, o Vilela, esses caras que, antes, eram meninos. Tentei seguir a filosofia do Murilo: mesclar o negócio, fazer um jornal bonito. Mas acontece que, hoje, o Suplemento fica num anexo no fundo do Museu Mineiro, uma salinha desse tamanho, aonde não vai ninguém. Hoje, o pessoal, em vez de ir lá levar as coisas, manda tudo por e-mail, computador, esse troço todo. Então, perdeu-se o convívio que a gente tinha, essa idéia de geração. Isso é o que funcionava. Nós lançamos em 1971 uma antologia chamada Contos gerais, com 22 contistas. Desses 22, dez eram nascidos em 1945. Dez. Depois disso, comecei a prestar atenção: aparecia um sujeito nascido em 1949; outro nascido em 1951; outro, em 1958 — um aqui, outro ali. Perdeu-se aquela turma. E essa turma nossa, inclusive, para mim só existiu por causa daquela redação. Muita gente ali, eu mesmo, talvez não fosse para frente se não tivesse um lugar onde publicar. Imagino que muita gente de talento tenha desistido no meio do caminho porque não tinha esse lugar. Acho que a importância doSuplemento foi essa, essa maneira de juntar o pessoal, de conviver. O convívio era muito legal. E, além do pessoal novo, todo santo dia apareciam lá Affonso Ávila, Ildeu Brandão, Emílio Moura — que era professor de economia lá perto —, Libério Neves. Sem contar a turma que ia lá de vez em quando, visitar: Clarice, Drummond, Vinicius. Iam porque eram amigos do Murilo. E ficavam a tarde inteira, papeando com a gente. Murilo Mendes, no fim da vida, com 72 anos, dois anos antes de morrer, foi lá e passou uma tarde com a gente. Foi um ponto de encontro. E isso desapareceu, principalmente com esse negócio de internet e outras coisas. Hoje, o cara manda um negócio para você, você publica e nem está sabendo. Perdeu aquele convívio. Isso é que fazia a geração.

Em cada comarca
O Suplemento, atualmente, sou eu com dois diretores. Um é o Fabrício Marques, que é poeta, e o outro é o João Pombo Barile, jornalista. As colaborações vêm por e-mail, a gente pede ao pessoal. Tem gente de todo lado. Tem, por exemplo, o Sergio Faraco, do Rio Grande do Sul, que vive mandando coisas para a gente. O Álvaro Costa e Silva, o Marechal [do Rio de Janeiro]. Mas é assim, entende? Não tem contato. O Suplemento até hoje é encartado noMinas Gerais. O Minas Gerais vai para todos os municípios. Onde tiver uma comarca tem que ir. Todos os municípios do estado. Antonio Barreto, um poeta de Passos, muito bom poeta, já me confessou: a única coisa que tinha para ler lá na terra dele era o Suplemento. Agora, ele é distribuído mais ou menos feito o Rascunho — em alguns pontos. Mandamos para assinantes. O Suplemento também tem uma turma de assinantes, mas é de graça, não é vendido. Agora, não dá para calcular quantos. Acho que são 15 ou 18 mil exemplares… E vão para o exterior, para um monte de gente, você nem imagina onde está chegando. O bom é isso: chega em cada lugar estranhíssimo.

Salvando contos
Esse livro [Areia tornando pedra, de 1970] foi o seguinte: primeiro, uma falta de autocrítica imensa. Eu tinha escrito 16 contos na vida e publiquei um livro com 15. Só tirei um. Tanto que, quando fui reeditar Fichas de vitrola [de 1986, reeditado em 2007], resolvi salvar alguma coisa desse primeiro livro. Não ia reeditar livro de infância, de juventude, negócio de principiante. E só consegui salvar dois contos do primeiro livro, você imagine. E um desses foi um dos premiados no Paraná. Os outros dois que também foram premiados aqui, eu não quis colocar. Era muito bom na época. Sempre falo: não renego o troço, não. Para a época, foi aquilo. Mas fiquei pensando o que eu publicaria hoje. Esses, eu não publicaria. Do segundo livro, salvei seis. Dois do primeiro. Tinha três inéditos em livro, que juntei com os outros contos, para equilibrar o tamanho do Fichas de vitrola.

