sexta-feira, 17 de abril de 2009

Voltaire e a imprensa

O conceito de que a imprensa é o quarto poder é do escritor e orador irlandês Edmund Burke (1729-1797), já que ele imaginou a responsabilidade da imprensa de exercer uma forte influência sobre as votações do primeiro poder (o Legislativo), sobre as ações do segundo (o Executivo) e sobre as decisões do terceiro (o Judiciário).


Nem sempre foi assim, até o início do século XIX, poucos jornais ultrapassavam a condição de meros boletins e os fatos importantes sejam eles reais ou fictícios eram publicados em folhetos mais ou menos anônimos de acordo com o interesse de seus autores.


A democratização da informação é um fato relativamente novo, na verdade uma revolução sóciocultural que dominou o mundo.


Uma das figuras mais importantes dessa revolução é sem dúvida Voltaire, nenhum outro soube tão bem utilizar a imprensa como instrumento de educação popular em seu combate contra a ignorância, a intolerância e a superstição.


Ao longo de décadas ele produziu milhares de textos, de tragédias a filosofia, de poemas aos compêndios de história.


Voltaire tinha uma visão bastante diferente de hoje em dia sobre a missão de um jornal propriamente dito, podemos conhecer essa visão através do livro Conselhos a um jornalista da Ed. Martins Fontes.


Escrito em 1737, tem como subtítulo " Sobre a filosofia, a história, o teatro, os poemas, as miscelânias de literatura, as anedotas literárias, as línguas e o estilo" e apresentam como sugestões de Voltaire ao homem que deseja fundar um jornal que "agrade ao nosso século e á posteridade" e quando eu o li, percebi a perspectiva de Voltaire não era centrada no presente e sim em um futuro, já que seu modelo de jornal se parecia mais com as revistas que hoje em dia encontramos em uma banca.


Com uma vasta coleção de resenhas críticas abrangendo todos os temas imagináveis para o século XVIII, óbvio.


Hoje em dia, muitas vezes os jornais fornecem informações e temas que mais tarde constituirão livros, no caso de Voltaire, funciona ao contrário, os livros dão material á reflexões jornalísticas.


Seu principal conselho era a de imparcialidade sem omissão.


Voltaire era uma máquina de guerra que considerava qualquer manifestação da tolice humana uma afronta pessoal, assim suas resenhas literárias são textos que ultrapassam as obras que lhes deram origem.


Através de uma crítica aguda, poderosa e cheia de ironia ele abatia os egos dos homens que se achavam donos da verdade e apontava falhas, lacunas de suas criações que ele mesmo se encarregava de sanar.


Apesar de hoje sejam raros os jornais que pode tornar acessível a uma ampla camada da população um tipo de informação cultural mais sólida, e a concorrência que os jornais enfrentam como veículo de informação, os caminhos apontados por Voltaire ainda estão abertos e isolados dos modismos e da superficialidade que vigoram hoje em dia em muitos canais de informação.


Mas o grande milagre, porém, é que, entre acertos e erros, nossa imprensa tem sido autora de feitos gloriosos.


Não fosse o Visconde de Taunay, a trágica Retirada da Laguna teria sido apenas um relato confinado a anais militares; não fosse o engenheiro militar Euclides da Cunha cobrir para O Estado de S.Paulo a campanha de Canudos, estaríamos privados de uma monumental reportagem.


Ainda hoje é possível resgatar a cada dia textos de boa qualidade espalhados em milhares de publicações, mas ainda obra de uma minoria que demonstra ter a prática de ler antes de escrever.


Sei que vários jornalistas não lêem sequer o jornal onde trabalham, o que, aliás, é repetido nas universidades, onde professores não lêem o que escreveram seus colegas.


O resumo dos conselhos de Voltaire é ao meu ver, que antes de escrever, é preciso ler, pesquisar, pensar.


Podem parecer óbvios ou insólitos muitos de seus conselhos, mas uma coisa é inquestionável: é livro essencial à formação de jornalistas, dentro ou fora dos circuitos escolares, dispensados ou não do diploma universitário.


Texto: Marcello Lopes

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