segunda-feira, 28 de julho de 2014

Biblioteca Monteiro Lobato


A Biblioteca Infantil Municipal foi criada em 14 de abril de 1936 como parte de um amplo projeto de incentivo à cultura elaborado por um grupo de intelectuais liderado por Mário de Andrade, então diretor do Departamento Municipal de Cultura.

É a mais antiga biblioteca infantil em funcionamento no Brasil e precursora de outras similares, tanto no município como no interior do estado de São Paulo, graças à educadora Lenyra Camargo Fraccaroli, que, além de dirigir a biblioteca até 1960, também incentivou e supervisionou a construção de bibliotecas infantis em vários bairros da capital.

A biblioteca começou em uma casa na Rua Major Sertório, onde se iniciaram atividades para atrair as crianças em torno do livro e da leitura, tais como: coleções de selos e moedas antigas, sala de jogos, sala de revistas, A Voz da Infância (jornal feito pelas crianças), hora do conto e sessões de cinema sonoro.

O escritor Monteiro Lobato vinha à biblioteca contar histórias para as crianças.

O espaço ficou pequeno pela alta freqüência de crianças e, em 1945, a biblioteca mudou-se para a antiga casa do senador Rodolfo Miranda, na Rua General Jardim, onde hoje existe a praça da biblioteca.

Nesse novo espaço as atividades foram ampliadas e em 1947 foi criada uma sala destinada às crianças cegas, a seção braile, que atualmente funciona no Centro Cultural São Paulo, e também foram iniciados os Congressos de Literatura Infantil e Juvenil.

No mesmo terreno foi construído o atual edifício, projetado pelo arquiteto Hentz Gorham, da Divisão de Arquitetura do Município de São Paulo e a construção ficou a cargo do Escritório de Engenharia Joaquim Procópio de Araújo.  O prédio atual da biblioteca, na Rua General Jardim, 485, foi inaugurado em 24 de dezembro de 1950.

Em 1955, a biblioteca passou a denominar-se Monteiro Lobato em homenagem ao escritor que tanto encanta crianças, jovens e adultos.

Nesse prédio moderno, o acervo de livros foi aumentando e novas atividades foram criadas: sala de artes, discoteca, seção de livros raros, teatro de Bonecos, o acervo Monteiro Lobato, o Teatro Infantil Monteiro Lobato/TIMOL, a Academia Juvenil de Letras, programação de peças de teatro, sala de vídeo, banco de textos teatrais, visitas monitoradas com escolas e tantas outras.


Acervo geral

A biblioteca conta com um acervo de 49 mil exemplares que é constituído por livros de literatura e informação, revistas, atlas, multimídia, etc.

Todo o acervo de livros pode ser encontrado no catálogo online do Sistema Municipal de Bibliotecas. Informe-se sobre outros títulos existentes, pessoalmente ou por telefone.

A maior parte das obras pode ser emprestada ao usuário matriculado na biblioteca.

Gibiteca

Espaço dedicado às Histórias em Quadrinhos, reúne aproximadamente 3500 exemplares de álbuns, gibis, mangás e RPG.

Literatura Infantil e Juvenil - coleção de obras especializadas

Atende pesquisadores, especialistas, estudantes e outros interessados na história das bibliotecas infanto-juvenis (necessário agendar previamente).

A Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Monteiro Lobato conta com um dos mais importantes acervos do país em literatura infantil e juvenil. É responsável pela publicação da Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil desde 1941.

Coleção de obras raras: em literatura infantil nacional e estrangeira e acervo referente à vida e obra de Monteiro Lobato; com cerca de 4500 mil itens e é basicamente formado por doações da família do escritor: livros, fotografias, mobiliário, objetos pessoais e correspondências.

Livros Escolares

Acervo Histórico de Livros Escolares - AHLE. A partir do material encontrado em bibliotecas infantis, foram selecionadas cartilhas, manuais de ensino e obras didáticas publicadas desde 1895. Conjunto de livros que contempla disciplinas escolares dos cursos elementar e secundário.

Memória Documental

O arquivo histórico-documental da biblioteca reúne a história do departamento das bibliotecas infanto-juvenis com documentos e fotos do Timol, Tibbim, Turistinhas Municipais, Academia Juvenil de Letras e o Jornal A Voz da Infância.


Acervo

Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil online 

A Bibliografia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil - BBLIJ, produzida pela Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Monteiro Lobato e editada desde 1953, reúne a produção de literatura para crianças e jovens pelo ano de edição, apresentando as referências bibliográficas e as resenhas analíticas dos livros de literatura infantil e juvenil considerados os mais significativos.