Primeiros livros
O primeiro [livro, Areia tornando em pedra]foi o seguinte: eu estava no Suplemento, tinha acabado de entrar, e eles tinham na Imprensa uma comissão que editava livros. Se aprovassem o livro do sujeito, editavam. A gente pagava uma parte do material, coisa mínima, o pai da gente pagava o negócio, tinha direito a 400 exemplares e dava 600 para a Imprensa. Falamos: “Vamos tirar esse negócio de ‘Imprensa’ e botar ‘Edições Oficina’”. E saiu livro meu, do Silviano Santiago… Todo mundo publicou na Edições Oficina, como se a editora existisse. Então foi esse negócio da facilidade. Montei o livro, o Humberto fez a orelha para mim. Era tudo coisa de amigo, mesmo. Arrumamos uma ilustradora do Suplemento para fazer a capa. A gente trabalhava na Imprensa e rodou lá mesmo. Tinha um parque gráfico imenso. Eles estão até querendo voltar a fazer uma editora. Tudo bem, eu dou a maior força. Então, teve essa facilidade. Depois apareceu uma editora chamada Interlivros, de um cara meio doido que resolveu lançar uns livros de bolso. Começou com o Wander Piroli e o Luiz Gonzaga Vieira. Eu estava com esse Dorinha Dorê, mandei para ele e ele publicou também. Mas durou pouco tempo. Essa editora, evidentemente, foi à falência. Fazia venda em banca de jornal, mas ele era mais doido que os outros: era livrinho de bolso em papel-jornal, que traça adora… Sei que esse livro meu está extinto, fiquei com dois exemplares. Eu passava lá na editora de vez em quando e pegava dez exemplares para eu distribuir — era baratinho e não tinha distribuição nenhuma. Cheguei lá, estava fechada. Perguntei para um sujeito na rua: “Cadê minha editora?”. “A editora acabou, tem seis meses, já. O estoque foi todo para o papel velho.” Acabou desse jeito.

Nas mãos do editor
O Fichas ganhou, em 1982, o Prêmio Guimarães Rosa. Era o Prêmio Minas Gerais de hoje, que é um prêmio nacional. Nacional, assim, qualquer um podia entrar; entrava pouquíssima gente de fora, mas entrava. Então, passei três anos mandando o livro para tudo quanto é editor. É aquele negócio: a turma acha que prêmio realmente influencia, mas influencia, não. Em 1984, mais ou menos, o Pedro Paulo de Sena Madureira era editor da Nova Fronteira, se não me engano. Ele resolveu fazer um lançamento em Belo Horizonte com Adélia Prado, Wander Piroli e com mais uns dois caras. O Piroli conhecia o meu livro, passou lá no Suplemento e virou para mim: “Me dá esse livro que está na sua gaveta”. “Mas quem falou que tem livro na minha gaveta?” “Tem.” E tinha. Esse livro estava lá. Pegou, levou para o Pedro Paulo e falou: “Você vai ler esse negócio agora”. No dia seguinte, o Pedro Paulo telefona lá para casa: “Vem cá, que eu preciso te conhecer, que eu vou editar teu livro”. Desse jeito. Mas por quê? Porque o Piroli botou no peito dele. Foi aí que eu vi que esse negócio de mandar livro para editor não adianta nada. Se você não entrega na mão do cara… Então, o Pedro Paulo levou o livro e acabou publicando na Guanabara. Ele saiu de lá, foi para São Paulo. Quando escrevi o romance, pedi para o Humberto ver se achava uma editora qualquer lá em São Paulo, porque em Belo Horizonte não tem editora adulta, só de literatura infantil — que coisa mais esquisita, né? Levou, encontrou o Pedro Paulo na rua, com o livro na mão, e o Pedro Paulo disse: “Me dá aqui”. Levou e publicou na Siciliano. E é tudo assim, na loucura.

