quarta-feira, 6 de abril de 2011

Safo


Coerente com sua reputação de poetisa e amante, a obra de Safo mistura um lirismo tangível com encantos eróticos. Altamente conceituados por toda a Antiguidade, seus poemas foram reunidos em nove volumes para a extinta biblioteca de Alexandria.

Safo chegou a dar nome a uma métrica inspirada na estrutura de seus versos, com três estrofes longas e uma final, mais curta, como um suspiro de desejo. Sua popularidade permitiu que fragmentos de seus poemas fossem encontrados na prosa de muitos filósofos gregos, bem como de forma mais romântica, em pedaços de papiro no deserto.

A vida de Safo é um enigma, quase tão complexo quanto suas obras, o que não impediu que poetas, de Ovídio a Mary Robinson, escrevessem de modo ardente e fundamentado sobre ela.

A biografia mais aceita, que combina interpretação poética e lendas, sustenta que era uma aristocrata pertencente a uma comunidade artística e religiosa feminina em Lesbos. Teria sido exilada para a Sicília depois de um golpe, e dado luz à uma filha, Cleis. Segundo a lenda, ela teria cometido suicídio por ter sido rejeitada pelo barqueiro Faron.

O Século XIX apresentou uma Safo mais enquadrada, diretora de uma escola para meninas. Os estudiosos do período clássico do século XX discutiram se seus poemas belos e sensíveis, que lamentavam o casamento de amigas queridas, seriam apenas canções tradicionais de núpcias.

Independente dessas objeções, Safo continua sendo uma referência às lésbicas por seu olhar sensual sobre as mulheres, em especial no fragmento 31, em que se imagina em um triângulo amoroso, observando cheia de desejo a mulher que flerta com um homem.

Baseado ou não em fatos biográficos, e sobrevivendo por meio de fragmentos e traduções, os poemas de Safo são capazes de emocionar qualquer homem ou mulher que já tenha experimentado o amor.


1.

Tronirisada, Afrodite imortal,
filha de Zeus, ó tecelã de ardis,
não domes, peço, a audácia com angústia,
senhora do amar.

Mas desce e vem, como vieste antes
quando gritei, e ouvindo ao longe a voz
te apressaste em partir do puro ouro
da mansão de Zeus;

ataste à carruagem teus pardais
velozes - mancha trêmula no céu
à terra negra te trazendo: rápida
seta sangra o ar -

e logo: tu e eles; e de mim
tu riste, eterna deusa, ao perguntar-me
por que de novo eu te chamava e qual
dor a desta vez;

qual era em meu selvagem coração
o afã mais forte; e: "quem eu tenho agora
que convencer a amar-te, Safo? Quem
te quer tanto mal?

prometo: se fugir, perseguirá;
se presentes recusa, ela os dará;
se não te ama, ela virá te amar,
mesmo sem querer?"

Vem agora e esta angústia amarga mata,
sacia tudo que em meu seio é ânsia,
teu corpo em carne desce e une ao meu
teu braço e tua flecha.

2.

E tanto eu quis a morte:
do meu abraço ela caía embora.

me disse o sal das lágrimas:
"que sorte má nos marca;
ah, Safo, o coração não quer partir."

eu disse: "vai e vive
feliz para sempre e lembra-me
no tempo em que o prazer foi nossa presa.

se não, te lembro agora:
com violeta e rosas
teci a tua trança; um toque só

do seio alastra incêndios;
teu colo eu quis guirlanda
de flor corando flor; e ungüentos raros

- olor de longe vindo
que só rainha aroma -
brilhei-te; minha mão te adormeceu

na mais macia cama;
voraz desejo-vento
saciei-te, amantes-ímã.

(tradução de Alvaro Antunes)

3


Não minto: eu me queria morta.
Deixava-me, desfeita em lágrimas:

"Mas, ah, que triste a nossa sina!
Eu vou contra a vontade, juro,
Safo". "Seja feliz", eu disse,

"E lembre-se de quanto a quero.
Ou já esqueceu? Pois vou lembrar-lhe
Os nossos momentos de amor.

Quantas grinaldas, no seu colo,
— Rosas, violetas, açafrão —
Trançamos juntas! Multiflores

Colares atei para o tenro
Pescoço de Átis; os perfumes
Nos cabelos, os óleos raros

Da sua pele em minha pele!
[...]
Cama macia, o amor nascia
De sua beleza, e eu matava
A sua sede" [...}

Cai a lua, caem as plêiades e
É meia-noite, o tempo passa e
Eu só, aqui deitada, desejante.

— Adolescência, adolescência,
Você se vai, aonde vai?
— Não volto mais para você,
Para você volto mais não. 

Tradução: Décio Pignatari

Texto: 501 Grandes Escritores
Poemas: Pesquisa Google

Nenhum comentário: