terça-feira, 27 de julho de 2010

Jung e o Livro Vermelho


Inédito no Brasil e guardado durante décadas antes da primeira edição, o enigmático livro que está no centro da obra de Carl Gustav Jung (1875-1961) descreve a jornada interior do psicanalista suíço em busca do autoconhecimento.

"O Livro Vermelho" assim chamado devido à cor da capa que cobria os originais deixados por Jung e é pontuado pela descrição de sonhos, fantasias e visões e foi concebido entre 1913 e 1930, como decorrência de um autoexperimento: o "confronto com o inconsciente".

"O espírito dessa época em mim queria muito conhecer a grandeza e amplidão do sentido supremo, mas não sua pequenez. Mas o espírito da profundeza venceu este orgulho, e eu tive de engolir o pequeno como um remédio da imortalidade", diz Jung.

A obra, escrita em alemão arcaico, é intercalada por imagens criadas pelo próprio psicanalista. "Minha linguagem é imperfeita. Não que eu queira brilhar com palavras, mas por incapacidade de encontrar aquelas palavras é que falo em imagem. Pois não posso pronunciar de outro modo as palavras da profundeza", escreve.

Editado pelo historiador junguiano Sonu Shamdasani, "O Livro Vermelho" (Vozes,Trad. Edgar Orth, Gentil A. Titton e Gustavo Barcellos, 372 págs., R$ 480) só foi publicado pela primeira vez em 2009, na Europa e nos EUA. A edição brasileira, bilíngue, traz o fac-símile do texto original manuscrito.



Quem é Jung ?

Graduou-se em medicina em 1902, pelas universidades de Basiléia e Zurich, teve amplo conhecimento cultural e intelectual.

Jung elaborou uma variação sobre a obra de Sigmund Freud e a psicanálise, interpretando os distúrbios mentais como uma forma patológica de procurar a auto-realização pessoal e espiritual.

Ele nasceu no ano de 1875, em Kesswil, Suíça. Seu pai era um pastor protestante, e, sua vivência, aguçou o pensamento analítico de Jung acerca da espiritualidade.

Iniciou seus trabalhos pesquisando as associações verbais, estes estudos proporcionaram-lhe reconhecimento internacional, além de, um período de bastante proximidade com Freud.

Entretanto, com a publicação do livro “Transformações e símbolos da libido” (1912), ocorreu o rompimento do relacionamento entre Jung e Freud. Posteriormente, Jung estabeleceu um estreito paralelismo entre os mitos arcaicos e as fantasias psicóticas, explicando as motivações humanas em termos de energia criativa.

Dois anos depois, abandonou a presidência da Sociedade Internacional Psicoanalítica para fundar um movimento denominado psicologia analítica.

Nos últimos 50 anos de sua vida, Jung dedicou-se a desenvolver suas teorias, aplicando uma ampla erudição sobre mitologia e história, realizou viagens com o objetivo de conhecer as diversidades culturais, além de trabalhar os sonhos e fantasias de sua infância.

Em 1921, publicou outra de suas principais obras: “Tipos Psicológicos”. Nesta obra, ele abordou a relação entre o consciente e o inconsciente propondo a diferenciação de tipos de personalidade: extrovertida-introvertida.

Por último, fez uma diferenciação entre o inconsciente individual e o inconsciente coletivo, que, segundo ele, possuía sentimentos, pensamentos e recordações que condicionavam cada sujeito (desde seu nascimento), inclusive, em sua forma de simbolizar os sonhos.


O inconsciente coletivo contém arquétipos, imagens primitivas, primordiais, as quais se recorrem em situações como a confrontação com a morte, ou na escolha de um parceiro, ou, ainda, na manifestação de elementos culturais como a religião, os mitos e lendas populares.

O enfoque terapêutico de Jung se dirigia a reconciliar os distintos estados da personalidade, que não está somente dividia em introversão e extroversão, mas, em sensações e intuição, em sentimento e pensamento.

A partir do momento em que compreende como ocorre a integração do inconsciente pessoal com o coletivo, o paciente alcançará um estado de individualização, ou seja, a totalidade em si mesmo.

Jung escreveu várias obras, especialmente sobre os métodos analíticos e as relações entre psicoterapia e crenças religiosas. Faleceu em 1961, em Kusnacht, Suíça.

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