sexta-feira, 22 de maio de 2009

22 de Maio de 1885


A França lembra hoje os 124 anos sem seu maior poeta.


Victor Hugo, pai ficcional do popularíssimo Quasímodo, o corcunda de Notre-Dame, da cigana Esmeralda e do ex-convicto Jean Valjean, nasceu dois séculos atrás, no dia 26 de fevereiro de 1802.


Ele teve a merecida sorte de ver-se consagrado em vida, situação que talvez somente Voltaire, outro titã das letras francesas, morto em 1778, conheceu antes dele.


A obra de Hugo é um oceano, abrigando todos os gêneros conhecidos, da poesia ao ensaio cultural, da novela ao panfleto político, do romance ao teatro, nada desconheceu.


A produção dele, que se estendeu por 70 anos ininterruptos, até quase a sua morte em 1885, foi impressionante. Dizem que escreveu mais de "um milhão de versos", além de engajar-se de corpo e alma nas lutas políticas e ideológicas do século XIX.


Viram-no emocionado com a passagem de volta a Paris na mão.


No dia 4 de setembro de 1870, Victor Hugo, o gigante das letras francesas que passara quase vinte anos exilado nas ilhas de Jersey e Guernesey, após ter recebido um telegrama em código, retornava à pátria.


Nove anos antes, em 1861, ele desprezara a anistia que o imperador Napoleão III (que ele, sarcástico, chamara de Napoleón le petit) oferecera aos que fizeram-lhe oposição à época do golpe de 2 de dezembro de 1851.


Mas agora, Napoleão III, derrotado, sitiado pelos prussianos em Sedan, no dia 2 de setembro de 1870, entregara a espada.


O Segundo Império se fora e o poeta sentira-se liberto do juramento de só pôr os pés na pátria quando a liberdade tivesse sido plenamente reconquistada: Quand la liberté rentrera, je rentrerai!


No dia seguinte, no 5 de setembro, uma multidão o aguardava na Gare du Nord, a que acolhia os trens que vinham da Bélgica.


Foi uma loucura. O carro aberto em que ele estava foi imediatamente cercado. Eufórico, o povo gritava "Viva a República!", "Viva Victor Hugo!".


Em minutos, desatrelaram os cavalos e centenas de mãos uniram-se para levar o coche dele adiante. Em pé, emocionado, ele abanava para os transeuntes.


Caído o imperador em Sedan, o César das letras francesas recebia os louros nas ruas de Paris. Morto o rei, viva o rei! A sua aparência, mesmo aos 69 anos, impressionava.


Victor Hugo era um homem vigoroso, de apetites sensuais e gastronômicos impressionantes. O cabelo e a barba totalmente brancos ressaltavam-lhe ainda mais o olhar e o fronte inteligente. Naquela jornada apoteótica, estimam, ele apertou umas seis mil mãos.


Dias depois arrumaram-lhe um escritório nas Tulherias, onde ele, como se fora um deus Olimpo vindo do exílio, recebia as homenagens de Paris inteira. Tratavam-no de père Hugo, pai Hugo!


O clima porém não era bom. A França rendera-se. Oitocentos mil alemães, comandados por von Molke, marchavam para Paris.


O governo provisório nas mãos do Comitê de Defesa Nacional, tendo León Gambetta à frente, tentava detê-los. Mas com quem ?


Paris, por sua vez, agitava-se. O que se ouvia pelas ruas era de que a cidade não iria capitular. A Guarda Nacional, a milícia civil, estava disposta a dar armas ao povo.


Victor Hugo, eleito para a assembléia nacional, não demorou a renunciar porque não podia assinar junto de Thiers, o ministro provisório que ajustara um tratado de submissão.


Nesse meio tempo morre Charles, o filho mais velho.


Exausto, Victor Hugo retira-se para Bruxelas. Então deu-se a catástrofe.


As tropas do governo de Versalhes, nas mãos de Thiers, receberam ordens no dia 18 de março de 1871 de entrar em Paris e desarmar a multidão. Foi mexer num vespeiro.


