quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A maior biblioteca pública dos Estados Unidos

Existe um grande número de lojas abandonada nos Estados Unidos, que, durante as últimas décadas, ficam largadas em espaços enormes à espera de novos donos. 

Mas ao menos um desses terrenos ganhou utilidade e se transformou na maior biblioteca pública do país.

A empresa Meyer, Scherer & Rockcastle transformou uma antiga loja Walmart abandonada na cidade de McAllen, Texas, em uma biblioteca de 124.500 metros quadrados, a maior biblioteca pública de um único piso dos EUA. 

A reforma derrubou o teto antigo e as paredes do edifício, deu ao que sobrou uma demão de tinta branca e começou a trabalhar adicionando espaços envidraçados, detalhes arquitetônicos que aumentavam a luminosidade interna e muitas fileiras de livros.

Hoje, a McAllen Pubilc Library tem uma sala acusticamente separada para jovens, 16 espaços para reunião, 14 salas de estudo e 64 laboratórios de informática. 

Além disso, espaços anexos incluem um auditório, uma galeria de arte, um sebo e um café.


Início das obras






















Matéria publicada no site Catraca Livre < https://catracalivre.com.br/geral/arquitetura/indicacao/loja-abandonada-vira-maior-biblioteca-publica-dos-eua/> acessado no dia 10/09/2014 às 15:00

Fotos: Meyer, Scherer & Rockcastle

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Diário para um viajante - Istambul



Constantinopla foi a capital de vários impérios na antiguidade. O imperador romano Constantino I, no decorrer das expedições com seu exército, tomou conta de uma região estrategicamente posicionada entre o Corno de Ouro e o Mar de Mármara, localizada no ponto de encontro entre Europa e Ásia.

Para estabelecer a presença do Império Romano e o controle de uma importante localização para o mundo antigo, foi fundada a cidade de Constantinopla, cujo nome faz referência ao já citado imperador romano.

No dia 11 de maio de 330, o imperador Constantino I tornou a cidade de Constantinopla a capital do Império Romano. Com o passar do tempo, a cidade cresceu territorialmente e em importância, sendo respeitada e cobiçada por vários povos. Até 395, permaneceu como capital do Império Romano, passando, então, a ser a capital do Império Bizantino.

Em 1204, as forças da Quarta Cruzada capturaram a cidade e teve início a fase do Império Latino.

Mas em 1261 passou ao comando de Miguel VIII Paleólogo, representante de Niceia. 

Novamente, a cidade de Constantinopla era a capital do Império Bizantino. Nesta fase, a cidade gozou de relativa tranquilidade e houve um grande crescimento. Era a capital da cristandade e a maior e mais rica cidade da Europa. 

Durante quase dois séculos serviu de capital aos bizantinos. Todavia, foi em 1453 que veio a grande derrota. No dia 29 de maio, o Império Otomano tomou a cidade como capital e esta situação não mais se alterou. 

No longo período que se inicia em 1453 e vai até 1922, Constantinopla foi a capital do Império Otomano.

Em 1923, foi criada a República da Turquia, que mudou sua capital de Constantinopla para Ancara, porém ainda mantendo o controle sobre a primeira.

A história recente da Turquia foi traçada por Atäturk (Pai dos Turcos). Foi ele quem, em 1922, acabou com os privilégios dos sultões e trouxe democracia ao país. Além disso, aboliu a complicada escrita Árabe-Otomana e introduziu o alfabeto ocidental.

Comece sua visita à cidade pelas mesquitas.

Como a Basílica de Santa Sofia, uma das maiores realizações arquitetônicas de todos os tempos. Inaugurada como igreja católica no ano 537, após a tomada da cidade pelos Otomanos, ela foi convertida em mesquita e teve quatro minaretes construídos ao lado. 

Quanto maior o número de minaretes, maior a importância da mesquita. Cinco vezes ao dia, os religiosos faziam orações no topo destes minaretes. Hoje as orações continuam sendo ouvidas em toda cidade, mas são transmitidas por alto-falantes. 98% da população turca é de religião islâmica. Atualmente, Santa Sofia é um Museu.

Istambul é dividida em quatro principais regiões, todas no lado europeu, conhecidas como Região do Palácio do Sultão, Sultanhamet (onde ficam a basílica Santa Sofia e Mesquita Azul), Bairro dos Bazares (onde está o grande bazar da cidade) e Beyoglu (onde fica Taksin, setor mais moderno da cidade).

A cidade é grande, e para ir de um bairro a outro existem várias linhas de ônibus e barcos.

Os preços não são caros, comparados a outras cidades européias, mas nem sempre é fácil entender as rotas e destinos. Não hesite em pedir informações, e lembre que mímica e inglês freqüentemente ajudam muito a comunicação. Mas o povo tem boa vontade com turistas, e é capaz até de seguir junto só para lhe mostrar o caminho.

Não deixe de visitar o Museu Arqueológico (Arkeoloji Müzesi), onde estão relíquias de todas as partes do império Otomano.

Merecem destaque o Sarcófago de Alexandre o Grande, o Tratado de Kadesh (onde estão gravados os termos do tratado de paz firmado entre egípcios e Hititas, no ano 1269AC), relíquias de 3000AC da cidade de Tróia e objetos diversos das civilizações de Anatólia, Trácia e Bizâncio. 

Ao lado uma imagem dos típicos vendedores de água, que vestidos com trajes típicos e carregando grandes vasilhames nas costas costumam percorrer as ruas posando para fotos com turistas.

Os copos coloridos de água ou suco são servidos com o auxílio de uma manguerinha.

Istambul é uma cidade situada em dois continentes. Parte fica na Europa e parte na Ásia.

O Estreito de Bósforo faz a divisão entre os continentes. Pegue um dos barcos que saem dos portos de Kabatas ou Eminonu, atravesse o Estreito de Bósforo, e vá dar uma voltinha logo ali na Ásia, onde fica Uskudar, o principal bairro asiático de Istambul. 

Alguns pontos em destaque nesta parte da cidade são A Torre de Leandro (Kiz Kulesi), Mesquita do Semsi Pasa, Mesquita dos Azulejos (Cinili Camii) e estação de trens Haydarpasa, a maior da cidade. Táxis são baratos e cobram pelo taxímetro. 

Caminhar é uma boa opção para conhecer a cidade de perto, mas procure levar um bom mapa e caminhar com atenção, porque o lado mais antigo de Istambul é um labirinto de estreitas ruas, calçadas que podem desaparecer, e às vezes é preciso disputar espaço com os carros.

O Grande Bazar existe há séculos e é imperdível. Lembrando um labirinto sem fim, ele mais parece cenário de filme das Arábias. Lá se encontra de tudo, sejam tapetes aos milhares, jóias de ouro e prata, artesanato, alimentos, temperos, perfumes, roupas, cerâmicas, narguilés de todos os tamanhos, e lembranças para todo mundo da família.

Mas atenção: Nunca pague direto o que o vendedor pedir, ofereça apenas metade. Pechinchar faz parte da tradição local e ninguém se ofende com isto. Muito pelo contrário, a ofensa está em aceitar o primeiro preço oferecido pelo comerciante, o que pode ser interpretado como desprezo pelo produto.

Quer agora um programa diferente?

Experimente um banho turco (Hamam), uma das mais antigas tradições do país. Consiste numa sauna a vapor intercalada com revigorantes massagens. Os massagistas tem fama de torcer cada músculo dos clientes, mas o resultado final é muito relaxante.

A Mesquita Azul, a principal da cidade. Para entrar numa mesquita é necessário tirar os sapatos e geralmente são distribuídos na entrada sacos plásticos para colocar nos pés, e sacolas para levar os sapatos, que devem ser devolvidas na saída.

Mulheres devem evitar roupas decotadas ou ombros de fora. Para aquelas que estejam vestidas assim são distribuídos xales para colocar nas costas. Também é usual cobrir a cabeça com um lenço, em sinal de respeito à fé muçulmana.

No interior da mesquita, há um local delimitando a área de orações apenas a quem realmente deseja rezar.

Lembre que além de atração turística, esta é uma casa de orações, por isso o silêncio é recomendável.

Mulheres muçulmanas fazem suas orações separadas dos homens, num setor situado nos fundos da mesquita. Ao sair, não esqueça de fazer uma doação àquela casa religiosa, o que sempre é bem vindo como sinal de gentileza e respeito.

Quem gosta de castelos não deve deixar de visitar a Fortaleza da Europa, situada cerca de 20 km ao norte da cidade, um imponente castelo medieval. Por outro lado, bem mais próximo e mais luxuoso é o Palácio Dolmabahçe, um tipo de Versalhes à moda Turca. 

O luxo e extravagância deste palácio construído pelo sultão Abdül Mecit em 1856 são estonteantes.

Merecem destaque a Escadaria de Cristal, Salão Cerimonial, Harém e Salão Azul, onde está o maior lustre de cristal do mundo. Foi neste palácio que Atäturk passou seus últimos dias, e o relógio de seu quarto mostra até hoje a hora em que o Pai do Turcos faleceu.