Publicada anualmente na forma impressa, está disponível também na versão online, possibilitando facilitar o acesso e ampliar a divulgação por meio da Web.

Todas as obras referenciadas na BBLIJ podem ser localizadas na Seção de Bibliografia e Documentação da Biblioteca Monteiro Lobato.

Esta Seção tem um dos mais importantes acervos do país em literatura infantil e juvenil.

Atende mediante agendamento prévio pesquisadores, especialistas, estudantes de graduação e pós-graduação interessados na literatura infantil e juvenil.



José Renato Monteiro Lobato nasceu em 18 de abril de 1882 em Taubaté, São Paulo. Modificou seu nome para José Bento Monteiro Lobato, desejando usar a bengala do pai gravada com as iniciais J.B.M.L. Ficou órfão aos 17 anos e permaneceu sob a tutela de seu avô, o Visconde de Tremembé.

Em 1904 bacharelou-se em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco. Em 1911 seu avô faleceu deixando como herança uma fazenda, quando Lobato passou de promotor a fazendeiro. Leu e escreveu muito nessa fase da vida, trabalhou no meio rural e colaborou com inúmeros jornais e revistas. Criou o polêmico Jeca Tatu, personagem símbolo de sua obra.

Em 1917 vendeu a fazenda e mudou-se para São Paulo. Comprou a Revista do Brasil e publicou aos trinta e seis anos seu primeiro livro: Urupês. Foi dono de editora, jornalista, crítico de arte, tradutor e adido comercial da Embaixada Brasileira nos Estados Unidos durante quatro anos.

Em 1929 lançou o livro Circo de Escavalinho, onde surge o Sítio do Picapau Amarelo, com Emília e seus imortais personagens.

Faleceu em 4 de julho de 1948, em São Paulo, deixando obras tanto para crianças e adolescentes quanto para adultos. Modernizou a indústria editorial brasileira, lutou pela preservação do nosso petróleo e por um Brasil mais moderno.

“No dia em que todas as cidades do Brasil tiverem uma biblioteca infantil, o Brasil está a salvo de todos os males, porque todos os males do Brasil têm uma causa única: a ignorância dos adultos, justamente porque não lhes foi despertado o amor pela leitura quando eram crianças”.
(Depoimento dado por Monteiro Lobato no dia da inauguração da biblioteca)

Algumas obras: Urupês (1918); O Saci Pererê: resultado de um inquérito (1918); Cidades mortas (1919); Idéias de Jeca Tatu (1919); Negrinha (1920); A menina do narizinho arrebitado (1920); Contos escolhidos (1923); As aventuras de Hans Staden (1927); As reinações de Narizinho (1931); Emília no país da gramática (1934); Aritmética da Emília (1935); O escândalo do petróleo (1936); O museu da Emília (peça de teatro 1938); O Picapau Amarelo (1939); A reforma da Natureza (1941); Literatura do minarete (1948).

Exposição permanente


Acervo Histórico do Livro Escolar - AHLE

O ACERVO HISTÓRICO DO LIVRO ESCOLAR é formado pelo conjunto de livros escolares das antigas bibliotecas públicas infantis da cidade de São Paulo.

O acervo, com 5 mil volumes, é composto por cartilhas, manuais escolares de todas as matérias de ensino, antologias literárias e livros de referência de uso escolar, entre outros, do século 19 até a década de 1980 e abrange os cursos primários, os secundários, os de formação de professor e o ensino técnico.

Está disponibilizado para pesquisadores e interessados na Biblioteca Monteiro Lobato, equipamento da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Link do blog aqui

Crianças na sala de leitura da Biblioteca em 1950


Fachada da Biblioteca em 1950




Exposição permanente

Exposição permanente

Bonecos 

Acervo

Exposição permanente






Exposição permanente

Exposição permanente


Exposição permanente



Exposição permanente



Exposição permanente

Acervo

Exposição permanente

Exposição - Arte árabe

Acervo

Acervo





Acervo









Legislação referente à biblioteca:
Criação: Decreto nº 861/35 de 30 de maio de 1935
Inauguração: 14 de março de 1936
Denominação: Decreto nº 4.793 de 15 de setembro de 1955
Criação de SMB: Decreto nº 46.434 de 6 de outubro de 200

Texto: Biblioteca Monteiro Lobato
Fotos: Marcello Lopes

terça-feira, 24 de junho de 2014

Concerto para piano n°4 - Beethoven

Adolph Bernard Marx, biógrafo do compositor associou a passagem do movimento lento do concerto ao mito de Orfeu, em que o canto do personagem doma os guardiões do Hades, o reino dos mortos, onde ele entra para resgatar Eurídice, sua amada.

