sábado, 19 de setembro de 2009

Egberto Gismonti, álbum duplo é lançado no mercado europeu !!!

Em coprodução com a Carmo de Egberto Gismonti, a ECM de Munique acaba de lançar, por enquanto apenas no mercado europeu, um ambicioso álbum duplo, o primeiro com material inédito, em 14 anos, para a gravadora alemã. Num deles está a suíte em sete movimentos Sertões Veredas - Tributo à Miscigenação, para orquestra de cordas, com cerca de 70 minutos, gravada em agosto de 2006 no Teatro Amadeo Roldán, em Havana, pela Camerata Romeu, integrada por 16 instrumentistas mulheres, regidas por Zenaida Romeu. No segundo CD, gravado em abril e maio de 2007 no Rio, Egberto compõe um duo ao lado do filho Alexandre; eles improvisam sobre dez criações gismontianas já bastante conhecidas, como Palhaço, Dança dos Escravos e Saudações.

Embora seja elevada a qualidade musical do duo, é natural que as atenções se voltem para a inédita suíte orquestral. Pela primeira vez, creio, ouvimos apenas o Gismonti compositor (o fabuloso violonista e pianista descansa). E numa obra de fôlego, que dá espaço ao fabuloso compositor. Não foi acidental a repetição do mesmo adjetivo. Remete ao escritor cubano Alejo Carpentier, amigo de Villa-Lobos e autor de obras-primas como Os Passos Perdidos, de 1953, romance fundador do nacionalismo musical latino-americano. E também de Concerto Barroco, de 25 anos depois, onde se lê o seguinte: "A Grande História alimenta-se de fábulas, não se esqueça disso (...) Eles perderam o sentido do fabuloso. Eles chamam fabuloso tudo que é remoto, irracional, situado no passado (...) Não compreendem que o fabuloso situa-se no futuro."

É o mito contra o discurso. Este é o maravilhoso universo de Egberto Gismonti hoje, a caminho dos 62 anos, que completará em 5 de dezembro. É a plena maturidade de um dos mais fabulosos criadores musicais brasileiros contemporâneos. Isso fica claro na leitura do texto escrito por Lilian Dias a partir de bate-papos com ele. Comentando o quinto movimento da suíte, Egberto diz: "Inicia-se com uma alusão ao som da roda da carroça (o atrito do eixo de aço enferrujado contra a madeira da roda) que se escuta no filme de Nelson Pereira dos Santos Vidas Secas." Pois o narrador de Carpentier em Os Passos Perdidos, um compositor nova-iorquino que se embrenha na Amazônia com a amante, diz querer justamente isso: "Encontrar o diapasão das rãs, a tonalidade aguda do grilo, o ritmo de uma carroça cujos eixos chiam"; ele se encanta com "os caminhos de um primitivismo verdadeiro" e capta que aí devem estar "as buscas mais válidas de certos compositores de época atual". Ali, acrescenta, o compositor deve assumir a "tarefa de Adão dando nome às coisas". Afinal, valem para Gismonti as palavras que Carpentier usou para descrever o Villa: "A formidável voz da América, seus ritmos selvagens, melodias primitivas e contrastes estridentes que evocam a infância da humanidade."

A primeira audição de Sertões Veredas provoca a estranha sensação de estarmos diante de uma obra do Villa-Lobos inédita e recém-descoberta. Se vivo, Villa escreveria assim. Mas Sertões Veredas não é saudosista nem nacionalista como eram os seguidores do Villa, na primeira metade do século 20. Gismonti, afinal, complementa nesta obra-prima um notável itinerário criador da vida inteira. Ele partiu da pequena Carmo, passou e firmou-se no Rio de Janeiro, estudou com Nadia Boulanger e Jean Barraqué em Paris. E parece ter ouvido o conselho que Mademoiselle Boulanger deu ao argentino Astor Piazzolla, para voltar-se às raízes musicais de seu país. Impôs-se mundialmente em 1977, desde seu primeiro disco para a ECM, Dança das Cabeças, com Naná Vasconcelos. Viajou por todas as latitudes, gravou em todos os lugares, tocou com todo mundo.

E agora, com esta suíte, desembarca, como um Ulisses do século 21, no porto seguro do Brasil (que, aliás, ele jamais deixou de lado; ao contrário, Villa e as marcas brasileiras sempre foram decisivos em sua vasta produção instrumental). Ele a construiu em sete partes, mas a audição sugere que a suíte mesmo, organicamente, tece um universo fechado nos seis primeiros números. Até porque a coda final da sexta Vereda retoma o primeiro tema da primeira. A sétima é apenas uma colagem de duas músicas conhecidas.

É uma "viagem musical pelo Brasil", como ele mesmo diz. Mas não uma viagem convencional ou linear. Cruzando tempo e espaço, somando Villa-Lobos (ouça o terceiro movimento a partir dos 5’: é puro Villa) a Bach (uma fuga, que começa em 5’17, evoca Bach; Gismonti diz que ele representa "o limite máximo de reverência à fé, a algo invisível, mas que se torna um guia para toda vida"). Mas, inevitável, uma escola de samba em versão refinada para orquestra de cordas soa aos 6’25 da terceira Vereda. A quinta Vereda abre com uma pitada de minimalismo à brasileira. Gismonti adota o procedimento típico do minimalista norte-americano Steve Reich, que consiste em retardar as execuções de dois ou mais instrumentos, ou grupo de instrumento, de uma mesma melodia, porém sobrepondo-as. Além disso, há muito uníssono das cordas, como adorava fazer o Villa, assim como uso e abuso da sincopa característica do choro, de novo bebendo no Villa. Mas não se trata de mera imitação, e sim da busca mitológica do fabuloso, como dizia Carpentier, "o fabuloso que remete ao futuro".

Os comentários de Gismonti são precisos e remetem a exemplos musicais cujas partituras são reproduzidas no folheto do disco. Uma das Veredas mais comoventes é a terceira, que reproduz sua primeira viagem ao Xingu.

O primeiro movimento mostra "a intimidade da consonância e da dissonância ou as coisas mais banais e mais complexas convivendo cotidianamente", diz Egberto. Em seguida, ele tenta retratar o "desespero de se saber no Brasil, em sua própria casa, sem compreender o que está se passando".

Mas o terceiro movimento - parece, porque não vi as partituras, que cada Vereda é construída sobre três movimentos distintos - mostra que "surge a compreensão de que basta ter olhos e ouvidos para aceitar o outro como ele é, e não como queremos que ele seja".

Neste caso, dá até para evocar os conhecidíssimos versos "O Brazil não conhece o Brasil/ o Brasil nunca foi ao Brazil" de Aldir Blanc para a música Querelas do Brasil, composta nos anos 80 por Maurício Tapajós. Pois Egberto Gismonti finalmente apresenta estes dois Bras(z)is.

Com uma música de elevadíssima qualidade, interpretada de modo excepcional pelas mulheres integrantes da Camerata Romeu de Havana. Por isso ele é fabuloso. E fabuloso, no reino mítico, como dizia Carpentier, é adjetivo que sempre "remete ao futuro".

João Marcos Coelho, especial para o Tudo que Vejo

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