segunda-feira, 11 de maio de 2015

John K. King - Livraria




Um jornalista espanhol em um artigo disse que a livraria John K King poderia ser usada como inspiração para o escritor Carlos Ruiz Zafón em uma continuação do livro A Sombra do Vento, pois a livraria se parece e muito com o cemitério dos livros perdidos.

Localizada em uma antiga fábrica construída nos primeiros anos do século XX, pintada de azul celeste, esse edifício de ladrilho guarda a livraria especializada em livros usados e raros, alguns deles com relativo valor.






A blogueira de Detroit fez uma visita à livraria











A John K King é a mais antiga e maior livraria de usados e raros de Detroit, são 4 andares + o porão repletos de livros de todos os tipos, gêneros.

Nas prateleiras há diversos avisos com a exata localização dos gêneros e diversas banquetas para se alcançar as prateleiras mais altas.






















sexta-feira, 8 de maio de 2015

8 de Maio – Dia da Vitória!

Depois da assinatura, o general Jodl (centro), levantou-se, pediu permissão para falar e em alemão disse: “Com esta assinatura o povo Alemão e as forças armadas alemãs entregam-se, para bem ou para mau, em mãos dos vencedores. Nesta guerra que durou mais de cinco anos, o povo e as forças armadas foram capazes de realizar gestos memoráveis, sofrendo talvez mais que qualquer outro povo no mundo. Nesta hora só posso expressar a esperança de que os vencedores lhes tratem com espírito generoso”.


A intenção dos libertadores era tornar o dia 9 de Maio de 1945 o Dia da Vitória na Europa, porém a notícia, de alguma forma, vazou, e em poucas horas, por vários pontos do Continente, jornais, folhetins e rádios anunciavam a captulação total das forças do Eixo na Europa. A notícia caiu como uma chuva depois de longo período de seca.

Para os brasileiros que lutavam na Itália o Dia da Vitória chegou mais cedo.

Com Mussolini capturado e morto pelos partigiani em 28 de Abril de 1945 e, enfim, o suicídio de Adolf Hitler no dia 31 de Abril de 1945, o Eixo Roma-Berlim desaparecia.

No dia 2 de Maio de 1945 às 14 horas, as forças alemãs que resistiam na Itália se renderam ao IV Corpo de Exército, do qual fazia parte a FEB, resultado de negociações secretas, onde o General alemão Schlemmer assinou um termo de rendição no Quartel General do IV Corpo.

Declarava-se, então, 2 de Maio de 1945, O Dia da Vitória na Itália. Foi um período de ocupação em que os brasileiros saborearam diferentes manifestações do povo libertadado, até o dia da esperada notícia.

Após confirmada a libertação, os brasileiros, assim como todos os libertadores, queriam desfrutar sua glória, mas a realidade era bem diferente.

No Livro “A Casa das Laranjas” (2009) Moura e um Sargento queriam se despedir da população que libertaram, mas os camponeses não foram receptivos.



“Moura resolveu dar uma passada por Riola e despedir-se de Ida. Não teve dificuldades em desgarrar do comboio que cortava a Itália de norte a sul. Estava acompanhado de um sargento que também tinha seus motivos para voltar ao Vale do Reno. Após horas de estrada, já de noite, chegavam próximo a Porretta, onde pretendiam dormir. 

Avistaram, em meio ao campo, um casarão iluminado de onde vinha música. Era algo fascinante após tantos meses de blecaute, em que as noites eram tristes e o silêncio interrompido apenas por explosões.

Não foi necessário acordo. Seguiram decididos ao que parecia ser diversão garantida. Pararam o jipe, saltaram e entraram timidamente ao amplo galpão, onde corria um animado baile de camponeses. Foram logo notados e os olhares não eram receptivos. Ficaram em um canto, achando que seriam tolerados e acabariam por entrosar-se. 

Mas as primeiras palavras que lhes dirigiam, ainda não compreensíveis no sentido exato, eram de evidente animosidade. Às palavras seguiram-se gestos, ainda mais inequívocos, para que fossem embora. Aqueles contandini, tão gentis em outras ocasiões, os olhavam com ódio. A guerra acabara e os liberatori de ontem não eram bem-vindos, pois já faziam parte de um passado que todos queriam esquecer.

