segunda-feira, 20 de julho de 2009


Uma estante repleta de livros costuma ser uma espécie de biografia velada do dono daqueles volumes todos.


Porque quem reúne livros coloca nas prateleiras também as fases da própria vida. Os livros da escola, da faculdade, do trabalho. Aqueles que foram presentes de amigos. Outros que você ganhou de um grande amor – ou até comprou para impressionar alguém.


Livros sobre quem você foi, quem você é e quem gostaria de ser (sim, há também aqueles que você jura que ainda vai ler...)


Uma biblioteca pode dizer mais sobre o dono que um livro sobre seu autor.


Um colecionador de livros exibe seu acervo com uma mistura de orgulho e pudor. Livros são troféus, porque cada título desejado, encontrado, lido e guardado é uma conquista.


Mas os itens de uma biblioteca pessoal são como o conteúdo da carteira, da bolsa, da geladeira – falam sobre você. Sobre a intimidade do seu pensamento, do seu imaginário.


Na Antiguidade, o político romano Marco Túlio Cícero escreveu que uma casa sem livros é como um corpo sem alma.


Faça o que puder no espaço de que você dispõe – o importante é manter os livros por perto, como parte do cotidiano. Uma biblioteca doméstica pode ser dispersa, dividida em estações estratégicas pela casa toda.


Mas, se tiver aí na sua casa um recinto disponível, melhor. Mais espaço para os livros que você já tem – e os que virão.


Um quarto comum pode ser transformado em biblioteca se tiver uma boa ventilação e desde que as prateleiras evitem o sol, mas isso pode ser evitado com cortinas e persianas, não é aconselhável colocar os livros em áreas úmidas da casa, como banheiros, cozinha e área de serviço.


Outra dica é que livro não se guarda na posição horizontal, o peso das páginas umas sobre as outras pode, com o tempo, alterar a composição química da tinta e do papel.


O mais importante, para bibliotecas de todos os tamanhos, é a organização. Há um lema na biblioteconomia que diz que, se você não consegue encontrar uma coisa, é como se ela não existisse. Quem tem um acervo grande pode cogitar contratar uma consultoria especializada – isso deve custar de 4 a 6 reais por livro.


Para muita gente, organizar a própria biblioteca pode ser um trabalho delicioso e, portanto, intransferível. Mesmo porque os critérios de organização de um acervo doméstico só precisam fazer sentido para o dono.


O ensaísta alemão Walter Benjamin escreveu um texto sobre a delicada relação do colecionador com seus livros, intitulado “Desempacotando minha Biblioteca”. Para ele, o destino mais importante de todo exemplar é o encontro com o colecionador – e com a coleção.


“Para o colecionador autêntico, a aquisição de um livro velho representa seu renascimento.”


Na tradução para o português, não fica muito claro se ele se refere aí ao renascimento do livro ou do colecionador. Não faz mal. Quem coleciona livros sabe que as duas interpretações fazem sentido.

Um comentário:

Viviane Righi disse...

Olá, Marcello!

Adorei o post, pois adoro livros e também a minha biblioteca particular.

Concordo com você em cada linha que li, principalmente quando você cita a fala de Marco Túlio, que é a mais pura verdade... Gostei muito também das dicas em relação às bibliotecas domésticas e quando você diz que "Uma biblioteca doméstica pode ser dispersa, dividida em estações estratégicas pela casa toda"... sinceramente, nunca tinha pensado nisso!

Obrigada pela leitura tão agradável, Marcello...
Abraços da cunhada