quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Fotografia


O livro reúne 500 imagens da capital francesa feitas por Robert Doisneau (1912-1994). O volume mostra Paris e seus personagens em imagens e anotações extraídas de cadernos pessoais do fotógrafo. Doisneau soube compreender a essência do mundo urbano como um organismo vivo, mostando uma interação entre arquitetura, espaço público e seus habitantes. Com belos trabalhos para as revistasVogue, Life e Paris Match, ele viu nas ruas a possibilidade de fazer uma leitura poética e fluída da vida, muitas vezes com toques surreais. Conhecido por suas composições em preto-e-branco, de grande elegância, sensualidade e humor, o artista influencia até hoje gerações de fotógrafos, que se inspiram na sua abordagem lírica e incisiva do cotidiano.

Robert Doisneau (1912-1994), um dos mais proeminentes fotógrafos da escola francesa, conhecida pelo enfoque humanista geralmente captado em flagrantes reveladores nas calçadas das ruas, tem agora parte de seus mais de 400 mil negativos editados na obra Paris Doisneau.

Formado em litografia, Doisneau aprendeu a fotografar de forma autodidata nos anos 1930, momento em que as primeiras câmeras mais leves e velozes permitiam congelar imagens em movimento, gerando cenas com grande naturalidade. A esse fator acrescentou composições em preto-e-branco de grande elegância, sensualidade e humor, que se tornariam sua assinatura. Até hoje gerações de fotógrafos se inspiram na sua abordagem lírica e incisiva do cotidiano.

Doisneau iniciou sua carreira em 1934 na fábrica da Renault, em Billancourt, como fotógrafo industrial e de publicidade. Quando intencionava se tornar repórter fotográfico independente, foi convocado, em 1940, a servir o exército francês. Assim se tornou fotógrafo da Resistência até o fim da II Guerra Mundial.

Em 1949, assinou contrato com a Vogue, onde atuou até 1952. Embora tenha feito belos trabalhos na área da moda, era a rua e a possibilidade de fazer uma leitura poética e fluida da vida, muitas vezes com toques surreais, que lhe atraia. A partir de então dedicou-se a encarnar a figura de um cronista dos mais atentos, construindo sua imensa iconografia nas calçadas, esse grande teatro a céu aberto.

Paris Doisneau, lançado em 2009 na França pela editora Flammarion, mostra a capital francesa e seus personagens ao longo de seis décadas. A obra subdivide suas 400 páginas em cinco capítulos: "Paris por acaso", "Paris se revolta", "Paris dos parisienses", "Paris se diverte" e "Paris concreto".


"Paris por acaso" abre o livro no estilo street photographer, com imagens realizadas no entorno da Torre Eiffel e em diversos outros monumentos e locais clássicos que auxiliaram a fazer de Paris o ícone máximo da cidade romântica. Chama a atenção neste bloco a dança formada pelas múltiplas imagens sob o título “Le Ballet des Passants” (1969) com pedestres atravessando ruas com carros ao fundo. Uma coreografia urbana que revela um fotógrafo astuto e bem humorado. O mesmo olhar astuto se percebe na sequência “La vitrine de Romi” (1948), na qual Doisneau flagra com câmera oculta a expressão das pessoas que observam a pintura de um nu feminino. Integra ainda este capítulo a histórica e controvertida fotografia “Le Baiser de l’ Hôtel de Ville”, símbolo máximo do romantismo parisiense dos anos 1950.

Tempos atrás veio à tona que o apaixonado casal posou para as lentes do fotógrafo. Até hoje a imagem serve para inflamar discussões sobre a legitimidade de fotos encenadas dentro do fotojornalismo. À despeito desta discussão, a imagem se mantém como uma das mais célebres do século XX.

Em "Paris se revolta" o destaque são os históricos cliques da cidade ocupada durante a II Guerra Mundial, com enfoque para os efeitos do conflito sobre o cotidiano dos cidadãos. Dessa forma vemos barricadas, pessoas atentas aos alertas de bombardeio, escondidas em abrigos, e o general Charles de Gaulle comandando as forças da Resistência.

O capítulo "Paris dos parisienses" é dedicado aos mercados populares, aos comerciantes, à região de Les Halles, às cartomantes, à curiosa fotomontagem “La Maison des Locataires” (1962), cenas no rio Sena e de tantos outros locais que temos a impressão que Doisneau nos pega pela mão para acompanhá-lo nesta que foi a maior diversão de sua vida: dobrar à deriva as esquinas parisienses acompanhado de sua câmera.

Cenas de cabarés com lindas garotas nuas disputando vaga no Concert Mayol são o destaque do capítulo "Paris se diverte", bem como as requintadas imagens de moda realizadas por Doisneau durante e após seu período na Vogue.


Gigantescos e insípidos arranha-céus fotografados a partir da segunda metade da década de 1960 surgem em contraponto à arquitetura luxuosa de séculos anteriores nas fotos de "Paris concreto", para encerrar o livro em tom crítico e um tanto desolado em ver as mudanças de uma cidade impactada pela necessidade de se modernizar. “O que mais me incomoda é a perda do meu oásis”, escreveu o artista em um texto de 1984 que serve de introdução ao volume.

Em diversas entrevistas, Doisneau disse ter perdido o interesse em fotografar quando percebeu que a ingenuidade havia se tornado um aspecto raro no mundo. Para quem observa em retrospectiva suas fotografias, reunidas neste livro, fica claro que para um artista que constrói uma obra humanista de extremo apreço pelas relações sociais, a ingenuidade e a crença no próximo foram de fato sua principal matéria prima.



Fonte: CosacNaify

Um comentário:

: A Letreira disse...

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