Essa analogia nunca foi expressa pelo compositor, mas, publicada em plena época romântica, acabou tornando-se popular.

Beethoven compôs este concerto em um período em que a sua reputação como compositor de música sinfônica e vocal começava a correr solta pela Europa.

Particularmente, os anos de 1805 até 1808 são de uma incrível fertilidade: Beethoven completou a série dos quartetos dedicados ao conde Razumovsky, a Sonata nº 23, op. 57 (“Appassionata”), o Concerto para Violino, as Sinfonias nº 4 e 5, além desse Concerto para Piano nº 4.

O otimismo surgia após as tormentas e incertezas dos anos anteriores, época onde constatara a irreversibilidade do processo de surdez. Esse segundo período da produção de Beethoven, que se estende de 1803 até 1812, é marcado pelo ímpeto da renovação estilística, desencadeado pela composição da Sinfonia nº 3 (1803), verdadeiro divisor de águas da música ocidental.

Durante esses anos, Beethoven também manteve um interesse constante pelas referências extra-musicais, prova disso é a composição do oratório Cristo no Monte das Oliveiras, além de uma série de aberturas para músicas dramáticas, Coriolano, Fidélio e Leonora I.

No plano que nos interessa, o Concerto para Piano nº 4 representa o pleno estabelecimento de uma nova estética dentro da literatura concertística. O piano é tocado de modo inusitado, livre, ziguezagueando em improvisações aparentemente avulsas do rigor formal.

Na verdade, essa riqueza de elaboração conota um novo tratamento da estrutura formal, algo que já se vislumbrava nas suas sinfonias. Há uma mudança definitiva em relação ao concerto do século XVIII. Notemos a maneira com que o tema principal do primeiro movimento é exposto: uma melodia de notas repetidas e alijada de qualquer introdução.

Toda a música que se segue, explora, com eloqüência, a dualidade de caráter dos temas, entre o cândido e terno, por um lado, e o impulso agressivo, por outro; contraposição essa tão cara à música de Beethoven.




Texto: Eddynio Rossetto

terça-feira, 3 de junho de 2014

Sufismo


Uma definição de Sufismo, a partir de seu nome é algo difícil de ser feito, visto haverem várias formas de interpretar a sua raiz arábica: SF. Uma das interpretações mais em voga é a que o Sufi é aquele que faz uso do manto rústico tecido de lã (sûf) enquanto que outra linha de interpretação faz derivar o nome do sopro do conhecimento místico que nasce do coração (Sôf). Uma terceira linha faz nascer o nome não de uma raiz árabe, mas sim grega, Sophos, ou conhecimento.

De qualquer maneira, a forma mais aceita de interpretar o Sufi e o Sufismo é utilizando não a sua origem lingüística, mas sim os seus objetivos: em termos gerais, o Sufi é todo aquele indivíduo que acredita que é possível ter uma experiência direta de Deus e que está preparado para sair de sua vida rotineira para se colocar debaixo das condições e meios que lhe permitam chegar a este objetivo. Neste contexto, o Sufi é considerado como o protótipo de todo místico que busca a União. Um exemplo vívido nos é apresentado por Djalalludin Rumi.

O Sufismo é atualmente mais equacionado com uma forma islâmica de misticismo, que tende a abraçar diferentes maneiras e tipos de técnicas, mas todas voltadas a uma busca de uma comunhão direta entre Deus e o homem. É uma esfera de experiência espiritual que corre em paralelo com a prática do Islã, que deriva da revelação profética e se desenvolve na Shari’a e na teologia muçulmana.


Como religião codificada, o Islã não pode admitir que a experiência mística possa ocorrer em paralelo e como experiência pessoal única, o que gerou as tensões e questionamentos que o Sufismo islâmico sempre sofreu ao longo de sua trajetória. O objetivo tanto do Islã quanto do Sufismo é conduzir o praticante em direção à Verdade ou Realidade. Dentro do Islã como religião revelada, tal objetivo seria obtido através da prática dos preceitos religiosos enquanto que no Sufismo, além destes preceitos, entrariam também em jogo uma série de fatores intuitivos e emocionais que, segundo a teoria do Sufismo, estariam dormentes na maioria dos seres humanos e que, sob uma supervisão correta, poderiam ser despertos e desenvolvidos.

