terça-feira, 16 de novembro de 2010

Designs on Film


Um viva aos cineastas que conseguem, por meio do décor, nos fazer viajar no tempo, nos transportar a mundos distantes, nos instigar e nos deleitar com histórias passadas ou projetadas no futuro. É sabido que o cérebro humano processa o visual mais rapidamente do que a informação verbal, daí a importância dos cenários de um filme, independentemente do roteiro.

Se bem construído e imaginado, o ambiente criado pelo cineasta pode servir como lição de estilo, aportar cultura, ensinar história e ainda contextualizar hábitos e costumes de um determinado período. Um ótimo exemplo é A Época da Inocência, filme de 1993, dirigido por Martin Scorsese e baseado no livro homônimo de Edith Wharton.

A opulência dos ambientes criados por Scorsese é uma lição sobre o estilo vitoriano, adotado pela alta burguesia americana de hábitos aristocráticos na Nova York da virada do século 19. Para ser o mais fiel possível ao mundo criado por Wharton - coautora de The Decoration of Houses, de 1898, considerado o primeiro tratado sobre decoração do mundo -, o cineasta contratou a historiadora de arte e decoradora Robin Standefer, que se dedicou por dois anos à tarefa de compor os ambientes em cada mínimo detalhe.

Para Scorsese, a montagem dos cenários é o único elemento puro e original do cinema. Por isso, escolheu como locação das filmagens a pequena cidade de Troy, no Estado de Nova York, onde alguns edifícios permanecem intactos desde o início do século 20.

Outro filme de extasiar os fãs do design de interiores é Violência e Paixão, de Luchino Visconti, autor de filmes fascinantes em matéria de roteiro, costumes e décor - como O Leopardo, Ludwig - A Paixão de um Rei e Morte em Veneza. Em Violência e Paixão, Visconti nos remete a um belo palácio romano, onde um solitário professor vive dedicado à sua coleção de pinturas inglesas do século 18. São as conversation pieces, que mostram cenas idílicas de famílias da aristocracia ou da alta burguesia entre crianças, cachorros e cavalos. De um dia para o outro, o mundo do velho professor é invadido por uma família sem escrúpulos, que aluga o segundo andar do palácio.


A decoração contemporânea escolhida pelos recém-chegados, típica dos anos 70, se contrapõe à preciosa ambientação original, ainda presente no andar de baixo, onde predominam afrescos, paredes marmorizadas, livros e antiguidades. Os cenários, fruto da imaginação de Visconti, compõem um mundo fictício, criado a partir de elementos do barroco romano e da reprodução em estúdio de detalhes verdadeiros, como a fachada da Villa Falconieri, em Frascati, e a decoração do Palazzo Madama, em Roma.

A inspiração teria sido o escritor e colecionador italiano Mario Praz, morto em 1982, também um solitário morador de palácio, apaixonado por móveis e objetos do século 19 e que concebia a vida como um teatro. No entanto, ao contrário do professor no filme ou do próprio Visconti, Praz, autor de livros como A Casa da Vida e Uma História Ilustrada da Decoração, era dono de um estilo mais funéreo, neoclássico e decadente.

Quem se interessa por outros estilos de decoração pode aprender - e se divertir - com filmes em que o decorador é ele mesmo o personagem principal. É o caso de Confidências à Meia-Noite, onde uma Doris Day bem vestida, morando num apartamento supercool, se vinga do namorado infiel ao criar em seu bachelor-flat, um horrendo décor. Ou de Mais uma Vez Adeus, de 1961. Baseado no romance Bom Dia Tristeza, de Françoise Sagan, traz Ingrid Bergman no papel de Paula, a decoradora bem-sucedida que vestia Christian Dior e usava joias Van Cleef & Arpels.

E, aos que lamentam a ausência de um livro sobre o tema, uma notícia animadora: no próximo dia 30, a Harpers Collins lança, nos EUA, Designs on Film - A Century of Hollywood Art Direction. No livro, a autora Cathy Whitlock, depois de muito ver filmes e de pesquisar no Art Directors Guild, narra a evolução da direção de arte no cinema, do século 20 aos dias de hoje.


Cathy, jornalista que é também decoradora, discute desde a portentosa arquitetura de Cleópatra - idealizada pelo produtor de arte John DeCuir - aos efeitos digitais do novíssimo Avatar. Com quase 400 fotos e ilustrações, ela mostra como, nos tempos pré-computador, muitos produtores e diretores de arte eram, de fato, talentosos artistas e artesãos, capazes de pintar ambientes realistas em magníficas aquarelas.

O livro nos apresenta profissionais como William Cameron Menzies, que em 1939, idealizou todos os cenários de ...E O Vento Levou - incluindo o famoso incêndio de Atlanta. Foi dele a ideia de usar veludo vermelho no salão de Belle Watling e também a façanha de colocar, no mesmo ambiente, o retrato de um nu que passou despercebido da censura.

E fala também de Edith Head, a designer cuja enorme habilidade pode ser medida pela adoração que lhe tinha Alfred Hitchcock. O mestre do suspense tinha horror a tudo que fosse eye-catcher, ou seja, a qualquer elemento que desviasse da trama de seus filmes o olhar do espectador.


Fonte: Estado de Sp

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