terça-feira, 23 de junho de 2009

Andrew Wyeth

Ao morrer, numa sexta-feira, em janeiro desse ano, aos 91 anos, em sua casa de Chadds Ford, Pennsylvania (EUA), após breve enfermidade, o pintor Andrew Wyeth já era uma espécie de monumento nacional americano.

Tão popular era o realista Wyeth, autor de paisagens rurais de sua região, que Snoopy, o cãozinho criado por Charles M. Schulz, não teve dúvida em substituir uma tela de Van Gogh, queimada num incêndio, por uma do mais popular pintor figurativo de seu país numa de suas tirinhas.

Popular, mas visto com maus olhos pelos críticos e historiadores, aliás. Eles não hesitam em compará-lo ao ilustrador Norman Rockwell toda vez que se referem ao artista, quando não dizem simplesmente que sua ingenuidade foi tão gritante quanto a de Grandma Moses (1860-1961), pintora popular que vendia suas telas por dois dólares antes de ficar famosa.

Andrew Wyeth não foi Edward Hopper, mas mereceu análises sérias de pintores como Rothko e exerceu forte influência no imaginário de cineastas como M. Night Shyamalan (especialmente no filme A Vila) e Philip Ridley.

Rothko, por exemplo, observou que Wyeth esteve à beira de um certo estranhamento que poderia ter mudado o rumo da pintura realista americana, não fosse sua resistência em assumir a solidão urbana como o fez Hopper e confrontar a angústia provocada pela desolada paisagem rural americana.

Wyeth sempre deu um jeito de encaixar um elemento nessa paisagem, fosse uma casa ou uma garota, que acenasse com certa esperança no fundo da tela, enquanto Hopper preferiu ser o pintor da solidão da urbe.

À medida que crescia a celebridade de Andrew Wyeth, menos ele pensava em desafiar o olhar do público, acomodado às suas paisagens bucólicas da Pennsylvania e do Maine, inicialmente feitas em aquarela e têmpera.

Seu único ato de ousadia foi o de criar a série de aquarelas e pinturas conhecida como Helga, em homenagem à vizinha europeia Helga Testorf.

Pintada em segredo entre 1971 e 1985, a série de 247 pinturas foi comprada em 1986 pelo milionário americano Leonard E. B. Andrews.

Sem o conhecimento do marido da modelo ou da mulher do pintor, ela foi crescendo até que a enfermeira Helga concordasse em tirar a roupa para Wyeth.

De qualquer forma, não há nada de erótico nessas pinturas. Helga foi só um pretexto para estudos sobre luz, como foram as garrafas para Morandi.

Prova disso são as alterações que fez em seu corpo (numa aquarela, ele a pinta de cabelos escuros para preservar sua identidade), contrariando sua vocação realista. Wyeth começou a pintar cedo por influência do pai ilustrador.

Não frequentou a escola por ser uma criança doente, mas o pai se encarregou de sua formação, colocando em suas mãos poemas de Frost e ensaios de Thoreau sobre a natureza.

A música e o cinema fizeram o resto - e as paisagens de Wyeth revelam muito a influência dos filmes de John Ford.

Wyeth, que expôs pela primeira vez em 1937, passou ao largo das discussões intelectuais que revolucionaram a arte americana e levaram ao advento do expressionismo abstrato nos anos 1950.
Seu olhar denuncia certa nostalgia do mundo rural, incorporando o imaginário pastoral como se fosse um pintor do século 19, um Constable de cores claras e certa inclinação para o transcendentalismo.

Nada disso diminui seu valor. Wyeth foi um bom pintor. E bons pintores são difíceis de achar.

Um comentário:

jugioli disse...

Wyeth é muito especial com seus trabalhos. E todo um lirismo poético com a figura do feminino, deve ser cultuado.