quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As 72 virgens do paraíso



''Os muçulmanos acreditam que se explodirem-se ou matarem os infiéis no paraíso vão ter 72, 100, 500, 1000 virgens para transar pela eternidade.''

Sinto decepcionar alguns, mas esta frase que vem sendo comum entre não-muçulmanos ignorantes que buscam desacreditar ou até mesmo zombar da religião islâmica não está nem um pouco correta.

Este clamor vem sendo feito há séculos por orientalistas, e vem do imaginário europeu do mundo islâmico sempre o retratando-o como um lugar onde os pudores sexuais eram libertinos, uma terra de luxuria e prezares intermináveis. As Mil e Uma Noites retratam bem este imaginário. Uma lida no livro ''Orientalismo'' de Edward Said pode explicar também como surgiu este conceito, ou digamos ''pré-conceito''.

O Alcorão, escritura sagrada da religião islâmica, oferece uma vasta gama de descrições da vida após a morte para os seres humanos.

A religião islâmica vê a vida terrena do ser humano como um teste de alguns anos para uma recompensa infinita e inimaginável.

O Alcorão expressa a recompensa dos justos, caridosos e piedosos de diversas formas em seus palácios, rios de mel e leite, jardins e é claro, esposas.

Mas tudo de forma análoga, e não literal.

A palavra encontrada no Alcorão para descrever as esposas dos habitantes do paraíso é ''hoor'' que vem do árabe ''brilho'', que é uma analogia a luminosidade destas criaturas que habitam o Jannah (paraíso).

Não expressam de forma alguma que serão mulheres sensuais parecidas com as que existem no mundo terreno dentro de um harém escravizadas a sexualidade de um homem, essa interpretação é do puro imaginário ocidental, que mesmo sem encontrar base na religião islâmica, ainda continua a ser atribuída a ela como crença.

E quanto ao número 72, é uma alegoria numérica muito comum na língua árabe clássica (na qual está escrito o Alcorão) para descrever grandes quantidades, não significa de maneira alguma o número exato de 72 virgens para um homem só.

Os muçulmanos creem que no paraíso após morrerem de maneira piedosa, irão ser recompensados se suas obras forem sinceras de diversas formas, e uma delas, é com as ''huris'' ou seja, esposas do paraíso.

E para as mulheres muçulmanas, também poderão se casar com o ''marido dos sonhos'' e viver com ele felizes pela eternidade.

Por: Victor Peixoto

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Os privilégios - Stendhal



Deus me conceda a seguinte carta de privilégios:

ARTIGO 1

Nenhuma dor séria até a velhice muito avançada: e, então, nenhuma dor, mas a morte por apoplexia, na cama, durante o sono, sem nenhuma dor moral ou física. Não mais que três dias de indisposição a cada ano. O corpusinodoro, assim como tudo que dele provém.

ARTIGO 2

Ninguém há de perceber ou suspeitar dos milagres seguintes.

ARTIGO 3

A mentula à maneira do dedo indicador, no que diz respeito à dureza e ao movimento, ambos sempre ao bel-prazer. Quanto à forma, duas polegadas maior que o maior dedo do pé, mesma grossura. Mas prazer para amentula apenas duas vezes por semana.

Vinte vezes a cada ano, o privilegiado poderá transformar-se na criatura que bem quiser, contanto que esta já exista. Cem vezes a cada ano, ele saberá por vinte e quatro horas a língua que bem quiser.

ARTIGO 4

Milagre. O privilegiado levará um anel num dos dedos; ao apertá-lo enquanto olha para uma mulher, esta cairá de amores por ele, com a mesma paixão que se atribui a Heloísa diante de Abelardo. Se o anel for só molhado com um pouco de saliva, a mulher será apenas uma amiga terna e dedicada.

Se o privilegiado olhar para a mulher e tirar o anel do dedo, cessarão os sentimentos inspirados em virtude desses privilégios. O ódio transforma-se em benevolência quando ao mesmo tempo se olha para o ser tomado de ódio e se esfrega o anel contra o dedo.

