quarta-feira, 13 de outubro de 2010


Renascimento do Harlem foi o movimento cultural afro-americano do final dos anos 1920, início da década de 1930, e que nasceu na área do Harlem, cidade de Nova York. Conhecido por diferentes nomes — Novo Movimento Negro, Novo Renascimento dos Negros e Renascimento dos Negros — o movimento surgiu quase no fim da Primeira Guerra Mundial, em 1918, floresceu na metade final dos anos 1920 e perdeu força na primeira metade dos anos 1930. 

O renascimento do Harlem representou a primeira vez que editores e críticos influentes levaram a sério a literatura afro-americana e que as artes e a literatura afro-americanas atraíram a atenção da nação de forma significativa. Ainda que tenha sido, principalmente, um movimento literário, também ocorreram manifestações na música, no teatro, nas artes em geral e na política afro-americana.

O renascimento do Harlem surgiu em meio à revolta social e intelectual que explodiu na comunidade afro-americana no começo do século XX. Vários fatores contribuíram para criar as bases do movimento. Na virada do século XIX, após a Guerra Civil Norte-americana, desenvolveu-se uma classe média negra, favorecida pelo aumento de oportunidades de educação e de emprego. Durante e depois da Primeira Guerra Mundial, ocorreu um fenômeno conhecido como Grande Migração: centenas de milhares de negros americanos deixaram o Sul dos Estados Unidos, rural e em depressão econômica, para buscar, nas cidades industriais do Norte, melhores opções de trabalho.


À medida que um número cada vez maior de negros com educação acadêmica e socialmente conscientes se estabelecia no Harlem, a área se transformava no centro político e cultural da América negra. Outro fator de igual importância da década de 1910 foi o surgimento de uma nova agenda política na comunidade afro-americana, especialmente entre sua classe média emergente que defendia a igualdade racial.

Esta agenda era defendida pelo historiador e sociólogo negro W. E. B. Du Bois e pela Associação Nacional para o Desenvolvimento do Povo Negro (Naacp), que foi fundada em 1909 para lutar pelos direitos dos negros. Os esforços do nacionalista negro jamaicano Marcus Garvey, cujo movimento Back to Africa inspirou o orgulho racial entre os negros nos Estados Unidos, refletiam essa nova política. A arte e a literatura norte-americana tinham começado a se desenvolver um pouco antes da virada do século XIX. 

Nas artes dramáticas, o teatro musical negro apresentou artistas como os compositores Bob Cole e J. Rosamond Johnson, irmão do escritor James Weldon Johnson. O jazz e o blues foram trazidos pelas populações negras do Sul e do Centro-oeste para os bares e cabarés do Harlem. 

Na literatura, a poesia de Paul Laurence Dunbar e a ficção de Charles W. Chesnutt, no final da década de 1890, foram algumas das primeiras obras de afro-americanos a receber reconhecimento nacional. Ao final da Primeira Guerra Mundial, a ficção de James Weldon Johnson e a poesia de Claude McKay anteciparam a literatura que surgiria nos anos 1920, ao descrever a realidade da vida dos negros nos Estados Unidos e sua luta por uma identidade própria.

No início da década de 1920, três obras marcaram a energia criativa da literatura afro-americana. O livro de poesias de McKay, Harlem Shadows (1922), foi uma das primeiras obras de um escritor negro publicada por uma editora influente e de âmbito nacional (Harcourt, Brace and Company). Seguiu-se Cane (1923), de Jean Toomer, romance experimental que misturava poesia e prosa ao documentar a vida dos negros no Sul rural e no Norte urbano. 

Por fim, There Is Confusion (1924), primeiro romance do escritor e editor Jessie Fauset, descreveu a vida da classe média dos negros a partir de uma perspectiva feminina. Tendo estas obras como base, três fatos entre 1924 e 1926 deram início ao renascimento do Harlem. O primeiro aconteceu no dia 21 de março de 1924, quando Charles S. Johnson, da Liga Urbana Nacional — fundada em 1910 para ajudar os negros a lidar com os problemas econômicos e sociais que encontravam enquanto se restabeleciam na área urbana do Norte dos Estados Unidos — ofereceu um jantar para os novos talentos literários negros e, também, para apresentá-los à comunidade literária branca.

