segunda-feira, 14 de junho de 2010

Entrevista de Ferreira Gullar para a Folha de Sp

Reproduzo aqui a entrevista que o poeta Ferreira Gullar concedeu à Folha de Sp, e grifo as partes que mais me marcaram e comento logo abaixo em vermelho quando me convém.

Folha - Por sua história política, muita gente estranha o senhor ser um dos principais críticos do Lula.

Ferreira Gullar - Não é que seja um crítico ferrenho, tento ser objetivo. Eu me preocupo com o futuro do meu país. O Lula é um farsante, não merece confiança. Não entendemos o que ele faz. Como abraçar o Ahmadinejad [presidente do Irã], de um regime que é uma ditadura teocrática, que realizou uma eleição fraudada. O povo protestou contra o resultado e o Lula disse que aquilo é choro de perdedor, como se fosse uma partida de futebol.

E o povo tá na rua, sendo reprimido, gente morrendo. Por que um presidente brasileiro vai dar apoio a um governo desse? Não entendo o interesse do Lula lá. Por que reatou relações com a Coreia do Norte? A Coreia é um regime atrasado, o povo morre de fome, muito atrasado. O povo com fome e o governo fazendo bombas. Não entendo o Lula. É um governo para enganar as pessoas.

- O poeta esqueceu de dizer que o idiota do LULA está financiando estradas naquela merda de país chamado Cuba, que tem em seu governo um ditador.

Folha : O senhor já declarou admirar o presidente Barack Obama. O que achou quando ele disse que Lula é o "cara"?

Ferreira Gullar : Isso foi uma brincadeira. O fato de o Lula ser um operário que chegou aonde chegou desperta a simpatia das pessoas. Mas ele não quis dizer que o Lula é o "cara" do mundo. É uma bobagem, é provincianismo brasileiro ficar dando atenção a isso. Quero saber é do destino do país. Não quero saber de piada, mas o que vai acontecer com nossa democracia.

Outra grande bobagem é o Marco Aurélio Garcia [assessor da Presidência] querer impedir a exibição de filme americano na TV a cabo. Alguém tem que falar para ele que já estamos em 2010. É muito atraso.

- O pensamento petista geralmente se mostra antiquado e patético.

Folha: O senhor ainda se considera de esquerda?

Ferreira Gullar: Essa coisa de direita e esquerda é bastante discutível. Quem é de esquerda hoje? O Lula é de esquerda? Não me faça rir. Eu nunca tive medo de pensar por mim mesmo. Não fico preso a uma verdade indiscutível.

Outro dia li na internet uns jornalistas falando que quem foi de esquerda e não é mais se vendeu. Parece o fundamentalismo islâmico. A verdade indiscutível, quem ficar contra é traidor.

Folha: Arrepende-se de ter sido filiado ao Partido Comunista na década de 1960?


Ferreira Gullar: Eu aprendi na minha luta política, no preço que paguei no exílio, a ter uma visão diferente do marxismo que não tenho medo de expressar. O marxismo foi uma atitude correta e digna diante do capitalismo selvagem do século 19. Surgiu como uma alternativa contra aquela coisa inaceitável. Mas a projeção da sociedade futura, com a ditadura do proletariado, é um sonho equivocado.


Na minha experiência, durante a queda de Salvador Allende, eu vi a extrema esquerda e o Partido Socialista de Allende trabalharem a favor do golpe, pensando que estavam sendo mais de esquerda do que todo mundo. Na verdade, colaboraram com a CIA para derrubar Allende. O marxismo tem uma visão política generosa, mas equivocada.

Folha: O senhor, então, também se equivocou?

Ferreira Gullar: Eu também cometi muitos erros na época [anos 60]. A fúria fundamentalista só conduz ao erro. Queria me sacrificar pelos interesses do país, mas não basta ter razão para estar certo.