Eram homens fardados a quem muitos daqueles pais tinham vendido a honra de suas filhas em troca de rações de alimento. Não tinham lugar no retorno a uma vida digna. (Faria, 2009, p. 214-215)

Porém, após alguns dias passados do Dia da Vitória, o povo italiano, que tanto sofreu durante os anos de ocupação, passou a ver os brasileiros como seus libertadores e demonstrar-lhes algum tipo de respeito e gratidão, como nos relata o veterano da FEB, Victório Nalesso em seu Livro “Diário de um Combatente”, 2005, p. 131.

“Pois bem, terminadas as festividades da Vitória, voltamos para o nosso acampamento. Lá ficamos sabendo que no dia seguinte haveria uma missa campal promovida e coordenada por autoridades religiosas, padres católicos brasileiros e italianos.

Todos os preparativos dessa grande cerimônia ficaram por conta da comunidade religiosa italiana. Lembro-me ainda que após a missa, centenas de meninos e meninas traziam buquês de flores brancas. Em ordem, as mesmas faziam entregas dessas flores aos soldados brasileiros debaixo de músicas e hinos executadas por um coral de muitas vozes.

A emoção foi tão forte, que chorei no momento em que uma menina entregou-me o buquê de flores e me abraçou.

Logo após a notícia do fim da guerra chegar aos ouvidos dos brasileiros, todos ficaram com um sentimento de que aquilo tudo poderia ser mentira, um engano ou ainda, uma piada de mal gosto, mas com os boatos crescendo, eram impossível não crer na vitória.

Dificil mesmo era fazer boa parte dos combatentes alemães desgarrados, esfarrapados, desarmados e abandonados por seus superiores acreditarem nisso, pois com a notícia, muitos não sabiam o que fazer, nem pra onde ir.

Até um coronel alemão, em dado momento ficou em dúvida sem aquilo era mesmo o fim da guerra, como nos mostra Joel Silveira em seu livro “O inverno da Guerra”, 2005, p. 170.



“Foi então que começou a cair uma chuvinha rala e fria – e também absolutamente neutra, pois molhava a todos nós, vencedores e vencidos. Imperturbavelmente, um coronel alemão, de nome Gunther Habecker, continuou como estava. Mas um sargento alemão, ao vê-lo exposto à chuva que engrossava, gritou qualquer coisa em alemão.

Logo um velho soldado destacou-se do resto do batalhão, trazendo um guarda-chuva. O sargento arrancou-o das mãos do soldado, pulou para o assento de trás do pequeno carro do coronel e abriu sobre sua cabeça.

O coronel Gunther, comandante de Artilharia. repetiu um conhecido gesto, erguendo a mão que segurava a luva de couro, e o seu carro pôs-se novamente em movimento. Ao roçar nosso jipe, fez uma espécie de continência, à qual o meu motorista, um enfezado e exausto terceiro-sargento, respondeu com um sonoro palavrão em português.”

“Não havia dúvida: a guerra tinha acabado, definitivamente. Tudo indicava isso: o prosaico guarda-chuva aberto sobre a cabeça do coronel alemão, sua continência vaga (mais cumprimento do que continência) e o indisciplinado palavrão do meu sargento – não restava dúvida: tais demonstrações tão à margem da ordem castrense eram a prova definitiva, a que me faltava, de que de fato A GUERRA CHEGARA AO FIM.”

Para nós, brasileiros, o Dia da Vitória, que é lembrado por uma minoria vergonhosa da população, com notas de 30 segundos em jornais, serve para não esquecermos que um dia cerca de 25.000 homens enfrentaram toda sorte de dificuldades, como o adestramento diminuto, armamentos precários, a falta de experiência em oposição a um inimigo calejado de batalhas, um terreno adverso e severas condições climáticas.

Esses homens lutaram contra a intolerância, contra a opressão, contra o totalitarismo escravista e a discriminação racial.

Devemos a esses homens, a vitória da liberdade, da democracia e da paz, conquistada e embebida em sangue de bravos brasileiros, que defenderam nossa honra e soberania com sua coragem, seus valores e seu patriotismo.

Se você conhece um veterano combatente, olhe-o nos olhos e diga-lhe “muito obrigado”. Ele certamente saberá do que você está falando.

