sábado, 23 de maio de 2009

John Donne


Nascido em Londres numa rica família católica e depois convertido ao anglicanismo, John Donne (1572-1631) é um dos expoentes da chamada "poesia metafísica" inglesa.


De início, vale observar com cuidado essa denominação. O termo metafísico, nesse caso, não corresponde ao seu significado atual.


No início do século XVII, metafísica queria dizer, mais ou menos, "filosofia". Portanto, eram poetas "pensadores". Obviamente, não poderia ser metafísico, com o significado de hoje, um poema erótico como "Elegia: Indo Para o Leito".


É verdade que esse erotismo situa-se mais no campo da imaginação que da experiência.


Na "Elegia" — peça que, pela sua ousadia, foi excluída da primeira edição dos poemas de Donne (1633) — ele chega a comparar o corpo sem roupa à alma sem corpo.


Convertido ao anglicanismo, John Donne tornou-se também um clérigo da nova fé. Em 1624, foi nomeado deão da catedral de São Paulo, título que manteve até a morte.


São famosos, mais que sua poesia, os sermões e outros textos de inspiração religiosa que ele escreveu.


Um deles é amplamente conhecido e citado, embora nem sempre quem o cita saiba associar o texto ao autor. É o texto que contém a célebre frase: "nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.


"Trata-se da "Meditação 17", escrita por Donne em 1624. Nessa página, assim como em outras 22 meditações, ele reflete profundamente sobre a morte, motivado por uma severa enfermidade, da qual se recuperou.


Sair dessa doença, escreveu Donne, foi, como nascer de novo. Transcrevo aqui o trecho mais conhecido dessa meditação.


A "Meditação 17", de Donne, inspirou o título do romance Por quem os sinos dobram, de Ernest Hemingway, publicado em 1940.


MEDITAÇÃO 17 (trecho)


Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme.

Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio.

A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.


Tradução: Paulo Vizioli


Outra curiosidade: parte da tradução de "Elegia: Indo para o Leito", de Augusto de Campos, foi musicada por Péricles Cavalcanti e gravada por Caetano Veloso no disco Cinema Transcendental (Polygram, 1979).


Mais uma dica: todo o conjunto das Meditações de Donne foi reunido agora numa edição bilíngüe, lançada no Brasil pela Editora Landmark. A tradução é de Fabio Cyrino.
Marcello Lopes

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