sexta-feira, 1 de janeiro de 2010



O leitor brasileiro de poesia deve agradecer ao tradutor Bruno Palma pelas duas acuradas e inteligentes traduções de Saint-John Perse (1887-1975).

A primeira empreitada foi traduzir Anabase (Anábase), editado pela editora Nova Fronteira em 1979 (infelizmente fora de catálogo, exigindo uma reedição), e a segunda, Marcas Marinhas (Amers), publicado este ano com extrema competência editorial por Plinio Martins Filho, pela Ateliê Editorial.

Vale ressaltar que as duas edições são bilíngües.

O tradutor Bruno Palma, que há mais de 40 anos tem se dedicado a estudar e traduzir Perse, ganhou o Prêmio Jabuti em 1980 pela tradução de Anábase e, em 1989, foi agraciado com uma comenda do governo francês que reconheceu o seu trabalho de divulgação do poeta francês no Brasil.

Recebeu também o Prêmio Academia Brasileira de Letras de tradução de 2004, pela tradução de Amers, de Saint-John Perse.

Na edição de Marcas Marinhas, cuidadosamente preparada por Bruno Palma, consta, além do próprio poema, a tradução de um texto esclarecedor, escrito pelo próprio Perse, comentando a temática do seu poema. Palma enriquece a edição com uma introdução (de alta competência), notas explicativas sobre a tradução, cronologia e uma vasta bibliografia sobre o poeta.

São ingredientes que podem não só facilitar, mas também enriquecer a aproximação do leitor com a poesia de Perse.

Saint-Jonh Perse, considerado por muitos o maior poeta francês do século XX, é o pseudônimo de Marie-René Alexis Saint-Leger Leger, nascido na ilha de Guadalupe, em 1887, e falecido em 1975.

Tentar encontrar um tema específico para Marcas Marinhas, este longo poema em prosa, editado originariamente em 1957, é perda de tempo. O poema é tão vasto em significações quanto o oceano. Segundo o tradutor, “de certo modo, Perse nos convida a uma viagem mar adentro sem perder contato com a terra e a vida dos homens.

Em Marcas Marinhas toma o mar como ilustração daquilo que ele chama insubmissão do espírito moderno, que é o desejo de ultrapassar tudo que o limita, mediocrisa, aprisiona moral e espiritualmente. Marcas Marinhas é, pois, o drama da insatisfação humana, do homem ansioso por livrar-se de tudo o que o diminui e sufoca.” (entrevista a Álvaro Faria, na Jovem Pan - 25/03/2004).

E é o poeta, com sua criação poética, o mediador mais apropriado para tal. Segundo Bruno, “Perse cria-se investido de uma missão, como poeta, de traduzir em linguagem compreensível pelo resto dos homens a iluminação que lhe advém do encontro com o Absoluto, que é o próprio Ser, na sua essência, no seu mistério mais profundo”.

Para isso, Perse transforma a metáfora no meio estilístico mais adequado à fantasia ilimitada de sua mente criativa. Servindo-se dela, destrói qualquer tentativa de dialogar com a realidade concreta ou, mesmo, lógica. Nesse sentido, realiza o que podemos chamar, pensando na tradição moderna que vai de Rimbaud, Mallarmé e Valéry até Eliot, de poesia pura.

Uma poesia que não se preocupa com noções fechadas, limitadoras, que podem torná-la prisioneira de significados únicos. Ao contrário, escreve uma poesia que é o próprio efervescer movente da pluralidade das imagens criadoras (vertiginosas, mágicas, inquietantes, melodiosas, amplas e profundas em suas curvas e contracurvas).

Faz uso de um recurso que une imagens que quando aproximadas tornam-se desconcertantes, revelando sentidos inesperados, naquele registro que Ezra Pound chamou de “turbilhão irradiante, em meio ao qual revoam as idéias”. Por exemplo: “Que astro falaz de córneo bico embaralha ainda a cifra e invertera os signos sobre a mesa das águas?”

E não poderia ter escolhido o poeta imagem melhor do que a do mar, que se transforma continuamente e cria uma multiplicidade irreal de encantamentos em seu fluir e refluir, para num ressoar de palavras compor o poema “como as altas temperaturas sob as quais as combinações atômicas se dissociam para se reunirem num agrupamento completamente diverso” (Proust).

“E foi o mar que eu escolhi, simbolicamente, como espelho oferecido a esse destino – como lugar de convergência e irradiação: verdadeiro lugar geométrico e mesa de orientação, ao mesmo tempo reservatório de forças eternas, que possibilitam ao homem, esse incansável migrador, cumprir-se e ultrapassar-se”.

O mar é a grande metáfora da revelação do mais profundo interior do homem, e em Perse mar, poema e poeta se misturam tornando-se um único Ser – como diz no poema: “e do próprio Mar não se tratará, mas do seu reino no coração do homem”.

Se existe realidade neste poema, ela só existe enquanto linguagem poética, vivência máxima da expressão dos mundos recriados pela magia do poeta. O poeta e a poesia subvertem o mundo, mesmo quando colando, de forma quase ou senão surreal, nacos do real, colocando-se à disposição da fantasia irreal.

Em Marcas Marinhas quem tem a voz é a linguagem mágica da poesia e não a linguagem reles da comunicação. Mais uma vez o poeta poderia ser expulso da República, pelo seu “falar demoníaco”, mas também o crepitar mais profundo da vida novamente foi salvo pela poesia.

No seu discurso pelo prêmio Nobel, em dezembro de 1960, assim Perse definiu a poesia: “Ela não é arte de embalsamador ou de decorador. Não cria pérolas cultivadas, nem trafica simulacros ou emblemas, e não poderia contentar-se com nenhuma festa musical. A si alia, em seus caminhos, a beleza, aliança suprema, porém não faz dela seu fim nem seu pábulo único.

Recusando-se a dissociar da vida a arte, e do amor o conhecimento, ela é ação, é paixão, é poder e novação sempre, que dilata os limites.

O amor é seu lar, a insubmissão sua lei, e seu lugar está em toda parte, por antecipação. (...) Presa ao seu próprio destino e livre de toda ideologia, ela se conhece igual à própria vida, que por si mesma nada tem a justificar.

E é com um mesmo amplexo, como com uma só grande estrofe viva, que ela abraça, no presente, todo o passado e todo o futuro, o humano com o sobre-humano, e todo o espaço planetário com o espaço universal”.

Ler Marcas Marinhas é um risco para quem só tem a razão como guia... No entanto, vale correr o risco quando se tem a oportunidade de um banho na maré espumante e cósmica da criação.

Se pensarmos em termos do sublime deste poema, podemos dizer com Longino que “palavras realmente belas são a própria luz do espírito”.

Fonte: Digestivo Cultural

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