domingo, 7 de junho de 2009

O som e a fúria de Glenn Gould

"Você toca como um compositor." O elogio, feito ao pianista canadense Glenn Gould (1932-1982), permanece até hoje como o juízo mais certeiro já dirigido a ele.

Seu autor, o compositor americano Aaron Copland, completou de modo ainda mais cirúrgico: "Quando eu o escuto tocar Bach, é como se o próprio Bach tocasse.

"Um dos maiores ícones culturais do século 20, o extraordinário e irascível Gould foi mais do que um pianista.

Levou uma carreira inteira de quebra de paradigmas e olhares para o futuro. Abraçou a tecnologia como nenhum outro músico.

Fez dela o passaporte para uma "presença cultural" intensa, que só se fortalece com o passar do tempo.

Continua sendo - como foi em toda a sua carreira de 27 anos, distribuídos entre 1955 e 1982 - um dos músicos mais discutidos, ouvidos, questionados, cultuados na cena musical.

Está artisticamente mais vivo do que nunca, a julgar pela quantidade de teses e livros que continuam a ser publicados, e pela presença em catálogo de seus cerca de 80 CDs.

Ainda hoje, seus registros das Variações Goldberg, de Bach, contabilizam vendas com números excepcionais.

Por isso mesmo, a Sony brasileira acaba de lançar o álbum triplo A State of Wonder no mercado nacional: o primeiro CD traz a gravação de 1955 das Goldberg para a Columbia, que transformou Gould instantaneamente em celebridade mundial; o segundo traz o que muitos chamam de seu testamento musical, a segunda versão, hipnotizante e bem mais lenta, das Goldberg, realizada em 1981; e no terceiro CD o pianista discute a obra e as duas leituras tão surpreendentemente distintas com o crítico musical Tim Page.

Além disso, o baú de imagens, gravações áudio, programas de rádio e TV do pianista parece mesmo inesgotável. Uma garimpagem nos lançamentos mais recentes no mercado internacional proporciona uma colheita riquíssima e diversificada.

No reino dos CDs, três caixas. A primeira, com seis discos, intitula-se The Young Maverick e resgata as primeiras gravações feitas para a CBC entre 1951 e 1955, ou seja, até ele ser "descoberto" pela Columbia norte-americana e levado a Nova York para gravar Chopin (Gould recusou-se e propôs as Goldberg ao piano moderno, uma heresia num tempo em que Bach só era tocado no cravo).

Dois CDs são dedicados a Bach, inclusive com uma versão prévia das Goldberg, de junho de 1954; em seguida, três CDs só com Beethoven: os três primeiros concertos para piano e orquestra; e preciosidades como as Seis Bagatelas opus 126; o sexto CD é dedicado a Arnold Schoenberg (Concerto para Piano opus 42), Sonata opus 1, de Alban Berg, e as Variações opus 27, de Anton Webern.

A segunda caixa intitula-se O Artista do Rádio. Gould inaugurou o que chamava de "rádio em contraponto", construindo polifonias de vozes faladas e a música de um modo muito pessoal. A caixa mostra, em cinco CDs (selo CBC Records), cinco dos 150 programas produzidos e apresentados por Glenn Gould originalmente na Rádio da CBC de Toronto, entre 1967 e 1977, com duração média de uma hora cada um.

Três giram em torno do Canadá. Os dois restantes são retratos musicais de dois ídolos de Gould: o violoncelista catalão Pablo Casals (1876-1973), o primeiro a levar o monumento das Seis Suítes para Violoncelo Solo, de Bach, para as salas de concerto, a partir de uma partitura comprada por ele aos 13 anos numa ensolarada manhã de 1889 num sebo qualquer de Barcelona; e o maestro inglês Leopold Stokowski (1882-1977), por sua decidida paixão pelas novas tecnologias, que ampliaram o público para a música de concerto, como na animação Fantasia, parceria com Walt Disney, de 1940.

A terceira caixa é um subproduto do Gould-artista-de-rádio: Michael Stegemann, biógrafo alemão de Gould e especialista em música clássica no rádio, "compôs" uma inteligente e rigorosa Glenn Gould Trilogy, distribuída em três programas de rádio, um em cada CD (selo Sony), contando a vida e a obra do pianista canadense, do nascimento à morte, utilizando os vastos materiais em áudio que ele deixou.

Stegemann realizou algo parecido com o que outro fanático, o cineasta francês Bruno Monsaingeon, fez em Glenn Gould - Au-Delà du Temps, já lançado em DVD ( Ideale Audience).

Ele se dedica ao pianista desde que, nos anos 60, ouviu por acaso e comprou em uma loja de Moscou dois LPs com alguns prelúdios e fugas do Cravo Bem Temperado por Gould.

De lá para cá, dirigiu todos os filmes tendo GG como centro entre 1967 e a morte do pianista em 1982; e coordenou a publicação de quatro volumes de artigos e entrevistas de GG, além de outros documentários, até este "além do tempo", focado na maciça presença do artista nos dias atuais, em todo o mundo.

A Romance on Three Legs, da jornalista americana Katie Hafner (Bloomsbury), tem um subtítulo que já diz tudo: A Busca Obsessiva de Glenn Gould Pelo Piano Perfeito.

O verdadeiro herói do livro, no entanto, não é o pianista nem o majestoso piano de cauda modelo D de concerto da Steinway & Sons identificado como CD-318, feito na década de 40, e no qual um Gould ainda menino tocou.

Ele o reencontra em 1960 e ao mesmo tempo que conhece o afinador cego de origem sueca Verne Edquist - afinal, por trás de todo grande pianista sempre há um grande afinador.

O 318 parecia, nas palavras de Gould, "um pouco como se fosse um cravo castrado", ideal para Bach. O livro conta as peripécias desse ménage à trois artístico, regado a uma rigorosa pesquisa.

A arte de Glenn Gould é um enigma real e permanente, que em igual medida fascina de modo avassalador pessoas de todas as latitudes do globo.

Daí a obsessão que não declina - ao contrário, eleva-se à medida que nos distanciamos de sua morte. Daí a sensação gostosa de que o seu baú é inesgotável.

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