quarta-feira, 17 de junho de 2009


Igor Fiodorvitch Stravinsky nasceu em Oraniembaum (Rússia), perto de São Petersburgo, a 17 (5 pelo antigo calendário) de junho de 1882.


Filho de um conhecido cantor da ópera imperial de São Petersburgo, educou-se em excelente meio artístico e cultural.


Apesar da precoce vocação para a música, foi encaminhado para o curso de direito. Conheceu então o filho de Rimski-Korsakov, passando a estudar com esse último.


Em 1905 abandonou a universidade, ouvinte entusiasmado de suas primeiras obras, Diaghliev convidou-o a colaborar nos balés russos, para os quais compôs O pássaro de fogo, cuja apresentação em Paris (1910) lhe abriu o caminho da celebridade.


Alcançando outro sucesso com Petrouchka (1911), causou escândalo em maio de 1913 com A Sagração da primavera.


A I Guerra Mundial levou-o a mudar-se para a Suíça, voltando à França em 1919. Nessa época, apresentou-se freqüentemente como pianista e regente, enquanto como compositor se voltava para a pesquisa da tradição clássica européia.


Em 1939 perdia a mãe e a primeira mulher, ao mesmo tempo que o início da II Guerra Mundial o fazia trocar a França pelos Estados Unidos.


Nesse país casou-se (1940) com Vera de Bosset e trabalhou durante mais de trinta anos. No começo da década de 1950, encontrou um amigo dedicado na pessoa do jovem regente Robert Craft, que lhe despertou o interesse pela música serial.


Em 1963, após quase meio século de afastamento, Stravinsky visitou a então União Soviética, recebendo carinhosa acolhida do povo russo. Stravinsky morreu em Nova Iorque, a 6 de abril de 1971.


Afirmando-se, ao lado de Bartók e Schönberg, como um dos compositores de maior significação na primeira metade do séc. XX, Stravinsky distingui-se entre seus contemporâneos pelo caráter multiforme, tanto de sua produção, quanto de suas diretrizes estéticas, que refletem as mudanças de meio e vivência sócio-cultural do seu cosmopolitismo.


À medida que se 'desenraíza', que se diversifica em variadas fontes de matéria-prima, cada vez mais seu interesse se concentra no valor da forma, da arquitetura musical, a que traz contribuições vigorosamente renovadoras.


Passando, no mínimo, por três fases bem demarcáveis - a da música de fundo russo, ligada à cooperação teatral com Diaghilev; a do chamado estilo neo-clássico, norteada pela revalorização criativa de princípios e autores da música européia do séc. XVIII; e da adesão do serialismo weberniano.


Stravinsky sustenta e desenvolve em todas elas, como em seus muitos trabalhos de transição, a mesma preocupação de reordenar a arte musical e enriquecê-la com novas técnicas e perspectivas.


Sua imaginação é tão forte quanto sua racionalidade. Propõe-se, antes de tudo, dominar, num processo de depuração e de síntese, os elementos contrastantes de sua experiência, ao mesmo tempo eslava e ocidental.


Stravinsky consegue concretizar esse projeto. De um lado, na atitude anti-romântica, mas rebelde, em que promove a fusão do bárbaro e do moderno, do exótico e do universal; de outro lado, principalmente do Édipo rei (1927) e da Sinfonia dos salmos (1930) em diante, pela solene dualidade greco-romana de seu caminho para a religião, o catolicismo.


Entre uma e outra orientação, tornam-se mais inteligíveis as razões do período em que se volta para a polifonia pré-clássica e, em particular para Pergolesi.


Recuará ainda mais, até a música do séc. XIV, para estruturar a sua surpreendente missa de 1948.


Defendendo a completa funcionalidade da técnica que requer um novo tratamento para cada obra, Stravinsky alcança admirável domínio artesanal, implanta novas combinações instrumentais, conduz um fluxo melódico que incorpora tudo, desde o folclore russo à liturgia da Igreja romana, alarga o espectro de possibilidades da harmonia tonal e confere ao ritmo um relevo extraordinariamente fértil para o desenvolvimento da música contemporânea.


Com sua pluralidade, sua força de tantos entrechoques e contradições, Stravinsky encarna em sua música uma súmula viva das crises e transformações que sacodem o mundo até hoje.


Nenhuma obra de Stravinsky é mais conhecida do que A sagração da primavera.


Compreende-se a perplexidade dos primeiros ouvintes desses quadros da Rússia pagã: a aparente violação de toda a sintaxe musical, a aspereza politonal e do intenso cromatismo das dissonâncias, a poliritmia, o selvagem acento percussivo, a energia vulcânica do colorido orquestral, pareciam desmantelar tudo o que se consagrara de teoria e harmonia musical.


Mas o fascínio da obra, que permanece, acentua-se na identificação aparentemente paradoxal do que sugere o tumulto da vida moderna, com suas máquinas e explosões; nesse sentido, é a recriação sonora do encontro de dois extremos, o primitivo e o contemporâneo.


Na ópera alegórica O rouxinol (1914), Stravinsky satiriza a mecanização da vida moderna. Inscrevem-se na mesma fase a ópera cômica Maura (1921) e o bailado As núpcias (1923), que explora o folclore dos camponeses russos.


Diferente, e de difícil classificação, é A história do soldado (1918), inspirada no teatro ambulante e popular da Rússia.


Concebida como uma espécie de pantomima fantástica, com narrador e orquestra no palco, reitera a crítica do compositor à era das máquinas.


A fase neo-clássica já se manifesta em Pulcinella (1919), bailado baseado em melodias de Pergolesi.


Mais característico ainda é o Octeto para instrumentos de sopro (1923).


Mas é a partir do modelo de Händel que Stravinsky realiza seu Édipo rei, oratório de grandiosa beleza trágica, com texto em latim, de Cocteau.


Em Apollon Musagete (1928), a expressão neo-barroca, de frieza clássica, parte das formas puras da dança.


Trabalho culminante dessa segunda trilha stravinskyana, A carreira do devasso (1951) reúne motivos de Händel, de Mozart, e do canto italiano.


A ópera inspira-se em quadros de Hogarth e dá a medida da relação entre as incursões históricas do autor e sua virtuosidade de estilo.


Até a religiosidade sincera da Sinfonia dos salmos, Stravinsky compôs diversas obras importantes, como o Rag Time (1918) para 11 instrumentos, sob a influência do jazz; a Sinfonia para instrumentos de sopro (1920); a ópera O beijo da fada (1928).


Vem depois o sereno melodrama Perséfone (1934), com texto de André Gide; o Concerto para orquestra de câmara em mi bemol maior (1938), em que Stravinsky integra o estilo de J.S.Bach, prestando-lhe homenagem; a Sinfonia em dó maior (1940) e a Sinfonia em três movimentos (1945); o bailado Orfeo (1947).


A religião vai confluir, pouco a pouco, para o dodecafonismo, através do Canto sacro em honra do nome de São Marcos (1956), Threni (1959), Um sermão, uma narrativa e uma prece (1961), etc.


De influência decisiva nas diversas correntes da música atual, Stravinsky escreveu uma auto-biografia (até 1934), Crônica de minha vida (1935), Poesia musical (1946) e vários livros em colaboração com Robert Craft.

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