quarta-feira, 30 de maio de 2012

A literatura de choque de Lionel Shriver

Lionel Shriver tem obsessão pela fama. Há quase 15 anos ela vem pensando nesse tema, mais sensível desde o sucesso comercial de "Precisamos Falar sobre o Kevin", romance transformado em filme pela diretora Lynne Ramsay. "Eu criei um monstro", ela se referiu na época ao burburinho em torno do seu livro, rejeitado por várias casas editoriais de grande porte até uma pequena editora publicá-lo em 2003.

A rejeição a um enredo agressivo se mostrou vigorosa, segundo Shriver, por conta dos ataques ao World Trade Center em 11 de setembro de 2001. Não fazia sentido inventar uma ficção sobre uma mãe impotente e um filho que, sem nenhum arrependimento, promove uma carnificina. A escritora estava fora de sintonia com o desejo do público. Ninguém se interessaria por mais violência, asseguraram os editores que leram o original. A propaganda boca a boca, porém, desencadeou a popularidade de Shriver. A autora aprendeu a lição: existem pessoas a fim de assuntos desafiadores, mas o mercado editorial sempre as subestima.

No fim dos anos 1990, porém, ela não conhecia o poder dos leitores. O receio de ver o seu trabalho desdenhado travara Shriver cinco antes de lançar "Precisamos Falar Sobre o Kevin", ganhador do Orange Prize de 2005. Ao terminar "The New Republic", romance agora publicado nos Estados Unidos, ela não o submeteu à avaliação de nenhum editor. A obra não chegaria às livrarias, pois o seu conteúdo não era vendável em um país que trata "o terrorismo como um problema tedioso de estrangeiros", a escritora explicou no prefácio do seu novo livro, o qual, ela garante, preserva as mesmas linhas da versão finalizada em 1998.

Concebido antes do 11 de Setembro, "The New Republic" (importado; editora Harper Collins, US$ 26,99) tem um teor profético. O terrorismo da trama ficcional antecipou o exibicionismo dos atos cruéis e reais de organizações como a Al-Qaeda e de "lobos solitários" como Anders Behring Breivik e Mohammed Merah. "Terroristas necessitam dos jornalistas para ampliar as suas atrocidades e a mídia em massa se presta a esse papel prontamente", diz Shriver em entrevista ao Valor. "O que motiva essas pessoas, mais do que qualquer proposta da sua agenda, é a ânsia descontrolada por atenção."

Nem o fato de essa publicidade ser negativa invalidaria a tese de Shriver. "Também não importa se a fama é póstuma. Homens-bomba e jovens atiradores suicidas concretizam os seus planos tendo em vista a certeza de que a sua atrocidade vai receber uma cobertura espetacular", diz. "Ao continuarmos a estimular a comoção almejada pelos terroristas, nós encorajamos outras pessoas a fazer o mesmo."

Edgar Kellogg, um zero à esquerda e protagonista de "The New Republic", é a encarnação desse desejo por notoriedade a qualquer custo. Após dez anos como advogado de uma firma que presta serviços para Wall Street, Kellogg decide se tornar jornalista freelance, aos 37 anos, pois imagina a excitação e as incertezas da nova profissão.

"Na ambição de ser admirado, ele é inclinado a admirar os carismáticos." Por respeitar o trabalho de Toby Falconer, ex-colega de infância e repórter do jornal "National Record", Kellogg bate à porta do diário e é contratado como correspondente internacional. Ele recebe a missão de encontrar Barrington Sadler, repórter estabelecido em Barba e desaparecido há meses.

Barba é uma região inventada por Shriver ao sul de Portugal. Ali, os Soldados Ousados de Barba (SOB, sigla cujas iniciais podem significar um palavrão em inglês) usam táticas terroristas para reivindicar a independência daquele pedaço isolado de terra.

"Escolhi Portugal porque o país não tem um histórico de terrorismo", diz. "Eu queria que 'The New Republic' se passasse em um fim de mundo desconhecido. A ideia era gerar ironia ao criar uma península pobre com uma comida hedionda, cerveja detestável, tempo horrível, cultura insignificante, para a qual, de repente, atentados com bombas chamam a atenção." O fato de a maioria dos habitantes de Barba não querer independência torna a situação mais absurda, segundo a escritora.

"'The New Republic' satiriza os correspondentes internacionais pomposos e arrogantes", diz a escritora. "Estou muito atenta, atualmente, à dependência em relação a esses repórteres para obter informação sobre o resto do mundo." O entendimento de Shriver pode ser considerado privilegiado, pois alguns dos seus melhores amigos exercem aquela função. Há anos, ela escreve para veículos americanos e ingleses, como "The Economist", "The New York Times", "The Guardian" e "The Wall Street Journal", citados no seu novo livro.

Shriver costuma escrever romances em reação às notícias que consome com voracidade. Ela trata a realidade como a sua musa, tal como fez em seu livro anterior, de 2010, "Tempo É Dinheiro" (editora Intrínseca, 448 págs., R$ 39,90, traduzido por Vera Ribeiro), que está sendo lançado agora no Brasil. Ao relatar os dramas de duas famílias afetadas por doenças graves, o livro faz eco ao estado calamitoso do sistema hospitalar dos Estados Unidos. Os americanos penam para pagar tratamentos caríssimos e ter planos de saúde cuja cobertura de despesas é limitada.

Mas, ao contrário de "Tempo É Dinheiro", ela desempenhou em "The New Republic" uma função jornalística por vezes esquecida - antecipar as consequências dos fatos. Agora, Shriver é capaz de avaliar em retrospecto o fracasso da segurança na América, apesar do assassinato de Osama bin Laden há mais de um ano. "Os americanos não têm consciência de que permitiram que o terrorismo distorcesse o seu estilo de vida", diz. "George Bush Jr. estabeleceu uma política externa cujas diretrizes têm efeitos políticos equivalentes aos da atuação da mídia: dar mais moral aos terroristas."

Texto: Valor Econômico

Um comentário:

Leia-me Já! disse...

Lionel Shriver é uma das melhores escritoras contemporâneas, é uma pena que ela não seja tão apreciada aqui no Brasil quanto devia. Ótimo post!
Esse livro "the new republic" será lançada pela intrínseca em 2015! =D