quinta-feira, 23 de julho de 2009

Os Cátaros


No início do século XII, a Igreja Católica presenciará a difusão da heresia dos cátaros (kataroi, puro em grego) ou albigenses (nome derivado da cidade de Albi, na qual vivia um certo números de heréticos) que se propagará no território do Languedoc, sul da França.


Os cátaros acreditavam que o homem na sua origem havia sido um ser espiritual e para adquirir consciência e liberdade, precisaria de um corpo material, sendo necessário várias reencarnações para se libertar.


Eram dualistas acreditavam na existência de dois deuses, um do bem (Deus) e outro do mal (Satã), que teria criado o mundo material e mal.


Não concebiam a idéia de inferno, pois no fim o deus do Bem triunfará sobre o deus do Mal e todos serão salvos. Praticavam a abstinência de certos alimentos como a carne e tudo o que proviesse da procriação.


Jejuavam antes do Natal, Páscoa e Pentecostes, não prestavam juramento, base das relações feudais na sociedade medieval, nem matavam qualquer espécie animal.


Os cátaros organizaram uma Igreja e seus membros estavam divididos em Crentes, Perfeitos e Bispos. As pessoas se tornavam Perfeitos (homens bons), pelo ritual do consolament ( esta cerimonia consistia na oração do pai nosso; reposição da veste, preta no início, depois azul, substituída por um cordão no tempo da perseguição. Tocava-se a cabeça do iniciante com o Evangelho de S. João , o ritual terminava com o beijo da paz), faziam voto de castidade, cabendo-lhes a guarda, a transmissão e a vivência da fé cátara.


Os Crentes participavam do ofício divino, escutando o sermão de um Perfeito, dividiam o pão entre si que não era considerado o corpo de Cristo.


Os Crentes podiam abandonar a comunidade quando quisessem, freqüentavam a Igreja Católica, eram casados e podiam ter filhos, contribuíam para a sobrevivência dos Perfeitos, recebiam o consolament nas vésperas de sua morte.


Desta forma, eles poderiam levar uma vida agradável, obtendo o perdão e sendo salvos.


Cada Igreja Cátara tinha um bispo, o primeiro se estabeleceu no Norte da França por volta de 1149.


O voto de pobreza ficou ameaçado pelo desenvolvimento de igrejas e bens materiais.


Em 1167, realizou-se o Concílio de Saint-Felix de Caraman, no Languedoc, presidido pelo bispo Nicetas de Constantinopla (hierarca bogomilo), que exortou os heréticos a adotar um dualismo absoluto, organizando os bispados do Ocidente.


Durante o período das perseguições as Igrejas Cátaras foram destruídas, os ofícios religiosos eram realizados em cavernas, florestas e casas de Crentes.


A doutrina cátara foi aceita por contrariar alguns dogmas cristãos, principalmente no que se refere a volta à pobreza e ao retorno do cristianismo primitivo.


Devido a propagação da heresia cátara a partir de 1140, a Igreja começa a tomar medidas para combatê-la, sendo que no início tentava converter os heréticos a fé católica por meio da pregação, não adotando medidas trágicas pois isto não harmonizava com a caridade pregada pelo cristianismo.


Propagação do catarismo pelo Sul da França

A maior parte das terras atingidas pela heresia pertencia á província de Narbona, somente a região de Albi estava ligada a província de Bourges. O Languedoc é anexado a França em 1229 pelo Tratado de Meaux.


O êxito da propagação da heresia nos bispados do Languedoc, pode ser explicado perla situação política da região, independente do reino da França, as altas autoridades eram os grandes senhores feudais, o conde de Toulouse e o visconde de Béziers, ambos simpatizantes da heresia cátara.


O arcebispo Berengário de Narbona, da família real de Aragão, descuidará dos assuntos espirituais em favor de questões políticas. A justiça só era executada mediante pagamento e o clero permitia que os padres trabalhassem.


Isto propiciou a difusão do catarismo, que clamava pela castidade absoluta, repelindo a autoridade papal, a culto às imagens e ao sacramento.


Censuravam os poderes públicos e o direito de julgar e ordenar. Possuíam um ideal de Igreja Santa, com um sacerdócio purificado, vivendo em pobreza evangélica.