Esses milagres não poderão se dar mais que quatro vezes a cada ano para o amor-paixão, oito vezes para a amizade, vinte vezes para a anulação do ódio e cinquenta vezes para a sugestão de simples benevolência.

ARTIGO 5

Cabelo bonito, dentes excelentes, pele boa, nunca áspera. Odor suave e leve. Em 1 de fevereiro e 1 de junho de cada ano, as roupas do privilegiado voltam a ser como eram na terceira vez que as usou.

ARTIGO 6

Milagres. Aos olhos de todos que não me conhecem, o privilegiado terá as formas do general De Belle, morto em Santo Domingo, mas sem nenhuma imperfeição. Saberá jogar perfeitamente o whist, o écarté, o bilhar, o xadrez, mas não poderá jamais ganhar mais que cem francos; saberá atirar com pis­tola, montar a cavalo e esgrimar à perfeição.

ARTIGO 7

Milagre. Quatro vezes a cada ano, o privilegiado poderá se transformar no animal que bem quiser e, em seguida, voltar a ser homem.

Quatro vezes a cada ano, poderá se transformar no homem que bem quiser, para depois concentrar sua vida num animal qualquer, em caso de morte ou de impedimento do primeiro homem em que se transformou, podendo assim voltar à forma natural do ser privilegiado.

Assim, o privilegiado poderá, quatro vezes por ano e por um tempo ilimitado a cada vez, ocupar dois corpos ao mesmo tempo.

ARTIGO 8

Quando segurar ou puser num dos dedos, por dois minutos, um anel antes levado por um instante à boca, o homem privilegiado será invulnerável pelo tempo que houver designado. Dez vezes a cada ano, terá uma visão de águia e poderá correr cinco léguas em uma hora.

ARTIGO 9

Todos os dias, às duas horas da manhã, o privilegiado encontrará em seu bolso um napoleão de ouro, mais o valor equivalente a quarenta francos na moeda corrente do país onde se encontrar. As somas que porventura lhe roubarem reaparecerão, às duas horas da manhã, sobre uma mesa diante dele.

No momento de golpeá-lo ou de lhe servir veneno, os assassinos terão um ataque de cólera aguda, que durará oito dias. O privilegiado poderá abreviar essas dores, dizendo: “Peço que os sofrimentos de fulano cessem agora ou sejam transformados em tal ou tal dor”.

Os ladrões terão um ataque de cólera aguda quando estiverem a ponto de cometer o roubo.

ARTIGO 10

Durante a caça, oito vezes a cada ano, uma bandeirola indicará ao privilegiado, a uma légua de distância, a presa e sua posição exata. Um segundo antes que a presa fuja, a bandeirola se iluminará; desnecessário dizer que a dita bandeirola não será visível para ninguém senão o privilegiado.

ARTIGO 11

Uma bandeira semelhante indicará ao privilegiado as estátuas ocultas embaixo da terra, sob as águas ou atrás de paredes, bem como a natureza dessas estátuas, de quando são, quem as fez e qual o preço que alcançarão, uma vez descobertas.

O privilegiado poderá transformar essas estátuas numa bala de chumbo de um quarto de onça. Esse milagre da bandeira e da transformação sucessiva em bala e em estátua não poderá se dar mais que oito vezes a cada ano.

ARTIGO 12

O animal montado pelo privilegiado ou atrelado a seu veículo jamais ficará doente, jamais cairá.

O privilegiado poderá se unir a esse animal, de modo a lhe instilar suas vontades e partilhar suas sensações. Assim, quando montar um cavalo, o privilegiado se unirá a ele e lhe instilará suas vontades. O animal, assim unido ao privilegiado, terá força e vigor três vezes maiores que os que possui em estado normal.

Transformado, por exemplo, em mosca e pousado sobre uma águia, o privilegiado se unirá a essa águia.