Conto não vende
Quem falou isso não fui eu, foi o Pedro Paulo. Ele editou esses dois livros [O altar das montanhas de Minas e Fichas de vitrola]. Quando lancei o romance, saiu escrito embaixo: “romance”. Virei para ele: “Me explica uma coisa: por que você não botou ‘contos’ nesse aqui e botou ‘romance’ no outro?”. “Porque se eu botar conto, você não vende.” E ele é editor, um grande editor, esse cara. Falou que poesia nem pensar. Para ele, como comerciante, era um fracasso. Só se fosse de Drummond para cima. Tanto que as pessoas de poesia penam até hoje para publicar alguma coisa. E falou isso claramente comigo: “Está provado que o pessoal, o povão, gosta de romance. E de preferência grande, para ler na praia, esse troço todo”. Conto não é para iniciante mesmo, cheguei a essa conclusão. O cara precisa ter uma certa maneira de ler que não é a da literatura de entretenimento — não é mesmo. Romance pode ser. Conto de entretenimento, eu nunca vi. Então, é um negócio que exige mais dos outros.

Quatrocentos malucos
Eu até tenho lá em casa as prestações de conta da Record — esses dois livros [O altar das montanhas de Minas e Fichas de vitrola & outros contos] estão na Record. Até hoje, nenhum dos dois passou de 500 exemplares vendidos. Eu nunca vou ser best-seller na vida, pode ter certeza. Nunca. Não tem jeito. Também não sou de ficar indo em escola, essas coisas, o que tem muita gente que faz. Você sabe, até para vir aqui foi meio complicado. Mas para mim está bom. Quatrocentos e tantos livros de um e quatrocentos e tantos de outro. Já é muito maluco lendo as minhas coisas. Já é coisa demais.


Medo da decadência
Quando cheguei ao romance, achei que estava esgotado. Tanto que passei para o romance quando já tinha três livros de contos. E, por algum motivo, dei uma parada. Aconteceram algumas coisas na minha vida, foi uma época em que meus pais morreram, e fiquei um pouco afastado. Quando vi os resultados das vendas de livro, falei: “Pô, ninguém quer ler nada”. Fiquei meio desanimado. Quando escrevi mesmo, foi uma época em que precisei escrever, tanto que eu falo que isso me salvou um pouco. Foi uma época meio difícil na minha vida. Desandei a escrever e foi a melhor coisa que aconteceu comigo. Aconteceu aquele negócio de separação, de namoro, aqueles troços — naquela época a gente sofria pacas, hoje nem sei mais. Tem um amigo meu com quem aconteceu um negócio desse e ele acabou morrendo, porque desandou a beber. Eu desandei a escrever. Então funcionou muito nessa época, e por isso tem muito de mim nessas coisas. Quando eu via que o negócio estava ficando muito pessoal, eu mesmo esculhambava, fazia gozação. E o pior é que funcionava, rapaz. Quanto mais chateado você estava, mais o pessoal gostava. Então foi bom. Para a literatura, foi bom. Depois, entrei numa fase em que vi: “Pô, já tenho esses livros todos…”. Hoje você entra numa livraria e até desanima de tanto livro que tem, tanta coisa ruim. E aí você perde exatamente o fundamental, que é o tesão para escrever. Eu falei: “Não vou fazer coisa pior do que já fiz”. Isso eu meti na cabeça e não tem jeito. Tenho certo medo dessa decadência. O dia em que aparecer uma coisa legal, não tenho nada contra, não. Acho que a literatura chama a gente, a gente não vai atrás dela. Toda vez em que tentei fazer alguma coisa, que tinha que fazer, nunca saiu nada que prestasse. Tem uma hora em que o negócio baixa em você e você vai lá e faz. Se pintar isso algum dia, volto e faço numa boa. Não vou ficar escrevendo por escrever, detesto isso, acho muito ruim. Já vi muita gente boa que achava que tinha que publicar livro de dois em dois anos. Então esse cara tinha um livro ótimo um dia, mas depois publicava umas três bobagens. Quando vê que não está a fim e não está legal… Falta um pouco de sangue nas coisas. Quando reeditei os contos todos num volume só e reeditei o romance, na mesma editora, com a mesma capista e o mesmo tipo, disse: “Minha obra completa são dois volumes”. Falei: “Não vou escrever mais nada, senão vai atrapalhar esse negócio”. Mas, se pintar, pintou.

Brincando de Deus
Projetei meus problemas na literatura. Ao invés de ficar com o sofrimento, eu passava para o personagem. Falei: “Já que alguém vai sofrer, agora eu sou Deus, você é que vai, eu que mando”. É uma maneira de usar aquele negócio a seu favor. Eu desandei a produzir. Ao invés de ficar engolindo a coisa, eu a transformei em literatura. Isso deu um sentido para mim. As coisas voltaram a acontecer, melhoraram. Foi isso.

