segunda-feira, 18 de junho de 2012

Fernando Monteiro

O poeta e romancista pernambucano Fernando Monteiro sente-se em intenso desacordo com o mundo contemporâneo. "Costumo dizer que, mentalmente, eu vivo na Suméria." A declaração nos autoriza a vê-lo no quarto milênio antes de Cristo, caminhando pelas ruas da cidade de Ur, uma das capitais da civilização mais antiga da humanidade. Ler seus fortes poemas - como os agora reunidos em "Mattinata" (uma coedição da editora potiguar Sol Negro com a catarinense Nephelibata) confirma essa visão. Monteiro avança, com determinação, na contramão do futuro. Mas, em um inevitável movimento circular, esse caminho o lança de volta bem à frente de nós.

Poucos escritores brasileiros parecem tão bem equipados para observar o contemporâneo. Sabe Monteiro que essa posição o alija do centro dos negócios literários e o empurra, em consequência, para um posto marginal. "Ninguém que viva na Suméria pode despertar o interesse de algum baladeiro que acabe de pegar essa entrevista para ler", diz, resignado. Mas não é só de resignação que se trata: Monteiro conhece as vantagens de sua posição deslocada. Tem uma visão do mundo que, na maior parte do tempo, nos foge. A nós que, afogados na vibração do contemporâneo, só aceitamos as deduções práticas e imediatas e odiamos tomar distância e pensar.

Os temas da escrita de Fernando Monteiro são antigos. Ele mesmo enumera: o significado da vida, a existência ou não de Deus, o limite inexorável da morte, o mistério do amor, a implacabilidade do tempo. Temas que parecem inúteis e desgastados em um mundo atordoado pelo imediato e pelo tempo real. "A renitente mesquinhez humana, no entanto capaz de se transformar em ascese na pintura da Capela Sistina, permanece no centro do meu interesse." Não por um apego doentio pelo passado; não pelo desejo de fugir ao presente. Ao contrário: para se colocar em um posto de observação imune às turbulências contemporâneas e, assim, ver com mais clareza e melhor.

Autor de importantes romances como "As Confissões de Lúcio" (Francis, 2006), "Aspades, ETs, Etc." (Record, 2000) e "A Cabeça no Fundo do Entulho" (Record, 1999), seus livros - como as obras de um distante caminhante das ruas de Ur - permanecem, em geral, esquecidos ou relegados à zona - cada vez mais desprezada pelo mercado - da "escrita difícil". Exilado à força da cena literária, o corajoso Monteiro decidiu assumir o exílio como destino e dele arrancar sua potência. Decisão que o levou, em 2009, com "Vi uma Foto de Anna Akhmátova" (Editora da Fundação Cultural do Recife), a abandonar transitoriamente a prosa para se dedicar exclusivamente à poesia.

"A ficção brasileira caiu numa armadilha, talvez autopreparada com a ajuda de editores ávidos e leitores cheios de preguiça", avalia, sem poupar a ênfase. Nesse cenário de desolação, ele optou por uma nova posição: "Estão tratando de piscinas vazias, na maior parte dos romances por aí, e resolvi dar mergulhos longe disso, na praia deserta da poesia". Na poesia, ele acredita, editores e leitores o deixam, enfim, em paz. Não precisa seguir modas, adotar tendências de mercado, submeter-se às pressões da crítica. Volta a ser - mas sempre foi assim como romancista! - absolutamente dono de si.

Agora se sente melhor: mais livre e com um controle mais fino do próprio espírito. Voltando a si, pode observar com mais clareza o mundo em destroços que o (nos) cerca. "Sinto um prazer enorme em descer pela trilha da tarde, rumo à vereda da poesia, que não tem forma capaz de se esgotar." Luta, desse modo, para desglamourizar o trabalho literário, limpá-lo dos valores rápidos e superficiais do presente, devolvê-lo ao passado mais remoto no qual os sumérios - inventores da escrita cuneiforme - tiveram a chance única de partir do zero absoluto.

Fernando Monteiro, o poeta, observa a literatura sem ilusões. Afirma: "Se não chega a ser um trabalho como qualquer outro - por exemplo, o do patologista que disseca cadáveres assobiando um sambinha -, é, ainda assim, um trabalho que não precisa mergulhar no robertocarlismo das superstições, que levam alguns romancistas a até se benzer antes de se sentar para escrever". Em seu retorno ao passado, Monteiro não pretende enfrentar monstros mitológicos ou desnudar tesouros ocultos: quer, apenas, retomar contato com as raízes mais internas do homem. As mesmas que, em nosso mundo atordoante de luzes e de instantâneos, nos fogem, diluídas em vapor.

O solitário Monteiro - que passa a maior parte dos dias em seu apartamento no Recife - não se incomoda, apenas, com as pressões do mercado, quando elas impõem a necessidade de vendas rápidas, leituras confortáveis e memórias descartáveis. Indispõe-se, mais ainda, contra certa visão "midiática" da literatura, "para tentar sobreviver em um mundo sem perguntas, sem angústia a não ser sobre empregos, academias de ginástica e a hora mais correta de investir na Bolsa". A palavra, angústia, parece estar no centro de tudo: é da experiência da angústia que, equipado com imagens feéricas e pilhas de fragmentos, o mundo contemporâneo se esforça, em desespero, para escapar. Mas será possível um mundo sem angústia? Mais ainda: será possível pensar em uma arte que não tenha a angústia, origem do humano, como fundamento?