Tem que ter lucidez, resolver com a cabeça e com a inteligência. Quando me convidaram para participar da luta armada, eu disse a eles: mas nós vamos derrotar sozinhos o Exército, a Marinha e a Aeronáutica?

Tem que ter lucidez. Eu não vou chamar o Mike Tyson para lutar boxe comigo. Eu o chamo para discutir poesia, que aí ele tá ferrado.

Folha: E quanto às eleições, quais são suas expectativas?

Ferreira Gullar: A Marina Silva é uma excelente pessoa, dá um conteúdo ético para a disputa eleitoral. É preciso alguém com a estatura dela, com a pureza dela num país onde a corrupção impera. Mas a chance de ela ganhar é pouca.

Eu espero que a Dilma não ganhe. Se ganhar, nós corremos o risco de ter 20 anos de PT no governo, o que seria um desastre nacional.

- Infelizmente a Marina não tem força política, mas vou torcer para que o Serra vença as eleições. Dilma "Terrorista" Russef nem pensar !!!!

Folha: Vai então votar no Serra?

Ferreira Gullar: Vou. Pelo que sei, ele fez um ótimo governo em São Paulo. Não conheço nenhuma acusação de que seja corrupto ou safado.

Foi excelente ministro da Saúde. Se não votar nele, vou votar em quem?

- É poeta, vamos votar no mais honesto e quem sabe possamos passar 4 anos nos recuperando dos "heróis" do PT.

Folha: Como definiria o novo livro?

Ferreira Gullar: Todos os meu livros são diferentes. Neste ["Em Alguma Parte Alguma"] predomina uma certa relação entre ordem e desordem. Eu escrevi no limite da ordem, ou seja, no limite da desordem.

A maneira de fazer os poemas foi diferente, mais desordenada.

Comecei a escrever sem saber o que iria acontecer, sem planejar nada, sem preconceber. A poesia foi para mim uma grande aventura. Ao contrário dos outros livros, em que os poemas já nasciam quase prontos, já que ficava sempre refletindo e elaborando antes de escrever. Já hoje começo sem saber o que vai acontecer. Tanto que o primeiro poema, que abre o livro, tem o nome "Fica o Não Dito por Dito". Eu tô dizendo que, já que não posso dizer o que quero dizer, faz de conta que eu disse.

Folha: E qual é a sensação quando o senhor encontra o verso?

Ferreira Gullar: Ah, dá muita felicidade. Os poetas têm mania de dizer que escrever poesia é um sofrimento. Pode ser pra eles, para mim é uma alegria.

"O Poema Sujo", que escrevi no exílio, nasceu de um "transe", um "barato" que durou por cinco meses. Sentia-me impelido a escrever.

Folha: No final do "Poema Sujo" está um dos seus mais famosos versos, "a cidade está no homem/quase como a árvore voa/no pássaro que a deixa".

Ferreira Gullar: Para você ver como a poesia é uma coisa totalmente sem lógica, certo dia eu acordei lembrando de uma frase que tinha lido do Hegel [filósofo alemão, (1870-1831)] citada por Lênin [líder soviético, (1870-1924)]: "na frase o ramo da árvore estão o universal e o particular". Parei pra pensar: a árvore é o universal, é o todo, e o ramo é parte dela, então é o particular. Essa frase me fez escrever o final do "Poema Sujo".

Eu posso arrancar o ramo da árvore, mas a árvore continua nele. Como São Luís, no Maranhão, está em mim mesmo quando estava em Buenos Aires. Aí entrei no "barato". Quando é que o Hegel imaginou que a frase dele ia fazer um poeta brasileiro terminar um poema escrito em Buenos Aires? (risos)

Folha: O senhor fala em "transe", "barato", sensações geralmente associadas às drogas. Já experimentou alguma?

Ferreira Gullar: Uma vez, quando tinha 15 anos, um amigo me chamou para fumar uma diamba, que é como chamam a maconha em São Luís. Dei uma tragada e senti um gosto de mato velho. Achei uma porcaria, nunca mais experimentei.