O movimento cátaro foi desencadeado pelas pregações do monge Henrique, embora este não fosse cátaro, muitos fiéis após ouvir suas palavras deixaram de pagar os dízimos e de comparecer as igrejas, seus ensinamentos foram combatidos por Bernardo de Clairvaux (São Bernardo).


Henrique foi preso, porém , as maiores ameaças a Igreja se situavam em outras esferas. Os maiores aliados dos heréticos pareciam ser os cavaleiros, que os protegiam contra os ataques, da mesma forma agiam a maioria das casas nobres da região.


A transmissão da heresia fazia-se de uma domus (casa) a outra, através da palavra falada.


A palavra escrita era o meio mais elitista portanto de alcance reduzido. Esta heresia foi extirpada com dificuldade, devido as relações de poder.


As estruturas sociais e a cultura laica aceitavam as doutrinas propagadas pelos Perfeitos e os protegiam da repressão.


No início da repressão a Igreja lançava a excomunhão (pena espiritual que a Igreja aplicava ao pecado mortal da contumácia e da desobediência ao direito e ao juiz), como meio de induzir o poder secular a participar da perseguição e do combate aos hereges.


Recorrendo mais tarde ao uso da violência, instituindo o Tribunal da Inquisição.


Os cátaros foram acusados de abalarem a ordem social existente, e de aspirarem a destruição da sociedade medieval e da humanidade. Pois condenavam o casamento, que teria como objetivo a procriação, porém os crentes podiam casar e ter filhos.


Os padres não eram necessários, qualquer leigo poderia realizar um batismo. Acreditavam na existência de dois deuses (um do Bem, outro do Mal), sendo que a Igreja Católica era monoteísta.


Renunciavam aos bens materiais, pregando o retorno ao cristianismo primitivo, estas divergências levaram a Igreja Católica a combater os cátaros.


A repressão as heresias foi estabelecida através de concílios, o III Concílio de Latrão (1179), e o IV Concílio de Latrão (1215), pois ambos excomungaram os cátaros.


O III Concílio de Latrão, foi convocado pelo papa Alexandre III, tendo como objetivo principal por fim a dissidência dentro da Igreja e a briga entre o imperador Frederico I (Barbaroxa) e o papado.


O acordo firmado em Veneza (1177), finalizou o conflito que durou quase 20 anos. Este concílio surgiu após a morte do papa Adriano IV (1159), pois os cardeais haviam nomeado dois papas (Alexandre III e Victor IV).


O imperador Frederico I, apoiou o papa Victor IV, declarando guerra aos estados italianos e especialmente a Igreja Romana que desfrutava de grande autoridade. Alexandre III, acabou vencendo o conflito e convoca um concílio para estabelecer a conclusão da paz.


Além de resolver a dissidência entre o papado e o imperador, o concílio também reforçou a unidade e o poder da Igreja. O cânone 27 desse concílio excomunga os hereges chamados cátaros, patarinos e publicanos e faz um apelo aos príncipes para que defendam a fé cristã.


Os cátaros e seus seguidores estavam sob anátema, ninguém poderia ajudá-los ou abrigá-los em suas terras, pois alguns senhores feudais os protegiam. Se alguma pessoa morresse como herege não poderia ser recebido ou enterrado entre os cristãos, os bens dos hereges serão confiscados.


Porém os hereges que se arrependessem obteriam o perdão e a recompensa eterna, sendo concedido indulgências para quem colaborasse na descoberta de hereges. Os bispos e padres que não combaterem os hereges e seus erros, seriam punidos com a perda de seus cargos, até obterem o perdão.


Neste concílio, também são excomungados no mesmo cânone os bandidos e mercenários que devastavam a província de Narbona, desrespeitando igrejas, maltratando crianças, viúvas e órfãos, como se fossem pagãos.


Mesmo que este concílio não tivesse a intenção da repressão armada contra os heréticos, estes são excomungados e deveriam receber o mesmo tratamento dispensado aos mercenários, pois ambos interferiam no poder da Igreja.


Contudo, as decisões tomadas durante este concílio não são aplicadas e os legados do papa não conseguem impedir os progressos do catarismo no Languedoc.


Com a queda de Jerusalém em 1187, que passou as mãos dos infiéis, a heresia no Languedoc foi um pouco esquecida. Contudo, quando Inocêncio III assume em 1198 o trono pontificial enviaria novos legados a província de Narbona, recomeçando a repressão.