Este desenvolvimento recebe o nome de Caminho e o viajante no caminho (salak at-tariq) busca eliminar os véus que ocultam a sua experiência do Real e assim, vir a transformar-se ou absorvido na Unidade indiferenciada. Embora não seja um processo intelectual, o Sufismo acabou gerando uma série de formulações teórico/práticas que constituíram verdadeiras linhas filosófico/místicas que acabaram se constituindo em verdadeiras formas de reação contra um Islã cada vez mais sistematizado em termos de leis e teologia sistemática, objetivando uma liberdade espiritual através da qual os sentidos espirituais intrínsecos do ser humano pudessem ser amplamente utilizados. Os vários caminhos (turuq, tariqa no plural) estão preocupados com este objetivo e não na justificativa religiosa ou não.

O Sufismo inicial representava uma expressão natural da religião pessoal em contraposição à expressão religiosa do grupo. Era a afirmação do direito pessoal em seguir uma vida de contemplação e de busca de contato com a fonte de ser e realidade, acima de qualquer forma institucionalizada de religião baseada em mera autoridade, numa relação Mestre-Discípulo unilateral, com sua ênfase na observância ritual e num moralismo legalístico. O espírito da piedade Corânica acabou fluindo para dentro das vidas e práticas, assumindo formas de expressão diversas, como encontradas no zickr (rememoração), dos antigos ascetas (nussak) e devotos (zuhhad). Estes buscadores, depois de obterem uma experiência de comunhão direta com Deus garantiam que o Islã não estava confinado dentro de uma diretiva moralística. Seus objetivos eram de alcançar uma percepção ética.

O Sufismo teve seu desenvolvimento dentro do corpo da religião Islâmica e, na sua origem pouco deve a influências não-muçulmanas, embora recebendo algumas tinturas da vida ascético-mística cristã e do pensamento do Cristianismo Oriental. Os mestres iniciais estavam mais preocupados com as experiências do que com a teorização teosófica.

Buscavam mais guiar que ensinar, direcionando o aspirante ao longo das suas experiências, buscando sempre um conhecimento isento dos perigos da ilusão, através do qual o aspirante pudesse obter um acesso à verdade espiritual. Na prática, o Sufismo consiste em sentimentos, percepções e revelações, ou insights pessoais que são alcançados através de uma série de passagens por estados de êxtase. Assim, o ensinamento se seguiria à experiência.

Neste caso, o êxtase seria entendido como fases distintas de negação de aspectos prévios do ser e a incorporação de novos estados e a ativação de novas potencialidades, sendo que este processo sempre é acompanhado de sentimentos, emocionalidades e intuições que nada tem a ver com o êxtase na sua definição mais ‘mediúnica’ de negação (ou suspensão temporária) da consciência pessoal.

Aqui é feita uma distinção entre as duas formas de expressão externa da experiência do postulante: o estado de êxtase (ghalaba, defendido por Bistami), onde o indivíduo demonstra, através de gestos, palavras, cânticos ou até mesmo pela alteração de seus comportamentos e presença física, aquilo que está experimentando internamente e na sobriedade (sahw, defendido por Junaid), onde o indivíduo não deixa transparecer nada aquilo que lhe está acontecendo. Com o passar do tempo, esta última postura tornou-se a mais valorizada, pois era considerada como ‘segura’ pela ortodoxia religiosa.

Os grupos sufis iniciais eram bastante frouxos e mutáveis, com os discípulos viajando em busca de mestres, outros ganhando seu sustento com trabalho e outros mendigando. Aos poucos vão se formando locais de reunião para tais tipos de viajantes e cada um estava associado com algum tipo de função: as hospedarias, em certas regiões da Arábia (ribats) tem esta origem, no Korasan, estes locais estavam associados com casas de repouso, hospitais e hospícios (khanaqah) enquanto que outros eram retiros (khalwa ou zawya), geralmente sob a orientação de um diretor espiritual.

Com o tempo, todos estes termos passaram a representar um local de reunião sufi. Já no século XI encontramos estruturas Sufi, com locais de reunião, exercícios espirituais, meditação e retiros bem organizados, embora o pessoal que deles participava ainda era bastante não freqüente e que migravam de mestre a mestre. Com o passar do tempo começaram a dispor de um pessoal mais permanente e finalmente, assumiram as características de verdadeiras linhagens espirituais, abrindo o caminho para um processo de institucionalização.

