sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Histórias de Livros: O Arco do Cego


"Girassol de Todos os Anos" é o nome da prancha, de gravador desconhecido.

Está numa obra de nome compridíssimo: "Alographia dos Alkalis fixos Vegetal ou Potassa, Mineral ou Soda e dos seus Nitratos, segundo as Melhores Memorias Estrangeiras que se Tem Escripto a este Assumpto", de 1798.

Quem a organiza e edita é Frei José Mariano da Conceição Veloso (1741-1811), que lançou quase uma centena de livros pela Tipografia Arco do Cego.

Nos duzentos anos de sua morte, Frei Veloso e seu Arco do Cego são temas do Seminário Mindlin 2011, que começa na quarta, às 19h (vá por aqui). 

Uma exposição é aberta na Pinacoteca no dia 24 (vá por aqui).

Sobre o Frei : 

José Mariano da Conceição Veloso (1741-1811), franciscano e naturalista mineiro, é desconhecido dos leitores. Sua importância pode ser medida pelo peso das duas instituições ligadas ao livro, a Biblioteca Nacional (RJ) e a Brasiliana-USP, que se preparam para realizar ao mesmo tempo – e sem saber uma da outra até agora -- eventos na passagem do bicentenário de sua morte. 

Frei Veloso foi o editor do Arco do Cego, uma casa editorial que publicou uma espécie de enciclopédia portuguesa: quase uma centena de livros, apesar do curto período (1799-1801) de funcionamento.

“Pode-se considerar Veloso como um pioneiro da indústria do livro no Brasil, pois, embora a editora funcionasse em Lisboa, estava voltada especialmente para o desenvolvimento da então colônia”, afirma o historiador Aníbal Bragança, professor na Universidade Federal Fluminense, que participará dos eventos no RJ. 

Em sua tipografia que era bastante moderna para a época, Frei Veloso lançou em língua portuguesa o que havia de mais recente na Europa. Por ela saíram inúmeras traduções de obras francesas e inglesas.

São principalmente livros de história natural aplicada, manuais de ensino de matemática, náutica, gravura, poesia e filosofia. “É quando Portugal assume o papel de incentivador da economia“, diz o historiador Pedro Puntoni, diretor da Brasiliana-USP, constituída a partir da doação do acervo do casal José e Guita Mindlin. 

Dona da mais completa coleção de livros do Arco do Cego, nem mesmo em Portugal há acervo tão numeroso, a Brasiliana-USP coloca todos os volumes on-line até o final do ano.


A Tipografia do Arco do Cego: Frei Veloso enciclopedista

A Tipografia do Arco do Cego pode ser considerada como uma espécie de Encyclopédie em Portugal. Com a proteção de d. Rodrigo de Sousa Coutinho, a casa de edição foi dirigida pelo brasileiro José Mariano da Conceição Veloso (1741-1811), frei franciscano e naturalista.

Veloso foi um dos mais importantes botânicos da época. Suas expedições pelo Rio de Janeiro, realizadas entre 1782 e 1790, foram idealizadas pelo Vice-Rei D. Luís de Vasconcelos e o levaram pela Serra do Mar, em direção a Santos, passando pela Ilha Grande e por Paraty, chegando até a Serra de Paranapiacaba. O naturalista, além de levar consigo alguns escravos, contou com a ajuda de dois religiosos, Frei Francisco Solano, que desenhou as espécies e Frei Anastácio de Santa Inês, encarregado das descrições das plantas. Depois de realizar pesquisas botânicas no Brasil, Veloso mudou-se para Lisboa, em 1790. Em 1809 voltou ao Rio de Janeiro, se estabelecendo no Convento de Santo Antonio, onde faleceu em 1811.

Quando chegou a Lisboa, levava consigo os manuscritos de uma obra botânica intitulada Flora Fluminensis, redigida em 1790 e impressa com as pranchas somente em 1831, já após sua morte. Não se sabe ao certo as razões para que a obra não tenha sido imediatamente publicada, já que o autor logo se associou a diversos empreendimentos editoriais. De todo modo, quanto mais passava o tempo, mais desatualizados ficavam os manuscritos, à luz dos saberes botânicos que se renovavam a cada dia. Veloso, apesar de sua longa prática em história natural, não havia seguido estudos formais e ficou à margem da Academia das Ciências de Lisboa. O frei, no entanto, integrou-se à rede de técnicos e naturalistas que gravitavam em torno de d. Rodrigo de Sousa Coutinho e de Domenico Vandelli, no circuito do jardim e do gabinete da Ajuda e de tipografias como a de Simão Thaddeo Ferreira.