Em 1215, realiza-se o IV Concílio de Latrão, presidido pelo papa Inocêncio III. Neste concílio, são anatematizados novamente todos os hereges, os condenados serão entregues as regras seculares, e confiscadas suas propriedades.


Os suspeitos de heresias a menos que provassem sua inocência através de uma defesa, serão anatematizados e evitados por todos até se justificarem, mas se estiverem sob excomunhão por um ano serão condenados como hereges.


Autoridades seculares deveriam combater a heresia, caso contrário poderiam ser excomungados pelo bispo da província e se não se justificassem no prazo de um ano, o problema passaria ao supremo pontífice, que poderá oferecer o território para ser administrado por católicos fiéis.


Os acusados de heresia não poderão tomar parte da vida pública, nem julgar ou herdar, nem eleger pessoas ou dar testemunhos em um tribunal de justiça.


Este concílio acabará confirmando o que já havia sido proposto no III Concílio de Latrão, tentara repreender os hereges, através da exclusão da sociedade, instigando seus membros a participarem da repressão em nome da fé cristã, a excomunhão seria o princípio de um processo que se tornaria violento.


Um processo que eliminará qualquer tentativa de fé que diferencie dos dogmas instituídos pela Igreja Católica.


Em 1206, chegaram ao Languedoc o bispo espanhol Diego de Osma, acompanhado pelo subprior Domingos de Guzman, estes pretendiam instruir as massas ignorantes no catolicismo através da pregação. Obtiveram alguns êxitos, porém o assassinato de Pierre de Casstelnau (legado do papa), em 1208, precipitou uma mudança na condução política da Igreja.


O conde Raimundo de Toulouse, era suspeito do assassinato, sendo excomungado pelo papa Inocêncio III, que escreveu ao rei da França, Filipe Augusto, para expulsar o acusado dos Estados do Languedoc, ordenando uma cruzada contra Raimundo VI.


O novo legado do papa, Amaury, anunciou a cruzada contra os cátaros e contra os senhores que os protegiam. Um exército mercenário comandado por Simão de Montfort, declarou guerra ao vice-condado de Trencavel, que estava sob proteção de Raimundo VI e Rogério de Trencavel. Raimundo VI, teve que se humilhar ante a Igreja, e acabou perdendo seus domínios.


Na primeira fase da cruzada, foram destruídas as cidades de Béziers (1209), onde 60.000 pessoas morreram.


Destruída a cidade, os cruzados, marcham papa Carcassone, onde Raimundo VI foi preso, acabando por morrer na prisão. Simão de Montfort, se apossa dos condados de Trencavel (Carcassone, Béziers), conquistando também Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepoix, Pamiera e Albi. Minerve, foi sitiada em 1210, sendo queimadas 140 pessoas.


A próxima conquista seria Corbiéres, chegando até a cidade de Puivert.


O conde de Toulouse, tinha como aliado o conde de Foix, o conde de Comminges e o visconde de Béarn. Em 1212, estabelece-se uma coligação entre Pedro de Aragão e Raimundo VI, Simão de Montfort derrotou-os na batalha de Muret (1213), onde Pedro acabou morrendo.


O IV Concílio de Latrão, confirmou as possessões de Montfort, além de propiciar a conciliação dos senhores do Sul com a Igreja, com o compromisso de perseguirem a heresia.


Em 1216, a Provença subleva-se e Montfort trava nova batalha contra os hereges. Com a morte de Inocêncio III, coube a Honório III, lançar uma nova cruzada. Raimundo VII, filho de Raimundo VI, obteve vitória sobre Montfort, na batalha de Beaucaire.


Simão morre em 1218, acabando também a cruzada, sem entretanto extinguir a heresia. Amaury, filho de Montfort, oferece as terras conquistadas por seu pai a Filipe Augusto, rei da França que as recusa, seu flho Luís VIII acabará aceitando as terras.


Porém, Raimundo VII, entra em luta com Amaury, para retomar o seu feudo no Languedoc. Em 1224, Luís VIII, liderando os barões do Norte, empreendeu uma nova cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges.


O resultado dessa disputa foi um acordo entre o rei da França e Raimundo VII, pelo qual a filha de Raimundo se casaria com um irmão do rei, consequentemente os domínios disputados passariam para a Coroa da França (tratado de Meaux, 1229).


Raimundo VII, teve que se submeter ao rei da França, sendo coagido a reconhecer a vontade da Igreja e atacar a heresia.