Fonte: Portal FEB

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Conheça a cirurgiã de livros de Porto Alegre



Sílvia Breitsameter sentiu o peso da história quando viu em sua frente os rabiscos originais das obras de um de seus escritores favoritos, Erico Verissimo.

Em um instante, viajou para a primeira metade do século passado, onde pôde ver que o autor, que imaginara sério, era na verdade um engraçadinho.

Nos rascunhos de Fantoches, livro de contos lançado em 1932, ele destacou um trecho em que os protagonistas formam um triângulo amoroso e, em um cantinho, escreveu, à caneta e em letra cursiva: “O eterno triângulo, que nos tempos que correm está se transformando em polígono”.

Tocar neste pedacinho de relíquia, hoje envidraçada no acervo permanente do Centro Cultural Erico Verissimo, em Porto Alegre, não é para qualquer um. Sílvia teve esse privilégio porque exerce uma profissão que, por muitos — mas não por ela —, é enquadrada na categoria “em extinção”. Há 38 anos, ela é restauradora de livros.

— Sentir a personalidade do artista por meio de seus manuscritos e ver as dúvidas que ele tinha quando decide substituir uma palavra por outra é algo muito emocionante — diz Silvia, 55 anos.

Ela foi a responsável por limpar a sujidade (termo técnico para a famosa sujeira), recuperar os fragmentos rasgados, neutralizar a acidez do papel quebradiço e reforçar a costura das brochuras de Erico, em um trabalho cheio de minúcia e cuidado. 

Embora alguns exemplares cheguem às suas mãos mais parecendo um quebra-cabeças, um lema rege o conserto: invadir a obra o menos possível ou, sob outro ponto de vista, salvaguardar o original ao máximo.

Para isso, nada de materiais permanentes. Fotografias esgualepadas, outra demanda frequente em seu laboratório, ela restaura utilizando guache, uma tinta removível. Caso surja alguma técnica melhor no futuro, é possível retirar a pintura e aplicar algo mais adequado.

— Afinal, não fui eu quem fez a obra, mas me empenho em entregá-la mais bonita do que quando chegou — diz Silvia, especialista em Conservação e Restauração de Papel Couro e Pergaminho, pela Academia Europeia de Florença, na Itália, e professora desta mesma matéria na sua oficina, a Livro e Arte.

Sílvia é mesmo parte de um grupo seleto. Na Associação Brasileira de Encadernação e Restauro (Aber), à qual é credenciada, são apenas 95 membros ativos — em 28 anos, nunca passou de cem.

A raridade de profissionais dá ao ofício ares de distinção. Quem mais poderia ter acesso, de pertinho, a gravuras originais de Dom Quixote, datadas de 1856, ou a exemplares do jornal O Noticiador, um dos pioneiros da imprensa gaúcha, que descrevia as sagas da Revolução Farroupilha?

Seria bom se desse tempo de ler tudo. Frente à tentação, Sílvia implementou uma metodologia curiosa na rotina da oficina: livros e publicações dessa singularidade são restaurados de cabeça para baixo.

— Senão, ninguém trabalha — brinca. — São materiais muito ricos.

Mas riqueza é um conceito relativo. Uma obra não precisa ser de alguém famoso para ter valor.

Livros de coleções particulares e álbuns de fotografia carregam um quê sentimental tão forte que Sílvia se debruça neles como se fossem seus.

No laboratório, há um armário de aço e uma porta corta-fogo para evitar qualquer incidente. 

Repousa na lista de espera, por exemplo, um compilado de atas e documentos históricos de um centro espírita septuagenário de Porto Alegre.

— Não há réplicas. Se aquilo se perde, se perde também a história desse lugar.

Não são só obras amareladas pelo tempo que chegam para o hospital de Sílvia. Tem bastante coisa nova que o cachorro comeu, que o bebê rasgou, que alguém deixou cair na lama.

Um cliente, por exemplo, teve toda sua biblioteca inundada durante uma enchente. Nesses casos, o material vai direto para o pronto-socorro.

Os reparos mais urgentes doem em Sílvia porque não há outra alternativa senão apelar aos produtos químicos. E quando aplicam-se os químicos, diz ela, a originalidade da obra se esvai um bocado. Mas, pelo menos, fica livre das doenças que não puderam ser saradas com trincha ou pincel.

Sílvia tinha 17 anos quando descobriu sua vocação. Fazia um curso de secretariado no Colégio Comercial Protásio Alves e estagiava no Instituto Estadual do Livro. No dia 23 de abril de 1977, participou, por acaso, de uma reportagem — de Zero Hora, aliás — sobre encadernação e restauração. Pronto. Apaixonou-se. Da paixão, a vontade incansável de requintar a técnica. 



O currículo da profissional é um sem-fim de cursos de aperfeiçoamento, desde preservação em papel até limpeza de superfícies, passando por encadernação flexível em pergaminhos de obras raras e tratamento de documentos em tinta ferrogálica (óxido de ferro + galha). 

Constaria, se existisse, um curso sobre recuperação de ingressos antigos. Como não há, Sílvia adaptou o que sabia para reconstituir o tíquete da inauguração do Beira-Rio, em 1969, a pedido de um rapaz que queria dar um presente ao pai.

O trabalho dela garantiu um momento de felicidade em família — algo do que se orgulha.

Para multiplicar o conhecimento, Sílvia ensina o que sabe para 27 alunos, que se dividem em três turmas. Tem seis funcionários que a ajudam a cumprir a demanda — atualmente, 50 materiais diferentes estão aguardando atendimento.

Leva, em média, 40 dias para entregar a obra pronta ao cliente.

O custo varia conforme o nível de estrago e o número de páginas. Para um senhor que chegou ao laboratório pedindo orçamento para um livrinho de família, amareladíssimo porém inteiro, cobrou R$ 35.

Mas há obras cujo valor de recuperação alcança os quatro dígitos.

Para qualquer caso, o procedimento é o mesmo: primeiro, a ficha técnica; depois, bisturi para alavancar as sujeirinhas, trincha para varrê-las e químicos, se necessário (descolar durex sem danificar a folha, por exemplo, só é possível com um líquido chamado xilol). 

Preferencialmente de luvas, para não engordurar as folhas. Nos tempos em que se discute a digitalização de tudo, estaria o ofício de Sílvia correndo risco de acabar? 

Ela responde puxando um Umberto Eco da estante. Título: Não Contem com o Fim do Livro.

— Não é porque veio o aspirador de pó que a vassoura vai deixar de ser usada. A tecnologia é maravilhosa para pesquisar, mas não para ler. Com um livro, não há risco de acabar a bateria ou dar pane e ter de resetar. 

O dedo é suficiente para virar a página e o cérebro é o nosso HD. Fora que os e-readers não têm aquele cheiro maravilhoso de livro. É um cheiro afetivo — opina a cirurgiã dos livros.



Matéria publicada no jornal Diário Gaúcho, pela jornalista Luísa Martins no dia 30/04/2015
Foto: Júlio Cordeiro/Agência RBS

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Cultura do best seller e falta de livrarias restringem acesso à leitura

Finalmente enxergamos que é preciso regulamentar os mercados livreiro e editorial. É chegada a hora de tratarmos o livro não como uma simples mercadoria, mas sim como patrimônio cultural de uma nação. 

Enfim, o mercado percebeu que ter o comércio de livros nas mãos de poucos é extremamente comprometedor para a nossa rica bibliodiversidade e é um complicador para a nossa cultura.

A bibliodiversidade é uma preocupação do mercado livreiro com a formação do leitor. Trata-se de colocar à disposição uma maior variedade de títulos. Os grandes grupos editoriais e livreiros apostam na cultura do best seller. 

É claro que esses lançamentos mantêm muitas vezes o faturamento das livrarias, mas é necessário preocupar-se com a qualidade editorial e com a formação do leitor, que se dá por meio de bons livros clássicos.

Esses clássicos têm sido preteridos em virtude de terem um apelo comercial supostamente menor. A circulação dessas obras acaba sendo, de certa forma, esquecida, deixada de lado, para se priorizar as atualidades. 

Outra ameaça à bibliodiversidade é justamente a perda dos fundos de catálogo, os chamados de “cauda longa”. Esses não têm vendagem tão expressiva, mas são importantes e muitos estão esgotados, porque não há interesse de colocar em circulação livros com baixa vendagem.

Há mais de 10 anos a ANL defende a moralização do mercado livreiro brasileiro, indo muito além de estabelecer a Lei do Preço Fixo. Entendemos que a atuação do livreiro como agente literário pode contribuir muito para que possamos melhorar nossos precários índices de leitura. 

Para isto, é fundamental que todos que participam da cadeia produtiva, criativa e mediadora do livro valorizem a livraria do seu bairro, da sua cidade, e enxerguem nelas a possibilidade de formar novos leitores.

Não se pode negar, ainda, o avanço social por que passa o nosso país, a diminuição da desigualdade e o aumento da escolaridade, com acesso ao ensino em todos os níveis. 

Como complemento a essa ascensão cultural que vive o país, é necessário facilitar o acesso ao livro e à leitura, e faltam livrarias para esse público. Infelizmente, com a concentração de mercado e as restrições que as editoras impõem às pequenas e médias livrarias, o acesso ao livro e à leitura fica restrito às grandes superfícies.

Levantamento realizado pela ANL (Associação Nacional de Livrarias) constata um enorme deficit de livrarias no Brasil. Temos uma média de 1 livraria para 65 mil habitantes, sendo que o recomendado pela Unesco é de 1 livraria para 10 mil habitantes. A falta de livrarias nos mais diversos rincões de nosso país desestimula a leitura.

Por mais que queiramos investir e acreditar no mercado do livro digital, é na loja física que o livreiro consegue manter o seu negócio. É um mercado promissor. 

Desde que as regras do jogo sejam seguidas e respeitadas, podemos competir de forma justa. Isto é, o autor materializa sua ideia, a editora transforma em edição, a distribuidora abastece o mercado e o livreiro atende o leitor.

Como afirmado por alguns especialistas do setor, não basta a Lei do Preço Fixo para manter o setor saudável e equilibrado. É preciso que algumas práticas nocivas ao livreiro, principalmente de pequeno e médio porte, sejam revistas nas transações comercias.

Para implementação e um pacto pela leitura, é necessário vontade e valorizar parcerias entre editoras, distribuidores e livrarias.

Texto de autoria de Ednilson Xavier,

quarta-feira, 18 de março de 2015

Émile Durkheim

Émile Durkheim nasceu em 1858, em Épinal, no noroeste da França, próximo à fronteira com a Alemanha.

Era filho de judeus e optou por não seguir o caminho do rabinato, como era costume na sua família. Mais tarde declarou-se agnóstico.

Depois de formar-se, lecionou pedagogia e ciências sociais na Faculdade de Letras de Bordeaux, de 1887 a 1902.

A cátedra de ciências sociais foi a primeira em uma universidade francesa e foi concedida justamente àquele que criaria a Escola Sociológica Francesa.

Seus alunos eram, sobretudo, professores do ensino primário.

Durkheim não repartiu o seu tempo nem o pensamento entre duas atividades distintas por mero acaso.

Abordou a educação como um fato social. "Estou convicto de que não há método mais apropriado para pôr em evidência a verdadeira natureza da educação", declarou.

A partir de 1902, foi auxiliar de Ferdinand Buisson na cadeira de ciência da educação na Sorbonne e o sucedeu em 1906.

Estava plenamente preparado para o posto, pois não parara de dedicar-se aos problemas do ensino. Dentro da educação moral, psicologia da criança ou história das doutrinas pedagógicas, não há campos que ele não tenha explorado.

Suas obras mais famosas são A Divisão do Trabalho Social e O Suicídio. Morreu em 1917, supostamente pela tristeza de ter perdido o filho na Primeira Guerra Mundial, no ano anterior.

A segunda metade do século 19 marca o nascimento de algumas ciências humanas, como antropologia, sociologia, psicanálise e lingüística. Charles Darwin (1809-1882), Karl Marx (1818-1883) e Sigmund Freud (1856-1939), para citar apenas alguns clássicos, estavam formulando as idéias que reorientariam o pensamento mundial mais tarde, assim como fez Durkheim no campo da sociologia.

A França vivia um período de conflitos - parte da região da Lorena, onde Durkheim nasceu, foi tomada pela Alemanha em 1871, o que levou à guerra entre os dois países.

Nesse mesmo ano, foi proclamada a Terceira República Francesa, que implantou medidas políticas inovadoras, como a instituição da lei do divórcio.

