sexta-feira, 22 de maio de 2009

Londres dará cidadania a guerreiros gurkhas


O premiê britânico, Gordon Brown, sancionou ontem a lei que dá a 100 mil guerreiros gurkhas nepaleses o direito de reivindicar cidadania britânica por serviços prestados às Forças Armadas da Grã-Bretanha.


A medida - que dá aos beneficiários o direito de usufruir do sistema previdenciário e de assistência médica britânico - deve custar US$ 2,2 bilhões para os contribuintes.


Nos últimos 200 anos, o Exército britânico contou com o apoio dos gurkhas, um grupo de soldados de elite conhecidos no mundo militar por sua eficiência e, muitas vezes, por sua crueldade.


Incorporados às forças da Grã-Bretanha em 1815, quando o Nepal ainda era uma colônia britânica, os gurkhas construíram sua temível reputação não só nos antigos conflitos da era colonial, mas também em guerras modernas como Malvinas, Iraque e Afeganistão.


O símbolo dos batalhões gurkhas, compostos atualmente por 3.400 combatentes de elite, são duas adagas cruzadas.


As armas brancas não têm só valor simbólico; com 40 centímetros e curvatura invertida, elas dão aos gurkhas a capacidade de mutilar gravemente inimigos com um só golpe."Ouvimos lendas sobre eles o tempo todo no campo de batalha", disse ao Estado o veterano das Malvinas Nélido Riveros, mantido prisioneiro de guerra pelos britânicos por 30 dias.


"Os próprios gurkhas alimentam essas lendas. Mas na guerra isso não importa, pois não se escolhe o inimigo", declarou o argentino.Muitas das histórias sobre os gurkhas fazem parte da propaganda de guerra que todo Exército cultua em benefício próprio.


Em favor da fama dos combatentes pesa o fato de nunca terem saído derrotados.


Na 1ª Guerra, 100 mil gurkhas alistaram-se e, apesar de muitos terem morrido em combate, a Grã-Bretanha saiu vitoriosa. Na 2ª Guerra, os 40 batalhões de gurkhas sofreram 43 mil baixas e converteram-se no regimento britânico mais condecorado da história, com 26 Cruzes da Vitória - 13 para nepaleses e 13 para seus comandantes britânicos.


"Quando ouço trovões, ainda me lembro das Ilhas Falklands (Malvinas). Vi coisas horríveis acontecerem lá e ainda tenho pesadelos com isso", disse ao jornal londrino The Guardian o soldado gurkha Gyanendra Rai, atingido por estilhaços de bombas lançadas pelos argentinos nas Malvinas.


Rai serviu como soldado de artilharia por 13 anos e 81 dias. Há dois anos, ele pediu um visto definitivo ao governo britânico para realizar tratamentos médicos e psiquiátricos inexistentes no Nepal. Seu pedido foi negado em outubro de 2006.


Como fez com Rai, a Justiça britânica já havia negado cidadania a mais de mil veteranos gurkhas só nos consulados de Katmandu, Hong Kong e Macau, sob o argumento de que os gurkhas "falharam em demonstrar laços fortes com a Grã-Bretanha".


"Recebi seis transfusões de sangue de meus companheiros britânicos. Como eles podem dizer que eu não tenho laços fortes?


Eu tenho, literalmente, sangue britânico correndo nas minhas veias", disse Rai.


-> Para ser enviado à guerra os soldados servem, agora quando precisam de ajuda não valem nada, é essa a mentalidade das grandes potências sobre as colônias.


Marcello Lopes

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