ARTIGO 13

O privilegiado não poderá roubar; caso tente fazê-lo, seus órgãos se recusarão a tal ação. Poderá matar dez seres humanos a cada ano, contanto que não lhes tenha falado antes.

No primeiro ano, poderá matar um homem, contanto que não lhe tenha dirigido a palavra em mais de duas ocasiões diferentes.

ARTIGO 14

Caso o privilegiado tente contar ou revelar qualquer um dos artigos de sua carta de privilégios, sua boca não será capaz de formar um único som e ele terá dor de dente durante vinte e quatro horas.

ARTIGO 15

Caso o privilegiado aperte um anel contra o dedo e diga: “Peço que os insetos daninhos morram”, todos os insetos num raio de seis metros do anel, em todas as direções, cairão mortos.

Entre os ditos insetos, contam-se as pulgas, os percevejos, os piolhos de toda espécie, as sarnas, os mosquitos, as moscas, os ratos etc. etc.

As cobras, as serpentes, os leões, os tigres, os lobos e todos os animais venenosos correrão em fuga, amedrontados, e tomarão uma légua de distância.

ARTIGO 16

Seja onde for, ao dizer: “Peço por minha comida”, o privilegiado encontrará: duas libras de pão, um bife ao ponto, um pernil idem, uma garrafa de Saint-Julien, uma garrafa de água, uma fruta, um sorvete e meia xícara de café.

Esse pedido será atendido duas vezes a cada vinte e quatro horas.

ARTIGO 17

Dez vezes a cada ano, a um pedido seu, o privilegiado não deixará de acertar, com um tiro de fuzil, pistola ou outra arma qualquer, o objeto que designar.

Dez vezes a cada ano, ele esgrimará com o dobro da força de seu adversário ou companheiro de armas; mas não poderá causar ferimento que leve a morte, dor ou incômodo superior a cem horas.

ARTIGO 18

Dez vezes a cada ano, a um pedido seu, o privilegiado poderá reduzir em três quartos a dor da criatura que designar ou estando essa criatura a ponto de morrer, poderá prolongar sua vida em dez dias, reduzindo em três quartos a dor atual. A um pedido seu, poderá obter para essa criatura em sofrimento uma morte súbita e sem dor.

ARTIGO 19

O privilegiado poderá transformar um cachorro em mulher, bela ou feia; essa mulher lhe dará o braço e terá o espírito da sra. Ancilla e o coração de Mélanie.1

Esse milagre poderá se renovar vinte vezes a cada ano.

O privilegiado poderá transformar um cachorro num homem com o feitio de Pépin de Bellisle e o espírito de *** (o médico judeu).2

ARTIGO 20

O privilegiado jamais será mais infeliz do que foi entre 1º de agosto de 1839 e 1º de abril de 1840.3

Duzentas vezes a cada ano, o privilegiado poderá reduzir o sono a duas horas, que produzirão o efeito físico de oito horas.

Terá a visão de um lince e a agilidade de um Debureau.4

ARTIGO 21

Vinte vezes a cada ano, o privilegiado poderá adivinhar os pensamentos de todas as pessoas a seu redor, a vinte passos de distância.

Cento e vinte vezes a cada ano, poderá ver o que está fazendo nesse exato instante a pessoa que designar; exceção completa é feita para a mulher a quem mais ama.

Faz-se igualmente exceção para as ações vis e asquerosas.

ARTIGO 22

O privilegiado não poderá ganhar, pelos meios supramencionados, nenhum dinheiro além de seus sessenta francos diários.

Cento e cinquenta vezes por ano, poderá obter, a um pedido seu, que uma dada pessoa esqueça-se por inteiro do privilegiado.

ARTIGO 23

Dez vezes por ano, o privilegiado poderá ser transportado para o lugar que bem quiser, à razão de uma hora para cada cem léguas; durante esse trânsito, ele dormirá.


