segunda-feira, 23 de abril de 2012

Aristodemo Becherini



Filho de Aurélio Becherini (1879-1939), considerado o primeiro repórter fotográfico paulistano, Aristodemo Becherini (1911-1985) começou a fotografar aos 14 anos, mas seu olhar estava relacionado à publicidade. Mesmo assim, em paralelo, registrou as ruas de São Paulo e diferentemente de seu pai, há momentos que sua obra deixa o puro caráter documental para esboçar um ensejo mais moderno.

"Ele constrói o cotidiano da cidade, mas não é um olhar ingênuo, é uma fotografia muito exata", diz Henrique Siqueira, diretor da Casa da Imagem, que inaugura amanhã a primeira mostra já realizada sobre o trabalho de Aristodemo Becherini.

Quando o fotógrafo morreu, sua filha, Araceli, doou ao Departamento do Patrimônio Histórico da Prefeitura paulistana cerca de 1,3 mil negativos e imagens que ele fez em sua vida. O acervo está guardado na Casa da Imagem, unidade do Museu da Cidade de São Paulo, assim como 419 chapas de vidro das obras de Aurélio - mas a coleção da família não compreende nada da produção do irmão de Aristodemo, Henrique, que foi seu sócio no estúdio fotográfico voltado para a criação de anúncios publicitários. Desse acervo, afinal, Siqueira fez seleção curatorial de apenas 24 imagens que formam a exposição Aristodemo Becherini: Entre a Cidade e a Publicidade, com fotografias criadas entre 1925 e 1952. "É o início da verticalização da cidade", afirma o curador.


Aristodemo não chegou a embarcar na experimentação pela qual a fotografia passava no fim da década de 1940 ou início dos anos 50, como se vê nas criações, por exemplo, dos fotocineclubistas - como Thomaz Farkas ou German Lorca. Mas justamente o contexto de verticalização de São Paulo propiciou ao fotógrafo registrar obras mais "modernas", como as em que destaca um prédio com elemento. Entre as peculiaridades da obra de Aristodemo, Henrique Siqueira cita imagens que ele realizou a partir do alto de edifícios ou fotografias noturnas que realçam os anúncios luminosos que surgiam na cidade.

Vê-se, assim, a transformação de São Paulo nos trabalhos do fotógrafo, mas é importante também ressaltar que Aristodemo pegou sua câmera muitas vezes para registrar fatos de época como o discurso de Luís Carlos Prestes em 1945 no Pacaembu, manifestações comunistas da década de 30, festas de carnaval, competições de regatas no Rio Tietê ou a construção da rodovia Anchieta - esses momentos estão nas obras e em vídeo.


Imaginação 

Ao mesmo tempo, a Casa da Imagem também inaugura amanhã uma exposição dedicada ao reverenciado fotógrafo Carlos Moreira. Desde 1964, ele fotografa diariamente - e a Praça Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo, é, sempre, um de seus locais preferidos.

O trabalho de Carlos Moreira não é documental. "Nunca fotografava São Paulo, era uma cidade imaginária", ele afirma em depoimento para o museu por ocasião de sua mostra. "Outras cidades se encontravam naquele ambiente. A fotografia é uma elaboração da imaginação."

Nas 28 fotografias que compõem A Praça Ramos de Azevedo na Fotografia de Carlos Moreira, com curadoria de Siqueira e Monica Caldiron, a localidade - com suas estátuas, arredores, transeuntes, frequentadores, moradores de rua - é o espaço para o fotógrafo ressaltar o humano. "Há as minúcias do movimento, a observação sutil", destaca a curadora.

A mostra apresenta um conjunto de obras - todas em preto e branco - criadas por Moreira entre a década de 1960 e os anos 2000. Inevitável perceber a transformação poética e íntima do olhar de um mestre.

Casa da Imagem. R. Roberto Simonsen, 136-B, Centro, 3106-5122. Até 29/7. QUANTO: Grátis.

Um comentário:

Malagoli Oj disse...

Tive oportunidade de conhecer o senhor Becherini. Conheci-o em 1968/69 e nos víamos diariamente; tinha um ateliê na Xavier de Toledo, ocasião em que comecei trabalhar com fotografia. Além de profissional ímpar, como pessoa era espetacular; vivia correndo mas, sempre encontrava paciência para nos ensinar algo. A última vez que estivemos junto foi em meados dos anos 70; saudades daqueles tempos. Parabéns pelo Blog.