Além das mesquitas e do grande bazar, outra visita que não se pode deixar de fazer é ao Palácio Topkapi, residência dos antigos sultões turcos. A área do palácio é formada por uma sucessão de pavilhões, pátios e jardins, onde estão trajes imperiais e tesouros de encher os olhos e imaginação. 

O ponto mais famoso do palácio é o Harém. Um sultão podia ter mais de mil mulheres, e elas viviam todas no Harém. Além do sultão, os únicos homens que podiam entrar no Harém eram os eunucos, escravos castrados que atendiam às mulheres. Ser eunuco era ter um bom emprego e algumas famílias preparavam seus filhos desde pequenos para esta função.

Ao contrário do que relatam alguns contos eróticos, um sultão não mantinha relações físicas com todas mulheres. Esse privilégio cabia apenas às suas quatro ou cinco esposas oficiais (Kadins, as favoritas) e às eventuais Gözdes (novatas que caiam em suas graças). Todas as demais eram apenas serventes com funções diversas.

A responsável e maior autoridade dentro do harém era a mãe do Sultão, e cabia a ela controlar todas as outras mulheres. Quando um sultão morria todo mundo tinha que deixar o Harém, mãe, mulheres, esposas, filhas e serviçais.

Vinham então as mulheres do novo sultão. As favoritas conseguiam acumular bastante dinheiro e jóias, e depois da morte do sultão podiam viver dentro de ótima situação financeira.

Caminhar por Istambul revela a todo momento uma sucessão de contrastes e numa mesma rua pode-se cruzar com mulheres maquiadas e vestindo terninhos e vestidos tipicamente ocidentais ou então trajando hijab, chador, niqab, shaila, al-amira ou khimar, os diferentes tipos de véus islâmicos. 

Istambul é cheia de pequenos restaurantes onde os pratos são preparados na entrada, bem à vista dos fregueses. Basta apontar o que você quer e o atendente vai colocando os itens escolhidos em pratinhos separados.

Entre os pratos mais populares estão o Kebab (espetinhos de carne, peixe ou legumes), frango (preparado de várias formas), berinjela (muito usada como acompanhamento ou recheada com carnes, etc), e também camarão, atum, alcachofras, pimentão e almôndegas, além de pão à vontade para acompanhar. 

Para arrematar experimente um café ou chá turcos, geralmente fortes e sempre servidos em pequenos e artesanais recipientes de vidro. Mas não espere encontrar áreas de não fumantes. Ninguém por aqui se preocupa com isto.

A Torre de Gálata (Galata Kulesi), é a construção mais alta da cidade. Ela está situada bem no centro de um labirinto de ruas, na região de Beyoglu. 

Construída em 1348, ela fazia parte das antigas fortificações da cidade. Hoje é mais uma atração turística, e principalmente, o melhor ponto de observação para quem quer ver Istambul de cima. Chega-se ao topo por um elevador, e à noite o restaurante do último andar apresenta shows com danças típicas e pratos regionais.

Outro bom local para assistir danças típicas é no Mosteiro Mevlevi. Nele os famosos dançarinos Dervixes Rodopiantes fazem apresentações no último domingo de cada mês.

Bem no centro está uma das visitas mais impressionantes da cidade, a Cisterna da Basílica (Yerebatan Saray). É um enorme reservatório subterrâneo de água, construído pelos Bizantinos no ano 532 para abastecer o palácio, e sustentado por 336 colunas de 8 metros de altura. 

Visite o trecho onde está representada a cabeça da Medusa, local de um santuário de ninfas aquáticas e passe no pequeno restaurante iluminado a velas existente dentro da cisterna. É o melhor lugar para se pedir um chá e apreciar com calma toda a beleza daquele ambiente. 

O aeroporto de Istambul é um dos maiores e mais modernos da Europa. Fica situado 25 km a oeste.

A melhor opção de transporte para o centro são os confortáveis ônibus da linha Havas, com saída a cada 30 minutos bem da frente da área de desembarque. 

Se você quer hospedar-se num hotel bem situado, sugerimos que opte pela região próxima à praça Taksim, onde estão os melhores hotéis da cidade, ao estilo ocidental, e nem por isso mais caros. Ficamos no Hotel Taksin Square, um dos prédios na foto ao lado. 

Próximo a ela situa-se a rua Cad Istiklâl, principal artéria de comércio de Istambul, e cuja marca registrada é o simpático bondinho que circula de uma extremidade a outra. As melhores lojas da cidade estão aqui, além de diversos bares, restaurantes cinemas e consulados.


Palácio Topkapi

Foi o primeiro palácio dos Sultões Otomanos, funcionando como residência e centro administrativo para o império Otomano, um dos maiores do mundo, por 300 anos. Construído após a conquista de Istambul pelos turcos entre 1475 e 1478 a pedido do sultão Fatih Mehmet.



Gigante, cercado por muralhas com 5 Km, tem uma área de 700 mil m2.  (2 vezes a área do Vaticano! ) impressiona desde sua entrada com um parque muito verde e bem cuidado.

Atualmente é dos museus mais visitados da Europa.

Lá viviam 5 mil membros da família real, soldados, e criados. Sua planta arquitetônica era dividida em 2 partes, onde viviam a dinastia (enderum) e onde viviam empregados civis (birun).

Nessa época, o Harém era a parte mais importante da vida familiar do sultão onde, juntamente com as suas quatro esposas oficiais, com crianças, viviam também um considerável número de concubinas. (Na época do sultão Murat III, havia cerca de 1200 mulheres no harem). 




A vida para elas era muito competitiva, com o sonho de ser eleita "a favorita", dar um filho ao sultão, que seria o próximo candidato ao trono. Com tanta ambição, era uma rede de intrigas, fofocas, e quem as preparava e controlava era a "válide" (poderosa mãe do sultão).

É possível visitar os pátios, piscina, banhos turcos, corredores com os azulejos decorados, esplêndidas salas.

O outro prédio o Tesouro Imperial impressiona com as jóias mais poderosas do planeta.

O diamante Kasikci, de 86 quilates e 40 brilhantes á sua volta (conta a lenda que um fazedor de colheres encontrou o diamante e o vendeu por uma ninharia ao sultão) ou os seus tronos de ouro decorados com jóias, pedras preciosas, centenas de pérolas, milhares de rubis, esmeraldas, diamantes... adagas, espadas com pedras e mais pedras incrustadas.





As roupas dos sultões bordadas, o luxo em que viviam... Nas suas cozinhas expõe-se uma enorme coleção de porcelana chinesa. Em outra sala também há relíquias como ossos de São João Batista, relíquias de Maomé, etc.

Harém dentro do Palácio Topkapi

Fonte no jardim interno do palácio

Hagia Sofia




Hagia Sofia (pronuncia-se "Aya Sófya") ou Santa Sofia quer dizer "santa sabedoria" é um espetáculo; grandiosa, imponente, maravilhosa!

A igreja de Santa Sofia foi reconstruída por Justiniano no século VI e foi o centro do Império Bizantino durante quase mil anos. Considerada uma obra universal pela técnica que possui, as dimensões da sua arquitetura e os seus mosaicos dourados.

Cobre uma superfície de 1,6 hectares. Mais de 10.000 operários trabalharam na construção, 100 mestres durante 5 anos.  O mármore do interior  foi trazido da Anatólia e as 4 colunas verdes da nave foram trazidas de Éfeso, e os azulejos e tijolos trazidos de Rhodes.

Os terremotos danificaram as suas abóbodas, os cruzados saquearam os seus tesouros e no fim do Império Bizantino foi abandonada por falta de dinheiro.

Quando os turcos conquistaram Constantinopla a igreja foi transformada numa Mesquita.






Mesquita Azul 









A Mesquita Azul foi construída entre 1600 e 1616 a pedido do sultão Ahmet, e é a mais espetacular e linda mesquita de Istambul, com azulejos de Iznik (antiga Nicea, dois concílios ecumênicos do Cristianismo) e com 6 minaretes. 

Segundo a lenda, o sultão ao pedir ao arquiteto um minarete de "ouro", o arquiteto entendeu "seis" (o som em turco é similar) e por esta razão é a única mesquita a ter 6 minaretes, ao invés de ouro, que custaria muito caro.

Sua proximidade com o Palácio Topkapi, foi proposital. Com 21.043 peças de azulejos de Izmir, mede 51m x 51m, tem enorme tapete, onde não é permitido entrar de sapatos.

Hipódromo




Também é conhecido como At Meydani, ou praça dos cavalos, era grande, comportava 100.000 espectadores, e 40 fileiras de assentos.

Foi construído em 203 dC, ampliado por Constantino em 325, inspirado no Circus Maximus, em Roma.


O Hipódromo foi resplandecente com estátuas, obeliscos e troféus de vários países, restando apenas o obelisco de Teodosio, a Coluna Serpentina e obelisco de Constantino, mais conhecido como o obelisco murado.