Henri Beyle, o STENDHAL (1783-1842), escreveu esta lista de desejos em forma de tratado jurídico aos 57 anos, dois anos antes de morrer. O texto foi incorpo­rado ao autobiográfico Lembranças de egotismo, que só seria publicado em 1892 como parte da vasta obra póstuma do autor de A Cartuxa de Parma.

tradução de SAMUEL TITAN JR.

1. “Ancilla” (“serva” ou “auxiliar”, em latim) remete à madame Ancellot (1792-1875), mulher de letras que Stendhal conheceu em 1827; e “Mélanie”, a Mélanie Guilbert (1780-1828), amor da juventude do escritor. [N. Do T.]

2. Segundo Romain Colomb, primo de Stendhal, trata-se de um certo dr. Kouffe. [N. Do T.]

3. É o momento em que Giulia Rinieriabandona Stendhal e este vive seu last romance com a misteriosa “Earline”. [N. Do T.]

4. Célebre mímico e saltimbanco parisiense. [N. Do T.]

A Cartuxa de Parma (em francês: La Chartreuse de Parme) é uma das duas obra-primas reconhecidas de Stendhal (e únicos romances completos) junto com O Vermelho e o Negro.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Origem do papel

A palavra papel vem do latim papyrus e faz referência ao papiro, uma planta que cresce nas margens do rio Nilo no Egito, da qual se extraia fibras para a fabricação de cordas, barcos e as folhas feitas de papiro para a escrita.

Quando a escrita surgiu, há mais de 6 mil anos atrás, as palavras eram inscritas em tabuletas de pedras ou argila. A forma mais primitiva de escrita era a cuneiforme. Por volta de 3000 a.C., os egípcios inventaram o papiro.

Depois vieram os pergaminhos feitos de couro curtido de bovinos, bem mais resistentes. Finalmente, o papel seria inventado na China 105 anos depois de Cristo (d.C.), por T’sai Lun. Ele fez uma mistura umedecida de casca de amoreira, cânhamo, restos de roupas, e outros produtos que contivesse fonte de fibras vegetais. Bateu a massa até formar uma pasta, peneirou-a e obteve uma fina camada que foi deixada para secar ao sol.

Depois de seca, a folha de papel estava pronta! A técnica, no entanto, foi guardada a sete chaves, pois o comércio de papel era bastante lucrativo. Somente 500 anos depois de o papel ter sido inventado, os japoneses conheceram o papel graças aos monges budistas coreanos que lá estiveram.

Em 751 d.C, os chineses tentaram conquistar uma cidade sob o domínio árabe e foram derrotados. Nessa ocasião, alguns artesãos foram capturados e a tecnologia da fabricação de papel deixou de ser um monopólio chinês. Mais tarde, os mouros invadiram a Europa, mais precisamente a Espanha e lá deixaram uma forte influência cultural e tecnológica.

Foi assim, que os espanhóis conheceram também a técnica de dobrar papeis que ficou conhecida comopapiroflexia. O processo básico de fabricação de papel criado por T’sai Lun foi sendo sofisticado e que possibilitou uma imensa diversidade de papeis quanto à texturas, cores, maleabilidade, resistência, etc.

A fibra vegetal que nos referimos antes é a celulose, um dos principais constituintes da plantas e um polímero formado de pequenas moléculas de carboidratos, a glicose.

A celulose pode também ser usada para a fabricação de tecidos quando extraída do algodão, cânhamo, chita ou do linho. Potencialmente, qualquer planta produtora de celulose é fonte de matéria-prima para a produção de papel.

Você sabia que para produzir 1 tonelada de papel são necessários, em média, 24 árvores?

A quantidade e a qualidade do papel vão determinar o tipo de madeira e de planta que será utilizada. Atualmente, a produção de papel industrial usa duas espécies de árvores cultivadas em larga escala: o pinheiro (Pinus sp.) e o eucalipto (Eucalyptus sp), ambas originárias, respectivamente da Europa e da Austrália. 