Assim surgem as ordens Sufi, geralmente girando ao redor do místico fundador, e surge o processo de admissão de um postulante à uma Silsila (cadeia contínua de autoridade e de transmissão de conhecimento).

Freqüentemente uma Silsila, por um processo de desdobramento ou de quebra, dá origem a outras linhagens que lhe são parentes, criando uma infinidade de subordens que irão, por sua vez passar pelo mesmo processo. Tal mecanismo está em franco desenvolvimento nos dias atuais, principalmente devido ao fato do grande interesse dos Ocidentais por estas Ordens, o que facilitou este processo de multiplicação.



Em termos esotéricos, o Sufismo não se diferencia da busca pela União que já é encontrada nas propostas místicas anteriores ao Islã, a Cabala Judaica, as propostas Platônicas e Neo-Platônicas, o Gnosticismo e o Misticismo Cristão precederam e deram um embasamento para o Sufismo Islâmico.

Dentro deste contexto maior, o Sufismo, assim como as formas que lhe precederam recebem o nome de Trabalho, ou seja, o processo ativo de aperfeiçoamento do indivíduo para que este se torne capaz de perseguir o fim último de seu ser: a União Mística com o Absoluto. Nesta perspectiva não seria possível estabelecer-se qualquer diferencial entre uma linha com outra, afora as diferenças exteriores de apresentação e contexto cultural. Essa é uma das formas de entender o que é chamado de Tradição Perene, ou Filosofia Perene, que representa a essência dos conhecimentos e praticas capazes de conduzir o individuo a um desenvolvimento harmônico de suas potencialidades.

Assim cada uma destas linhas e escolas, que tentaram preservar e desenvolver este conhecimento, são expressões desta Tradição Perene em diferentes épocas e culturas. Cada uma delas assumiu uma forma especifica, mística, religiosa, artística, filosófica ou cientifica, de acordo com o momento em que surgiram e se desenvolveram.

Assim o problema fundamental que se apresenta ao postulante é o mais crucial de todos: o que ele realmente deseja; a busca da União, com tudo que isto representa ou a busca de um apoio religioso e institucional. Isto com freqüência não é bem analisado pelo postulante que acaba confundindo ambos os objetivos.

O GRANDE SUFISMO

O Sufismo tem sido reconhecido por muitos autores como um dos maiores representantes da espiritualidade e importante fonte de conhecimentos e práticas do caminho místico.

Seu objetivo básico é o de prover ao ser humano, um caminho real e bastante abrangente de crescimento e desenvolvimento de suas potencialidades, buscando conduzir o ser humano de volta à sua dimensão de perfeição, fim último de qualquer caminho místico verdadeiro.

Muito da proeminência que o Sufismo desfruta vem do fato dele conter elementos oriundos de outras tradições e de ter dado continuidade a elas incorporando-as dentro de seu processo. Isto acabou por conferir-lhe um caráter mais universal, mesmo estando inserido dentro do contexto do mundo Islâmico.

É possível perceber esta influência especialmente durante a Idade Média e Renascença, que se estendeu aos Cristãos, Judeus e outras escolas esotéricas. Também influenciou o desenvolvimento da Filosofia, principalmente com a tradução e divulgação dos textos gregos, Ciências como a medicina, a matemática, a astronomia e as Artes.


Uma das versões sobre o início do Sufismo remonta aos indivíduos que surgiram depois da morte do profeta Maomé. Estes indivíduos se retiraram para o deserto ou áreas de menor evidência quando se iniciaram as disputas pelas sucessões dos Califas. Essa atitude buscava preservar e dar continuidade aos conhecimentos que eles haviam recebido principalmente de Ali e de Abu Bakr, ambos companheiros mais próximos do Profeta. Segundo a tradição, Maomé teria confiado principalmente a eles, os aspectos mais esotéricos do conhecimento que possuía, ou seja, sua dimensão mística ou espiritual.

Em contato também com outras tradições, estes indivíduos foram os maiores responsáveis pelo desenvolvimento da dimensão mística do Islã, e aos poucos foram formando escolas e ganhando importância como representantes da espiritualidade.

Eles e seus discípulos começaram a ser conhecidos como Sufis, e a inserir suas escolas na comunidade, resgatando e ensinando o caminho místico da Verdade e da Unidade Divina, a exemplo do próprio Maomé.
E isto não aconteceu através do ascetismo clássico de abandono e negação, mas pela verdadeira pobreza espiritual.