Obrigação
A gente deve ter um respeito pelas coisas que já fez, entende? Acho isso fundamental. Tem gente que trata mal a própria obra. Ele mesmo esculhamba aquilo, ele mesmo faz um negócio malfeito. Eu não gosto disso, não. Já que você vai publicar, faça o que melhor que puder. São as coisas que aprendi com o Murilo [Rubião]. Faça um livro. Faça o melhor que puder. Você não vai fazer a melhor literatura, e nem sempre tem capacidade para isso. Mas o melhor que você puder é obrigação sua. Eu acho que é.

Papel e caneta
Eu faço umas anotações, mas não é nada. Não tenho método. Não tenho nada. Não tenho mania nenhuma. A única coisa que eu gostava era de escrever a mão. Até hoje. Gosto de uma caneta, de um bloquinho. Eu não freqüentava livraria. Freqüentava papelaria. Achava um barato mexer com bloco. Ganhei um computador tem sete anos, se não me engano. Minha irmã comprou e me deu de presente porque estava nervosa: eu tinha uma máquina de escrever que vivia mandando consertar e ninguém consertava mais aquilo. Ela me deu um computador e arrumou um professor para eu mexer com ele. Foi o único computador que tive até hoje, e gosto muito dele. Não quero nada novo também, não. Mas eu gostava mesmo, na verdade, era do seguinte: escrever a mão. Acho gostoso escrever a mão. Não sei por quê, mas cada um tem uma doideira. Tanto que quando começava alguma coisa à máquina, não era legal. O computador, por exemplo. Hoje eu redijo alguma coisa ou recebo algum texto que o pessoal manda para o Suplemento. Eu imprimo para ler no papel. Porque na tela não tenho uma visão legal — não sei por quê, mas não enxergo bem a coisa. Cada um tem uma mania, né? A minha é essa.

Rigor ou maluquice
Quando leio uma coisa que não está batendo, enquanto eu não resolver aquilo… O Fichas de vitrola tem um conto, o primeiro, Concerto para berimbau e gaita, em que ficou faltando uma palavra de duas letras. A palavra “lá”. Você acredita que até hoje me incomoda? Isso me incomoda de um jeito! Uma vírgula que deixei de colocar no negócio… Maluquice mesmo. Não é bem rigor… Mas como é que eu pude fazer uma besteira dessas? Esse troço é terrível.


Reconhecimento
Quando ia trabalhar — eu fingia que trabalhava, que era funcionário público, né? —, eu passava sempre na frente de um supermercado que tinha perto da Rua da Bahia. Ali, na entrada das mercadorias, havia um balcão. Passei de manhã cedo, vi um livro amarelo em cima do negócio e pensei: “Já vi esse livro”. Era o meu. Todo amassado, grifado. A pessoa fez anotações e tal. Aí veio uma moça lá de dentro, que trabalhava no supermercado: “O senhor deseja alguma coisa?”. Falei: “Estava vendo esse livro, esse livro é meu”. Ela falou: “Não é, não!”. Achei ótimo. No lugar em que você menos espera, a pessoa não faz a menor idéia de quem você é e está gostando da coisa que você fez. Acho isso um barato. Isso é o que eu acho que funciona. A mesma coisa quando apareceu esse prêmio Jabuti para o meu livro[Fichas de vitrola & outros contos], uma reedição que tem contos de 40 anos de idade, do começo do Suplemento. E fazia 20 anos que eu não escrevia. De repente, você, ainda vivo, ganha um prêmio, concorrendo com gente que escreveu algo agora… Falei: “Esse livro sobreviveu”. Isso é o que eu acho que coloca a gente lá em cima. Ficou em terceiro lugar — não tem importância nenhuma. Mas achei legal o reconhecimento, você entende? Se fosse uma coisa que eu tivesse acabado de fazer, tudo bem. Mas é uma coisa antiga, nunca tinha acontecido nada, e tantos anos depois, com outro tipo de leitor, que possivelmente nem era nascido quando escrevi, o negócio de repente aparece. Quer dizer, a sensação do efêmero desapareceu para mim. O negócio sobreviveu a esse tempo. O meu medo era escrever e no ano seguinte nunca mais, o negócio perder a importância. Isso enche a gente de vaidade mesmo. Vai ficando bom.