Homens como ele, nascidos no Brasil, foram peças-chave na realização da política de modernização de Portugal, iniciada já em meados do século XVIII pelo ministro Marquês de Pombal. Na virada do século XVIII para o XIX, a presença desses brasileiros foi visível em diversos circuitos, notadamente na esfera do ministro d. Rodrigo de Sousa Coutinho e do naturalista paduano Domenico Vandelli, diretor do Jardim Botânico da Ajuda. Dentre os brasileiros do grupo encontravam-se Manuel Arruda da Câmara, José Feliciano Fernandes Pinheiro, João Mando Pereira e Antonio Carlos de Andrada e Silva. Nessa época, uma das principais iniciativas ilustradas foi justamente a criação da Tipografia do Arco do Cego, em Lisboa, dirigida Veloso. Essa casa de edição foi responsável pela publicação de inúmeras obras ligadas às práticas ilustradas européias e coloniais de exploração da natureza e desenvolvimento das ciências e das artes.

A Tipografia do Arco do Cego foi ativa entre 1799 e 1801. Além de ter publicado um número expressivo de livros, a editora funcionou como uma oficina para o aprendizado das artes tipográficas e da gravura. A profusão de imagens veiculadas por ela é até hoje de se admirar. A editora buscou adotar as técnicas mais modernas disponíveis na época. Além da modernização técnica, Veloso buscou divulgar o que havia de mais recente na Europa. Por ela saíram publicadas inúmeras traduções de obras francesas e inglesas, principalmente de história natural aplicada. Além disso, há manuais de ensino de matemática, náutica, gravura, há poesia e obras de caráter mais filosófico. Uma das marcas dos livros publicados por Veloso era o uso intensivo e didático de imagens.

A política editorial do Arco do Cego é característica de um momento de transformação nas práticas portuguesas vigentes até meados do século XVIII. Publicara-se muito pouco sobre a América portuguesa, já que as autoridades censuravam tudo aquilo que pudesse fornecer às potências européias informações sobre os produtos coloniais. Um dos mais marcantes exemplos dessa política de segredo que guiava as autoridades portuguesas foi a destruição do livro Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, do jesuíta Antonil (Giovanni Antonio Andreoni), publicado em 1711, por conter informações sobre localização de riquezas e métodos de preparo do açúcar. Em 1800, a política com relação à informação impressa se havia transformado: Frei Veloso publicou pelo Arco do Cego trecho do livro de Antonil intitulado Extracto sobre os engenhos de assucar do Brasil, e sobre o methodo já então praticado na factura deste sal essencial.

Muitos títulos publicados pela editora dizem respeito direta ou indiretamente ao Brasil. Na linha temática da divulgação de novas práticas agrícolas, descritas principalmente por autores franceses e ingleses, estavam em mira, além da própria agricultura portuguesa, a modernização da própria economia brasileira. Muitas memórias diziam respeito a métodos de produção de açúcar e outros produtos coloniais. Divulgava-se também o uso de máquinas simples que pudessem tornar mais produtivo o sistema de produção baseado no trabalho escravo.

Deste modo, a Tipografia do Arco Cego abarcou uma larga variedade temática, com ênfase na agricultura e nos conhecimentos que pudessem se revelar úteis para o crescimento de Portugal e seu imenso território americano.

O acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro contém inúmeras obras impressos do Arco Cego. Além disso, possui, desde a morte de Frei Veloso, diversas matrizes originais de cobre gravadas, produzidas pela tipografia. Ao que tudo indica, essas placas haviam sido encaminhadas à Impressão Régia no Brasil e posteriormente ficaram com o religioso.

Texto original desse site aqui
Trabalho de pós-graduação sobre o assunto em PDF aqui
Texto de Josélia Aguiar na Folha de Sp

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