quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A Leitura



Lê-se muito mal e os que desejam se instruir, a maioria lê muito mal. - Voltaire

Desde que aprendi a ler, e fui descobrindo o prazer de desvendar pequenos símbolos em sentimentos e percepções, nunca mais consegui largar um livro tornando-me parte de uma grande família, a dos livreiros.

Sempre estamos sozinhos em quase todas as experiências de vida, menos no ato de ler.

Na Alemanha alguém pode se emocionar com a Menina que roubava Livros da mesma forma como eu no Brasil fiquei comovido com a história de uma menina corajosa narrada pela morte.

Ou exemplos mais específicos, como um tecelão lendo os desenhos em seu tapete, o psiquiatra lendo os sonhos pertubadores de seus pacientes e assim ajudando-os.

Então a pergunta que é por que lemos ? É para nos instruir?

É para julgar uma obra ? É para desfrutar dela ?

Se for para nos instruir devemos ler bem devagar, com uma caneta ao lado para anotarmos tudo o que o livro nos ensina e em seguida, reler bem devagar tudo o que escrevemos.

Assim formamos uma idéia geral do autor e de sua obra, assimilamos suas idéias comparando com as nossas, analisamos o momento em que a obra foi escrita, entendendo a história de uma geração.

Como livreiro ensinamos o cliente a ler a obra sob um diferente ponto de vista, fazendo uma introdução útil à obra convidando o cliente a ler ou reler, ou repensar de acordo com seu ponto de vista, a sua abordagem.

No caso do cliente não ter lido, a pergunta que puxará toda a curiosidade é Pense Nisso.

No outro caso, para a releitura, seria Você já pensou nisso ?

Bonald, político e filósofo francês, um grande opositor da Revolução Francesa via tudo em grupos de três, sendo assim podemos à partir de suas idéias criar uma nova tríade formada pelo autor, leitor e o livreiro, que é o mediador.
 
Se saber ler é uma arte, e vender um livro é apoteose sem igual, na minha opinião o livreiro se iguala ao crítico literário, sendo que os dois sabem ler e ensinam os outros a ler.
 
Ler é associar a história descrita no livro com a sua própria, é concentrar as preferências literárias em uma identificação absolutamente pessoal e apaixonada, é acima de tudo, criar um universo paralelo onde tomamos o autor como amigo íntimo que detalhadamente nos confidencia seus maiores segredos.
 
Parafraseando uma teoria de Italo Calvino ( Um dos meus autores preferidos) sobre os clássicos :  
 
E não se preocupe ou se envergonhe de não ter lido os chamados clássicos, ler pela primeira vez um grande livro com mais idade, seja ele Odisséia de Homero ou Kafka, é um grande prazer, maior até do que descobrir um grande livro na juventude, já que na idade madura podemos apreciar e degustar os mínimos detalhes, com todos os níveis que possa existir.
 
Crie seu clássico, aquele livro que não o deixa indiferente à história e é só nas leituras desinteressadas que pode acontecer de se deparar com aquele que se torna seu clássico.
 
Leia, absorva e acima de tudo, compartilhe esse vício inebriante com todos.
 
Marcello Lopes

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