Muito livro, pouca qualidade
Tem livro demais da conta e, se você espremer, sai pouca coisa. O problema é que antigamente eram dez caras publicando e você salvava dois. Hoje você salva dois em duzentos. É muita coisa. Há pouco tempo apareceu — já se vão cinco anos, mais ou menos — uma poeta lá em Belo Horizonte, a Ana Martins Marques, que é sensacional. Ela já apareceu com um negócio de altíssimo nível. Mas você conta nos dedos. O problema é esse. E todo dia tem lançamento. Você dá uma olhada, desanima. É gente demais da conta. Tem mais gente [escrevendo agora do que na época da Geração Suplemento] porque a população aumentou, né? Mas em matéria de qualidade, acho que não chega aos pés, não. Talvez seja essa diluição. Uma publicação costuma juntar uma turma — não é fazer panela, não, mas conviver. Mudou muito. A internet deu uma espairada tão grande nisso, que até pode ser um negócio legal no futuro, mas por enquanto a qualidade não está grande coisa, não.

Trabalhadinho
Vejo o romance como uma história, como um filme, linear. O conto já exige um pouco mais de dedicação, de atenção. O conto nem sempre tem uma história. O romance, geralmente, é uma história. E o cara pode ler, pode parar, voltar depois. O conto já é um negócio mais compacto. O conto é mais perto da poesia do que de outra coisa, é um negócio mais fechado. E é mais trabalhadinho. No conto, o cara não enrola; num romance, você enrola. Eu sei, porque fiz um romance e você vai enrolando. O conto não, você bate ali naquele negócio.

Muita exposição
Tenho alguns amigos que estão sempre indo a escolas fazer debate com alunos, fazer a divulgação de seus livros, essa coisa toda. Não tenho costume disso. E não faço muita questão. Não gosto de falar em público. Na verdade, é o seguinte: acho que quem tem que aparecer é o livro, e não o cara. Não vejo muita vantagem em conhecer a pessoa que escreveu o livro. Tanto que, numa das poucas vezes em que fui a uma faculdade, falei: “Vou, com a condição de a turma ler meu livro antes de eu chegar lá”. Eu tinha esse livro em estoque, era o Fichas. Eles iam fechar a Guanabara e perguntaram se eu queria ficar com o estoque. Fiquei. Dei 60 livros: “Depois que todo mundo ler, você me chama. Aí, nós vamos discutir o livro”. Porque não vou chegar lá e ficar explicando: “O livro que fiz é assim e assim”. Esse não é o papel do cara. O papel do cara é escrever. Tenho certa bronca com esse negócio, escritor não devia aparecer demais, não. Já vi escritores terríveis com uma obra maravilhosa. Sempre prefiro o livro ao cara. Quando falei daquela pessoa que tinha meu livro e não sabia quem eu era, vi que o livro estava funcionando, o papel é dele. Um belo dia, vou morrer e ninguém vai saber quem eu sou. O livro é que tem que ficar. É uma questão pessoal, não gosto muito dessa exposição. E tem gente que adora esse negócio, né? Fala demais da conta, faz um monte de movimentos. Depois, você vai ver a obra dele e é uma bobagenzinha que não tem importância nenhuma. Não faz meu gênero, não acho legal. Quando é negócio de menino, por exemplo, se for para despertar o interesse dele [pela leitura, em escolas], é outro tipo de coisa. Mas não a exposição do sujeito como se fosse uma estrelinha, esse troço todo, que acho uma bobagem. E tem muito cara que é assim. Acha que só porque escreve tem que aparecer em capa de revista. Literatura é outro tipo de coisa.

Para todos os gostos
Geralmente, quando vou escrever, já sei mais ou menos o que quero e vou direto, não sou de muito rascunho. Hoje faço uns diários, umas coisas assim, e vou anotando umas bobagens, mas sei que não vão dar em nada. E nem anoto pensando em literatura, mas para uso interno. Com a pessoa que faz isso planejado, geralmente não dá certo; tem que ser espontâneo. Mas cada um é de um jeito, né? Tem gente para tudo, tem leitor para tudo. Tem tudo. O bom é isso.

Projeto desenvolvido desde 2006 pelo Rascunho em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, o Sesi Paraná e a Fiep.

Texto extraído integralmente daqui.

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