Folha: Tem gente que compara o estado de criação com o "transe" da droga.

Ferreira Gullar: É bobagem dizer que as drogas ajudam na criação. Ela é outro tipo de "transe", que requer lucidez. Sem isso é impossível criar.

Durante a criação, você está, por um lado, livre da lógica rudimentar e, ao mesmo tempo, muito lúcido. Você está altamente emocionado, mas tem uma outra lucidez, que não é a da lógica pura e simples.

Folha: A lucidez costuma ser também um remédio contra o sofrimento em muitos de seus poemas, como "A Alegria".

Ferreira Gullar: Quando escrevi esse poema estava no máximo do sofrimento, exilado em Buenos Aires. Não sabia o que fazer da minha vida. Comecei a valorizar o sofrimento. Pensei: '"sou um herói do sofrimento, um novo Cristo?".

Mas quando você está numa situação sem saída, resta sempre a poesia. Aí escrevi: "O sofrimento não tem nenhum valor". Não quero saber do sofrimento, quero é felicidade. Não gosto de fazer lamúrias. Detesto o passado.

Uma vez, discuti feio com a Cláudia [Ahimsa, companheira de Gullar há 15 anos]. Fiquei sozinho em casa, cheio de razão e triste pra cacete. Então, pra que querer ter sempre razão? Não quero ter razão, quero é ser feliz.

Folha: Como é iniciar um relacionamento depois dos 60 anos?

Ferreira Gullar: Não tem muita diferença não, do ponto de vista de relacionamento em si. Você se apaixona e começa um romance. Eu tinha 64 no inicio e ela tinha 30 anos. Relacionamento é interesse um pelo outro. Hoje sou uma pessoa mais tolerante, mais reflexiva, tento compreender melhor o outro. Tento não me achar o dono da verdade. Já me enganei tantas vezes na vida que posso estar enganado de novo.

Folha: E como fica a relação sexual durante a fase de maturidade?

Ferreira Gullar: [Risos] Eu acho que você se torna mais refinado, menos vulgar. Acho sexo uma coisa maravilhosa, mas não fico pensando muito nisso. Penso mais sobre arte, política. Sexo eu não penso, eu faço.

Mas também não acho que seja o mais importante da vida, que o cara tenha que comer 300 mulheres. Legal é ter afeto, ter carinho.

Folha: O senhor falou sobre vulgaridade. Acha que o mundo está mais vulgar?

Ferreira Gullar: Acho que sim. A vulgaridade tomou conta das coisas. As pessoas devem achar que é um escândalo o que falo. Devem achar que estou velho e tal.

Mas essa ideia de que ir contra o que é tradicional é bom é uma besteira. Olhe a própria arte contemporânea. Quer ser diferente de tudo, não respeita norma nenhuma. Mas a vida é inventada, cara. Se não houvesse norma a civilização não existiria. É só isso.

Um quadro do Monet, do Picasso, é uma coisa elaborada, um produto que vem de quadros anteriores. O significado está na linguagem, se acabar com a linguagem não tem significado.

Hoje tem gente que pensa que o século 19 era atrasado porque as mulheres se vestiam da cabeça aos pés, não mostravam nenhuma parte do corpo. Hoje a mulher está de fio dental mostrando a bunda na praia. Isso é ser mais avançado do que ser elegante? Hoje é mais avançado mostrar a bunda? Para mim isso é mais primário, mais escroto. Perde todo o mistério da mulher. É muito mais legal, rico, sensual, erótico e poético se comover com o pé da moça.

- Então nasci no século errado...realmente um belo pé de moça faz vibrar cada fibra do meu ser...rs

Fonte: Folha de Sp on line
Comentários : Marcello Lopes

Um comentário:

Babkas disse...

Aos poetas de plantão, nada como tomar um trago das palavras do mestre!Quem sabe embriagar-se um pouco?
Que bom!
Abraços
Babkas