O papel feito a partir de madeiras de reflorestamento ajuda a amenizar as práticas de desmatamento e ajuda a preservar as florestas naturais. Outra prática que atenua as problemáticas ambientais devido ao consumo de papel é a sua reciclagem, processo que ainda não ocorre de forma plena, inclusive no Brasil.

domingo, 4 de outubro de 2015

Os muçulmanos e o papel



O papel parece ser um produto comum de hoje em dia, mas tem sido fundamental para a civilização moderna. Pense em todos os pedaços de papel que você usa todos os dias como revistas, guias, jornais, papel-toalha, papel higiênico e cartões de visita.

Mil e cem anos atrás Muçulmanos estavam fabricando papéis em Bagdá após a captura de prisioneiros chineses na batalha de Talas em 751.

Os segredos da fabricação de papel dos Chineses eram passados para seus capturadores, a fabricação foi refinada e transformada rapidamente em produção em massa pelas usinas de Bagdá e se espalhou para o oeste de Damasco, Tibérias, e Trípoli Sírio. 

Com o aumento da produção o papel se tornou mais barato e de melhor qualidade e foram os moinhos de Damasco que foram as principais fontes de abastecimento para a Europa.

As fábricas sírias eram confiáveis e grandemente beneficiadas por fazerem o cultivo de cânhamo, uma matéria-prima de fibra, cujo comprimento e força significava produção de papel de alta qualidade. Hoje, papel de cânhamo é considerada renovável e ambientalmente amigável;

Também custa menos de metade do que para processar como papel à base de madeira.

Assim como o cânhamo, os muçulmanos também introduziram o linho como um substituto para a casca da amoreira, uma matéria-prima utilizada pelos chineses. Os panos de linho eram divididos, embebido em água e fermentados.

Eles eram, então, fervidos ficando assim livre de resíduos alcalinos e sujeira. Os panos limpos eram batidos com marteladas até virarem uma polpa, um método pioneiro dos muçulmanos.

Eles também fizeram experimento com matérias-prima, fabricando papel de algodão. Um manuscrito muçulmano datado do século XI foi descoberto na livraria da Escorial em Madri.

Por volta dos anos 800, a produção de papel havia chegado no Egito e possivelmente o mais antigo exemplar do Alcorão em papel foi registrado no século X. Do Egito, ele viajou mais a oeste, através do norte da África para o Marrocos.

Como muitos outros, a partir daí, atravessou o estreito para a Espanha Muçulmana em torno de 950, onde os Andaluzes logo a tomou e a cidade de Jativa, perto de Valência, se tornou famosa pela produção de papel espesso, brilhante, chamado Shatibi.

Isso significou que a produção de livros havia se tornado mais fácil e mais rentável, pois o papel substituiu os caros e raros materiais de papiro e pergaminho, assim a produção de livros em massa foi iniciada.

Além disso, a produção era complexa e altamente sofisticada: complexa naquilo que era feito através do trabalho dos copistas e sofisticado devido às mãos hábeis envolvidas.

A quantidade de trabalho na produção diminuiu, mas a sofisticação do artesanato permaneceu, assim, no mundo muçulmano centenas, talvez milhares, de cópias de materiais de referência foram disponibilizados, estimulando um comércio próspero de livros e aprendizagem. 

Obviamente a revolução na fabricação de livros estava para acontecer muito mais tarde, após o uso de impressoras na Europa.

A expansão da fabricação de papel gerou outras profissões, como, tintureiros, fabricantes de tinta, artesãos de manuscritos e calígrafos; as ciências também se beneficiaram.

O pioneiro Tunisiano ibn Badis, a partir do século XI, descreveu isso em sua Equipe de Escribas, escrevendo sobre a excelência da caneta, a preparação dos tipos de tintas coloridas, a coloração de pigmentos e misturas, escrita secreta e a fabricação de papel.

A primeira fábrica de papel na Europa Cristã foi estabelecida na Bolonha em 1293, e no ano de 1309 o primeiro uso de papel na Inglaterra foi registrado.