Como conseqüência desse jantar, a The Survey Graphic, uma revista de crítica e análise social interessada em pluralismo cultural, produziu uma edição sobre o Harlem em março de 1925. Com o objetivo de definir a estética da literatura e da arte negras, a edição do Harlem apresentou obras de escritores americanos e foi editada pelo filósofo negro e acadêmico de literatura Alain LeRoy Locke. O segundo acontecimento foi a publicação de Nigger Heaven (1926), do romancista branco Carl van Vechten.

O livro foi uma espetacular revelação da vida no Harlem. Apesar de ter ofendido alguns membros da comunidade negra, sua abordagem, que abrangia tanto a elite quanto o lado mais pobre do Harlem, ajudou a criar uma "moda negra". Esta nova concepção trouxe milhares de nova-iorquinos sofisticados para a vida noturna exótica do Harlem, estimulando o mercado para a literatura e a arte afro-americanas. Finalmente, no outono de 1926, um grupo de jovens escritores negros publicou sua própria revista literária, Fire!!, e com ela, uma nova geração de jovens autores e artistas, incluindo Langston Hughes, Wallace Thurman e Zora Neale Hurston, passaram a fazer parte do Renascimento literário.

O renascimento do Harlem não tinha uma ideologia política ou estilo literário comum. O ponto de união dos participantes era a consciência de estar fazendo parte de um movimento que pretendia dar expressão artística à experiência afro-americana. Existiam alguns temas comuns, como interesse pelas raízes africanas e sulistas, um forte sentimento de orgulho racial e o desejo de conseguir igualdade política e social. Mas o aspecto mais característico do renascimento do Harlem foi a diversidade de sua expressão.

Da metade da década de 1920 até a metade dos anos 1930, cerca de 16 escritores negros publicaram mais de 50 obras de poesia e ficção, enquanto dezenas de outros artistas afro-americanos deram contribuições nas áreas da pintura, da música e do teatro. A expressão literária do renascimento do Harlem ia desde a mistura dos ritmos da música afro-americana, existente em The Weary Blues (1926), poemas sobre a vida no gueto de autoria de Langston Hughes, até o uso de sonetos nos apaixonados poemas contra a violência racial que existem em If We Must Die (1919), de Claude McKay, escritor que também apresentou aspectos sofisticados da vida no Harlem em Harlem Shadows.


Countee Cullen usou tanto as imagens européias, quanto as norte-americanas, para explorar as raízes africanas da vida do negro norte-americano. No poema Heritage (1927), por exemplo, Cullen aborda a questão daqueles que são cristãos e africanos, embora não pertençam inteiramente a nenhuma das duas tradições. Quicksand (1928), da romancista Nella Larsen, ofereceu um estudo psicológico da perda de identidade de uma afro-americana, enquanto o romance de Zora Neale Hurston, Their Eyes Were Watching God (1937) usou a vida do negro no Sul rural para criar um estudo brilhante sobre raça e identidade pessoal.

Com o passar do tempo, a diversidade e a experimentação também floresceram nas artes dramáticas e foram refletidas nas composições de blues de Bessie Smith e nas músicas do jazz, gênero musical que ia desde o casamento do blues e do ragtime do pianista Jelly Roll Morton à instrumentação de Louis Armstrong e à orquestração do compositor Duke Ellington

O artista Aaron Douglas adotou um estilo deliberadamente "primitivo" e incorporou imagens africanas às suas pinturas e ilustrações. O renascimento do Harlem atraía uma platéia heterogênea. A literatura agradava à classe média afro-americana e ao consumidor literário branco. Revistas como The Crisis, publicação mensal da Naacp, e Opportunity , uma publicação oficial da Liga Urbana Nacional, empregavam escritores do renascimento do Harlem em suas equipes editoriais, publicavam poesias e contos de escritores negros e promoviam a literatura afro-americana através de artigos, críticas e prêmios literários anuais. 


No entanto, além dessas importantes formas de divulgação, o renascimento dependia, ainda, das editoras e revistas dos brancos. Mesmo que o relacionamento entre os escritores do renascimento, os editores e o público branco tenham gerado controvérsia, o renascimento foi responsável por abrir as portas das principais editoras e revistas dos brancos para os negros. Enquanto a maioria dos críticos afro-americanos apoiava esse relacionamento, Du Bois e outros faziam críticas veementes e acusavam os escritores do renascimento de reforçar negativamente os estereótipos afro-americanos.

Langston Hughes defendeu a maioria dos escritores e artistas em seu ensaio The Negro Artist and the Racial Mountain (1926) ao afirmar que os artistas negros pretendiam se expressar livremente, sem importar o que o público negro ou branco pensava a respeito. Os músicos e outros artistas afro-americanos também se apresentavam para platéias diversificadas. Os cabarés do Harlem atraíam os moradores da vizinhança e os nova-iorquinos brancos que procuravam diversão.

A famosa casa noturna, Cotton Club, levou essa situação ao extremo, oferecendo entretenimento de negros para platéias exclusivamente brancas. Cada vez mais, músicos e artistas de sucesso, que agradavam a platéias influentes, tiravam seus espetáculos da periferia para se apresentarem no centro da cidade.

Vários fatores contribuíram para que, na metade da década de 1930, começasse o declínio do renascimento do Harlem. A Grande Depressão aumentou os problemas econômicos em todos os setores da vida. Organizações como a Naacp e a Liga Urbana Nacional, que tinham promovido de forma ativa o renascimento em 1920, na década seguinte passaram a dirigir seus interesses para questões econômicas e sociais.

James Weldon Johnson
Muitos escritores e divulgadores literários negros, como Hughes, James Weldon Johnson, Charles S. Johnson e Du Bois, deixaram a cidade de Nova York no começo da década de 1930. Por fim, em 1934 houve um tumulto no Harlem causado pela crescente crise econômica decorrente da Depressão e pela tensão acumulada entre a comunidade negra e os comerciantes brancos.

Esse episódio destruiu a imagem do bairro como a meca do renascimento negro. Apesar destes problemas, o movimento não desapareceu da noite para o dia. Quase um terço dos livros publicados durante esse período foram republicados após 1929.

O renascimento do Harlem acabou quando a maioria dos seus adeptos deixou o Harlem ou parou de escrever, pois os jovens artistas, surgidos nas décadas de 1930 e 1940, não se associaram ao movimento.O renascimento do Harlem transformou, para sempre, a dinâmica das artes e da literatura afro-americana nos Estados Unidos. Os escritores dos anos 1930 e 1940 descobriram que os editores e o público estavam mais receptivos à literatura afro-americana do que tinham estado no início do século. Além disso, a existência da literatura afro-americana do renascimento inspirou escritores como Ralph Ellison e Richard Wright a seguir a carreira literária no final das décadas de 1930 e 1940. 

Toni Morrison
A profusão literária afro-americana dos anos 1980 e 1990, com autores do porte de Alice Walker e Toni Morrison, tem suas raízes nas obras do renascimento do Harlem. A influência do movimento não se limitou aos Estados Unidos. Os escritores McKay, Hughes e Cullen, o ator e músico Paul Robson, a dançarina Joséphine Baker e outros artistas viajaram para a Europa e lá alcançaram uma popularidade igual ou maior que a que tinham nos Estados Unidos.

O escritor sul-africano Peter Abrahams referiu-se à antologia do renascimento do Harlem, The New Negro (1925), como o motivo que o levou a seguir a carreira de escritor. Para milhares de negros no mundo todo, o renascimento do Harlem foi a prova de que a raça branca não detém o monopólio da cultura e da literatura.

Pesquisa: Marcello Lopes
Fonte das Fotos: Google

Um comentário:

La_no_Fundo disse...

Muito interessante e boa demais a informação.