A partir de 1240, verifica-se novas revoltas no Midi. Numa revolta em Avignoret, alguns inquisidores são assassinados, como consequência a cidade foi conquistada, e retomada a cruzada.


Montségur, o grande reduto dos cátaros, é atacado e tomado de assalto em 1243. Durante o ataque os cátaros, conseguiram retirar seu "tesouro" do castelo e escondê-lo (alguns acreditam que se tratava de riquezas, outros que o tesouro eram livros ou então apenas alusão a sabedoria dos Perfeitos).


A queda de Montségur marca o fim da Igreja Cátara organizada. Alguns sobreviventes se refugiaram na Catalunha e na Itália. Uma outra fortaleza a de Quéribus, caíra em 1255.


Pierre Authié, adepto do catarismo, continua a divulgar a doutrina, sendo preso em 1310, quando se dirigia a Castelnaudary e condenado a morte na fogueira. Guillaume Bélibaste e Philippe d’Alayrac, ambos cátaros, fogem da prisão em Carcassone.


Philippe acaba sendo capturado e queimado. Bélibaste refugia-se em Mosella, nas montanhas de Valença, e acaba sendo traído por Arnaud Sicre (de família cátara), que tentava reconquistar os bens de sua família, espionando para a Inquisição.


O último ministro cátaro, fora queimado em Villerouge-Termenès, em Corbiéres, por ordem do arcebispo de Narbone, em 1321.


Instauração da Inquisição


A instauração da Inquisição, está ligado ao momento em que a Igreja se torna parte de um sistema institucionalizado de dominação feudal.


Com o triunfo do catolicismo no Baixo Império Romano, no século IV, a Igreja e o Estado se estabelecem com identidade de interesses, a heresia passa a identificar-se como crime político.


Entre os séculos V e IX, a Igreja foi consolidando sua hegemonia, impondo uma unidade ritual, buscando unir as diversidades religiosas.


Em 1216, institui-se a ordem mendicante dos pregadores de S. Domingos. Com o objetivo de não só pregar a fé católica, mas de agir em sua defesa.


Pouco depois, nasceria a idéia de um tribunal organizado no combate as dissidências religiosas. A heresia cátara fornece ao papado a oportunidade de transformar em realidade o seu poder político repressivo.


No ano de 1233, o papa Gregório IX, promulga duas bulas, nas quais decide mandar monges dominicanos aos locais onde havia focos heréticos.


E em 1252, uma bula do papa Inocêncio IV, completatá o processo de institucionalização da Inquisição como tribunal.


Durante os processos inquisitoriais, não era permitido a defesa legal, sendo proibido o apelo à sentença. A tortura seria aplicada não só aos acusados, mas também aos que os acorbetassem.


S. Agostinho, considerava a tortura um meio útil para devolver ao rebanho as ovelhas desgarradas, já que estas só causariam dano a sociedade.


O papa era o inquisidor-mor, lhe cabendo a incumbência de designar inquisidores.


Os inquisidores dominicanos, chegaram a França, em 1233, onde foi instalado o primeiro tribunal permanente da Inquisição.


As violências e perseguiçôes se salientaram entre os anos de 1277-1278, os inquisidores chegaram a ser repelidos em Béziers e Carcassone (1296), pelo povo e pelas autoridades municipais, havendo uma queda na simpatia popular da Inquisição.


O catarismo desaparecerá completamente do território francês, após ter sido extirpada de Montaillou, última aldeia francesa que ainda sustentava esta heresia no início do século XIV.


A Igreja Católica usou de vários meios para eliminar a heresia, no início tentou converter os hereges pela pregação dos monges, depois através da excomunhão dos pecadores, e finalmente o que obteve maior resultado a Inquisição.


As heresias acabaram por alertar a Igreja para seus problemas espirituais e de que seria necessário uma reforma, principalmente no que se refere a corrupção do clero.


Porém a maior crítica à Igreja da Idade Média, centrasse no abuso de seu poder, a opressão à liberdade religiosa, à liberdade de consciência, ao direito de escolher.


O movimento herético cátaro (séc. XII-XIV), é importante para se compreender os processos utilizados pela Igreja na repressão. A instauração da Inquisição que ocorre nesse período, perpetua-se até o século XIX.


Fonte: Heresia Perfeita
Ed. Record

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