Com todo este papel e livros produzidos de forma mais barata, a difusão do conhecimento dentro e ao redor da Europa acelerou.

O historiador dinamarquês Johannes Pedersen disse que até a fabricação de papel em grande escala, os muçulmanos "conseguiram uma façanha de importância crucial não só para a história dos livros islâmicos, mas também para todo o mundo dos livros."

Fonte: História Islâmica

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Manet, o rebelde de casaca

Após a revolução romântica de Delacroix, seria Edouard Manet quem iria desempenhar o papel de chefe da nova escola artística na França. Em parte, mais pelos escândalos que suas telas causariam do que pela compreensão de sua obra. Não se pode deixar de dizer que havia ainda muito de tradicional na pintura de Manet, fecundada que estava pela tradição do realismo que partia de Caravaggio, da pintura espanhola, de Franz Hals e da modernidade objetiva deCourbet (aliás, ainda não se estudou devidamente a sombra deste artista dentro do ateliê de Manet).

Suas pinturas de temas cotidianos realmente estão na clave da "modernidade" preconizada por Baudelaire, mas ele está longe dos avanços impressionistas. O que atraía os jovens revolucionários da arte francesa talvez seja sua técnica livre e ousada, suas cores claras, dadas por manchas que contrastam com negros aveludados e cinzas sutis. No entanto, a pincelada livre, a claridade e a luminosidade dos impressionistas não se encontram na pintura de Manet, onde uma exuberante cor sombria, com negros e pardos alternando-se com raros tons claros, o coloca dentro da tradição citada.

"Le charme inattendu d´un bijou rose e noir", como diz o verso de Baudelaire sobre a obra Lola de Valença, gerou incompreensão no público, que não aceitava essa mistura de vermelho, azul, amarelo, negro, que lhes parecia uma caricatura da cor e não a própria cor.

Um dos maiores escândalos de Manet foi apresentado no Salão dos Recusados, de 1863, que concentrava uma multidão de obras recusadas pelo Salão oficial. A tela se chamava O Banho, também chamada Divertimento a Quatro e, posteriormente, Déjeuner sur l´herbe (Piquenique na Relva). O tema da pintura pareceu ousado à maioria dos espectadores, embora fosse inspirado no tema clássico do Concerto Campestre de Giogione e numa gravura de uma composição perdida de Rafael.

O incômodo causado pela pintura se deve a várias razões: a concepção puramente realista dos nus, cujas formas não idealizadas são firmemente sublinhadas por um contorno pronunciado (o que trazia um ar de grosseria à pintura e porque não pensar no desenho japonês que circulava em Paris e que aparece no retrato de Zola?), as sombras violentamente contrastadas, e a atualização da cena para o mundo contemporâneo (o tema da prostituição moderna). Outra novidade, embora ainda tímida, é que a tela, mesmo sendo trabalhada dentro do ateliê, transmitia uma leve sensação de pintura ao ar livre. Esse frescor não era comum ao gosto dos apreciadores da arte do Salão.

Um dos críticos que resumia a rejeição a Manet é Jules Castagnary, que sobre ele disse: "Isso é Pintura? Nem um único detalhe alcançou sua forma exata e final. Vejo dedos sem ossos e cabeças sem crânios. O que mais vejo? A falta de convicção e de sinceridade do artista". A crítica se apoiava em exigências de critérios clássicos, já devidamente abandoados por Manet.

Parece que ninguém percebeu a citação de Manet à tradição e se percebesse veria sua pintura apenas como paródia grosseira. Os críticos modernos é que fazem uma leitura positiva do fato de que Manet denuncia ao espectador que o quadro é uma construção, vendo nesse aspecto sua modernidade. Mas os críticos modernos adoram citação, pastiche e paródia...

