sexta-feira, 13 de abril de 2012

Jonah Lehrer: o prodígio que ilumina o cérebro


Há um momento familiar para qualquer pessoa que já tenha desperdiçado horas inocentes assistindo a desenhos animados antigos. Ocorre quando Wile e Coyote, Hortelino Troca-Letras, Popeye ou dezenas de outros personagens passam por um súbito momento de inspiração: uma lâmpada surge brilhando por cima de suas cabeças, iluminando o dilema.

Aha! Problema resolvido! E em seguida o personagem usa esse instante de genialidade para se arremessar de um precipício no deserto, disparar contra o maldito coelho ou recuperar uma lata perdida de espinafre e nocautear Brutus.

Diversão sem compromisso. Mas de acordo com os despachos da frente científica trazidos a nós por Jonah Lehrer, o menino prodígio da ciência popular, a imagem é literalmente verdadeira.

Existe de fato uma parte do cérebro associada a um súbito momento "aha!", a exemplo dos que acompanharam grandes descobertas de luminares como Isaac Newton e Arquimedes. Trata-se do giro temporal superior anterior, localizado no hemisfério direito do cérebro, logo acima da orelha. Quando você tem uma percepção súbita, ele registra forte aumento de atividade, como se uma lâmpada se acendesse.

Essa pequena pepita de informação --combinando cultura e ciência-- resume a rápida ascensão de Lehrer, um escritor precoce que vem ganhando terreno rapidamente no espaço editorial até agora reservado a Malcolm Gladwell, da revista "New Yorker".

Como Gladwell, Lehrer escreveu para a "New Yorker". Mas isso é apenas uma pequena porção de seu notável sucesso editorial. Ele é colaborador da bíblia nerd "Wired", publicou três livros, posta prolificamente em seu blog e tem espaço em publicações que variam do "Wall Street Journal" ao "Washington Post". O "New York Times" o definiu como "prodígio da ciência popular", e o "Los Angeles Times" certa vez o definiu como "um novo e importante pensador".

Nada mau para um escritor com apenas 30 anos. O território usual de Lehrer é a interseção entre as ciências físicas e as ciências humanas. Ele busca elos entre a arte e a neurologia, para explicar como reações químicas ocorridas em meio a uma massa cinzenta e esponjosa no interior de nossos crânios nos fazem amar, rir e levar adiante as nossas vidas.

Isso parece profundo, e boa parte da escrita de Lehrer envolve exemplos maravilhosos de colaboração entre o cérebro e a arte. Ele mostra como escritores e pintores anteciparam certas descobertas da neurociência, como partes diferentes de nossos cérebros batalham para tomar decisões, como a criatividade não é um dom divino reservado a alguns poucos mas pode ser compreendida, aprendida e fomentada.

Mas seu objetivo não deixa de despertar críticas. Enquanto algumas pessoas o veem como gênio, os detratores de Lehrer o acusam de repetir lugares comuns embalados em bela prosa. É um risco comum nesse campo. Ou, como disse Daniel Kahneman, psicólogo premiado com o Nobel de Economia por suas pesquisas quanto aos motivos para que as pessoas persistam em aceitar uma situação infeliz, "é preciso ter estudado Economia por muitos anos para se surpreender com as minhas pesquisas. Para minha mãe, nada do que eu digo parece novidade".

CIENTISTA HORRÍVEL

O "momento aha!" de Lehrer --e seu giro superior temporal anterior deve ter se iluminado como uma árvore de Natal-- surgiu quando ele estava trabalhando no laboratório do renomado neuropsiquiatra Eric Kandel, na Universidade Columbia, em Nova York.

Lehrer, demonstrando presciência quanto ao percurso futuro de sua carreira, estava estudando para obter um duplo diploma, em neurociência e literatura francesa. E quando estava ajudando em um projeto de estudo sobre a conexão molecular entre aromas e a memória, no laboratório de Kandel, avançou na direção de uma descoberta importante: "O que descobri foi que eu seria um cientista horrível", ele contou mais tarde a um entrevistador, lamentando os problemas que encontrou no trabalho prático de laboratório.

Mas não fez diferença, pois Lehrer havia começado a ler Marcel Proust, a caminho do trabalho, e se impressionou, em especial, com o tratamento dado por Proust ao aroma como gatilho para memórias. Lehrer descreveu o momento da seguinte forma: "Compreendi que Proust e a moderna neurociência compartilhavam de uma visão sobre como nossa memória funciona. Um ouvinte atento perceberia que estavam dizendo a mesma coisa".

Isso pôs fim às perspectivas de Lehrer como cientista mas deu início a uma carreira de escritor na qual ele funciona como intérprete entre o mundo da ciência e o das Humanas. Ao se formar em Colúmbia -onde foi editor da "Columbia Review"-, em 2003, ganhou uma bolsa Rhodes, o que o conduziu a Oxford. Chegou com um plano de estudar ciência, mas rapidamente alterou o curso e passou a estudar literatura e teologia.

Também terminou por viver em Londres, e não na cidade universitária. Foi lá que começou a escrever seu primeiro livro. "Proust Foi um Neurocientista", publicado em 2007, e deu início a uma carreira de sucesso no jornalismo.

Estreou com imenso sucesso. Lehrer estudou diversas figuras da cultura, tais como o pintor Paul Cézanne e a escritora Gertrude Stein, e estabeleceu que seus trabalhos prefiguravam descobertas da neurociência.

As pinturas semiabstratas de Cézanne permitem que a mente preencha as lacunas a fim de criar uma realidade: exatamente a maneira pela qual a visão talvez funcione. Stein prefigurou as estruturais neurais por trás da linguagem.

Foi um grande sucesso. "Lehrer se vê, e não sem razão, como uma terceira cultura de um homem só, servindo como ponte para cobrir a lacuna entre as ciências físicas e humanas", escreveu Simon Ings, no "Guardian".

Não resta dúvida de que Lehrer é muito inteligente. Nascido em 25 de junho de 1981, em Los Feliz, Angeles, seu pai, David, é um advogado defensor dos direitos humanos, e a mãe, Ariella, desenvolvia software educacional. Ele foi criado como parte de uma família feliz de classe média na ensolarada Califórnia, e os pais encorajavam a curiosidade quase maníaca do menino.

"Lembro da paciência com que minha mãe me ouvia tagarelar sobre meus mais recentes interesses", disse Lehrer ao "Observer". O interesse pela ciência sempre esteve presente, e foi confirmado quando ele visitou um primo, que estava fazendo o segundo grau, e entrou em um laboratório pela primeira vez.

Ele diz que ficou pasmo diante dos frascos e equipamentos. "Parecia a caverna de um mago", afirma. Depois de brilhar na escola, Lehrer conseguiu vaga na Universidade Colúmbia, onde conheceu Sarah Liebowitz, em um curso sobre Shakespeare. Ela o acompanhou à Inglaterra, onde trabalhou para o jornal "Boston Globe". Os dois se casaram em 2008, têm uma filha de 11 meses chamada Rose e moram em Hollywood Hills.

A localização parece perfeita. A estrada de Lehrer para o sucesso não apresentou grandes obstáculos. Depois de escrever sobre Proust, seu segundo livro tratava com maior profundidade da zona de penumbra entre a neurologia e a experiência humana, em "How We Decide", de 2009.

INDECISÃO

Estimulado por um momento de indecisão ao tentar selecionar uma marca de cereais em um supermercado lotado de marcas (experiência comum a muitos consumidores norte-americanos), Lehrer decidiu estudar o processo decisório humano. Começou por decisões dramáticas -um piloto que precisava pousar um avião avariado, um passe longo no Super Bowl, um físico que joga pôquer-, e estudou as questões neurológicas por trás delas.

Examinou como diferentes partes do cérebro cuidavam de diferentes decisões, e de que maneira isso causava impacto no mundo. Sua descrição da neurologia envolvida nas percepções de risco em longo prazo (em resumo, somos bem tolerantes a esse tipo de risco, mas a seção do cérebro que lida com o risco de curto prazo demonstra forte aversão a ele) ajuda a explicar em alguma medida as decisões horrorosas que resultaram em nossa atual crise econômica.

O trabalho foi seguido por "Imagine", seu terceiro livro, que trata da interação entre neurologia e criatividade. Longe de apontar que inovações são território reservado a gênios extraordinários, ele revela que existe ciência sólida por trás do processo criativo, e que é possível compreendê-lo neurologicamente e portanto alimentá-lo.

Não é por coincidência que as empresas mais inovadoras --entre as quais Google e 3M-- adotam culturas que encorajam pausas, tempo livre para que o pessoal trabalhe em projetos pessoais, e um ambiente de trabalho informal. Atividades como essas --que permitem que o inconsciente trabalhe em problemas sem interrupções, porque mantêm a mente consciente distraída-- apresentam índices de sucesso determinados pela neurologia. Lehrer diz que um estudo aponta até que as pessoas resolvem 30% mais enigmas depois de beberem um pouco.

Parece espantoso. Mas, pensando um pouco melhor, talvez não cause espanto às "pessoas comuns". Muita gente já resolveu um problema de trabalho depois de beber um cálice de vinho, para "relaxar no final do dia". E talvez esteja aí o verdadeiro gênio, o "momento aha!" de Lehrer. Ele tomou aquilo que já sabíamos por instinto e expôs a verdade científica que explica a questão -mas sem remover nada da beleza da vida.

Arte e emoções humanas --todos nossos fracassos, manias e trunfos-- talvez dependam apenas de compostos químicos e da operação dos neurônios, mas as palavras de Lehrer transformam o processo em música.

Tradução de PAULO MIGLIACCI.
PAUL HARRIS DO "OBSERVER"

3 comentários:

Renataale disse...

Interessante essa matéria...de repente coisas tão simples como a ingestão de vinho, por exemplo, pode ajudar a resolver problemas...a mente humana é sensacional...

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

não só por esta matéria, mas por várias outras máterias e dicas de livro, eu queria deixar aqui um agradecimento a você, Marcello. Seu blog é excelente. peguei várias dicas de livros ótimos aqui.
abraços!

Marcello disse...

Alexandre, eu que agradeço a sua visita. Meu blog foi feito pra compartilhar mesmo... Abraços