Nesta pobreza, o coração imerso no Amor, abandona o seu apego ao mundo para unir-se a Deus. Isso acontece sem que, necessariamente, deva-se abandonar o mundo, ou afastar-se da sociedade. Afinal, não haveria sentido em ensinar a Unidade rejeitando uma parte da expressão do Absoluto. Como bem resume um ditado: “O sufi é aquele que está no mundo, mas não pertence a ele.”

Como seu maior propósito está na busca pela Presença Divina, e também por ter incorporado elementos de outras tradições, o Sufismo acabou por adquirir um caráter mais universal. E por isso também, foi muitas vezes reconhecido como a essência das religiões e da espiritualidade. Prova disso é que dentro de grupos sufis é comum encontrar-se indivíduos de diversas religiões e tradições.

Esta irmandade

não tem nada a ver com ser elevado ou baixo,

esperto ou ignorante.

Não existe uma assembléia especial, nem um grande discurso,

nem se requer nenhum curso anterior.

Esta irmandade se parece mais com uma festa de bêbados 
cheia de trapaceiros, tolos, charlatões e loucos.

*

Não sou deste mundo e nem do próximo;

Nem do céu, nem do inferno.

Não vim de Adão nem de Eva;

Não moro no Éden nem nos jardins do paraíso;

Meu lugar é um não lugar, minhas pegadas não deixam marca.

Nada é meu, nem corpo nem alma.

Tudo pertence ao coração do meu Amado.

Eu desvesti todas as diferenças,

E agora vejo os dois mundos como um.

O Sufismo sempre se baseou em uma perspectiva perene e universal da espiritualidade. Por seu caráter humanista e de busca pela transcendência, ele é reconhecido como expressão e continuidade de uma tradição ainda mais antiga, responsável pela preservação e transmissão dos conhecimentos e práticas que visam o desenvolvimento do homem e da própria humanidade.

Este é o núcleo do Grande Trabalho, da tradição das Escolas de Sabedoria, que já foi representado pela Escola de Sarmung, e que também é chamado de Grande Sufismo, ou Sufismo Maior. Ele está no núcleo da própria espiritualidade, uma vez que permanece livre de qualquer outro condicionante ou estrutura, seja ela, religiosa, social ou cultural. Esta tradição foi também chamada por alguns autores de Filosofia Perene.

O Sufismo, assim como outras Escolas, recolhe e preserva o conhecimento das diversas tradições esotéricas e das outras áreas do conhecimento humano e produz um novo conhecimento, mais abrangente e adequado ao contexto cultural.


E é por isso que Sarmung, uma das últimas Escolas a cumprir este papel, tinha como símbolo a abelha, que recolhe o néctar de diversas flores, e que em sua colméia produz o mel. E é esse mel que, de tempos em tempos, é oferecido e reorienta a humanidade em seus caminhos de desenvolvimento.

Por toda esta liberdade e complexidade apresentadas acima, o Sufismo foi muitas vezes atacado dentro do próprio mundo Islâmico como sendo uma heresia. Talvez por isso, atualmente, o Sufismo venha perdendo exatamente os elementos de liberdade e universalidade que tanto o caracterizaram. Muitas vezes, acaba por restringir-se exclusivamente à perspectiva Islâmica, que jamais negou ou deixou de proteger e reverenciar, mas também à qual nunca havia se deixado aprisionar.

Outro processo bastante triste é a vulgarização do Sufismo através do oportunismo de certos indivíduos sem conexão com o processo, que surgem em função do destaque que ele recebeu nos últimos anos.

Esse padrão infelizmente vem atingindo não apenas o Sufismo. A degeneração e banalização da espiritualidade vêm se tornando um problema sério. A grande quantidade de informação tem colocado as pessoas em um grau acentuado de confusão. Por faltar referências no que diz respeito à espiritualidade é difícil desenvolver a capacidade de discriminar o que útil do que não é, e isso reduz em muito a chance de se fazer escolhas adequadas.

O objetivo não consiste em ter uma crença onde se apegar, mas sim, em procurar desenvolver uma qualidade de viver e de ser. É fundamental compreender que um caminho de desenvolvimento busca desvendar o maravilhoso mistério que se encontra em cada pessoa e em toda criação.

O conhecimento real não é simplesmente um conjunto de crenças ou dogmas, mas sim, a busca pela essência daquilo que cada um é e do significado da própria vida.

Por esse motivo nossa relação com o Sufismo não se deu através de uma dimensão religiosa, mas sim, por causa de sua característica universal. Ele expressa aspectos de uma tradição que está além de perspectivas limitantes e dogmáticas e por isso, tornou-se fundamental em nossa trajetória. Esse processo, dentro do Sufismo, ocorreu gradualmente na medida em que tais elementos foram sendo reconhecidos como um complemento importante para outras propostas e escolas de sabedoria ocidentais.


Porém, tem sido através da perspectiva do Quarto Caminho, uma expressão contemporânea da tradição perene, que temos buscado explorar e resgatar outras propostas e tradições que igualmente expressaram esta mesma perspectiva em outros momentos. Mas, como já foi apresentado por vários autores, até mesmo as formulações do Quarto Caminho parecem ter sido influenciadas pelo Sufismo, através dos contatos que Gurdjieff estabeleceu com esta tradição.

Por outro lado, ao longo de nossa experiência, compreendemos que são necessárias outras abordagens para que as experiências propostas pelo Sufismo sejam tornadas permanentes. Por isso temos adotado ao longo do tempo, uma postura mais aberta em relação a essas tradições em busca da essência destes conhecimentos e práticas.

Neste mesmo contexto, outros expoentes do Sufismo tornaram-se fonte de estudo, inspiração e influenciaram igualmente nossa trajetória.

Indivíduos como Shihabuddin Surawardi, Muhidin Ibn Arabi e Jalaludin Rumi em suas buscas por revelar o mistério do homem e da criação expressaram um conhecimento próprio, fruto da transformação pessoal de cada um. Ao invés de aderirem a dogmas e repetirem comportamentos e conhecimentos, eles se tornaram fonte de novas visões de mundo que renovaram perspectivas e abriram as portas para outras dimensões e possibilidades.

Este é o valor fundamental do caminho espiritual - possibilitar o desenvolvimento do individuo e a extraordinária descoberta que se revela a cada um que busca apaixonadamente descobrir seu próprio mistério.

Fonte: Imago Mundi

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Diário para um viajante - Damasco

A viagem se inicia no Oriente Médio, na Síria, hoje um país devastado pela guerra civil, e que tenta resistir à destruição da sua história e arquitetura.

Entre as alamedas arborizadas e os mercados antigos caminhe admirando todo o trabalho da arquitetura islâmica nas mesquitas onde se pode ouvir ao fundo o azaan ou o chamado para prece feitas pelo muézin.

Interior da mesquita em Damasco
A Síria foi o centro das civilizações mais antigas do mundo, há cerca de 3 mil antes de Cristo, as terras férteis à beira do Eufrates já eram disputados por grandes impérios como o da Mesopotâmia e Egípcio.

Diversos povos habitaram seus territórios entre eles os macedônios como Alexandre, o grande e os romanos.


Na capita Damasco, veja a cultura islâmica em todo o esplendor, a cada passo pode-se lembrar dos omíadas, dos mamelucos que caminharam por aqui desde o séc. VII d.C, e no séc. XVI ao séc. XX o país ficou sob domínio turco-otomano.

É a cidade mais antiga do mundo, a rainha das águas, dos céus benditos, a esmeralda do deserto como foi chamada desde a antiguidade. Foi fundada há quase 4000 anos sobre o Guta, um oásis de dois rios, o Barada e o Aawah.

O núcleo da cidade é constituído pela cidade antiga, murada, onde se desenvolveu a vida durante milênios e que hoje depois de tantas invasões e novos habitantes apresenta uma mistura de raças com diferentes religiões, que convivem trabalhando tomando chá e conversando incansavelmente.

As ruas estreitas escondem pátios com laranjeiras, mesquitas, palácios, e lares herdados através dos séculos. Os muros da cidade velha são da época romana.

A muralha conta com 7 portas: Bab Tuma, Bab al-Jabieh, Bab Sharqi, Bab Kessian, Bab al-Jeniq, Bab Shaghir y Bab al-Faradiss.

Depois da 1° Guerra a Síria foi dividida, de um lado domínio francês e do outro lado britânico.

Templo romano dedicado a Júpiter
Ande até o final do mercado al-Hamidiyya, e veja a porta ocidental do templo romano dedicado a Júpiter.

A luz do dia banha seus pórticos evocando todo o poder romano naquela área, hoje suas paredes dão guarida ao mercado de especiarias, aos vendedores do Alcorão, nas escadas da mesquita dos omíadas estudantes sentam ao sol para descansar ou apenas esperar outros colegas.

Os estudantes irão abordá-los, primeiro em árabe, depois em francês e finalmente em inglês, perguntando de onde é, o que faz aqui. Responda que é viajante, sem pátria, a mochila é o seu lar e que está visitando os países onde seus ancestrais nasceram.

Vendedor no mercado sírio
O mercado é lotado, centenas de pessoas se empurrando ao som dos vendedores com suas mercadorias, as cores, o som e o cheiro das especiarias tem o poder de transportar as pessoas para uma outra era.

Especiarias, frutas
Entrada do mercado
Passeie pelo mercado, o palácio Azem localizado apenas 3 km de distância do mercado.

O palácio tem um aroma fresco de flores de seus jardins e é adornado com fontes que vertem suas águas em cascata, e é onde se situa o Museu de Arte e Tradições Populares.

Aproveite para comer suas refeições mais típicas.

Existe um provérbio árabe que diz que a “A nobreza do árabe se detecta pela mesa que oferece ao hóspede".

Encontre o que só pode ser descrito como um banquete dos deuses, travessas de salada, homus, labneh e frutas secas, frango e charutinhos de folha de uva, laban mah khiar e muito mais.





Conheça a história das atividades artesanais em seda e em metal na cidade, os artesãos ainda usam teares de madeira como faziam seus ancestrais e veja os sopradores de vidro, atividade essa que remonta 3 mil anos quando seus antepassados inventaram como colorir o vidro, desenhando neles heróis épicos iguais aos que estão gravados nas pedras por seus antepassados.




Quando o dia amanhece, acorde com o chamado do muézin para a prece, tome um breve café em um bar próximo ao hotel, e com as instruções do funcionário do bar chegue até Bimaristan Nur er Din, é um interessante marco na cidade, fundado em 1154 como hospital escola de medicina, sustentado com dinheiro que os cruzados pegavam como resgate de seus prisioneiros, era um modelo de organização e um famoso centro de pesquisa e ciência.




O prédio abaixo é o Mausoléu de Saladino, o personagem mais conhecido no Ocidente a partir da época das Cruzadas.

Na verdade, este mausoléu, originalmente, era uma madrassa construída por Saladino.

Há muitas pessoas no interior, de modo que o acesso é bastante controlado. O quarto é pequeno, e em todos os cantos pode-se achar telhas otomanas. Há dois túmulos no interior.

Um deles é o original de Saladino, no século XII. E outro de mármore, um presente do Kaiser Wilhelm II.

Um retrato de Salah el Din Yusuf Ayubi está acima da tumba de Saladino, já que ele representa o Emir e o ideal árabe da união entre os povos.

Ao longo de sua vida, suas lutas, negociações e batalhas, Saladino conseguiu unir povos que antes eram irreconciliáveis, mais interessados ​​em guerras internas, e derrotaram os cruzados a partir dos territórios árabes.

Estátua em homenagem a Saladino
Fora dos muros da cidade antiga há uma grande avenida que segue o rio Barada que divide a cidade em duas partes.

Ao sul, localiza-se o Museu Nacional e ao norte, a Biblioteca Nacional com mais de 250 mil volumes, entre eles milhares de incunábulos (livros impressos entre 1450 e 1500).

A cidade se estende em direção ao Monte Casin.


O Museu nacional de Damasco não é o que estamos acostumados a ver em museus ocidentais, é como visitar um museu na década de 30 ou 40, o interior é caótico e tive dificuldades em encontrar o que mais me interessava.

O museu conta com uma grande coleção de escritos ugaríticos (primeiro alfabeto, criado por volta do século 14 a.C.), estatuária síria, têxteis e versões antigas do Alcorão.


A primeira coisa que você vê são muitos sarcófagos, estátuas, capitéis, colunas, lápides e portões de pedra impressionantes arbustos e belas lagoas.

As portas de pedra são muito populares nesse tipo de arquitetura da época bizantina e há inúmeros exemplos nos jardins do Museu Nacional de Damasco.

Jardins do museu nacional de Damasco

Esculturas no jardim do museu

Jardins do museu de Damasco

Fachada oeste

A fachada oeste deste palácio tem formas geométricas e decorações florais de todos os tipos (muitos deles, com um forte conteúdo simbólico, como símbolo quadrados dos quatro elementos, círculos, símbolo do ciclo de vida, octógonos, hexágonos.

Seus construtores tentaram representar em suas portas os exemplos de arte de diferentes fontes.

Romana, bizantina, mesmo egípcia (algumas de suas colunas tentam capturar a essência das colunas do Templo de Karnak, em Luxor.