Na educação, devido também à influência das concepções de Durkheim, a Terceira República trouxe a obrigatoriedade escolar para crianças de 6 a 13 anos e a proibição do ensino religioso nas escolas públicas, ideais que até hoje estão entre os pilares educacionais naquele país.

Tais transformações foram fundamentais para a preocupação de Durkheim com a formação de professores para a nova escola laica republicana.

Ele viveu também no período da chamada Segunda Revolução Industrial, quando o motor de combustão interna, o dínamo, a eletricidade, o telégrafo e o petróleo tomaram a atenção do mundo todo. Morreu durante a Primeira Guerra Mundial, no ano da Revolução Russa.

Durkheim dizia que a criança, ao nascer, trazia consigo só a sua natureza de indivíduo. "A sociedade encontra-se, a cada nova geração, na presença de uma tábua rasa sobre a qual é necessário construir novamente", escreveu.

Os professores, como parte responsável pelo desenvolvimento dos indivíduos, têm um papel determinante e delicado. Devem transmitir os conhecimentos adquiridos, com cuidado para não tirar a autonomia de pensamento dos jovens.

A proposta de Durkheim levará o aluno a avançar sozinho? Esse modelo de formação externa contraria a independência nos estudos? Ou será uma condição para que a educação cumpra seu papel social e político?

Em cada aluno há dois seres inseparáveis, porém distintos. Um deles seria o que o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) chamou de individual. Tal porção do sujeito - o jovem bruto -, segundo ele, é formada pelos estados mentais de cada pessoa.

O desenvolvimento dessa metade do homem foi a principal função da educação até o século 19. Principalmente por meio da psicologia, entendida então como a ciência do indivíduo, os professores tentavam construir nos estudantes os valores e a moral.

A caracterização do segundo ser foi o que deu projeção a Durkheim. "Ele ampliou o foco conhecido até então, considerando e estimulando também o que concebeu como o outro lado dos alunos, algo formado por um sistema de idéias que exprimem, dentro das pessoas, a sociedade de que fazem parte", explica Dermeval Saviani, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas.

Dessa forma, Durkheim acreditava que a sociedade seria mais beneficiada pelo processo educativo. Para ele, "a educação é uma socialização da jovem geração pela geração adulta".

E quanto mais eficiente for o processo, melhor será o desenvolvimento da comunidade em que a escola esteja inserida.

Nessa concepção durkheimiana - também chamada de funcionalista -, as consciências individuais são formadas pela sociedade. Ela é oposta ao idealismo, de acordo com o qual a sociedade é moldada pelo "espírito" ou pela consciência humana.

"A construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios - sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento - que baliza a conduta do indivíduo num grupo.

O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela", escreveu Durkheim.

Essa teoria, além de caracterizar a educação como um bem social, a relacionou pela primeira vez às normas sociais e à cultura local, diminuindo o valor que as capacidades individuais têm na constituição de um desenvolvimento coletivo.

"Todo o passado da humanidade contribuiu para fazer o conjunto de máximas que dirigem os diferentes modelos de educação, cada uma com as características que lhe são próprias.

As sociedades cristãs da Idade Média, por exemplo, não teriam sobrevivido se tivessem dado ao pensamento racional o lugar que lhe é dado atualmente", exemplificou o pensador.

Durkheim não desenvolveu métodos pedagógicos, mas suas ideias ajudaram a compreender o significado social do trabalho do professor, tirando a educação escolar da perspectiva individualista, sempre limitada pelo psicologismo idealista - influenciado pelas escolas filosóficas alemãs de Kant (1724-1804) e Hegel (1770-1831).

"Segundo Durkheim, o papel da ação educativa é formar um cidadão que tomará parte do espaço público, não somente o desenvolvimento individual do aluno", explica José Sérgio Fonseca de Carvalho, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).

Nas palavras de Durkheim, "a educação tem por objetivo suscitar e desenvolver na criança estados físicos e morais que são requeridos pela sociedade política no seu conjunto".

Tais exigências, com forte influência no processo de ensino, estão relacionadas à religião, às normas e sanções, à ação política, ao grau de desenvolvimento das ciências e até mesmo ao estado de progresso da indústria local.

Se a educação for desligada das causas históricas, ela se tornará apenas exercício da vontade e do desenvolvimento individual, o que para ele era incompreensível: "Como é que o indivíduo pode pretender reconstruir, por meio do único esforço da sua reflexão privada, o que não é obra do pensamento individual?"

E ele mesmo respondeu: "O indivíduo só poderá agir na medida em que aprender a conhecer o contexto em que está inserido, a saber quais são suas origens e as condições de que depende.

E não poderá sabê-lo sem ir à escola, começando por observar a matéria bruta que está lá representada".

Por tudo isso, Durkheim é também considerado um dos mentores dos ideais republicanos de uma educação pública, monopolizada pelo Estado e laica, liberta da influência do clero romano.

Durkheim sugeria que a ação educativa funcionasse de forma normativa. A criança estaria pronta para assimilar conhecimentos - e o professor bem preparado, dominando as circunstâncias.

"A criança deve exercitar-se a reconhecer [a autoridade] na palavra do educador e a submeter-se ao seu ascendente; é por meio dessa condição que saberá, mais tarde, encontrá-la na sua consciência e aí se conformar a ela", propôs ele.

"Em Durkheim, a autonomia da vontade só existe como obediência consentida", diz Heloísa Fernandes, da Faculdade de Ciências Sociais da USP.

O sociólogo francês foi criticado por Jean Piaget (1896-1980) e Pierre Bourdieu (1930-2002), defensores da ideia de que a criança determina seus juízos e relações apenas com estímulos de seus educadores, sem que estes exerçam, necessariamente, força autoritária sobre ela.

A elaboração, adoção e socialização dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)foi uma grande conquista para a educação brasileira.

Houve padronização na indicação dos conteúdos curriculares e uma clara demonstração do que o governo espera dos jovens que deixarão os bancos escolares nos próximos anos.

Para o professor Dermeval Saviani, da Unicamp, esse fato tem certa relação com as concepções de Durkheim. "Os currículos são sugeridos para todos. Esses documentos mostram as necessidades da sociedade.

Agora, cabe aos estabelecimentos de ensino pegar essas indicações e moldá-las aos estudantes", explica. "A ideia de fundo é colocar as pessoas certas nos lugares certos, onde a comunidade precisa", diz.

Para saber mais:

  • A Evolução Pedagógica, Émile Durkheim, 325 págs., Ed. Artmed, tel. 0800-703-3444 (edição esgotada) 
  • Durkheim, José Albertino Rodrigues (org.), 208 págs., Ed. Ática, tel. 0800-115-152, 27,50 reais 
  • Educação e Sociologia, Émile Durkheim, 132 págs., Edições 70, tel. (11) 3107-0017 (Livraria Portugal, importadora), 47 reais 
  • Sintoma Social Dominante e Moralização Infantil, Heloísa Rodrigues Fernandes, 219 págs., Edusp e Ed. Escuta, tel. (11) 3865-8950, 33,70 reais 
Fonte: Revista Escola

quinta-feira, 12 de março de 2015

Dia do Bibliotecário - Pioneiros da Biblioteconomia



Gabriel Naudé (1600-1653) nasceu em Paris em 2 de fevereiro de 1600. Apesar de ser conhecido como um grande bibliotecário francês, essa não foi sua profissão inicial: aos 26 anos, mudou-se para Pádua, na Itália, a fim de estudar medicina. 

Ao retornar para Paris, Naudé se tornou bibliotecário de Henri de Mesmes, conhecido como Président de Mesmes, o que marca o início da carreira de bibliotecário e o abandono da profissão de médico, a qual aparentemente ele nunca exerceu.

Posteriormente trabalhou novamente na Itália para o Cardeal de Bagni e depois para o Cardeal Francesco Barberini. De volta à França mais uma vez, trabalhou para o Cardeal Richilieu e, após a morte deste, para o Primeiro Ministro da França, em 1642. 

Durante os dez anos seguintes, Naudé dedicou-se à construção de uma biblioteca para Mazarino, tendo formado um acervo respeitável com mais de 40 mil livros, comprados por ele mesmo por toda a Europa. Ao final desses anos, a Biblioteca Mazarina era provavelmente a maior do continente europeu à sua época. 

De 1926 a 1977 a Biblioteca Mazarina fez parte da Réunion des Bibliothèques Nationales, que foi abolida em 1977.

