quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O último sobrevivente de uma dinastia política...



O senador Edward M. Kennedy morreu aos 77 anos na noite de terça-feira, 25, em sua casa depois de uma luta contra o câncer cerebral.

Em cerca de 50 anos no Senado, Ted serviu 10 presidentes, incluindo seu irmão John Fitzgerald Kennedy, assassinado em 1963, e do senador Robert Kennedy, morto por um tiro enquanto disputava a nomeação para a presidência na eleição de 1968. Em sua carreira política de quase meio século, Ted Kennedy foi uma voz dominante nas discussões sobre saúde pública, direitos civis, guerra e paz, entre outros assuntos.

Para o público dos EUA, porém, ele ficou mais conhecido como o último sobrevivente de uma família de políticos progressistas. Sua morte marca o crepúsculo de uma dinastia política e representa um baque para os democratas, que tentam responder ao pedido do presidente Barack Obama por uma grande reforma no sistema de saúde dos EUA.

Kennedy era um dos principais defensores da reforma da saúde, uma das marcas do governo Obama. O presidente disse nesta quarta-feira que estava de coração partido com a notícia da morte de Kennedy, que foi fundamental para sua vitoriosa campanha presidencial.

Com um discurso emocionado, lúcido e brilhante, Kennedy prometeu naquela ocasião estar presente quando Obama tomasse posse na Casa Branca, e assim fez, participando dos atos de posse, onde sofreu um ligeiro desmaio. Depois, Ted Kennedy foi à Casa Branca em abril, quando Barack Obama assinou uma lei com o nome do senador, um ferrenho defensor da igualdade.

Dois momentos de brilhantismo !!!

1) Foi em 1972 que Ted fez seu primeiro discurso no Senado contra Londres. Defendia os católicos irlandeses, republicanos - ele, um Kennedy, um católico de origem irlandesa, irmão de um presidente da primeira república moderna. Uma longa relação entre o senador e políticos norte-irlandeses teve início ali. Não perdia jamais a oportunidade de provocar: quando Margaret Thatcher aparecia nos EUA, Kennedy vestia gravata verde, símbolo irlandês.

Foi em 1994 que ele teve oportunidade de fazer a diferença. Gerry Adams, líder do partido Sinn Féin, ligado ao grupo terrorista IRA, queria viajar aos EUA. John Major, o conservador premiê britânico, era contra. Por tradição, a Casa Branca negaria o visto. Mas Kennedy foi ao telefone. Bill Clinton era um presidente jovem, com pouco tempo no poder, ainda hesitante na política internacional. Não foi na primeira conversa, nem na segunda - mas o velho político, já veterano, já chamado 'o leão do Senado', o convenceu. Adams foi aos EUA.

Demorou sete meses desde as conversas em Washington: o IRA anunciou o cessar-fogo. Não foram negociações simples, mas com o intermédio de Clinton, a paz veio. "Vejam quão longe vocês chegaram", disse em discurso aos nacionalistas da Irlanda em 1998. "Vocês são descendentes dos pioneiros que ajudaram a construir a América e, agora, são os pioneiros que construirão o futuro desta ilha." Presente no momento certo, foi seu olhar que percebeu a oportunidade para a negociação de uma paz que por tanto tempo pareceu impossível.

2) Os analistas tinham poucas dúvidas: Hillary Clinton seria a primeira presidente mulher dos Estados Unidos. O poder dos Clinton sobre a máquina do Partido Democrata garantiria sua vitória nas primárias e, dada a impopularidade de George W. Bush, o candidato republicano tinha poucas chances.

Aí Ted Kennedy fez diferente. Num momento chave, início da campanha, quando Barack Obama acusava fragilidade, anunciou seu apoio. Os irmãos, John e Bobby, haviam juntos promovido o fim do racismo legal nos EUA dos anos 1960. Agora, Kennedy transformava uma aposta naquela que seria sua última grande jogada política. Promover um homem negro para a presidência.

Uns sugeriram que era por defesa. Sem herdeiros claros, uma presidência Hillary representava que uma nova família assumiria o posto dos Kennedy na política americana. Ted dizia que não. Explicava que via em Obama, pela primeira vez desde aquele distante 1968 do assassinato, alguém com peso e talento para representar o discurso de seus irmãos. Talvez. Naquele momento, seu apoio pareceu aos eleitores um passar da tocha, um ciclo que se fechava. E Obama foi eleito presidente.

-> É inevitável notar o abismo que separa políticos como ele dos picaretas que infestam a política brasileira, é inevitável pensar no quão distante está a pocilga que temos aqui de um Senado digno.

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