E se Manet estivesse acreditando que seu público era sofisticado e esperasse dessas pessoas o reconhecimento a alusão às obras-primas do passado? Essa crença não seria o que causava em Manet surpresa quanto à recepção tão negativa do público e dos críticos a seus quadros? Mas o fato é que na época ninguém discutiu ou se referiu a possível relação entre, por exemplo, Olympia e a Vênus deTiciano, que era o modelo que inspirou Manet.

Vinte e três anos mais tarde, Zola vai descrever no seu romance A Obra a estridente agitação, os risos, as injúrias e a violenta polêmica que Piquenique na Relva causou. Manet chocou-se com a reação do público, pois se sentia partícipe da tradição dos grandes mestres antigos.

Outras obras de Manet seriam criticadas por não passarem, como disse um crítico, de "brinquedinhos espanhóis preparados com molho negro de Ribera e Zurbaran". Manet, no entanto, ainda se achava orgulhoso de pertencer à linhagem de seus antecessores e sabia que sua liberdade não era moderna, no sentido de uma ruptura com o passado. Ele reconhecia que suas licenças assentavam-se na liberdade técnica dos antigos e modernos espanhóis.

Algumas referências são óbvias e marcantes: A execução do Imperador Maximiliano não faz pensar em outra coisa que no Três de Maio deGoya e O Balcão é também inspirado em Goya, especificamente em Manolas no Balcão.



Outro escândalo foi sua Olympia, exposta no Salão de 1865, com a modelo nua inspirada na Vênus de Urbino de Ticiano, como já disse acima, e pelo espírito e a técnica moderna de Goya em Maja Desnuda. O público viu no quadro apenas uma apologia da prostituição e a crítica a chamou de "a odalisca de ventre amarelo", "Vênus com gato", uma "espécie de gorila fêmea". Só Zola e Baudelaire ousaram defender radicalmente a tela.

Theophile Gautier fez a denúncia radical da posição de Manet e de sua obra: "Manet tem a honra de ser um perigo. Não é possível entender Olympia de nenhum ponto de vista, mesmo considerando-a pelo que ela é, um insignificante modelo estendido num lençol. A cor da carne é suja, o modelado inexistente. As sombras são indicadas por borrões negros, mais ou menos grandes. Aqui há apenas, lamentamos dizer, o desejo de chamar a atenção a todo custo".

Um século antes, Diderot dissertava sobre o nu na arte dizendo que um simples nu não ofende por sua nudez, mas "calçai duas chinelinhas bordadas nos pés de Vênus e haveis de sentir uma acentuada diferença entre o decente e o indecente; é a diferença entre a mulher que se vê e a que se exibe". Essa descrição não faz pensar em outra coisa que em Olympia.

Émile Zola fez a defesa de Manet, criando a linha de análise formalista de sua obra que contaminaria muitos estudiosos posteriores. Ele disse: "Diga-lhes, caro mestre, que um quadro para o senhor é apenas um pretexto para análise. O senhor precisa de uma mulher nua e escolheu Olympia, a primeira que apareceu; precisava de tons claros e acrescentou um buquê, precisava de tons escuros e colocou num canto uma negra e um gato". Estamos próximos do comentário de Matisse que, quando uma mulher lhe disse que o braço da mulher que ele pintou era longo demais, retrucou dizendo que aquilo não era uma mulher, mas uma pintura.

Mas será que, como querem os críticos formalistas, Manet realmente estava intelectualizando um processo que no fundo nada tinha de intelectual? Olympia seria mesmo apenas um "pretexto para análise" ou, como o considerou Kenneth Clark, uma magnífico estudo de branco sobre branco?

O fato é que o nu na pintura é uma cultura projetada por homens em benefício dos homens. E como disse Kenneth Clark: "Não importa quão abstrato, um nu que não desperte no espectador pelo menos uma leve aceleração do interesse sexual é má arte e falsa moral". Os belos nus clássicos que inundavam as exposições dos salões deveriam povoar impunemente os sonhos eróticos dos espectadores burgueses, ainda mais se estivessem levemente tingidos por um aspecto rosáceo e rococó, como no caso das deliciosas curvas daVênus de Cabanel.

E as "prostitutas" de Manet não eram a forma delicada e distanciada sob a qual a cultura do século XIX deixaria exibir os objetos do desejo masculino. Manet não apelava ao álibi do distanciamento produzido pelo uso da mitologia ou do orientalismo, recursos adotados por artistas como Bouguereau, Cabanel e Ingres, entre outros, para colocar mulheres nuas e levemente sensuais nas telas.

Não há dúvida de que parte da irritação causada pela tela diz respeito ao tema das prostitutas de luxo dos tempos modernos (hoje chamamos de serviço de "acompanhantes"), com o agravante de que Manet nos insere no quadro, como clientes possíveis dessa mesmademi-mondaine, ao qual acabamos de entregar flores. Nossa presença é tão vívida que acaba por assustar o alvoraçado gatinho sobre a cama de Olympia.

De um escândalo a outro, ainda restaria produzir um último, que fecharia a vida de Manet como sua derradeira obra: Um bar no Folies-Bergère, de 1881. Na tela aparece o interior de um café, bastante movimentado pela presença de inúmeras pessoas refletidas em um espelho frente ao qual aparece uma lânguida garçonete.

Segundo Jorge Coli, no ensaio "Manet: o enigma do olhar", na tela "acham-se os efeitos de olhares, de espelhos, os interiores esfumaçados da modernidade (...) e essa indiferença fundamental dos seres, misteriosa e vazia, própria a Manet ou, segundo ele, a atualidade moderna, sem sentimentalismo, sem memória, sem história".

Qual a origem do escândalo e também da rejeição da obra? Alguns críticos diziam que Manet havia voltado a pintar como uma criança, tamanhas as incorreções do quadro. Mas há outro incômodo. Esta seria outra obra sobre a prostituição moderna.

No lado esquerdo da garçonete aparece o reflexo dela (pintado de forma incorreta, pois o reflexo deveria estar atrás da moça) e a presença de um burguês que possivelmente trava com ela um diálogo. Sabe-se que por causa dos baixos salários, as garçonetes completavam seus rendimentos prestando serviços sexuais a estes senhores que freqüentavam os cafés.

Manet revela para todos que aquele cavalheiro, freguês costumeiro da lanchonete, e que frequentava também os Salões, era o mesmo que comprava serviços sexuais de uma funcionária de lanchonete.

Seria a Vênus da Terceira República, vestida com seu uniforme de trabalho, que consistia num corpete de veludo azul apertado, cheio de lacinhos e de gola quadrada, sobre uma saia comprida, apenas uma mulher de aluguel? Como o Folies Bergère era um mercado de prostitutas, toda garçonete deveria ser uma?

 



Há também na obra uma novidade conceitual, que revela um descaso com a tradição, mas que aponta um novo olhar para a concepção da representação. Segundo Beth Brombert, em seu livro Manet: o rebelde de casaca, "o deslocamento de sua imagem frontal com sua imagem refletida transmite a tensão entre o que ela representa para o cliente costumeiro da casa e como o pintor a vê, ou como ela própria se vê". Como não pensar no jogo de espelho de As Meninas, deVelázquez?

Quando Manet morreu, Degas acompanhou o enterro e se reservou o direito a apenas um comentário: "Ele era maior do que nós acreditávamos". Era o reconhecimento daquele que se tornaria para vários artistas o pai da moderna arte francesa ou, se não, um rebelde que possibilitou a investigação da pintura não só como um ousado universo de temas atuais, mas um lugar para se discutir o próprio processo da pintura em si mesma.


Texto: Jardel Dias Cavalcanti

- Publicado no site Digestivo Social em 17/05/2011

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Zoersel Biblioteca Pública - Bélgica


Zoersel é um município da Bélgica localizado no distrito de Antuérpia, província de Antuérpia, região da Flandres.



































quinta-feira, 13 de agosto de 2015