A Biblioteca Mazarina passou por problemas durante as Frondas, período que compreende a guerra civil na França de 1648 a 1652 e a guerra entre França e Espanha, de 1653 a 1659. Com a queda de Mazarin do poder em 1652 e confisco de seus bens, o acervo da Biblioteca Mazarina foi leiloado naquele mesmo ano. 

Naudé chegou a escrever ao Parlamento contestando a venda da coleção da referida biblioteca, o que infelizmente não surtiu efeito. Isso o levou a trocar Paris por Estocolmo em 21 de julho de 1652, tendo partido a convite da Rainha Cristina da Suécia para ser diretor e organizar sua biblioteca. 

No ano seguinte, contudo, Mazarin recuperou o poder que tinha antes e muitos daqueles que haviam comprado livros da Biblioteca Mazarina devolveram os itens à biblioteca como forma de provar sua lealdade a Mazarin. Naudé não teve boas experiências em Estocolmo e em 1953 resolveu voltar à Paris. Infelizmente, ele morreu durante a viagem de volta à sua cidade natal, em 29 de julho de 1953.

A grande contribuição de Gabriel Naudé para biblioteconomia, pela qual ele é muito lembrado, foi a publicação da obra “Advis pour dresser une bibliothèque”, que é considerada o primeiro tratado em biblioteconomia escrito em língua vernácula e não em latim. 

O livro foi escrito em 1627 e trazia teorias sobre seleção de livros, ensaios sobre classificação e catalogação, além de orientações aplicáveis até os dias de hoje ao armazenamento de documentos, como o cuidado com a luz natural e a necessidade de deixá-los longe da umidade. 

O livro é considerado um marco para a transição das práticas bibliotecárias medievais para as práticas modernas.

Fonte: i10 Biblioteca

terça-feira, 10 de março de 2015

André Gide


André Gide pertencia a uma família modesta e protestante, por parte de pai, e a uma família da alta burguesia, por parte de mãe. Gide teve uma infância difícil, alternando períodos de estudo com temporadas no sul da França, para tratamento de saúde.

Suas obras são inseparáveis de sua biografia, viajou muito imbuindo seus textos de experiências. Escreveu ficção e autobiografia. Em Paris, Gide cursou a faculdade de letras e de filosofia, formando-se em 1889.

Sua primeira obra, intitulada "Os Cadernos de André Walter", foi publicada em 1891. A juventude de Gide foi marcada por numerosos conflitos interiores.

Com a realização de uma viagem ao norte da África, durante a qual adoeceu gravemente, Gide deu vazão a seus impulsos homossexuais, como relatou depois em sua autobiografia. Conheceu nessa viagem Oscar Wilde.

Em 1895 Gide casou-se com sua prima Madeleine, realizando a seguir uma grande viagem pela Suíça, Itália e Tunísia. Dois anos depois, passou a colaborar com o periódico "L'Ermitage", para o qual escreveu diversos artigos.

Junto com ouros intelectuais, André Gide fundou, em 1908, a "Nouvelle Revue Française", que se tornaria uma das revistas de maior prestígio na Europa. Em seus artigos, defendeu o rigor formal e o classsicismo. Durante a Primeira Guerra Mundial, Gide viveu uma crise religiosa e em 1914 publicou "Os Subterrâneos do Vaticano", um romance burlesco.

Depois da guerra, Gide adquiriu grande prestígio junto ao meio intelectual. Em 1919 publicou o que muitos críticos consideram sua obra prima, "A Sinfonia Pastoral". Gide tornou-se um intelectual engajado, participando ativamente da política de seu tempo. Manifestou-se contra o colonialismo e defendeu o comunismo. Apesar desta sua posição, depois de uma viagem à União Soviética, denunciou os crimes de Stalin, no livro "Retour de l'URSS".

Escreveu ainda diversas obras, entre elas "Os Moedeiros Falsos", Os Frutos da Terra", "Saul"e "A Volta do Filho Pródigo". Em 1947 recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e no mesmo ano tornou-se doutor honoris causa pela Universidade de Oxford, o que lhe conferiu reconhecimento internacional.

Entre as últimas atividades de André Gide estão a elaboração do romance "Tereza", uma tradução de "Hamlet", de Shakespeare, e uma adaptação para o teatro de "O Processo", de Kafka.

André Gide morreu de problemas cardíacos.

Texto: 500 grandes escritores