segunda-feira, 12 de abril de 2010

O Solista


O livro conta a história (triste) de Nataniel Ayers, um talentoso jovem musicista que na década de 70 entra para a prestigiosa escola Julliard, simplesmente a melhor do mundo, compartilhando aulas com inúmeros alunos de todas as partes do Globo, inclusive um futuro astro da música erudita Yo Yo Ma.

Mas após o 2° ano o talentoso estudante apresenta uma série de comportamentos inadequados, violentos e alienados dentro e fora da escola, até que é diagnosticado com esquizofrenia.

Nataniel após um surto larga a escola e perambula perdido entre as ruas de Los Angeles, com um histórico de internações, violências e medicamentos em excesso sua noção de realidade está fora dos padrões. É quando o jornalista Stevie Lopez o encontra tocando em uma praça embaixo da estátua de Beethoven e se interessa pelo ex-músico, hoje com mais de 60 anos de idade.

Aí se inicia a batalha de Stevie Lopez para ajudá-lo a recuperar um pouco a dignidade de Nataniel e porque não recuperar a sua própria fé em histórias realmente humanas.

O livro tem uma narrativa muito fácil e demonstra um lado que a América esconde dos turistas e do próprio povo, com algumas leis aprovadas no passado vários hospitais ficaram isentos (nao quiseram) de tratar os pacientes com esquizofrenia, o resultado foi uma avalanche de pacientes em diversos níveis da doença perambulando pela rua, muitos em estado deplorável, sem família ou apoio de quem fosse.

Nessa batalha para tirar Nataniel dos becos sujos, Lopez conhece pessoas que deixaram suas preocupações de lado para trabalhar em prol dos pacientes, no livro Stevie nos apresenta diversas organizações que lutam dia-a-dia para melhorar um pouco a vida dos esquizofrênicos.

Existe um lado muito poético na história, principalmente quando nos é apresentado a relação entre a música erudita e Nataniel, e a troca de experiências que jornalista e paciente fazem ao longo da narrativa.

O livro tem grandes momentos, como a visita ao Disney Hall Music Center onde os dois são convidados à assistir um ensaio da Orquestra residente, ou as opiniões de alguns músicos que ajudaram Nataniel em seu processo de cura, com lições e principalmente com conselhos musicais.

É um livro que emociona, que nos faz pensar em quantas pessoas iguais à nós não perderam tudo por causa de doenças como a esquizofrenia.

Recomendo ler e não assistir o filme.


Bom, enquanto eu escrevo essa resenha ainda assisto o filme baseado (?) no livro.

O filme é terrível, explico por que :

  1. A escolha do ator foi uma falha gritante, Jamie Foxx, porque na narrativa do livro Nataniel tem mais de 50 anos, então pensando nisso, minha escolha seria Morgan Freeman.
  2. A história do filme em relação ao livro é simplesmente aleatória, existem cenas que não existem no livro, exemplos, o início do filme onde Lopez está dirigindo uma bicicleta e se acidenta, no livro não existe.
  3. Stevie Lopez é casado e tem uma filha pequena, no filme Robert Downey Jr é divorciado e tem apenas um filho.
  4. No livro Nataniel se apresenta em um bar para poucas pessoas, mas não consegue tocar direito devido ao nervosismo, no filme uma cena pra lá de lamentável o coloca no palco do Disney Music Hall com a platéia lotada e com um surto psicótico e violento de Nataniel.
  5. A performance como esquizofrênico de Foxx é tão convincente quanto Pamela Anderson recitando versos shakesperianos.
Enfim, tenho tantas críticas para o filme e isso porque ele nem acabou ainda, que prefiro apenas aconselhá-los de não assistir, a não ser que não pretendam ler o livro, aí a perspectiva é outra, mas pensando bem acho que nem se eu não tivesse lido o livro eu acharia esse filme bom, a trama toda se concentra em fazer do personagem principal uma marionete, onde os limites do que é certo ou não são amplamente discutidos pelos outros e sem colocá-lo no debate.

Existem pacientes que conseguem ter uma vida dentro dos padrões da sociedade mesmo sofrendo com a esquizofrenia e parece que o filme se esquece de abordar inteiramente esse fato, além de anular o serviço prestado pelas organizações não governamentais.

Texto: Marcello Lopes
Fotos: Google

3 comentários:

Lia disse...

Oi, Marcello
Li o livro e me emocionei muito com ele...queria assistir o filme, mas depois de tudo o que vc disse, já não sei se quero mais..rs..a cena da bicicleta eu vi no trailler e qdo li o livro fiquei procurando...
Não sei como conseguem estragar tantos livros bons; acho raro uma adaptação ficar à altura do livro.

Marcello disse...

Oi Lia, pois é Hollywood tem esse dom de criar obras maravilhosas e destruir adaptações que poderiam muito bem influenciar milhares de pessoas... pena isso...

É a primeira vez na vida que me recuso a assistir um filme de uma maneira integral (fiquei parando a cada momento pra procurar pelas passagens no livro).

Enfim, assista por sua própria conta e risco...rsrsrsr

Beijos

Lou James disse...

Olá Marcello, coincidentemente essa semana fiz um estudo sobre a esquizofrenia nos seus mais diversos graus e percebi o quanto essa patologia crônica acomete as pessoas. Não li (ainda), mas vale a dica, pois entender essa discordância entre o pensamento, a vida emocional e o relacionamento c/ o mundo exterior é de suma importancia p/ estabelecermos a constituição dessa natureza psicótica. Abç man!