sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sombra




Sombra, do inglês Michael Morpurgo, também autor de Cavalo de Guerra, filmado por Steven Spielberg, começa quase como um conto de fadas inglês e vai nos surpreendendo a cada página, a cada capítulo, levando ao aprofundamento dos dramas humanos. 


Em meio à guerra no Afeganistão, uma cachorra perdida, ferida e esfomeada, da raça springer spaniel, aparece diante de uma caverna, onde uma família tenta se proteger das ameaças dos soldados do Talibã. 

Um garoto afegão procura protegê-la e ela não o larga mais, apesar de enxotada e apedrejada por outras pessoas. Ele, então, a apelida de Sombra. Uma sombra que vai protegê-lo, guiá-lo e ajudá-lo a fugir do inferno.

O enredo está acontecendo agora, neste exato momento, permeado pela fome, frio, dor e morte. 

É o drama atualíssimo dos refugiados, uma tragédia que vem afligindo grande parte da humanidade, sobretudo nas últimas décadas. Milhões de pessoas estão sendo obrigadas a abandonar as suas raízes em busca de um pouco de paz. É a diáspora moderna dos que fogem da guerra, da fome, da perseguição.

Um jornalista inglês aposentado, seu neto e um garoto afegão estruturam esta história sensível e comovente, que começa em Cambridge e faz um tour forçado pelo Afeganistão, passando por vários países, até retornar à Inglaterra, exatamente ao Yarl’s Wood, um centro de remoção de imigrantes em Bedfordshire. 

É lá que os refugiados ficam e de onde muitos são mandados de volta.

Apesar do tema dramático, o autor consegue banhá-lo com um humanismo sem fronteira. O livro pode ser lido por uma criança, um adolescente, um adulto, um idoso. E todos vão se identificar, entender exatamente o que está se passando. E tomar partido, inclusive aqueles que acham que cada um deve ficar em seu país de origem, como se o planeta não fosse a morada de todos os homens, indistintamente.

Embora seja uma obra de ficção, Sombra mostra um ângulo feio da humanidade, que muitos pretendem esconder. É um enfoque sobre um caso isolado, mas que chama a atenção para milhões de outros. 

Para amenizar esta tragédia universal, o poeta e escritor Morpurgo banha cada página com muito humanismo, deixando a crueldade como pano de fundo. Outro ponto forte desta obra são as ilustrações de Christian Birmingham, que se fundem à história, tornando-a ainda mais pungente.

Se perguntarem se dói, esta história dói. Mas não é o drama pelo drama, um comércio de emoções baratas. Ao contrário, leva-nos a entender que a vida é uma só em qualquer lugar, frágil e bonita, encantadora e misteriosa. Sombra é uma obra de luz, um farol que pode nos guiar a um mundo melhor. 

E os cachorros têm um bom faro para isso. 

Um comentário:

Hérida Ruyz. disse...

Vou ser sincera. Jamais lerei esse livro. Não porque ache que seja um livro ruim, mas porque tenho um apego fora do normal com os animais.
Não consigo ler livros, ver filmes ou qualquer outra coisa que envolva sofrimento ou crueldade contra animais. Eu sofro demais! Eu sei que esse tipo de situação está acontecendo pelo mundo afora, mas prefiro me preservar. Eu me conheço, seria doloroso demais para mim.
Ótima resenha. Parabéns