San Salvador in Chora




A famosa igreja de San Salvador in Chora (Kariye Çıkmazı), é uma verdadeira jóia. 

Depois da Hagia Sofia é o mais importante exemplo de arte Bizantina em Istambul, do séc. XI , que permaneceu fechada após a conquista turca, sendo transformada em mesquita em 1511, quando acrescentaram um minarete. 

Desde 1948 é um museu muito importante, onde as pinturas chegam a ter um efeito tridimensional. 

Os mosaicos bizantinos nas paredes e nos tetos mostram a vida de Nossa Senhora, a vida de Cristo, sob visão da igreja Ortodoxa. 

Mosaicos bizantinos

Mosaicos bizantinos


Mosaicos bizantinos


Mosaicos bizantinos

Palácio Dolmabahçe



É o mais  decorado e suntuoso palácio de Istambul! Às margens do Bósforo tem um lindo jardim, onde hoje em dia acontecem elegantes casamentos. 

Concluído em 1856, durante 17 anos para ser melhor, mais confortável e sofisticado que o Topkapi, e foi inspirado em palácios europeus, como o de Versailles, Buckingham e sua extravagância quase quebrou o país. É um majestoso palácio com 245 apartamentos, 17 mil m2,  47 salões, e sua construção respeitando princípios de simetria. 



No Salão azul, era o salão principal do Harém, onde a válide (mãe do sultão), recebia as esposas e favoritas em dias de festas. Conta com salas super decoradas, repletas de objetos de arte, lustres maravilhosos, escada de cristais Baccarat, porcelanas de Sévres, alabastro do Egito, mármores das ilhas do Mar de Mármara, pinturas nos tetos feitas por artistas italianos e franceses, veludos, 14 toneladas de ouro, 40 toneladas de prata, o lustre mais pesado do mundo, com tapetes e mais tapetes...  (4500m2 de tapetes!) e a vista espetacular do Bósforo.



Aqui viveram sultões e o último califa, e depois com a queda do Império Otomano, o palácio ficou vazio durante 32 anos, tornou-se a residência de Ataturk, fundador da República Turca, (que aboliu a poligamia e modernizou a Turquia, considerado um verdadeiro "herói", ou melhor "pai dos turcos"), onde recebia estrangeiros e missões diplomáticas. Após sua morte 10/11/1938, os relógios ficaram congelados; 9:05, e anos depois o palácio virou um museu.

Cisternas 







A Cisterna de Yerebatan, a Cisterna da Basílica, pela sua  enorme área,  também chamada de "Palácio Submerso"é  uma beleza, a maior de todas Cisternas construídas, com capacidade de armazenar 100.000 m3 de água, durante o período bizantino em Istambul. 

Tente imaginá-la cheia de água. Foi construída por Justiniano I, em 532, após a Revolta de  Nika, como uma ampliação da cisterna anterior, construída por Constantino. No período otomano, a água era utilizada pelo Palácio de Topkapi e seus jardins. 

Como não havia nascentes dentro das muralhas bizantinas, a Cisterna Yerebatan foi construída em 532,  para armazenar água e protegê-la de guerras, e envenenamentos, e suprir o fornecimento da cidade, com água proveniente de rios e nascentes da floresta de Belgrado, a 25Km a norte de Istambul. 

Construída com material "reciclado", isto é; colunas romanas provenientes de diferentes estruturas, foram utilizadas colunas com 70 m, 140 m de comprimento, somando 336 colunas, dispostas  a cada 4 m. 






Acima, outro exemplo de "reaproveitamento"; é possível ver 2 pedras enormes, que são cabeças de Medusa, usadas como base de colunas menores.

Utilizada até o séc. XVI, com pouco uso durante o período Otomano, e depois restaurada no séc. XIX., foi aberta à visitação em 1987. Sua localização no subsolo e iluminação a torna um lugar único e misterioso, usado para apresentações de orquestras e desfiles de moda, é um lugar maravilhoso! Os fãs de James Bond devem se lembrar do filme: "From Russia With Love" com cenas filmadas aqui.

Torre da donzela 




A primitiva torre na pequena ilha do Bósforo foi erguida no ano 1100 com um objetivo militar.

A torre atual foi construída no século XVIII. Segundo diz a lenda, o rei levou a sua filha até à torre porque alguém lhe tinha predito que morreria de uma mordida de serpente.

No entanto, a serpente entrou na ilha dentro de uma cesta de alimentos e a donzela morreu. Atualmente, funciona ai, um agradável restaurante e café.

Torre de Gálata







É a mais antiga torre de Istambul, construída em 528 pelo rei de Bizâncio.

Durante o séc. XIII foi usada pelos italianos (genoveses e venezianos) e posteriormente conquistada pelos turcos em 1453. Já foi prisão e depósito naval.

Mede 61 metros de altura, mas tem elevador e depois um lance de escada.

Na parte de cima da torre há um restaurante e uma salão de festas donde se pode apreciar “O Corno de Ouro” e a parte antiga de Istambul.

Com elevador e um lance de escada é uma vista imperdível do Bósforo, dos terraços, da cidade, especialmente na hora do pôr-do-sol!

Outros pontos de turismo importantes são: 

"Chifre de Ouro" ou "Corno de Ouro", é um estreito de mar de 7Km de comprimento, que divide o lado europeu em duas partes. Divide Istambul na parte antiga, aonde estão os palácios Topkapi, Mesquita Azul, da parte moderna.

Istklal Caddesi é a famosa rua de pedestres, bem comercial e nada bonita, com bondinho elétrico (lembra Lisboa) de lojas mais populares, doceiras, etc. , e a igreja de Santo Antônio, a maior de Istambul. termina na praça Taksim. Super movimentada de dia  pelo comércio e à noite também... (aonde vai tanta gente?) 
Lá se encontram as embaixadas da Suécia, Dinamarca, França e Rússia.

Taksim é uma grande praça, numa região bem central e movimentada, com estação de metrô, hotéis, restaurantes, onde acontecem manifestações populares e encontros populares. Engraxates são bem comuns na Turquia, e seu equipamento é sempre dourado e enfeitado, digno dos sapatos do sultão!

Bairro bem animado à noite, cheio de restaurantes com terraços e lindas vistas para o Bósforo, (vários camelôs com artesanato à venda, parece que você está em Paraty) com a Mesquita de Otakoy. (fechada para reformas, e aberta somente para as rezas).

Mesquita  Yeni Cami  ( Mesquita Nova)    

Localizada no centro de Istambul, bem próxima ao Mercado Egípcio, com apenas 2 minaretes , bonito  pátio interno com torneiras para os fiéis se lavarem antes de entrar, como as outras, e sua cúpula tem altura de 36 metros e 17,5 de diâmetro. Com vitrais coloridos, azulejos pintados, janelas com incrustações de madrepérolas, teve uma construção que durou 66 anos sob a ordem de Syife Sultan, mãe de Mehmet III e esposa do sultão Selim II.

Aqueduto  de Valens    

Construído em 375 sob ordens do imperador Valens, e restaurado depois por Justiniano no séc. VI, depois por Constantino no séc. VIII e no séc. XI por Basileus. Era utlizado como meio de transporte de água proveniente da floresta de Belgrado para Nymphaion (fonte monumental) na Praça de Beyazid. A altura é de 64m do nível do mar e 20 m do solo, com extensão de 800 m.

 Ilhas dos Príncipes   

Encontram-se no Mar da Mármara a 20 quilômetros de Istambul. Estas nove ilhas serviam de refúgio aos príncipes Bizantinos. Nos quentes meses de Verão, os seus ventos refrescantes e as suas elegantes vilas atraem gentes de Istambul e também os turistas. Há barcos que saem regularmente em direção às ilhas para do lado europeu e do lado asiático de Istambul. Saindo de Tirkeci, a viagem dura aproximadamente 1 hora e meia.  

Ponte  do Bósforo  

Conhecida também como Ponte Bogaziçi Köprüsü, foi construída em 1973, no 50º aniversário da Republica Turca, por 35 engenheiros e 400 trabalhadores, com o custo de 23 milhões de dólares. Tem 1560 m de comprimento 33 m de largura e distância entre os pilares de 1075 m. A altura é de 64m ao nível do mar, por onde passam 200 mil carros e 600 mil pessoas por dia. è a 4ª maior ponte suspensa  da Europa e a 7ª do mundo. É emocionante chegar na Ásia atravessando as águas azul marinho do Bósforo! Do lado direito a Europa e do esquerdo à Ásia!

Çemberlitas  Hamami  

O mais famoso banho turco de Istambul, como um spa, desde 1584, desde a época do Nurbanu Sultan, esposa de Selim II e mãe de Murat III, foi construído pelo arquiteto Sinan, com alas masculina e feminina separadas, super bem cuidadas para uma experiência diferente.

Massagens, aromaterapia, reflexologia, etc. Se não quiser, vale a pena entrar para conhecer o hall com lojinha de tolhas, buchas, sabonetes, e artigos para banho. (Vezirham Cad, 8, Çemberlitas).

