quarta-feira, 25 de abril de 2012

Lev Sinovievitch Kopelev

Em entrevista à Deutsche Welle em novembro de 1992, Lev Kopelev afirmou: "Não existe outro exemplo de tamanha conexão entre dois povos como é a história do conhecimento mútuo entre alemães e russos". Esse era o foco de seus estudos em Wuppertal, no oeste da Alemanha. Durante dez anos, o escritor nascido em 9 de abril de 1912 em Kiev pesquisou as relações teuto-russas na universidade local.

Por mais que se sentisse ligado à terra de Goethe, Schiller e Thomas Mann, não foi por livre e espontânea vontade que ele passou os últimos anos de sua existência no país. Em fevereiro de 1981, o então chefe do Partido Comunista Russo, Leonid Brejnev, assinara sua expatriação. Na ocasião, Kopelev estava na Alemanha, pela primeira vez na vida.

Antes, ele fora repetidamente convidado para visitar o país, primeiramente pelo prêmio Nobel da Literatura Heinrich Böll, durante uma visita a Moscou em 1962. Na época, Kopelev queria ir à Alemanha, mas não podia. Os pedidos seus e de sua esposa Raissa Orlova – também escritora – eram sistematicamente negados. Em certo ponto, ambos desistiram da intenção.

O casal só voltou a apresentar um novo requerimento no início dos anos 80, a partir da promessa do regime soviético ao então chanceler federal alemão, Willy Brandt, de que os Kopelev poderiam retornar ao país de origem após a viagem. Esse era um ponto importante para o autor: a União Soviética era sua pátria. Uma pátria que ele amava. Apesar de tudo.

Lev Sinovievitch Kopelev nasceu na Ucrânia, na época parte da URSS. Filho de um agrônomo, estudou Germanística, Filosofia, Literatura e História e era considerado um paradigma moral. Em 1941, alistou-se no Exército Vermelho e tentou impedir os atos de crueldade durante a invasão da Prússia Oriental. Condenado por "propaganda burguês-humanista de compaixão com o inimigo", teve que passar quase dez anos na prisão.

Reabilitado em 1956, após a morte de Josef Stalin, tornou-se docente em Moscou. Porém, devido a seu empenho em prol dos críticos do regime a partir de 1966, as chicanas do Estado soviético voltaram a se intensificar. Após a experiência terrível nos campos de concentração do Gulag e a marcha das tropas do Pacto de Varsóvia sobre Praga e outras cidades, Kopelev renegou o comunismo, no qual depositara esperanças por tanto tempo.

Mais tarde comentaria assim esse processo: "Quando nos manifestamos contra a perseguição injusta de gente que pensava diferente, não se tratava de uma luta contra o regime. Queríamos tornar o regime justo. Queríamos aprimorá-lo, Queríamos reformá-lo. Não éramos revolucionários". Durante muito tempo, Kopelev e seus correligionários acreditaram ser possível reformar o regime soviético.

Porém em 1981 o Kremlin não mais os queria. "Pensávamos que as intenções deles eram honestas, que era um acordo entre cavalheiros", comentariam Kopelev e a esposa mais tarde, em relação à permissão de viajar. Na verdade, fora uma armadilha e, para o casal, um choque. "Ficamos amargurados e desolados." Por outro lado, a expatriação foi também "uma libertação de todas as obrigações em relação ao Estado soviético"

A cidade alemã de Colônia tornou-se a nova casa do casal. Era a partir dali que Kopelev lutava pela reconciliação entre russos e alemães. Em seu projeto de pesquisa em Wuppertal, ele estudou sobre a imagem que os russos faziam da Alemanha e a que a Rússia fazia dos alemães. E novamente encontrou Heinrich Böll, com quem mantivera uma amizade por correspondência durante duas décadas, desde a viagem do alemão a Moscou. Mais tarde, o dissidente russo declararia: "Ele foi uma das pessoas mais importantes de minha vida". Quando Böll faleceu, em 1985, Kopelev foi um dos que carregaram seu caixão.

O caminho do russo terminou em 18 de junho de 1997, em Colônia. Sua urna foi trasladada para Moscou, e suas cinzas sepultadas no Cemitério Donskoi, ao lado da esposa Raissa. Graças às mudanças políticas no Kremlin, o escritor ainda pudera visitar várias vezes a pátria russa, mas não quisera mais permanecer.

Em Colônia, às margens do Rio Reno, desde 2009 o Lew Kopelew Weg – um caminho de terra no Parque Beethoven – relembra o grande conciliador. Desde 2001, o fórum que leva seu nome concede, a intervalos irregulares, o Prêmio Lev Kopelev a pessoas, projetos ou organizações que atuam segundo o espírito do autor – entre duas pátrias.

Autoria: Michael Borgers (av)
Revisão: Luisa Frey

Nenhum comentário: