quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Caetano, bobagens e uma resposta...

Meus amigos sabem que eu não suporto Caetano Veloso, nem cantando nem muito menos abrindo a boca pra discutir coisas que fogem do seu conhecimento, e infelizmente em um momento Magda, o baiano abriu a boca pra falar merda...como sempre.

Dessa vez abriu a boca pra falar mal dos linguistas profissionais, e como eu não tinha achado no exato momento da polêmica deixei de comentar aqui, mas ao ler uma matéria no blog do Sérgio, achei a resposta de Marcos Bagno professor, linguista e escritor, professor do Departamento de Linguística da Universidade de Brasília, Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP, tradutor, autor do livro A Língua de Eulália, com diversos prêmios e mais de 30 títulos publicados que reproduzo na íntegra aqui :


" Caetano Veloso é um dos mais brilhantes letristas, compositores e cantores da nossa música popular. Mas ele não se satisfaz com isso. Também quer ser sociólogo, antropólogo, filósofo, historiador, ensaísta, cineasta, teólogo, crítico literário... Recentemente, decidiu falar de lingüística. Com a petulância dos mal-informados e a arrogância das celebridades, acredita que por ter lido Saussure em meados do século passado está autorizado a dissertar sobre e, principalmente, contra os lingüistas profissionais. Vá estudar, Caetano: a ciência da linguagem já passou por muitas revoluções epistemológicas desde 1916. Ou não se meta a falar do que não sabe, dizendo que sabe.

Não tenho como debater todas as bobagens que ele escreveu e que as caetanetes se apressaram, gotejantes, em elogiar. Me restrinjo à defesa que ele faz dos falsos gramáticos que invadiram a mídia brasileira na última década e meia.

O problema que os lingüistas apontam no trabalho dessas pessoas é que elas apregoam um estereótipo tosco, rígido, estreito e, finalmente, mentiroso de "língua certa" que não corresponde aos usos reais e efetivos nem sequer das nossas elites urbanas mais letradas. Formas lingüísticas usadas há mais de um século e consagradas na obra dos nossos melhores escritores são sistematicamente combatidas por esses gramaticóides como "erros", "desvios" e "impropriedades". Opções que aparecem na própria escrita poética de Caetano são veementemente condenadas por eles. Ou não? "Deixa eu cantar pro meu corpo ficar Odara", por exemplo...

Os lingüistas não são populistas nem demagogos. Essa é a acusação tacanha de quem só lê pela metade o que nós escrevemos, se é que lê. Defender as variedades lingüísticas das camadas desprestigiadas não significa dizer que esses cidadãos não devem ter acesso a um grau mais elevado de letramento (não sabe o que é letramento? vá estudar!).

Todos os lingüistas que conheço (e conheço muitos) lutam pelo pleno acesso dos cidadãos às formas prestigiadas de falar e de escrever. Acontece que essas formas prestigiadas reais não são o modelo estúpido e jurássico de "português correto" que os falsos gramáticos tentam inculcar em suas manifestações na mídia. Há um abismo profundo entre a verdadeira norma culta brasileira, falada e escrita pelas nossas camadas privilegiadas, e a "norma oculta" que os gramaticóides defendem.

É contra isso que os lingüistas se batem. Os brasileiros urbanos letrados falam e escrevem uma língua que não é reconhecida como legítima, porque no nosso imaginário lingüístico vigora um ideal de correção inspirado em usos literários lusitanos de meados do século XIX. Se você não fala como Eça de Queirós escreveu, está tudo errado! Até quando, meu pai Oxóssi?

Infelizmente, quando o assunto é língua, até mesmo as pessoas mais inteligentes se deixam engambelar por aquilo que os estudiosos de língua inglesa chamam de "folk linguistics", um conjunto de mitos, superstições e inverdades sobre a língua e a linguagem que se entranharam na cultura ocidental e que resistem a toda contestação racional, baseada na pesquisa científica e nos dados da realidade."

2 comentários:

Sérgio Filho disse...

Fico bastante honrado e agradecido com a visita ao nosso blog Brás Cubas e à citação sobre nosso texto a respeito de Caetano, que de fato ultimamente tem "pisado na bola".
Aproveito também para compartilhar aqui nesse ótimo espaço o apreço pelo escrito J.R.R. Tolkien e toda sua obra narrativa sobre a Terra Média, sem dúvida literatura de primeira.
Grande abraço.

Francisco Saldanha disse...

Marcello concordo com tudo que está escrito,realmente parece que o Caetano é o tipo intelectual sabe tudo,representante de uma classe média cansada e preconceituosa.Grande abraço.ótimo blog.