Nunnery (Convento)  

O conjunto de 6 andares à esquerda é chamado de "convento", que chegou a abrigar 300 freiras.

O convento dispõe de sala de jantar, cozinha, quartos, capela com pinturas em vermelho. Os diferentes níveis do mosteiro são conectados por túneis e portas, como nas cidades subterrâneas, que eram usadas para fechar os túneis em caso de perigo.

 Azize Barbara Kilisesi  

Situada atrás da igreja Elmali, (Apple Church),  temos a igreja de Santa Bárbara, da segunda metade do séc. XI, com planta em formato de cruz,  2 colunas e abóbodas no teto, mostra pinturas geométricas, animais mitológicos e símbolos militares em tons vermelhos.

Elmali (Apple Church)  

Em um dos edifícios mais proeminentes com cores vivas, a Apple Church, deriva do pomar de maçãs, que havia na entrada principal. A igreja tem estrutura arredondada, formato de cruz, abóbodas, 4 colunas e uma abóboda central.

Seus belos afrescos datam dos séc. XI e XII, e é possível ver pinturas em vermelho do período Iconoclasta. Os afrescos narram  cenas da Bíblia  e da vida de Cristo, a hospitalidade de Abraão e jovens hebreus.

Yilani (Snake Church)  

Esta igreja tem um plano linear composto por duas câmaras. Na parte frontal com abóboda e a na outra teto plano.

Os ornamentos ocre-avermelhado imitam pedras, e seus afrescos datam do séc. XI , com imagens de Cristo com o Evangelho na mão e ao lado de uma grande cruz , estão o Imperador Constantino e Helena e na parede oposta São Jorge e São Teodoro lutando contra a serpente.

Conta  a lenda , que São Jorge viveu na Capadócia, razão de seu nome. Ao fundo vê-se também Santo Onofre e São Tomé.

Karanlik Kilise (Dark Church)  

A entrada para esta igreja é ao norte, e é preciso pagar uma taxa de admissão extra, de 8 TL que valem super a pena!

Seu nome "Dark Church" é devido não haver nenhuma passagem de luz pela igreja, e no entanto, é a que se destaca.

É a mais bonita, do séc. XII, com planta em formato de cruz, com muitos afrescos bem preservados, mostrando cenas da Anunciação do Anjo Gabriel à Nossa Senhora, Nascimento de Jesus, Batismo, Ressurreição de Lázaro, entrada em Jerusalém, a Última Ceia, traição de Judas e a crucificação de Jesus.

Carikli (Sandals Church) 

Esta igreja data do final do séc. XII e início do séc. XIII, com duas colunas em forma de pilares e formato de cruz  nas abóbodas.

A cúpula central mostra Cristo Pantocrator, com anjos, no centro Maria com o menino Jesus e ao fundo uma imagem de São Miguel. Os afrescos bem preservados mostram a vida de Jesus, a hospedagem de Abraão, santos e doadores da igreja.

Embora se assemelhe à Dark Church, e à Apple Church, as cenas da Via Sacra é diferente das outras, com números grandes e as "pegada" dão o nome à igreja pelas marcas de sandália no percurso. (Cristo Pantocrator é  a imagem de Cristo adulto, que normalmente aparece nos afrescos de igrejas e abóbodas)

Tokali (Buckle Church)  

Localizada do outro lado da estrada (a 50m), pode passar despercebida por muitos, mas é imperdível! Use o mesmo ticket do Open Air Museum. É um espetáculo, com pé direito alto, com quatro câmaras principais, belos afrescos narrando a vida de Cristo com mais detalhes, feitos em períodos diversos. Na parte mais antiga, data do séc. X, com pinturas  de cenas Bíblicas em verde e vermelho. Na parte mais nova em tons azul.

 Derinkuyu  Yeralti Sehri   

Conhecida como Derinkuyu Underground City, é a maior e mais iluminada cidade subterrânea, (Dernkuyu quer dizer Poço Fundo) é apenas uma das 36 Cidades Subterrâneas!

Super interessante as cidades subterrâneas funcionavam como um "formigueiro", com vários andares para baixo, com 60 m de profundidade como um prédio de 8 andares, onde chegavam a morar 20 mil pessoas para se esconderem de inimigos ou perseguição cristã.

Nos andares superiores ficavam os estábulos para animais, depois os mantimentos, vinhos, comidas e para baixo ficavam as famílias vivendo nas escavações de pedra, e havia até igreja.

Um projeto incrível e uma construção mais ainda... todo mundo se surpreende, como podem ter feito escavações perfeitas nas pedras e terem morado lá, tão escuro e úmido?...

Sua origem é controversa, alguns arqueólogos datam suas origens por volta do ano 9.00 a.C, outros 4.000a.C , mas o mais provável é que seja 1.800a.C.

Estima-se que a cidade começou a ser abandonada por completo por volta do século VIII.

Hamam

É o famoso "Banho Turco", o tradicional ritual de Spa Otomano. Com máscaras faciais, sauna seca, ducha e sauna úmida, esfoliação, massagens com água e óleos, o seu momento relax, para descansar das aventuras da Capadócia!

O tratamento no Elis Hamam, em Goreme, todo dura cerca de uma hora e meia e auxilia a desobstruir os poros e hidratar a pele. Vale a pena para recarregar as baterias e mergulhar nas tradições turcas. Claro, as áreas masculinas e femininas são separadas. 


História 

Período  Pré - Histórico (100.000 – 12.000 a.C.)    

Os primeiros habitantes da Anatólia remontam ao período Paleolítico (500.000 - 12.000 a.C.).

As grutas habitadas mais importantes foram encontradas na região Kemer de Antalya.

A primeira cidade conhecida do mundo é Catalhöyuk, a nordeste de Konya, e data de 6.500 a.C.

As casas eram construídas com tijolos de adobe e a entrada fazia-se pelo telhado. Eram decoradas com murais e a primeira pintura de uma paisagem foi encontrada aqui. 

Na Anatólia, em princípios da Idade do Bronze existiam diversas cidades.

Tróia estava na região do Egeu e os Hatitas viviam na Anatólia Central. Alacahöyuk e Hattusas eram importantes centros religiosos e administrativos dos Hatitas. 

Por volta do ano 2.300 a.C. Tróia foi arrasada pelo fogo e toda a Anatólia sofreu grandes mudanças.

Período  Hitita (2.000 - 1.250 a.C.)    

Os Hititas, vindos do Cáucaso, chegaram à Anatólia no ano 2.000 a.C. e instalaram-se em Kussara e Hattusas. Dominaram quase toda a Turquia, concentraram-se nas guerras e possuíam uma cultura bastante refinada. 

Durante o seu domínio Tróia foi a idade mais importante do oeste da Anatólia.

No ano 1.200 foi novamente destruída e os Hititas espalharam-se por pequenos estados. 

Pequenos  Estados  da  Anatólia (1250-494 a.C.)      

No ano 1.200, os gregos aumentaram o seu poder no oeste da Anatólia.

A Jônia estabeleceu-se próximo a Esmirna (Izmir).

Os Jônios fundaram também as cidades de Miletos, Efeso e Priene no ano 1.000. Muitos poetas e filósofos famosos viveram na Jónia. 

Caria foi fundada a sul da Jónia próxima à actual Bodrum, Fethiye e Marmaris. O rei Cariano mais conhecido foi Mausolus pelo seu monumento funerário (Bodrum).

A federação Licia situava-se a este de Caria e Panfilia, próximo de Antalya.

No ano 1.200 o reino de Urartu cresceu à volta do Lago Van. As colónias urartianas cobriam grandes extensões a leste da Anatólia. O reino foi destruído pelos Medas no ano 500 a.C..

Os Frígios chegaram ao país no ano 1.200 e estabeleceram aqui o seu reino.

A capital era Gordion e Midas foi o seu rei mais famoso. Quando os Frígios desapareceram em 700 a.C., os Lídios, que tinham feito de Sart (Sardis) a sua capital, substituíram-nos.

Os reis Lídios mais famosos foram Gyges, de origem cariano e o rei Creso conhecido como o homem mais rico do mundo. Este último conquistou quase todas as zonas de influência Jónia mas perdeu a guerra e o seu reino contra o rei persa Ciro, o Grande (546 a.C.) 

Persas (494-334 a.C.)      

A Pérsia foi a primeira grande conquistadora que dominou totalmente a área que hoje corresponde à Turquia moderna. As guerras continuas com os Gregos impediam o bem-estar dos Persas.

A cultura manteve-se dentro dos palácios, o que fez com que a influência persa na região, fosse muito limitada. 

Período  Helenístico  (334-133 a.C.)      

O rei macedônio Alexandre Magno conquistou a Grécia, a Anatólia e, no ano 331 a.C., toda a Pérsia.

Os Helenos dominaram as regiões desde a Grécia ocidental até à fronteira do moderno Paquistão. 

Durante o período Helênico as cidades tiveram um extraordinário desenvolvimento. Tinham as suas próprias leis, autonomia e capacidade defensiva e viviam da agricultura.

Império Romano (133 a.C. - 395 d.C)     

Os Romanos conquistaram todos os estados da Anatólia entre 133 - 129 a.C.. O Império trouxe a Pax Romana, uma época de paz que permitiu o crescimento econômico e o aparecimento do Cristianismo. 

No ano 330 o imperador romano Constantino transformou Constantinopla na capital e declarou o Cristianismo religião oficial.

As partes ocidentais e orientais do Império foram-se desenvolvendo de uma forma divergente e, no ano 395, o Império dividiu-se em dois.

Bizâncio (395-1453 d.C.)      

A metades do século VI Bizâncio dominava todo o Mediterrâneo, desde a Palestina até à Península Ibérica. No entanto, as fronteiras estavam sempre em mudança. A leste estava a ameaça dos Persas, Árabes e Turcos e a oeste a dos Búlgaros e Eslavos.

Em 1.071 os Seljúcidas turcos venceram a batalha de Malazgirt (Manzikert) contra o Imperador romano bizantino Diógenes e aí iniciaram a conquista da Anatólia.

Por causa das Cruzadas as relações entre os cristãos do oriente e cristãos do ocidente pioraram e, em 1.201 a armada ocidental tomou Constantinopla.

A cidade esteve sob governação latina até ao ano 1.261 quando foi recuperada novamente por Bizâncio que se foi completamente abaixo quando o sultão Mehmet Ottoman Fatih conquistou Constantinopla, em 1453.

Estado Seljúcida (1038- 1318 )     

A dominação Seljúcida na Anatólia contribuiu muito para o desenvolvimento das artes e da arquitetura.

A boa organização da administração, a justiça e o comércio, o alto nível de maturidade social e de tolerância permitiram que a arte e a arquitetura cristãs continuassem o seu desenvolvimento ao mesmo tempo que novos estilos vindos da Ásia Central e do norte da Índia introduziam novidades nas cidades de Anatólia.

Por outras palavras, durante o estado seljúcida da Anatólia, esta terra converteu-se num zénit de civilização e prosperidade. Embora as marés de cruzados procedentes do Ocidente e de Mongóis vindos do Oriente acabassem com esta civilização em menos de três séculos a sua herança culturalmente rica, constitui uma parte importante do patrimônio histórico turco.

 Império Otomano (1.299 – 1.923)   

O menor dos Beyliks (principados) que herdaram o Império selúcida de Anatólia, os otomanos, assentaram-se de início em redor de Iznik (Nikea) e gradualmente, foram-se espalhando por toda a Anatólia. Quando os otomanos conquistaram Constantinopla transformaram-na na capital do Império.

No apogeu do Império otomano as suas conquistas abarcavam vastas regiões desde o Golfo Bay a leste da Argélia pelo oeste e desde Viena no norte até ao Sudão e Adén, no sul. Em 1.400 e 1.500 o Império assenhorou-se do Mediterrâneo e durante os primeiros séculos foi um Império tolerante no qual floresciam as artes e as ciências.

Com o passar do tempo foi-se produzindo o declive do Império e o aparecimento de imperadores medíocres. Em 1.870 foi redigida uma constituição e instituiu-se o parlamento.

As reformas chegaram com atraso, enquanto que a Grã Bretanha, a França e a Alemanha tinham uma influência decisiva na política exterior, inclusivamente nos assuntos internos do Império que, de modo constante ia perdendo territórios. 

A Turquia foi aliada da Alemanha na Primeira Guerra Mundial e perdeu. Os aliados ocuparam Istambul e planearam a divisão do país e a Grécia ocupou a Anatólia ocidental com a autorização da Inglaterra.

No Tratado de Sèvres, de 1.920, o país foi dividido entre Inglaterra, Itália, França, Grécia e Armênia. Istambul e os estreitos estavam sob o comando comum Britânico-Francês-Italiano e da Turquia faziam parte somente a Anatólia central e uma parte da costa do Mar Negro. 

O General Mustafá Kemal dirigiu-se a Samsun e reuniu os representantes locais de todo o país com os quais fundou um governo.

Também formou um exército composto de tropas otomanas e de camponeses que conseguiram expulsar as forças gregas e armênias, acusadas de colaborar na ocupação com os aliados e de ter cometido atrocidades contra os civis sem sequer respeitar as crianças, mulheres ou idosos.

No Tratado de Lausanne, em 1.923, que foi assinado após a guerra da Independência, foram estabelecidas as atuais fronteiras da Turquia.

República da  Turquia    
                                                
A República foi declarada em 29 de Outubro de 1923 e Mustafá Kemal foi o seu primeiro presidente.

 A Turquia  de  hoje    
                                             
A Turquia é uma república parlamentaria baseada na separação dos poderes legislativo, executivo e judicial, governada pelo Presidente e pelo Primeiro Ministro.

Os partidos variam, desde os nacionalistas conservadores aos socialistas. O país tem uma vocação européia; é membro do Conselho Europeu desde 1949, membro da OTAN desde 1952 e membro aliado da EU (antigo Conselho Econômico Europeu) desde 1963.

Em 1996 a Turquia estabeleceu acordos alfandegários com a União Européia e atualmente, é candidata à entrada na União Européia, num processo de harmonização da sua legislação e administração às normas comunitárias.


Fontes consultadas:

1) Esse mundo é nosso

2) Vamos para a Turquia

3) História do Mundo

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Hildegard von Bingen







Hildegard von Bingen (Bermersheim vor der Höhe, verão de 1098 — Mosteiro de Rupertsberg, 17 de setembro de 1179), foi uma monja beneditina, mística, teóloga, compositora, pregadora, naturalista, médica informal, poetisa, dramaturga, escritora alemã e mestra do Mosteiro de Rupertsberg em Bingen am Rhein, na Alemanha.

Foi proclamada pelo Papa Bento XVI, em carta apostólica de 7 de outubro de 2012, Doutora da Igreja Universal.

Personalidade muito citada mas de fato pouco conhecida pelo grande público moderno, rompendo as barreiras dos preconceitos contra as mulheres que existiam em seu tempo, se tornou respeitada como uma autoridade em assuntos teológicos, louvada por seus contemporâneos em altos termos.

Hoje é considerada uma das figuras mais singulares e importantes do século XII europeu, e suas conquistas têm poucos paralelos mesmo entre os homens mais ilustres e eruditos de sua geração.

Seus vários e extensos escritos mostram que ela possuía uma concepção mística e integrada do universo, ainda que essa concepção não excluísse o realismo e encontrasse no mundo muitos problemas. A solução para eles, de acordo com suas ideias, devia advir de uma união cooperativa e harmoniosa entre corpo e espírito, entre natureza, vontade humana e graça divina.

Mas não tentou inaugurar uma nova corrente de pensamento religioso; sempre permaneceu fiel à ortodoxia do Catolicismo, e combateu as heresias e a corrupção do clero.

Fólio 0317 recto do Riesencodex, com a primeira página da Vita Sanctae Hildegardis.

Quis acima de tudo desvelar para seus semelhantes os mistérios da religião, do cosmos, do homem e da natureza. Para ela o universo era a resposta para as dúvidas da humanidade, e a humanidade era a resposta para o enigma do universo. Mas, como ela escreveu, se a humanidade não fizesse a pergunta, o Espírito Santo não poderia respondê-la.

Foi a primeira de uma longa série de mulheres influentes tanto na religião como na política, e um representante típico da aristocracia cultural beneditina. Orgulhosa de pertencer a uma elite social e espiritual, mostrou-se no entanto humilde e submissa a Deus.

Além de mística, teóloga e pregadora, foi poetisa e compositora talentosa, deixando obra de vulto e original. Também fez muitas observações da natureza com uma objetividade científica até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais, compilando-as em tratados onde abordou ainda vários temas ligados à medicina e ofereceu métodos de tratamento para várias doenças.

Seus primeiros biógrafos a mencionaram como santa e lhe atribuíram alguns milagres, em vida e logo após a sua morte. Abriu-se um processo de canonização, mas sua causa parou na beatificação.

Entretanto, em 1584, sem cerimônia oficial, seu nome foi incluído no Martirológio Romano como santa. Em 2012 o papa Bento XVI reafirmou oficialmente sua santidade e a proclamou Doutora da Igreja. Seu dia é festejado em muitas dioceses alemãs.

Depois de um longo período de obscuridade, sua vida e obra vêm recebendo atenção crescente desde a segunda metade do século XX; seus escritos começaram a ser traduzidos para várias línguas, muitos livros e ensaios já lhe foram dedicados e foram feitas diversas gravações com sua música.

Retrato de Hildegarda no Liber scivias Domini

Fontes documentais primitivas


A principal fonte de informação sobre sua vida é a biografia que foi escrita por seu secretário, o monge Gottfried, Vita Sanctae Hildegardis, mas quando ele morreu, em 1176, deixou a obra inacabada.

Somente uma década mais tarde o monge Theoderic, de Echternach, retomou o trabalho, escrevendo mais dois volumes e provendo um prefácio. Embora Gottfried tenha vivido em contato direto com Hildegarda e conhecido muito de sua vida, informações essenciais não foram incluídas no seu livro, nem mesmo o lugar e a data de nascimento foram indicados. 

Além disso, seu relato é convencionalmente laudatório, mas por outro lado transcreveu boa parte da correspondência de Hildegarda. A contribuição de Theoderic foi também importante porque ele usou longas passagens autobiográficas de material autógrafo que mais tarde foi perdido.

Mas como toda hagiografia daquela época, seus autores não se propuseram a oferecer uma narração "objetiva" de sua carreira - o propósito primário foi o de mostrá-la ao mundo como uma sábia, uma profetisa e uma santa, encontrando para todos os seus atos uma justificação sobrenatural e uma inspiração divina, e advogando claramente sua canonização oficial.

Outra fonte de suma importância é a sua própria correspondência, e os prefácios que escreveu para seus livros, onde muitas vezes deu detalhes de como, quando e onde foram escritos. 

Uma outra biografia, também incompleta, foi deixada pelo monge Guibert de Gembloux, o último secretário de Hildegarda, e sobrevivem ainda alguns documentos eclesiásticos e algumas crônicas posteriores do próprio mosteiro, que acrescentam dados úteis, como a Acta Inquisitionis, elaborada pela Igreja quando as monjas de Rupertsberg pleitearam sua canonização.

 



Recentemente foi descoberta a biografia sobre Jutta, sua mestra, mas se dá um painel interessante sobre o contexto cultural da época e sobre os primeiros anos de Hildegarda, a cronologia que apresenta não concorda com a maioria das outras fontes conhecidas.

Embora com algumas perdas, o principal de sua produção foi preservado e chegou aos dias de hoje. Sobrevivem dez manuscritos integrais do Scivias, cinco do Liber vitae meritorum, cinco do Liber divinorum operum, três do Physica, um do Causae et curae, e dezenove com um número variado de suas cartas, além de um grande número de trechos citados em obras alheias e fragmentos diversos, mas o mais importante é o Riesencodex, conservado na Biblioteca Estatal de Hesse, na Alemanha, com sua obra quase completa, excluindo o tratado sobre ciência natural. 

Foi considerado em sua época como a versão definitiva de seus escritos. Não deve ter sido concluído no período de sua vida, mas com toda probabilidade foi uma edição iniciada por ela mesma, e executada por um grupo de assistentes anônimos de Rupertsberg. 

Foi escrito como volumes separados, que entre os séculos XV e XVI foram reunidos em um só códice com 481 fólios, pesando 15 kg.




Ideias gerais e posição histórica

Seus escritos evidenciam que ela tinha um profundo interesse pela natureza e pela história do mundo.

Para ela a Criação e a vida eram essencialmente boas e santas, mas procurava em tudo um significado dentro do drama da Salvação universal e uma utilidade prática para a melhoria da vida na Terra como um todo.

Contudo, se torna difícil para a pesquisa moderna interpretar muito de seus textos em virtude de sua densa rede de simbolismos, alegorias e metáforas, mas essa mesma complexidade e riqueza é um dos motivos de tanto interesse atual sobre seu pensamento. Segundo Jane Duran, a metafísica de Hildegarda evoluiu de modo a formar um conceito integrado sobre o que significa ser Humano no contexto da Criação divina, através de um diálogo entre o vitalismo monista, tipificado na sua concepção abrangente e unificada da origem, estrutura e destino do cosmos, e o dualismo, expresso em sua constante preocupação com a luta entre o bem e o mal.

Tentou mostrar que o homem desempenha um papel de grande relevo na ordem do mundo, mas enfatizou sua união essencial e indissolúvel com o restante da natureza. Também reafirmou a primazia absoluta do Criador, o Deus Triuno, como a fonte, essência, substância, justificativa e fim de tudo:

"Deus é quem vive, é quem trabalha, e é quem conhece. Nele todas as coisas têm o potencial da perfeição. Todas as coisas se tornam distintas e perfeitas através daqueles três poderes.... Deus está além da mente e do entendimento de todas as criaturas. Na claridade de seus mistérios e segredos Ele provê para tudo e governa sobre todos, assim como a cabeça governa todo o corpo".




Sua cosmologia incluía ainda outras entidades em uma ordenação hierarquizada, como os anjos e diversas outras que descreveu em suas visões, e incluía nesta ordem as virtudes em abstrato, o que de certa forma a aproximava da concepção platônica das ideias, que em sua época estava sendo redescoberta através dos escritos do Pseudo-Dionísio e de Escoto Erígena.

Sua concepção da anatomia esotérica do ser humano derivava em parte da filosofia clássica, ao vê-lo composto por proporções específicas dos quatro elementos, mas a herança cristã, predominante, se tornava evidente na aceitação da ortodoxia católica em todos os aspectos fundamentais.

A forma humana era a forma por excelência da Encarnação do Verbo divino; assim os homens eram verdadeiras encarnações divinas, compostos por alma e corpo numa união originalmente harmoniosa e pura - Adão e Eva -, e ainda que descrevesse a alma presentemente como caída, continuava poderosa e podia ser redimida pela graça de Cristo e pelo exercício das virtudes, e enfim voltar voluntária e conscientemente para sua origem sublime. 

Criatura dúplice, ao mesmo tempo fraco e forte, augusto e deplorável, mortal e imortal, o homem de qualquer forma ocupava para ela o lugar mais destacado na estrutura do cosmos, espelhando-o em si mesmo e sendo o rei e senhor da natureza. Por isso jamais poderia viver em isolamento e devia trabalhar em prol de tudo ao seu redor, tanto para o bem do mundo como para seu próprio, pois o corolário de sua visão era que tudo fazia parte dele e ele fazia parte de tudo, tudo estava em Deus e Deus estava em tudo através da Encarnação. 

Desse modo, com o uso da razão, da vontade e do senso de responsabilidade de que fora dotado, e com o concurso das outras potências espirituais que Deus depositara em sua alma e que faziam parte da vida e poder do próprio Deus, o homem podia, se quisesse, ser um auxiliar inestimável de seu Criador na realização de todas as potencialidades do universo. 

Porém mais do que uma opção, a colaboração entre homem e Deus era, para Hildegarda, indispensável para que o universo chegasse à sua plena floração (opus per hominem floreat), e não é gratuita a palavra "floração", pois em todos os seus escritos natureza e homem são sempre correlacionados e compartilham também de uma simbologia comum.

A intimidade entre homem e natureza era tanta que, segundo o que escreveu, o comportamento humano era capaz de alterar o meio ambiente, atribuindo a irregularidade do clima ao estado de incessante inquietude humana, pois essa agitação confundia os elementos e os fazia saírem de seus limites, com resultados desastrosos. 

Chegou a dar fala aos elementos naturais, fazendo-os clamar pela justiça divina contra a insensatez humana: "Todos os elementos e todas as criaturas choram em alta voz diante da profanação da natureza e da devoção maligna da humanidade ao seu modo de vida de rebelião contra Deus, enquanto que a natureza irracional cumpre submissa as leis divinas. 

Eis o motivo pelo qual a natureza protesta tão amargamente contra a humanidade", ao que Deus respondia dizendo: "Eu os purgarei com minhas varas e os atormentarei até que voltem para mim.... os ventos terão fedor de putrefação e o ar vomitará tanta sujeira que as pessoas não ousarão sequer abrir suas bocas", e esse quadro soa como uma sombria prefiguração dos problemas ecológicos de hoje.

Antiga abadia onde Hildegarda viveu

Se o mundo físico e seus elementos constituintes estavam para Hildegarda investidos de tanta importância, os meios pelos quais o homem tomava conhecimento do mundo também foram valorizados - seus sentidos corpóreos - a ponto de ela declarar que "somos fortalecidos e conseguimos a salvação de nossas almas através dos cinco sentidos.... podemos conhecer todo o mundo através de nossa visão, entendê-lo através de nossos ouvidos, distinguir as coisas pelo olfato.... dominá-lo com nosso toque, e desse modo chegamos a conhecer o verdadeiro Deus, autor de toda a Criação", o que ressalta o papel central que atribuía à Encarnação no processo de Redenção da humanidade.

Seus escritos mais importantes, os que relatam suas inúmeras visões, não eram inconsistentes com o pensamento corrente de sua época. Apesar do florescimento das universidades e da ciência em geral, a inspiração divina na aquisição do verdadeiro conhecimento era ainda aceita como uma possibilidade real, e de extrema importância quando considerada autêntica, como foi o seu caso.

Todo o conhecimento que acumulou procedeu, segundo sua declaração, da fonte sobrenatural, apesar se valer de muita observação e experimentalismo diretos especialmente quando estudou a medicina e áreas correlatas. O dado mais original em seu pensamento foi sua forte tendência a analisar tudo numa perspectiva holística, e disso deriva o seu grande apelo para os movimentos ecológico, pacifista e naturista modernos.

Ao interligar várias correntes distintas de pensamento em um corpo conceitual bastante integrado, seu trabalho tem afinidade com o de pensadores contemporâneos que não podem ser encaixados facilmente em uma única escola, como Alan Watts e Fritjof Capra. Para Hildegarda não fazia sentido analisar um fenômeno específico isoladamente, mas era essencial ter uma visão do todo e dos múltiplos relacionamentos estabelecidos entre suas partes.

Apesar de Hildegarda ocupar um lugar importante na cultura do século XII, é difícil determinar as fontes teóricas para sua cosmologia e sua exegese. 

Colocando sua força na inspiração divina e dizendo-se iletrada, apenas em poucos casos citou outros autores em seus próprios escritos. Além das fontes óbvias das Escrituras e da literatura patrística produzida entre outros por Santo Agostinho, São Gregório Magno e o venerável Beda, que eram canônicos e largamente conhecidos, tentativas de ligá-la a escritores além destes têm se provado sempre conjeturais, especialmente no que tange aos clássicos e aos apócrifos, mas com muita probabilidade retirou inspiração também da literatura beneditina, dos populares florilégios sobre os santos e de contemporâneos doutos como Bernardo de Claraval e Hugo de São Vitor.

Outros aspectos de sua carreira e obra que têm sido de muito interesse para a atualidade são, em primeiro lugar, o fato de ela ter sido uma mulher respeitada numa sociedade patriarcal misógina que via as mulheres com olhos cheios de preconceito, correspondendo-se em pé de igualdade com papas, altos prelados e autoridades profanas, e conseguindo muito do que quis; e em segundo, o grande papel que atribuía ao feminino na ordem do universo. 

Imagens femininas alegóricas investidas de grande poder abundam em seus textos, como a Fé, a Igreja e a Caridade, mas em especial a figura da Sabedoria, e é significativo que ela se recusasse atribuir a culpa do pecado original a Eva. 

O próprio Deus, em seu tempo invariavelmente considerado uma entidade masculina, é descrito por ela muitas vezes como uma mãe amamentando a Criação e velando por sua progênie. 

Mas é preciso assinalar que essa ênfase no feminino não a levou a uma negação do masculino, nem a um confronto direto com as definições da ortodoxia dogmática do Cristianismo - o que ela parece ter buscado foi uma harmonização entre os opostos, o que também fez parte de uma tendência de seu tempo se lembramos do crescimento então do culto Mariano, do qual ela mesma foi grande devota. 

Em terceiro lugar vem sua abordagem franca da sexualidade humana, analisada tanto sob uma óptica teológica quanto fisiológica, mas também nesse terreno foi cuidadosa, herdando parte da tendência condenatória do desejo e do prazer sensual de seu tempo mas mostrando-os como funções essenciais do corpo e necessárias para o bem-estar humano no estágio evolutivo em que se encontra. 

Finalmente, traçando um painel histórico dos papéis sociais tradicionalmente atribuídos às mulheres - a maternidade ou a vida religiosa - não via nenhum deles como de todo satisfatórios, mas se manteve numa posição ambivalente a esse respeito, com certeza pressionada pelo seu contexto.

Como observou Barbara Newman, sua contribuição foi tão excepcional em se tratando de uma mulher de sua época, que os pesquisadores modernos, com todo seu aparato teórico e instrumental, ainda consideram difícil analisá-la com suficiente objetividade e avaliar sua real importância. 

Alguns a consideram simplesmente uma anomalia bem sucedida; muitos compreensivelmente duvidam da origem divina de seus escritos, mas em geral não se considera imprópria a elevadíssima estima que ela desfrutou entre seus contemporâneos, que a chamaram de "A Sibila do Reno", a "Profetisa dos Teutões" e outros epítetos grandiloquentes, nem se vê como injusto ela ter-se tornado um dos ícones do movimento feminista do século XX. 

É de assinalar algumas de suas conquistas: foi a primeira mulher a ser considerada uma autoridade em assuntos teológicos; a única mulher medieval a quem se concedeu o direito de pregar a doutrina cristã em público; a autora do primeiro auto sacro jamais escrito e o único dramaturgo no século XII que não permaneceu anônimo; a única mulher medieval a ser lembrada como compositora de um extenso e qualificado corpo de obras musicais; o primeiro autor a escrever sobre sexualidade e ginecologia de um ponto de vista feminino, e o primeiro santo a ter uma biografia oficial que inclui trechos autobiográficos. 

Todas essas realizações são extraordinariamente notáveis por ela ter sido uma mulher do século XII, mas não apenas por isso, suas obras em todos os campos a que se dedicou têm um elevado mérito próprio independentemente de seu gênero, e ela foi comparada a sábios seus contemporâneos como Avicena. 

Mas a despeito de em muitos pontos ela ser uma pioneira e uma inovadora, em muitos outros ela manteve uma postura conservadora, às vezes até retrógrada, e somente um estudo contextualizado e detalhado pode trazer à luz onde sua obra foi típica ou atípica, original ou rotineira.

É certo, porém, que seu conservadorismo em tudo o que era essencial ao dogma cristão, face ao poder indisputável da Igreja naquele tempo, foi o que possibilitou sua ascensão a uma posição tão destacada, de onde abriu um caminho para que outras mais tarde lhe seguissem o exemplo sem serem imediatamente silenciadas.

Também é interessante notar que suas ideias sobre as regras e disciplinas monásticas se inseriam numa tradição que em seu tempo já parecia antiquada, diante da emergência de novas formas de religiosidade que enfatizavam a pobreza absoluta em imitação do exemplo evangélico. 

Sua posição a esse respeito ficou clara na polêmica que travou com Tengswich, abadessa de um mosteiro em Andernach, que a havia acusado de receber em sua casa apenas jovens da nobreza e lhes permitir o uso de jóias finas durante a Eucaristia. 

Respondeu ironicamente dizendo que não se devia manter animais de espécies diferentes na mesma gaiola, defendendo o princípio da discriminação de classe, acrescentando que até mesmo os anjos possuíam uma hierarquia e que as monjas deviam sim se vestir como nobres em sua condição de esposas de um rei, Cristo. 

Nesse sentido ela continuava o costume do clero de origem aristocrática de combinar renúncia pessoal de bens, poderes e títulos seculares ao mesmo tempo que preservavam sua influência, prestígio e riqueza corporativa. 

Essa posição aparentemente elitista, que tem-lhe atraído críticas também na atualidade, era consistente com a sua atuação como reformadora social e religiosa, já que não propôs uma mudança na estrutura da sociedade ou da Igreja, apenas combateu seus abusos e perversões. 

Apoiava a tendência de seu tempo de interpenetração dos poderes temporal e espiritual sob a primazia da Igreja, desejando restabelecer na Cristandade a sujeição dos príncipes ao clero, e do povo às hierarquias constituídas, mas dentro do espírito da ordem e da justiça sociais.

Famosa em vida, sua obra se tornou uma influência sobre os beneditinos, foi aceita como autoridade pelos teólogos da influente Universidade de Paris, teve seus escritos compilados e comentados por vários autores, e chegou a ser plagiada. Mas ela não criou uma "escola". 

Sua contribuição como escritora, teóloga e compositora musical foi esquecida pouco depois de seu desaparecimento - salvo na Inglaterra, onde permaneceu em alta até o século XIV -, tanto pela mudança na sensibilidade da época, que passou a ver seu estilo como obscuro e difícil, e também em virtude de sua obra ter sido bastante ofuscada pela de sua única continuadora direta, Elisabeth de Schönau, que foi muito mais lida apesar de hoje ser considerada de menor importância e muito menos brilhante.

Foi mais lembrada pelos séculos à frente como profetisa, pregadora e visionária, principalmente pela circulação de algumas de suas cartas e pela divulgação de uma série de suas profecias apocalípticas, compiladas, resumidas e interpoladas com comentários próprios pelo monge cisterciense Gebeno de Eberbach. Intitulada Pentachronon (c. 1220), essa coletânea se tornou muito mais popular do que seus escritos originais para o gosto da Idade Média tardia e foi reproduzida em incontáveis manuscritos.

Durante o Renascimento sua figura foi em parte redescoberta, com a publicação de um relato um tanto fantasioso sobre sua vida pelo abade de Sponheim, e as primeiras edições impressas do Scivias e do Physica apareceram na França em 1513 e em 1533, respectivamente. 

Por outro lado, a autenticidade de seus escritos foi posta em dúvida, sendo considerados um produto do monge Volmar ou de algum outro autor escrevendo sob pseudônimo, e ela foi acusada de protestantismo pela sua condenação dos abusos do clero.

A partir da segunda metade do século XX o interesse pela sua figura histórica e seus escritos renasceu, especialmente através dos estudos monumentais de Marianna Schrader, Christel Meier e Aldegundis Führkötter, e com as traduções feitas dos originais latinos para o inglês por Otto Müller, tornando acessível seu trabalho para um público muito mais vasto, de modo que atualmente sua produção já é objeto de análises particularizadas por um bom número de acadêmicos da Europa e Estados Unidos, destacando-se Peter Dronke, Barbara Newman e Heinrich Schipperges, entre muitos outros.

Obras Literárias Canônicas

  • Liber scivias Domini
  • Liber vitae meritorum
  • Liber divinorum operum

Obra musical 

Fólio 466 recto do Riesencodex, onde aparece um trecho da Symphonia armonie celestium revelationum.

A técnica da música de Hildegarda se insere em linhas gerais, mas com diferenças importantes, no contexto do canto gregoriano. Não fez uso dos recursos harmônicos e rítmicos que estavam sendo introduzidos pelos proto-polifonistas da Catedral de Notre-Dame de Paris, e sua música, até onde se pôde descobrir, é inteiramente monódica e melódica, embora ela possivelmente estivesse familiarizada com a técnica do organum76 e o estilo de seu melodismo incorpore elementos da vanguarda musical de sua época e seja ele mesmo inovador em vários aspectos. 

Os poemas que servem de substrato à música, sempre em latim, são construídos livremente, em versos brancos com metros desiguais, e com estruturas estróficas flexíveis, adaptando-se ao conteúdo textual.

Sua música é modal, mas emprega os modos com muita liberdade, e é típico de seu estilo o uso intensivo do mais instável de todos, o frígio. Usa frequentes melismas com finalidades expressivas, alguns de até cinquenta notas sobre palavras particularmente importantes, com um caso de oitenta notas na antífona O vos angeli; trabalha numa tessitura ampla de mais de duas oitavas, em certas peças quase três oitavas, exigindo muito do intérprete e sendo um caso único na música vocal medieval, e sua construção melódica se faz amiúde através de graus disjuntos, sendo muito comum um salto de quinta ascendente que é sua marca registrada. 

Para construir a forma total da composição emprega a variação motívica, com um fragmento melódico reconhecível que aparece várias vezes ao longo da peça em contextos diversos, e usa muitas vezes seções em modos distintos com fins estruturais.16 78 É provável, a partir de algumas alusões de Hildegarda, que ela tenha empregado rotineiramente recursos instrumentais acessórios, capazes de prover algum grau de heterofonia ornamental, mas não sobrevive nenhuma partitura com notação de instrumentos, e restam apenas as linhas vocais.

A produção de Hildegarda está compreendida em duas obras: o auto sacro Ordo Virtutum (A Ordem das Virtudes) e a Symphonia armonie celestium revelationum (Sinfonia da Harmonia das Revelações Celestes), uma coletânea heterogênea de 77 canções para uso litúrgico ou semi-litúrgico. É importante assinalar que sua produção poética-musical é toda de cunho moralizante e pedagógico, está intimamente ligada aos seus escritos teológicos, e foi-lhe inspirada durante suas inúmeras visões. 

E mais do que isso, completamente alheia aos dilemas morais de outros compositores sacros de seu tempo, acusados de introduzirem excessiva beleza sensual nas longas e floridas linhas melódicas que se tornavam comuns, e de com isso distraírem perigosamente quem atendia ao serviço divino, Hildegarda via a música como parte quintessencial do ser humano - ele não poderia viver sem ela, pois reunia de forma única alma e corpo e também de certa forma compensava a perda do Éden.

A música tinha, para Hildegarda, poderes imensos:

"…a música de júbilo suaviza os corações endurecidos, e lhes extrai as lágrimas de compunção, invocando o Espírito Santo… e as canções atravessam (os corações) de modo que eles possam compreender a Palavra perfeitamente; pois a graça divina assim age, banindo toda escuridão, e tornando luminosas todas as coisas que são obscuras para os sentidos corpóreos por causa da fraqueza da carne".

"Na música se pode ouvir o som da paixão que arde no peito de uma virgem. 

Podemos ouvir o botão se tornando flor.

Podemos ouvir o fulgor da luz espiritual brilhando do céu. 

Podemos ouvir a profundidade do pensamento dos profetas. 

Podemos ouvir a sabedoria dos apóstolos se espalhando pelo mundo inteiro. 

Podemos ouvir o sangue a pingar das chagas dos mártires. 

Podemos ouvir os mais íntimos movimentos do coração que caminha para a santidade. 

Podemos ouvir a alegria de uma menina diante da beleza da terra de Deus. 

Na música a criação devolve para seu Criador seu júbilo e sua exultação; e dá graças por sua própria existência. 

Também podemos ouvir na música a harmonia entre pessoas que antes eram inimigos e agora são amigos. 

A música expressa a unidade do mundo como ela era no princípio, a unidade que é restaurada através da penitência e da reconciliação"

Outros diferenciais são que suas composições foram criadas para serem cantadas por mulheres e a temática do feminino é recorrente no texto; alusões à corporalidade da prática musical e à musicalidade do corpo também são comuns. Disse ela que o cantor é como um instrumento musical de Deus, e que "as palavras simbolizam o corpo, e a música jubilosa revela as atividades do espírito; a harmonia celestial nos mostra Deus, e as palavras, a humanidade do Filho de Deus". 

Nesse sentido, segundo a análise de Bruce Holsinger, a música vivificava sua liturgia assim como a harmonia celeste vivificava o corpo de Cristo, e sugere que para ela o canto apontava para a imanência da vida espiritual dentro da carne e para a própria Encarnação divina.

As reiteradas menções ao prazer do canto e ao corpo, particularmente ao corpo feminino, quando Hildegarda teorizou sobre música, a temática do feminino tão presente nos poemas que musicou, e o estilo muitas vezes ricamente ornamental de suas melodias, desviando-se radicalmente da moderação e economia prescritas pela maioria dos teóricos da música sacra do século XII, têm dado margem a uma série de especulações contemporâneas sobre as possíveis ligações de sua concepção musical com as problemáticas do homoerotismo e da sublimação do desejo no contexto do ambiente monástico, aspectos que têm sido trazidos à evidência por numerosos pesquisadores também quando analisam outros compositores sacros de sua época, como sumarizou Holsinger.

O que é certo é que a música ocupou um lugar de enorme relevo na vida da comunidade monástica regida por Hildegarda, e todo ofício sacro era decorado com canto. 

Segundo Barbara Newman era um lugar-comum monástico em seu tempo pensar que o canto agradava a Deus quando era desempenhado com uma mente atenta e um coração devoto, imitando dessa forma os coros angélicos que se dizia estarem perpetuamente louvando a divindade em cantos exaltados, o que seguia uma tradição que remontava à Antiguidade pré-cristã.

Até pouco tempo atrás sua música permaneceu ignorada pelos historiadores em vista de seu estilo muito distinto das correntes principais da música medieval, mas diversos estudos recentes têm enfatizado a originalidade de sua criação, assim como fizeram seus próprios contemporâneos.

Suas composições tem ganhado destaque nos programas de música erudita; já há uma discografia significativa e em 1994 o álbum Vision: The Music of Hildegard von Bingen, harmonizando suas melodias vocais com recursos eletrônicos, vendeu 450 mil exemplares e permaneceu por dezesseis semanas no topo da lista Billboard na categoria de música clássica crossover.

A Abadia de Santa Hildegarda em Rüdesheim.


Discografia


  • Abbess Hildegard of Bingen: A Feather on the Breath of God." Sequences and Hymns. Gothic Voices. Hyperion CDA66039
  • "Hildegard von Bingen: Ordo Virtutum" Sequentia. two disc set. Harmonia Mundi. 77051-2-ng
  • "Hildegard von Bingen: Symphoniae: Spiritual Songs" Sequentia Deutsche Harmonia Mundi
  • "Hildegard's Lauds of St. Ursula" Focus. Indiana University Press Recording.
  • "Hildegard von Bingen Und lhre Zeit" Christophorus Digital. Includes music by Hildegard's contemporary Peter Abelard.
  • "Columbia Aspexit." Gothic Voices. Hyperion
  • "Hildegard von Bingen: Canticles of Ecstasy" DHM 05472 77320 2
  • "Voices of Blood" music by Hildegard of Bingen. Sequentia Deutsche Harmonia Mundi
  • "Vox de Nube: includes some chants by Hildegard with other Gregorian chants. Sung by the monks of Glenstal Abbey with Noirin Ni Riain, Celtic singer. Available from Sounds True Audio.
  • "Hildegard of Bingen Meditations Chants" sung by Norma Gentile SKR Classical CD.
  • "Unfurling Love's Creation" Norma Gentile, soprano. Lyrichord LEMS 8027
  • "Hildegard von Bingen: Heavenly Revelations." Early Music. Naxos 8.550998

Referência bibliográfica: 


  1. Hardin, James; Hasty, Will. Dictionary of Literary Bibliography : German writers and works of the early middle ages, 800-1170. Vol. 148. EUA: Detroit,1995. Pages 59-73.
  2. Music of Hildegard of Bingen. In: Hildegard.org. Disponível em: <http://www.hildegard.org/music/music.html>. Acesso em: 29 Julho.2014
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