Durante 73 dias, a cidade sitiada, dominada pela Comuna mobilizada para a guerra, enfrentou o exército.


Brigadas de operários e suas mulheres, as petroleuses, numa resistência desesperada, deslocavam-se pelas avenidas e ruas incendiando os prédios públicos.


Num repente, os miseráveis que Victor Hugo imortalizara no seu gigantesco romance (Les misèrables, 3 volumes com 2.800 páginas, que, desde 1862, vendera sete milhões de exemplares!), rebelados, tentavam "tomar o céu de assalto".


Milhares de Jeans Valjeans, na companhia das Fantines e das pequenas Cosettes, assistidas pelo moleque Gavroche, um minúsculo herói das barricadas - personagens da grande epopéia literária do proletariado francês -, haviam ocupado as ruas de Paris preparando-se para o embate final.


O poeta, ainda na Bélgica, impotente, deprimiu-se. Logo ele que tanto apostara nos Estados Unidos da Europa. Não só alemães lutaram contra franceses, como esses, agora, brigavam entre si.


Acampados nos arredores da capital, estupefatos, os soldados prussianos viam o abrasar dos casarões e dos palácios ao som surdo das canhonadas e dos gritos de horror dos fuzilados.


A repressão do exército francês foi brutal. Do dia 22 ao 28 de maio, a matança começada em Montmarte, tão acertadamente chamado de o Monte dos Mártires, e encerrando-se no muro dos federados do cemitério père Lachaise, fizera com que 30 mil corpos de trabalhadores fossem trespassados pelas balas dos subordinados do general Mac-Mahon.


Nesse holocausto feito em nome da ordem social, juntaram-se às tropas e aos burgueses, levas de tipos criminosos que saíram dos bueiros para virem apedrejar e mofar dos caídos.


Em Bruxelas, Victor Hugo agiu para que acolhessem os desgraçados que sobreviveram aos massacres e aos desterros, do que ele chamou de L´année terrible.


As autoridades locais, ignorando seus apelos por tolerância para com os communards, fizeram com que ele fugisse para o pequeno Luxemburgo.


Clemência que ele continuou reclamando quando do seu retorno á França e indicado para a Câmara Alta, em 1873.


Por essas e outras é que 700 mil pessoas desfilaram em frente a sua residência na avenida Eylau (hoje Victor Hugo) ao ele completar 79 anos, em 26 de fevereiro de 1881.


Nem Napoleão vira tanto povo assim do seu palanque. A sua casa tornou-se local de romaria de gente do mundo inteiro.


Até um poema sobre o Brasil ele compôs para o imperador D. Pedro II. Nada em matéria de multidão equiparou-se ao seu enterro quando, no dia 31 de maio de 1885 (ele falecera no dia 22), partindo do Arco do Triunfo onde seu modesto ataúde estava exposto, um milhão de franceses se irmanaram pelos Campos Elísios para levar o féretro de Père Hugo até o Panteão.


Nos seus 70 anos de atividade ele fizera de tudo: foi par da França, membro da Academia de Letras, deputado, exilado político, militante anti-bonapartista, integrante do senado e o escritor mais famoso e mais popular das letras francesas em todos os tempos.


Além de célebre defensor da abolição da pena capital e emérito ativista das causas populares. Dizem que no delírio que antecedeu a morte, ele gritou "esta é a luta entre o dia e a noite".


L'histoire véridique, l'histoire vraie, l'histoire définitive, [...]tiendra moins compte des grands coups de sabre que des grands coups d'idée. (...)Pythagore sera un plus grand événement que Sésostris. (...) étant donnée, comme résultante,l'augmentation de l'esprit humain, Dante importe plus que Charlemagne,et Shakespeare importe plus que Charles-Quint.



(A história verídica, a verdadeira história, a história definitiva, dará menos importância aos grandes golpes da espada do que aos grandes lances das idéias. Pitágoras será um acontecimento mais importante do que Sesóstres. ... tendo como resultante o aumento do espírito humano, Dante importa mais do que Carlos Magno, e Shakespeare importa mais do Carlos Quinto).


Victor Hugo, William Shakespeare, 1864

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