Monteiro tem, hoje, poucos interlocutores. Com o artista Francisco Brennand, de 84 anos, troca uma sucessão contínua de e-mails a respeito de arte e de literatura. Ainda ativo e lúcido, Brennand precisa, contudo, que a secretária digite seus e-mails - e, por isso, o ritmo da conversa é sempre mais lento. Já com o cineasta José Carlos Targino, 20 anos mais moço, se encontra regularmente em algum bar discreto para conversar sobre poesia e cinema. Bares obscuros, às margens das luzes, "onde seja talvez impossível aparecer algum intelectual de shopping", ironiza.

No mais, fica em casa, quieto, relendo. Depois do lançamento de "Mattinata", como sempre faz, recolheu-se para um período de meditação e leitura. "A vida é breve e os autores verdadeiramente instigantes, como um Nabokov e não um Borges, merecem releituras contínuas." Está sempre a reler Nabokov, uma de suas referências fundamentais. E quase nunca abandona um exemplar do "Moby Dick", de Melville, que no momento relê pela 22ª vez. "E eu não pulo as partes 'chatas'. Não pulo, nem mesmo, aquelas relações tediosas de cachalotes."

Não descarta, contudo, os autores contemporâneos. Admira, em particular, os livros de Rubens Figueiredo e de Elvira Vigna. "São dois escritores originais, trabalhando fora do trilho de aproximação - suicida - do real, que nos devolve o entorno no colo, como se fosse uma espécie de atração fatal do jornalismo 'ficcionado'." É, ainda, leitor entusiasmado de Bernardo Carvalho. Monteiro bate com força no neonaturalismo que domina parte importante da ficção brasileira atual. Não aceita que a literatura se reduza à fotografia.

Tem dificuldades, porém, de falar a respeito da própria ficção. "O título de meu primeiro romance, 'Aspades, ETs, Etc.', talvez contenha uma pista [nos "ETs"] sobre a minha alienígena figura de escritor não interessado em literatura sociológica de violência urbana." Bate-se, ainda, contra os livros de encomenda, "os livros que editores acham que deveriam ser escritos". Isola-se em seu projeto pessoal, agarra-se a ele - e não arrasta o pé de sua estrada, por mais tortuosa que ela seja.

Monteiro é um combatente feroz do "gosto médio", que se espalha, segundo ele, com a disseminação da literatura na internet. "Muito mais provavelmente, a internet dissemina e reforça o ruim, em vez de despertar para o bom", afirma. Prossegue, pouco se importando com os inimigos que possa cultivar: "É o gosto médio - devastador - que domina nos blogs e nas redes, em que tudo, praticamente tudo, pode ser escrito e nada é para ser escutado, se não for em termos de receitas baratas para se viver como se fosse num aquário". Pode-se discordar das posições de Fernando Monteiro. Pode-se, até mesmo, nelas apontar um excesso de fúria. Mas não se pode negar sua coragem intelectual. Atributo, é preciso dizer, que anda em baixa em um meio dominado - para o bem e para o mal - pelas relações de gentileza e compadrio.

Na web, Monteiro detecta pragas como a multiplicação de imitadores baratos de poetas como Adélia Prado. Protesta: "Adélia não é simples, porém quem a imita pensa que é fácil evitar o destino de Sylvia Plath e ficar só com a parte 'boa' das platitudes escritas, como se escrever fosse - nas palavras de Pasternak - apenas atravessar um campo. Não, não é". Escrever (ao contrário do que a internet tantas vezes nos sugere) não é fácil. A experiência da escrita nos empurra para caminhos múltiplos, tensos, que precisamos apesar de tudo sustentar, pensa Monteiro. É preciso tropeçar, errar, transformar-se, inquietar-se, ou nada se escreve que valha a pena. "Há 13 maneiras de olhar um melro, segundo Wallace Stevens", ele nos lembra. "Estou ainda na quarta, ou talvez na quinta, e também descobri que os autores laterais - como o francês Victor Segalen - podem ser mais vitais do que os escritores do 'mainstream', que pisam no tapete da Literatura com maiúsculas e botas de couro envernizado."

Monteiro, um escritor das bordas. Caminha nos limites e não se importa em não ser reconhecido. Caminha no silêncio. "Aos 62 anos, o que me resta de vida não será bastante para ler o que está fora do cânone, que é, realmente, o que me interessa agora." Fernando entre os sumérios e, no entanto, despejado na zoeira do século XXI. Daí - depois do lançamento do belo "Mattinata" - necessitar de mais um intervalo. "Só posso escrever após um período de esvaziamento, no qual me comporto mais ou menos como um imbecil", diz. Sem as pausas, a música seria inaudível.

O mesmo acontece com a poesia. Recorda a advertência de Marguerite Duras: "Só pode escrever maus livros quem se dedica somente a escrever livros". Fernando Monteiro luta, ao contrário, para preencher um pouco o vazio com o próprio vazio, luta para aceitá-lo e, só depois, "tentar um novo mergulho na piscina seca da literatura". Precisa sair de si - retornar à distante Suméria, berço de todos os escritores - para voltar a si e escrever.

Texto: José Castello para o Valor Econômico

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